O que vamos colocar no lugar do Qualis?

 Gabriela Trindade Perry, docente do Programa de Pós-graduação em Informática na Educação DA UFRGS, faz ponderações a respeito de ofício da Capes com propostas de mudanças na avaliação de periódicos

ILUSTRACAO-qualis-POR-Kezia-Mausolf1*Ilustração: Kezia Mausolf/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Por Gabriela Trindade Perry

O  Ofício Circular n.º 46/2024-DAV/CAPES, de 03 de outubro, mudou a forma como avaliamos a produção científica nacional. No 2.° parágrafo, lemos que a nova classificação não usará o Qualis, mas, sim, “indicadores bibliométricos” do artigo e do periódico, além de uma “análise qualitativa”.  

Eu não me surpreenderia se essa medida fosse bem recebida. Acredito que todos os envolvidos com produção científica tenham críticas ao Qualis na ponta da língua – por exemplo: periódicos cuja classificação em estratos elevados é injustificada e a inclusão no Qualis de revistas claramente predatórias. Meu ponto é que admitir que o Qualis tem problemas e limitações não implica que deveríamos abrir mão de um sistema nacional de avaliação quantitativa de qualidade da pesquisa, em favor dos tais “indicadores bibliométricos” que o ofício menciona. 

Esses “indicadores bibliométricos” parecem neutros, isonômicos e de fácil obtenção, pois o conceito por trás deles é muito simples: um artigo citado muitas vezes é melhor que um artigo citado poucas vezes. Certamente é preciso fazer ajustes, considerando a data de publicação, o histórico de publicações de cada pesquisador e a área na qual o artigo é classificado. Existem métricas que ajustam estes e outros parâmetros, tais como: atribuir uma janela de n anos para a contagem de citações, o índice-H e métricas da iniciativa Snowball, como Field-Weighted Citation Impact. Mas só é possível obter essas métricas se conseguirmos fazer a contagem das citações – e isso é absurdamente complexo e caro. 

Em primeiro lugar, a contagem só é feita considerando os documentos indexados pela plataforma fornecedora da métrica – vou falar das três que conheço: RELX (Scopus e Elsevier), Clarivate (JCR e Web of Science) e Google. Por esse motivo, a quantidade de citações de um mesmo artigo é diferente, já que essas plataformas não indexam os mesmos periódicos e têm procedimentos diferentes para fazer a contagem. O Google conta até mesmo citações feitas em pôsteres de feira de ciências, e por isso a quantidade de citações reportada é muito maior. Da mesma forma, o índice-H de um pesquisador é muito maior no Google do que na Scopus ou na Web of Science. Sendo assim, caso a Capes passe a usar “indicadores bibliométricos”, quem escolherá o fornecedor do indicador? Se a contagem for a do Google, talvez estivéssemos mais bem amparados pelo Qualis, que, bem ou mal, tem algum controle de qualidade. Contudo, como no currículo Lattes (integrado à plataforma Sucupira) constam as quantidades de citação da Scopus e da Web of Science, provavelmente serão estes os indicadores utilizados.  

Uma vez esclarecido o que são “indicadores bibliométricos”, vamos a um dos argumentos em favor da mudança na metodologia de avaliação: o fortalecimento dos periódicos nacionais e o acesso aberto à ciência.

Em relação a esse ponto, faço duas observações: (1) periódicos publicados por grandes editoras (tais como Springer, Taylor & Francis, Elsevier e Wiley) costumam cobrar dos leitores pelo acesso, ou dos autores pela publicação, e, em algumas áreas, o usual é que os periódicos de acesso aberto cobrem taxas de publicação; e (2) poucos periódicos nacionais estão indexados na Scopus e na Web of Science.  

Em relação à cobrança de taxas, podemos usar a tabela de APC (Article Processing Charges) da Elsevier para ver que a APC média é $2.500,00. É importante lembrar que, antes de pagar a taxa de publicação, a maioria dos autores precisará gastar com tradução, pois revistas com alto fator de impacto costumam exigir inglês impecável. Convém lembrar que a Portaria n.º 120, de 26 de abril de 2024, prevê a possibilidade de custear as taxas de publicação e que a Capes empenhou mais de $820.000,00 a Elsevier pelo acesso aos seus periódicos, de 2023 a 2025, além de diversos empenhos de objetivo semelhante com diversas outras empresas. 

Finalmente, em relação à indexação dos periódicos brasileiros nas plataformas da Scopus e Web of Science, não foi possível obter a lista de periódicos brasileiros – nem mesmo usando a Lei de Acesso à Informação. É possível, contudo, estimar a quantidade de periódicos brasileiros indexados cruzando os periódicos indexados pelo Qualis e a lista de periódicos indexados pela Scopus – dados disponíveis publicamente na internet.

A Scopus indexa pouco mais de 46.500 periódicos, e o Qualis 2017-2020 lista pouco mais de 31.300 títulos únicos. Supus que todos os periódicos brasileiros estavam listados no Qualis; logo, ao mesclar os ISSN do Qualis e da Scopus, obtive uma lista que contém pelo menos todos os periódicos brasileiros indexados pela Scopus (além de muitos outros periódicos estrangeiros nos quais pesquisadores brasileiros publicaram nesse quadriênio). Removi os periódicos que não estavam ativos em 2024 da Scopus e os que estavam classificados como “Trade jornal”. Por último, listei manualmente os nomes de editoras que indicavam ser estrangeiras (por exemplo “University of Coimbra” e “El Colegio Mexiquense”), e removi os periódicos por elas editados. Ao final do processo, restaram apenas 244 periódicos.

De forma semelhante, a classificação dos periódicos nas áreas do conhecimento também não é um processo objetivo, já que essa classificação não está presente na planilha do Qualis. Muitos dos títulos e sites dos periódicos não informam claramente a área, de modo que a classificação também pode ter equívocos. Mesmo admitindo algum erro, fica claro que muitas áreas estão sub-representadas. Treze áreas têm menos de 5 periódicos brasileiros indexados, sete têm entre 10 e 19 e apenas uma tem mais de 20. É preciso considerar que algumas áreas têm subdivisões, como Medicina, Ciências Agrárias, Ciências Biológicas e Engenharias. Os periódicos não indexados deixarão de ser vistos como veículos interessantes e, a menos que sejam resgatados pela “análise qualitativa” mencionada no ofício da Capes, podem desaparecer.

