Regina Duarte: de namoradinha do Brasil a aduladora da tortura

marcos_correa_ag_brasil

Eu sou daqueles que viu a atriz Regina Duarte apareceu nas telas de TV lá pelos idos de 1970 ficou conhecida como a “namoradinha do Brasil”.  Com o passar dos tempos, entretanto, Regina Duarte foi lentamente se afastando de seus personagens fictícios para abraçar causas que foram cada vezes mais tornando-a uma figura querida nos círculos da extrema-direita brasileira. É pouco sabido, mas Regina Duarte é uma das porta-vozes do movimento que defende negar aos povos indígenas brasileiros o direito a ocupar os seus territórios ancestrais.

Por isso, quando Regina Duarte foi escalada para ocupar a Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro, vi ali apenas a consumação de uma trajetória de uma artista que decidiu abandonar a imagem fabricada a partir dos personagens de telenovelas para abraçar os elementos mais concretos e extremados em relação à negação de direitos básicos da maioria pobre da população brasileira.

É neste contexto que não vi com um mínimo de surpresa as declarações de Regina Duarte em sua fracassada entrevista à CNN Brasil (ver abaixo os “piores momentos” da participação que ela optou por encurtar).

Eu, por exemplo, não me surpreendi com a negação em relação à natureza hedionda das ações de tortura e assassinatos promovidos pelo regime militar de 1964. Essa postura está perfeitamente em acordo com que Regina Duarte vem defendendo desde as eleições de 2002 quando ela mostrou “medo” de uma eventual vitória do hoje ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Mais interessante ainda foi vê-la se indignar com as cobranças feita pela atriz Maitê Proença (que está longe de ser uma pessoa de esquerda) para que ela passe a ouvir mais a sua própria classe que hoje se encontra sob fortes restrições econômicas devido à ausência de políticas que promovem a cultura no Brasil. 

A verdade é que Regina Duarte acaba se submetendo a um imenso constrangimento de ter que ouvir uma réplica da âncora da CNN Brasil que retrucou a afirmação dela que não queria desenterrar mortos (provavelmente ela falava de Aldir Blanc e Flávio Migliaccio, entre outros). Ainda no ar, Regina Duarte foi lembrada que o Brasil não está desenterrando, mas sim enterrando milhares de mortos.

O pior para Regina Duarte é que nessa “performance” deverá mantê-la no cargo por muito tempo.  E de Regina Duarte ficará a imagem não de “noivinha do Brasil”, mas de uma aduladora de torturadores. 

Regina Duarte inova e diz que homofobia de Jair Bolsonaro é “da boca para fora”

Eu já li muita coisa esquisita na atual campanha presidencial, mas a entrevista dada pela atriz e latifundiária Regina Duarte ao jornalão que difunde as ideias das elites mais conservadores de São Paulo acaba de ganhar o prêmio de esquisitice mór.  É que Regina Duarte afirmou que “as declarações consideradas homofóbicas e racistas do candidato como frutos de um homem com um “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada” [1] (ver imagem abaixo).

dabocaparafora

Mas o que realmente me intriga nessa fala de Regina Duarte tem a ver com o fato que ela afirma que a homofobia de Jair Bolsonaro seria “só da boca para fora”.  É que até segunda ordem, não há como um ser humano emitir opiniões sem que elas sejam inicialmente processadas e sintetizadas pelo seu cérebro. Isto torna inviável a afirmação de que todas as afirmações estapafúrdias são algo que ocorrem apenas da “boca para fora”. 

Entretanto, se assim fosse, o que Regina Duarte estaria afirmando é que não se deve levar a sério o que é dito por Jair Bolsonaro. Isto é muito estranho para quem está apoiando o referido candidato, pois se inaugura uma nova forma de decidir votos: voto naquele em quem não acredita no que fala.

Alguém com um mínimo de discernimento adotaria o sistema decisório proposto por Regina Duarte? É óbvio que não! Eu gostaria é que ela tivesse a coragem de ir visitar as famílias daqueles que, por causa de sua orientação sexual, já sofreram violências e até perderam as suas vidas nas mãos dos eleitores que levam a sério as coisas que são ditadas por Jair Bolsonaro.


[1] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,homofobia-de-bolsonaro-e-da-boca-para-fora-diz-regina-duarte,70002564696

Rede Globo não consegue esconder mais seu medo patológico de Lula

lula globo

Enquanto as manifestações toleradas pelo PSDB e outros partidos da direita fazem vítimas com a violência descontrolada contra quem ousa vestir roupas na cor vermelha, a Rede Globo utilizou nesta quinta-feira (17/03) praticamente todo o espaço do chamado “Jornal Nacional” para apresentar novas e velhas gravações telefônicas envolvendo o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. 

Essa operação de destruição de caráter já beira o que se chama em inglês de “overkill” que é quando, por exemplo, alguém exagera no número de tiros dados contra outra pessoa ou um animal.

Uma leitura rápida dessa tentativa de assassinato de caráter em horário nobre é simplesmente a vontade dos donos da Rede Globo de apressar a queda do governo Dilma. Mas como para isso é preciso dobrar Lula e o que ele representa para milhões de brasileiros pobres, a opção então é usar à exaustão as gravações entregues a eles pelo juiz-justiceiro Sérgio Moro.

Eu já que outro motivo, talvez o mais essencial, é que os donos da Rede Globo temem ao extremo o poder de Lula em mobilizar os mais pobres. Ainda que desde que no governo federal Lula tenha adotado o estilo “Lulinha paz e amor”, há sempre o temor de que ele use o seu poder de convencimento para mostrar ao Brasil o que Leonel Brizola mostrou já em 1982 e pelos anos que viveu depois de governar o Rio de Janeiro pela primeira vez.

briza

Estou falando do caráter intrinsecamente antipopular da Rede Globo. Em outras palavras, o que os donos da Rede Globo sentem em relação à Lula é aquele tipo de medo que Regina Duarte dizia ter em 2002. Medo, muito medo!

Algum tempo atrás publiquei aqui nesse blog uma análise de que as elites estavam se arriscando a exagerar na mão em seus ataques a Lula, dando-lhe um poder ainda maior para futuras escolhas de candidatos, ainda que momentaneamente neutralizado. E me arrisco a dizer que o tamanho do “overkill” que foi cometido hoje pela Rede Globo já