Finalmente, é necessário refletir se vale a pena delegar a empresas privadas estrangeiras a avaliação da nossa produção científica, pois isso nos deixa sujeitos aos interesses de empresas e à legislação de outro país em um assunto sensível e estratégico.

Se, por um lado, o rigor na obtenção das métricas baseadas em contagem é fundamental para o sucesso do modelo de negócio dessas empresas, o monopólio também é. RELX e Clarivate detêm um oligopólio da avaliação científica mundial, e não há motivo para supor que deixarão de usar isso para aumentar seus lucros. Algumas possibilidades são a venda de palavras-chave, de espaço de anúncio e criação de lista de tópicos mais buscados. Não é difícil, por exemplo, imaginar empresas de fertilizantes pagando por impulsionamento de artigos para que eles sejam listados nas primeiras páginas de buscas que incluírem tais-e-tais palavras-chave. Também não é difícil imaginar como o acesso de um país inteiro à produção científica poderia ser interrompido em caso de embargos – mesmo que esse país seja um colaborador ativo. Em resumo, a mesma estratégia usada pelo Google e pelas redes sociais para promover engajamento pode ser aplicável a essas plataformas. 

Encerro manifestando a certeza de que a Capes levou esses dados em consideração – além de muitos outros que pessoas (como eu) fora dos círculos de decisão não têm acesso –, bem como a esperança de estar enganada em relação aos meus prognósticos. 


Fonte: UFRGS

Lista Qualis e a duvidosa qualidade dos critérios de qualidade

Critérios adotados para o sistema de avaliação de publicações científicas promovem distorções cujos impactos alcançam inclusive outras instâncias, como classificação de artigos de candidatos a concursos. Indicador deve ser visto como um meio, não um fim em si mesmo

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Por Marcelo Takeshi Yamashita para o “Jornal da Unesp”

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), tem, entre outras responsabilidades, a de zelar pela qualidade dos programas de pós-graduação brasileiros, o que implica a produção, ainda que de forma implícita, de juízos de valor sobre a qualidade da produção acadêmica e científica do país. Os rankings de pós-graduação publicados periodicamente pela Capes são aguardados com ansiedade, celebrados (e até temidos) por instituições públicas e privadas.

Os processos de avaliação utilizados valem-se de indicadores quantitativos e qualitativos que buscam trazer objetividade – números verificáveis e critérios bem-definidos – que, em tese, deixam de fora os preconceitos e favoritismos peculiares das pessoas físicas envolvidas na execução do processo. Um desses critérios é a lista Qualis, um ranking de classificação das revistas indexadas onde pesquisadores de instituições com pós-graduação publicam seus artigos.

No fim de 2022, a Capes anunciou que começaria a adotar uma nova lista, baseada na avaliação quadrienal 2017-2020. A despeito de os critérios de classificação terem mudado ao longo do tempo, não é de hoje que esse ranking de revistas científicas é alvo de críticas. Desta vez, a nova lista gerou reações negativas de pesquisadores de diversas áreas e a criação de um abaixo-assinado.

De acordo com a Capes, a lista Qualis é utilizada exclusivamente para avaliação dos programas de pós-graduação, sendo que o ordenamento das revistas é feito através da aferição das suas qualidades. O ranking classifica os periódicos científicos nos seguintes grupos (do melhor para o pior): A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4 e C. Artigos publicados em veículos que não constam da lista, ou em revistas do grupo C, são desconsiderados.

Um sistema que vincula a qualidade de um artigo científico unicamente ao local onde está publicado é bem questionável. O Clay Mathematics Institute é uma fundação privada de fomento a atividades que promovam a matemática. Dentre as suas ações está o pagamento de um prêmio de um milhão de dólares por cada solução de qualquer um dos “Problemas do Millenium”. Esses problemas, um total de sete, envolvem questões complicadíssimas relacionadas à matemática pura, alguns deles sem solução há mais de 100 anos.

Um dos problemas do milênio, a conjectura de Poincaré, foi resolvido em 2002 pelo matemático russo Grigori Perelman. O artigo, com a assinatura de Grisha Perelman, foi publicado no arxiv.org, uma base de acesso aberto onde pesquisadores publicam artigos ainda “crus”, para torná-los públicos antes de submetê-los a algum periódico científico. A complexidade da solução do problema fez com que levasse alguns anos para que a demonstração fosse reconhecida como válida pela comunidade de matemáticos. Mas, afinal, em qual revista Perelman publicou o artigo?

A resposta é: nenhuma. Grisha não somente não quis publicar em periódicos – preferiu compartilhar o conhecimento em uma plataforma de acesso aberto – como recusou prêmios do calibre da Medalha Fields (análogo ao Nobel concedido para a área de matemática). Este exemplo de Perelman (e existem outros) mostra que não há conexão intrínseca entre a qualidade de um artigo e o local de publicação.

Indicadores usados na definição e implementação de políticas públicas precisam (e isto deveria ser óbvio) ter validade – isto é, realmente medir o que se pressupõe que está sendo medido. Uma régua não é um instrumento válido para medir pressão atmosférica, por exemplo. Para o ranqueamento de revistas, porém, algumas comissões que elaboraram o ranking Qualis utilizaram o chamado Fator de Impacto (FI) – um parâmetro que não está relacionado à qualidade da revista.

O FI é um indicador bibliométrico que atribui um número ao periódico com base na quantidade de citações dos artigos publicados. O cálculo é feito tomando-se o total de citações, em determinado ano, dos artigos publicados nos dois anos anteriores, dividido pelo número de artigos publicados nesse mesmo período. Por exemplo:

A = Total de citações em 2020

B = Citações, em 2020, dos artigos publicados em 2019 e 2018 (subgrupo de A)

C = Artigos publicados em 2019 e 2018

D = B/C = Fator de impacto de 2020

O FI de uma revista pode ser definido por apenas uns poucos artigos que recebam muitas citações. Quando se assume o fator de impacto como representativo da qualidade de uma revista (pressupondo, por um momento, que o número de citações seja um indicador válido de qualidade, algo em si discutível) incorre-se em erro, pois boa parte dos artigos publicados naquele periódico sequer recebeu uma única citação.

Adotar o FI, ou outro fator estritamente numérico, pode gerar anomalias como a apontada pelo físico Silvio Salinas no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em 2009, no texto “Quo Vadis, Qualis?, do qual reproduzo alguns trechos a seguir:

“Francamente, acho que atingimos um limite perigoso, que coloca em risco o próprio conceito de avaliação. Por exemplo, o que significa classificar Physical Review D como A2 e Physical Review B como B1? Por acaso os particuleiros são melhores do que os solidistas? […] Acho que está na hora de refletir sobre essa numerologia, que pouco a pouco se acentua em todas as áreas, impulsionada pelas facilidades da informática e por uma vaga ideia de globalização”.

Apesar de as avaliações não utilizarem unicamente o FI para composição do Qualis, ele continua tendo um papel relevante na classificação dos periódicos. Ainda que haja a utilização de outros indicadores para o estabelecimento desse ranking, a avaliação qualitativa permanece comprometida. O problema de uma mesma revista ser classificada em estratos de Qualis diferentes, como apontado lá em 2009, ainda persiste (por exemplo, Physics Letters A é A3 e Physics Letters B é A2).

Poderíamos descrever longamente aqui os critérios Qualis das diferentes áreas de conhecimento – cada área tem os seus, e todos são passíveis de alguma crítica. Talvez isso mostre que existe um problema inerente ao modelo, que busca objetividade e pragmatismo em uma avaliação que deveria ser o oposto disso. Os indicadores deveriam ser utilizados como meio, e não fim. A avaliação da qualidade de um artigo vai muito além do local onde está publicado e demanda leitura atenta de alguém que tenha algum conhecimento da área de pesquisa.

Outro efeito colateral negativo da canonização de um ranking de revistas por um órgão como a Capes é a utilização dessa lista por outras instâncias e para finalidades para as quais ela não foi pensada. Utilizar o Qualis para avaliações individuais como, por exemplo, a classificação de artigos publicados por candidatos a concursos, atribuindo uma pontuação maior para uma publicação em Qualis A1 do que A3, pode acabar influenciando o direcionamento das pesquisas para periódicos mais bem avaliados, quando o que deveria ser levado em conta pelo pesquisador é a pertinência do artigo à revista.

Antes que a proposta de tornar as avaliações mais qualitativas seja vista como uma utopia, é importante lembrar que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) solicita que em todos os pedidos de auxílio seja anexada uma súmula curricular do pesquisador. Neste documento deve-se constar uma lista de até cinco resultados de pesquisa mais relevantes e de maior impacto.

Uma iniciativa semelhante à da Fapesp poderia ser adotada para todas as avaliações, inclusive a dos programas de pós-graduação. Isso tornaria o trabalho dos avaliadores menos árduo e seria possível realmente avaliar a qualidade do que é submetido, reduzindo inclusive a dependência de indicadores externos – muitos deles, gerados por empresas que cobram para fornecer os números.

Recentemente, tomando como exemplo o modelo atual de orientação de alunos de doutorado, a Nature publicou um editorial defendendo a necessidade dos pesquisadores e das universidades se adaptarem às expectativas da sociedade. Sobre o Qualis, remeto novamente ao texto do professor Salinas: “Entretanto, nos dez anos de uso ele tem sido mudado para não mudar… Ou seja, o ‘sarrafo’ muda de posição, mas a lógica da avaliação continua a mesma, exacerbando a importância de um dos aspectos da pós-graduação e subjugando a relevância sob indicadores erigidos em critérios finais e únicos”. Isso foi lá em 2009. Será que estamos muito diferentes em 2023?

Marcelo Takeshi Yamashitaé assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Foi diretor do Instituto de Física Teórica (IFT) no período de 2017 a 2021.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da UNESP” [Aqui! ].

Qualis CAPES “quântico” abriga revistas científicas potencialmente predatórias e deixa cientistas brasileiros à mercê dos tubarões

Businessman chased by shark

A classificação de revistas científicas se tornou uma das formas mais práticas para pesquisadores escolherem o potencial destino do resultado de suas pesquisas.  Com o crescimento exponencial do número de revistas que se colocam no mercado editorial, a tarefa de classificar se tornou um grande desafio, pois é preciso orientar de forma confiável o resultado de grandes investimentos com o dinheiro público. No Brasil, o instrumento de classificação mais conhecido é o chamado “Qualis Capes“. A prática é que todo pesquisador que tem em mãos um trabalho potencialmente publicável se dirige ao sítio que abriga o “Qualis” para verificar a “nota” que uma dada revista alcançou. 

Mas aí é que começam os problemas de quem quer fazer a escolha correta, pois o Qualis continua adotando um tipo de classificação que pode dar notas completas díspares para uma mesma revista, dependendo do comitê setorial que a avalia, criando o que o jornalista Mauricio Tuffani, do Direto da Ciência, já classificou como sendo um “sistema quântico de notas“.  Com isso, todo pesquisador que sinceramente deseja publicar em uma revista qualificada acaba sem saber qual é efetivamente o nível de qualidade de uma dada publicação.  Para piorar a situação, a difusão das chamadas “revistas de acesso aberto” colocou no mercado editorial científico milhares de publicações que hoje aposentado bibliotecário da Universidade do Colorado-Denver, Jeffrey Beall, denominou de “revistas predatórias“, tendo impulsionado uma lista que se tornou célebre entre os pesquisadores e fortemente perseguida pelos donos das editoras que eram identificadas como predatórias (ou como eu chamo produtoras de “trash science“.

A situação é tão grave que desde o nascimento deste blog venho abordando a situação criada pelas revistas predatórias na disseminação de ciência de baixíssima qualidade ou mesmo de pseudo ciência sobre a qualidade das publicações científicas, além das inúmeras distorções que isso causa nos sistemas de premiação e concessão de recursos públicos para a ciência, inclusive no Brasil. 

Entretanto, confesso que tinha deixado um pouco de lado a questão das revistas predatórias pela premência de outros assuntos, incluindo principalmente as consequências do retrocesso ambiental imposto pelo governo Bolsonaro. Mas hoje um colega me fez uma provocação sobre a presença de uma possível revista predatória no Qualis Capes que havia lhe enviado um e-mail “convite” para que enviasse um artigo para ser publicado, no caso a “International Journal of Advanced Engineering Research and Science (IJAERS Journal)”. A peculiaridade da IJAERS é que o e-mail enviado por seus diretores citava explicitamente ter a nota A2 (o segundo mais alto) no Qualis (ver imagem abaixo).

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Curioso para ver a a IJAERS estava realmente indexada no Qualis Capes, e não ser apenas um caso de propaganda enganosa, acessei a plataforma e inseri o título da revista para verificar se a mesma estava listada, obtendo o resultado mostrado abaixo.

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Como pode se ver o IJAERs possui uma dispersão razoável no Qualis,  com C em Astronomia/Física e Engenharias IV, B4 em Engenharias III, B3 em Ciências Ambientais, e atinge o pico na área Interdisciplinar com um A2 (confirmando parcialmente o conteúdo do e-mail convite do editor da revista).

Após verificar se a IJAERs estava mesmo indexada no Qualis Capes e tendo confirmado a sua classificação “quântica”, acessei a Lista de Beall para verificar se esta revista foi incluída como predatória por Jeffrey Beall. Para nenhuma surpresa minha, a IJAERS está classificada como uma “standalone predatory journal” (ou em um português, uma revista predatória independente).

Dois detalhes ficaram evidentes após eu acessar o site da IJAERS, verifiquei várias questões peculiares: 1) a inexistência de informações claras sobre os custos de publicação, apesar de haver uma menção de que isto deveria  estar explicitado para os interessados em publicar ali, 2) a ampla dispersão de assuntos, muitos sem qualquer ligação aparente com o avanço da pesquisa em engenharia ou em ciência, 3) a forte presença de pesquisadores brasileiros que no “current issue” representam a imensa maioria dos artigos publicados, e 4) o tamanho relativamente pequeno dos artigos, sendo que um deles tem apenas 2 páginas.

Uma curiosidade final sobre o IJAERS é que o mesmo é supostamente publicado na cidade de Jaipur, no estado do Rajastão,  que fica localizada a 260 km da capital da Índia, New Delhi. Essa curiosidade geográfica reforça a minha curiosidade de como uma publicação indiana logrou chamar a atenção de tantos pesquisadores brasileiros, a ponto de ser ranqueada, ainda que quanticamente, no Qualis Capes.

Finalmente, o que o caso da IJAERS me mostra é que não há revista predatória que se sustente se não houver interessados em adquirir o produto que elas oferecem, no caso publicações publicadas no máximo após 60 dias após serem submetidas para serem supostamente avaliadas pelo sistema de revisão por pares. Eu particularmente estou aguardando há quase 2 anos que uma renomada revista brasileira da área dos estudos ambientais decida se vai publicar um artigo do qual sou co-autor.  Mas, apesar de toda essa demora, não irei tomar a “rota das Índias”, enquanto que outros já o fizeram, e provavelmente já ostentam os produtos dessa “viagem” em seus respectivos CV Lattes.   

Quanto ao Qualis Capes, fica evidente que é preciso fazer uma descontaminação e remover da lista as revistas identificadas como predatórias. Do contrário, ficará impossível que se cobre qualidade dos pesquisadores brasileiros que usam justamente o Qualis para se orientar sobre onde publicar.

Defender a Capes, mas sem idealizar o que ela tem sido

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Por Luís Felipe Miguel

Baixou um conselheiro Acácio em mim e eu formulei a seguinte frase: o problema do retrocesso é que ele impede o avanço.

Vale para muitas coisas, mas eu estava pensando no manifesto em defesa da Capes, lançando anteontem por representantes da maior parte das áreas de conhecimento da própria agência.

A Capes e todo o sistema brasileiro de pós-graduação, do qual ela é um pilar, estão sendo ameaçados pelo obscurantismo militante do atual governo. Entendo a necessidade de defendê-los e me solidarizo com o manifesto.

No entanto, essa necessidade, imperiosa, tem nos levado a silenciar sobre os graves problemas da agência. É natural: é difícil defender criticando. Abre flancos. Fragiliza nossa posição.

No caso do manifesto, alcança-se um tom triunfalista que, a mim, incomodou. Não contente de dizer que “o sucesso da Capes se deve a um modelo capilarizado de operação que sempre valorizou a contribuição de toda a comunidade científica do país”, conclui: “Este histórico é brilhantemente capturado no lema informal, porém amplamente adotado, que afirma que ‘a Capes somos nós’!”

Gente, estou por fora mesmo. Faz quase 30 anos que caí nessa vida e nunca tinha ouvido esse lema “amplamente adotado”.

O fato é que, longe de valorizar a contribuição de toda a comunidade científica, a Capes aparece como um poder disciplinador externo, que é necessário agradar a todo custo.

O “conceito Capes” define a vida e a morte das pós-graduações. Nosso esforço não é voltado para produzir mais conhecimento, de maior qualidade ou com maior impacto social, mas para “aumentar a nota na Capes”.

Esse é um efeito colateral de todo processo de ranqueamento, mas que é agravado em casos como o da Capes, em que há uma sensibilidade muito baixa às especificidades das diversas situações.

Vou repetir, quase que palavra por palavra, o que escrevi aqui faz uns anos. Por sua falta de sensibilidade às diferenças, o sistema Capes é enviesado na direção, por um lado, das ciências naturais e, por outro, do Sudeste.

Por exemplo, as sucessivas reduções do tempo do mestrado, fixado enfim em quatro semestres, enfrentou sempre a oposição quase unânime das humanidades. Nelas, o tempo reduzido leva a um rebaixamento grave do nível de treinamento que o mestrado deveria proporcionar. Mas hoje todos nós aceitamos o prazo diminuído como se fosse um dos mandamentos sagrados e empunhamos o chicote para obrigar nossos estudantes a cumpri-lo.

Afinal, prazos de defesa maiores rebaixam “a nota na Capes”. Uma dissertação meia boca em 24 meses é tudo o que pedimos.

Outro exemplo: os custos de deslocamento dos programas mais afastados dos grandes centros (no tempo em que as pessoas podiam sair de casa) não entram na conta de financiamento da pós-graduação.

Mais um exemplo: o fato de que um programa seja o único espaço de pesquisa e de pós-graduação em sua disciplina em toda uma região tem peso quase nulo na avaliação. Para manter a nota da Capes, seus pesquisadores devem virar as costas para onde estão e buscar obsessivamente publicar nas revistas “bem ranqueadas”, quase todas do Centro-Sul ou estrangeiras.

O pesquisador é visto como uma máquina de produzir papers. Um artigo obscuro publicado numa revista bem classificada, que será lido, segundo a lenda, por menos de três pessoas em média, conta no currículo. O diálogo com a sociedade civil e com movimentos sociais não vale nada. A ideia de que o conhecimento que produzimos deve servir à sociedade que nos financia é, quando muito, um slogan desprovido de sentido.

Há toda uma indústria de publicação voltada a “pontuar no Lattes/pontuar na Capes”. Editoras mandam spam para professores anunciando que publicando com elas você “pontua no Qualis-Capes”. Quer dizer que a editora cumpre os critérios para credenciar seus livros na avaliação, ainda que todo mundo saiba que basta pagar a tarifa correspondente para publicar qualquer coisa. O mesmo para revistas acadêmicas, todas invariavelmente denominadas “International Journal” disso ou daquilo, que prometem “avaliar por pares” e publicar seu paper em menos de uma semana – também cobrando uma taxa módica.

Para não me estender demais, cito ainda o fetiche da “internacionalização” a todo custo, que afasta ainda mais a pós-graduação do mundo que a cerca. Muitas vezes, ela premia a inserção subordinada em redes de pesquisa dos países centrais, cabendo a nós pouco mais do que a coleta de dados.

Ao longo dos anos, muitas batalhas foram travadas dentro da Capes para mudar essa situação. Com inúmeras derrotas e poucas, mas relevantes, vitórias.

O governo quer destruir a Capes como parte do processo de destruição da universidade e da pesquisa no Brasil. O manifesto dos representantes de área lista um conjunto expressivo de medidas, tomadas sem qualquer tipo de consulta, que revelam a disposição para fazer terra arrasada do sistema nacional de pós-graduação.

É uma expressão da cognofobia agressiva do bolsonarismo.

Precisamos lutar para impedir que isso ocorra. Precisamos preservar a Capes. Mas para continuar batalhando para transformá-la, não para idealizar o que ela tem sido.

*Luís Felipe Miguel é Professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e pesquisador do CNPq. Publicou, entre outros, os livros Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Dominação e resistência (Boitempo, 2018) e O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016 (Expressão Popular, 2019).

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Este artigo foi originalmente publicado no perfil de Luís Felipe Miguel no Facebook [Aqui!].

Maurício Tuffani analisa o rebaixamento do “trash science” no Qualis Capes

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O jornalista Maurício Tuffani que vem há algum  tempo noticiando a contaminação da produção científica brasileira por revistas predatórias e reprodutoras de lixo científico agora nos dá as novas em seu blog hospedado na Folha de São Paulo sobre o início da limpeza que a Capes no seu ranking de publicações científicas.

Apesar de considerar que este início é ainda tímido, já que muitas revistas sequer deveriam ser incluídas em qualquer ranking que se pretenda sério, alguma coisa é melhor do que nada. Principalmente porque sinaliza a intenção de acabar com o faroeste caboclo em que estávamos envolvidos por causa do apoio explícito de aumentar a quantidade de publicações sem que se olhasse para a qualidade. Com isso, uma série de  de docentes terão que repensar seus caminhos.

Uma coisa que me preocupa é sobre se essa primeira limpeza vai ficar por ai ou se começaremos uma verdadeira discussão das causas da incapacidade da ciência brasileira de produzir com qualidade e na quantidade em que o Brasil requer.  

De toda forma, agora que o gato foi colocado para fora do saco, vamos ver se mais pesquisadores ousam falar do problema. É que foi a indisposição da maioria de confrontar, ou sequer reconhecer, a existência do problema é que chegamos à situação vergonhosa de rotular de ciência o que não passa de lixo científico.

Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade

POR MAURÍCIO TUFFANI

Má notícia para professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros que andaram publicando nos chamados periódicos predatórios, aquelas revistas acadêmicas que aceitam artigos sem os submeter previamente a uma rigorosa avaliação conforme os padrões tradicionais da comunidade científica, mas também sem deixar de lucrar cobrando taxas de autores.

Nada indica que parece ser a grande limpeza que precisa ser feita. Mas muitas publicações desse tipo começaram a ser rebaixadas e até mesmo eliminadas da classificação que tiveram na avaliação trienal de 2010 a 2012 feita pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação.

A classificação de revistas científicas pela Capes tem sete níveis —A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, em ordem decrescente. Acessível pela base de dados on-line Qualis Periódicos, ela tem sido amplamente usada em processos seletivos para contratações e promoções de docentes e pesquisadores e também em avaliações individuais para concessões de bolsas e auxílios à pesquisa.

PREJUÍZO

Os periódicos predatórios são desprestigiados por cientistas mais conceituados e também por instituições de pesquisa de destaque. O motivo disso é que essas revistas não só facilitam a publicação de trabalhos de baixa qualidade, mas também porque sua má reputação prejudica os bons estudos que elas possam veicular. E pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários, que são quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil.

Com a ajuda de alguns pesquisadores, este blog revelou em março deste ano uma primeira relação dessas publicações e a ampliou no mês seguinte (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”).

As novas avaliações, que são relativas a 2013 e 2014, estão acessíveis desde segunda-feira (21.set) em outra base de dados da Capes, a Plataforma Sucupira, que passou a integrar informações de vários programas da agência.

LIMPEZA COMPLETA

Casos típicos de periódicos predatórios que foram eliminados nas novas avaliações da Capes foram “Transactions on Biology and Biomedicine“, “Transactions on Computers”“Transactions on Environment and Development” e “Transactions on Power Systems”. Os quatro são publicados pela editora chinesa WSEAS (World Science and Engineering Academy Society), famosa na internet por promover conferências científicas caça-níqueis.

Também não houve chance nas novas avaliações da Capes para o “Trends in Applied Sciences Research”, que havia sido classificado nas áreas de Geociências (B4), Interdisciplinar (B4), Biotecnologia (B5) e Biodiversidade (C). O periódico é editado pela Academic Journals Inc., que tem 57 revistas com códigos ISSN registrados nos EUA e indica endereço nesse mesmo país. No entanto, seu domínio de internet é de Faisalabad, no Paquistão, onde, de fato, estão suas operações editoriais.

DUROS DE MATAR

Mas ainda não dá para comemorar. Apesar de não terem mais registro em algumas da áreas em que foram pontuadas anteriormente, muitas revistas de publishers acadêmicos de má reputação ainda sobrevivem no Qualis Periódicos. Isso acontece pelo simples fato de elas continuarem com algumas classificações, por mais baixas que sejam, em vez de serem definitivamente descartadas.

Embora não tenham sido eliminadas como as quatro revistas da WSEAS apontadas acima, pelo menos foram rebaixadas em suas classificações todas as outras 13 revistas dessa editora que também haviam sido pontuadas na avaliação de 2010-2012 da agência do Ministério da Educação.

É o caso também do “African Journal of Agricultural Research”, publicado pela editora nigeriana Academic Journals (não confundir com a do parágrafo anterior, embora sejam ambas predatórias), que tem 13 revistas classificadas no Qualis. Enquanto isso, na Malásia o Ministério da Educação Superior não reconhece e também não dá apoio para artigos publicados por esse publisher, como já mostrou este blog ( “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, 7.mar).

Esse periódico nigeriano não só deixou de constar com a elevada —e absurda— classificação A2 que havia obtido no grupo Administração, Ciências Contábeis e Turismo, mas também nem sequer foi incluído nessa área nas avaliações de 2013 e 2014. A não inclusão também aconteceu no segmento Interdisciplinar, no qual a revista havia sido classificada como B1, como mostra a tabela a seguir.

African-Journa-of-Agricultural-Research

VAI LONGE

Além das duas não inclusões acima indicadas, o “African Journal of Agricultural Research” teve também dois rebaixamentos (de B2 para B3 em Biodiversidade, e de B2 para B5 em Engenharias III). Apesar de sua péssima reputação internacional, bastaria manter essas duas classificações para ele permanecer no Qualis como alternativa para professores, pesquisadores e pós-graduandos que não conseguem coisa melhor.

Essa revista também teve estabilização em seis outras áreas e uma única “promoção” (de B4 para B3 em Ciência de Alimentos). Sem falar na inclusão em Arquitetura e Urbanismo (B4), Ciências Ambientais (B2), Ciência da Computação (B5), Economia (B4) e até mesmo nas mais exigentes Ciências Biológicas III (C)  e Química (C) , que pelo menos aplicaram a classificação mais baixa, mas mainda assim permitem espaço para artigos que merecidamente podem ser considerados lixo acadêmico.

Houve também desclassificações e rebaixamentos de outros periódicos “famosos” que pretendo comentar nos próximos dias. Ainda é cedo para saber se eles serão excluídos na próxima avaliação, que será quadrienal (2013-2016).

LIXO ACADÊMICO

Concluída em 2013, a avaliação trienal de 2010-2012 do Qualis Periódicos envolveu cerca de 2 mil especialistas, distribuídos por 48 comitês assessores da Capes, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores.

Apesar de não ser ainda a limpeza que tem de ser feita e de a avaliação quadrienal 2013-2016 ainda estar em curso, as informações parciais de 2013 e 2014 indicam que a divulgação sobre o chamado “lixo acadêmico” começou a fazer efeito.

O que importa é que agora, com a atualização do Qualis na Plataforma Sucupira, será possível para a comunidade acadêmica monitorar o processo antes da conclusão da avaliação quadrienal. E, quem sabe, teremos melhores condições para compreendermos se esse tipo de avaliação de periódicos realmente funciona.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/09/23/capes-rebaixa/

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!

Trash science e a contaminação dos concursos públicos nas universidades brasileiras

PredatoryPublishers

Venho falando aqui neste blog dos problemas causados pela difusão em ritmo espetacular de publicações de baixa qualidade em revistas com nível ainda mais baixo sobre o processo de alocação de recursos financeiros pelas agências de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Por sua vez, o jornalista Maurício Tuffani já alertou em seu blog hospedado no site do jornal Folha de São Paulo sobre a presença de revistas predatórias (i.e., produtoras de lixo científico) no Sistema Qualis Capes, o que confere a estas publicações uma legitimidade indevida (Aqui!).

Pois bem, conversando hoje com um colega que acaba de retornar de uma banca de concurso numa universidade pública localizada fora do estado do Rio de Janeiro, ele compartilhou a situação inusitada por que passou ao avaliar o currículo de um candidato que havia acumulado impressionantes número de de artigos num período de dois anos numa revista científica publicada um país sul americano sem muita tradição na área do concurso. A banca, mesmo suspeitando dessa proficuidade concentrada, não teve saída a não ser assinalar o número de pontos a que o montante de publicações fez por um simples e prosaico motivo: a revista em questão estava classificada no Sistema Qualis Capes por 29 comitês, e com notas variando entre B3, B4, B5 e C! Em outras palavras, tinha a chancela de legitimidade que terminou garantindo a aprovação do candidato.  Mas como era de se esperar,  o concurso em questão está sendo alvo de vários recursos, já que os candidatos perdedores se sentiram lesados.

O problema é que esse caso parece estar se repetindo em escala ampliada nos concursos sendo realizados ao longo do território brasileiro! Um perigo que emerge dessa situação é que essa faceta ainda obscura do “trash science” sobre a contratação de docentes pelas universidades públicas poderá ser usada para questionar o rigor e transparência do próprio mecanismo do concurso público via exames de conhecimento e títulos!

Nesse sentido me parece inadiável que se faça uma revisão do processo de ranqueamento no Sistema de Qualis Capes. É que se o sistema nacional de pós-graduação depende de quadros docentes bem preparados, não há como aceitar que a Capes continua ignorando a necessidade de estabelecer critérios que considerem não apenas a quantidade, mas principalmente a qualidade e o impacto do que está sendo publicado.  A falta de ação da Capes neste caso poderá resultar no colapso completo da pós-graduação no Brasil. Simples assim!

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Maurício Tuffani põe o dedo na ferida: lixo científico e o silêncio da academia

THREE

O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto aqui no Brasil a comunidade científica praticamente ignora a presença de mais de 200 revistas acadêmicas de reputação suspeita que foram aceitas no Qualis Periódicos, fora do país já começaram discussões sobre essa base de dados serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Tudo começou na semana passada, quando o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, enviou para uma lista de discussão os links de alguns de meus recents posts sobre sobre a aceitação dessas publicações pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de  Pessoal de Nível Superior).

O Qualis abrange cerca de 30 mil títulos, segundo a Capes. Sua classificação nos níveis A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C é usada também em processos seletivos para contratações e promoções e em avaliações individuais e institucionais para concessões de bolsas e auxílios.

Para decepção do colega, eu expliquei a ele que o assunto certamente despertaria muita atenção, mas não geraria muitas discussões, pelo menos publicamente. A apuração que eu realizara até aquele momento já me permitia prever o que acabou acontecendo: o silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros sobre o assunto, apesar de os posts terem .

Acesso livre

Os periódicos predatórios são revistas acadêmicas editadas por empresas que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet. Trata-se do Open Access (acesso aberto), o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no Open Access como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Lixo acadêmico

Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

É importante ressaltar que bons estudos também têm sido publicados em periódicos predatórios. Mas isso só agrava o problema, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram se transformando em artigos largados em publicações desprestigiadas e até mesmo consideradas “lixo acadêmico” pela comunidade científica internacional. No caso do Brasil, quase todo o dinheiro envolvido nessa atividade vem de cofres públicos.

Avisos

Nas entrevistas que realizei, cientistas de alto prestígio nacional e internacional afirmaram que a inclusão dos chamados periódicos predatórios no Qualis era uma falha grave por parte da Capes. Mas quase todos eles pediram para não serem identificados.

No início dessa apuração, o que me deixou intrigado foi o fato de que eu havia selecionado pesquisadores não só com bons currículos, mas também que já haviam assumido posicionamentos autênticos, críticos e firmes sobre questões em torno da ciência no Brasil.

O total de periódicos que listei em meu post Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’ (9.mar) corresponde a 0,67% do total de 30 mil títulos. Isso não seria motivo para tanta preocupação.

Maquiagem

O tamanho da encrenca, porém, começou a ficar claro logo depois. Apesar de esse percentual de predatórios no Qualis ser pequeno, ele mostra uma vulnerabilidade indesejável dessa base de dados. Além disso, esse problema começou a mostrar a conexão com outras aberrações, como a realização deeventos caça-níqueis, em condições até anedóticas e constrangedoras.

Outra distorção que constatei foi a maquiagem serial de trabalhos apresentados em conferências, como se eles fossem artigos aprovados por peer review de periódico. E isso aconteceu em um evento na Unicamp, uma das melhores universidades brasileiras, a única com a USP no ranking das melhores do mundo do Times Higher Education.

Disparidades

Para complicar, minha apuração dos periódicos predatórios do Qualis revelou uma outra esquisitice que atinge dessa base de dados que pode prejudicar publicações de boa reputação: uma mesma revista pode ser classificada em diversos níveis de qualidade. Essa variação não seria problemática se ela se restringisse a níveis de qualidade próximos e envolvesse áreas de especialidades muito distintas.

Acontece que há oscilações que vão desde o pior e mais baixo nível de classificação —aplicável somente a publicações com deficiências extremas— aos mais elevados, relativos a padrões de excelência. E, o que é pior, entre áreas muito próximas  (A avaliação ‘quântica’ de revistas científicas no Brasil, 16.mar)

Estagnação

Como vimos acima, a vulnerabilidade e a inconsistência dessa base de dados indicam que o problema é maior que a presença dos predatórios. Após a criação do Qualis em 1998, houve o crescimento da publicação de trabalhos acadêmicos brasileiros, que na prestigiada base de dados Web of Science quase quadruplicou de 2000 a 2013.

No entanto, os indicadores de qualidade dessas publicações mostraram estagnação nesse mesmo período. Pior: esses índices cresceram em poucas instituições de pesquisa de grande produção quantitativa. Isso matematicamente significa que o conjunto do restante da  produção nacional não estagnou, mas caiu em qualidade.

Iceberg

Nesse mesmo período, currículos têm sido recheados com base nesse crescimento quantitativo sem correspondência na qualidade. Isso influenciou não só contratações e promoções, inclusive salariais —tudo por meio de concursos públicos—, mas também avaliações de produtividade individuais e institucionais, concessões de bolsas e auxílios.

O silêncio quase absoluto dos pesquisadores brasileiros não é, portanto, devido aos predatórios, mas aos os buracos que eles revelam no Qualis. Esses buracos expõem uma parte importante de todo um sistema de avaliação de desempenho no qual carreiras e reputações acadêmicas foram sendo construídas nestes últimos anos.

Limpeza

Remover do Qualis os periódicos predatórios poderia certamente resultar em muitas reclamações e protestos. Isso levaria a Capes e outras instituições a deixarem de contabilizar os artigos publicados nessas revistas.

Mas acredito que de uma forma ou de outra é o que acabará acontecendo. E será muito mais rápido se a defesa da manutenção desses títulos depender dos próprios publishers. (Muitas vezes tenho dificuldades para usar os argumentos deles como defesa.)

Acredito que a eliminação dos predatórios acontecerá apesar do silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros.  Muitos dos coordenadores e coordenadores adjuntos dos 48 comitês assessores da Capes são pesquisadores respeitados em termos de excelência acadêmica e reputação por seriedade. Conheço pessoalmente alguns que certamente não compactuarão com essa avacalhação.

Mas não acredito em uma reformulação que leve nosso sistema nacional de pós-graduação a combater a tolerância com revistas de baixa qualidade. É grande demais o contingente que nos últimos anos se formou, cresceu e adquiriu direitos, inclusive trabalhistas, fazendo uso de publicações fracas e desprestigiadas. E tudo isso aconteceu dentro de nossa tradição brasileira de apostar no crescimento da quantidade com a promessa de um posterior aumento da qualidade que nunca acontece.

Vespeiro

Com essas e outras, dá para entender muito bem o motivo pelo qual alguns célebres pesquisadores não estavam dispostos a dar entrevistas e arrumar mais um confronto na vida. O problema deles era “mexer com um vespeiro”. O célebre “Epitáfio para M.”, de Berthold Brecht (1898-1956), que em tradução livre transcrevo a seguir, ilustra bem o que poderia ser esse embate.

Dos tubarões eu escapei./Os tigres eu matei./Fui devorado pelos percevejos.
(Den Haien entrann ich./Die Tiger erlegte ich./Aufgefressen wurde ich von den Wanzen.)

Entendo eles. Eu mesmo muitas vezes tenho dito que o mais desgastante não é enfrentar leões, mas os bandos de hienas. Felizmente alguns pesquisadores brasileiros já estão passando da preocupação para a indignação.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/04/01/o-qualis-e-o-silencio-dos-pesquisadores-brasileiros/

Avaliação de revistas científicas no Brasil é ‘quântica’

Por MAURÍCIO TUFFANI

 Publication

O grupo editorial alemão Springer, um dos maiores do mundo na área acadêmica, abriu na recente sexta-feira 13 uma investigação sobre uma de suas revistas, a Cell Biochemistry and Biophysics”. Em um comunicado em seu site, o publisher sediado em Berlim afirmou que “a integridade científica do periódico não pode ser garantida”, na medida em que uma apuração interna revelou “um padrão inadequado e comprometido” de seu processo de revisão de artigos científicos.

Um porta-voz do Springer afirmou que o grupo editorial não dará mais informações a respeito do assunto enquanto não for concluída a investigação sobre a revista, informou o blog norte-americano “Retraction Watch”, que monitora correções e retratações de artigos de revistas científicas.

O grupo Springer não pode ser comparado as editoras de reputação duvidosa que têm sido assunto deste blog. O post mais recente sobre isso foi “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’” (9.mar). Mas constatei que com a “Cell Biochemistry and Biophysics” acontece também um fenômeno interessante que observei em algumas das publicações desses “publishers predatórios” em sua classificação no Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Ao mesmo tempo que recebeu A2, a segunda maior classificação no Qualis, a “Cell Biochemistry and Biophysics” obteve também o grau C, o mais baixo de todos, que se aplica a publicações que nem sequer atenderem a requisitos meramente formais de edição.

Qualis-CBM_ISSN_1085-9195

É importante observar também a pontuação 2,380 dessa revista no chamado fator de impacto, que é um indicador de qualidade referente à média de citações de artigos de um periódico. Comparado ao das publicações científicas brasileiras, esse número é superado apenas pelo da primeira colocada no ranking nacional, a “Diabetology & Metabolic Syndrome” (2,500), e com boa vantagem sobre a segunda colocada, que é a “Revista Brasileira de Psiquiatria” (1,638).

UPara ter uma ideia do que significa da tabela acima, vale a pena ler o artigoO Qualis e a rotina editorial dos periódicos científicos, publicado na terça-feira (10.mar) pela revista “ComCiência”, da Unicamp, por Mônica Frigeri, professora na Puccamp, e por Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp. Copio aqui um trecho que explica isso.

“As classificações do Qualis são publicadas trienalmente, a partir de critérios definidos pelos comitês de áreas da Capes3, constituídos por membros da comunidade científica. Cada área possui os seus critérios na definição dos estratos dos periódicos que podem ser A1 (nível mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (com peso zero).”

Isso significa que para alguns comitês assessores da Capes —entre eles dois de biologia— a “Cell Biochemistry and Biophysics” é muito boa, enquanto para outros —um deles também de biologia— a revista é muito ruim.

Incerteza

Em conversas minhas com alguns pesquisadores sobre casos de classificações esdrúxulas como essa, referentes a “periódicos predatórios”, e não à revista do Springer, houve uma piada recorrente, inspirada grosso modo na mecânica quântica. Grosso modo, essa teoria explica que a observação de um fenômeno é influenciada pelo próprio observador. (Uma boa abordagem sobre essa teoria está em Partículas telepáticas”).

A piada é que, assim como na interferência na observação pelo próprio observador a que se refere a mecânica quântica, a avaliação de um periódico no Qualis parece também ser influenciada do olhar dos integrantes dos comitês assessores da Capes. Foram em média 20 consultores para cada um dos 48 comitês dessa agência do MEC na avaliação trienal do período 2010-2012, concluída em 2013.

Pode ser que a Capes, seus comitês assessores e muitos pesquisadores não vejam nada de engraçado nessa piada. O problema é que parece crescer cada vez a indignação dos que não vêm nada de sério nessa e em outras esquisitices do Qualis.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/16/avaliacao-de-revistas-cientificas-no-brasil-e-quantica/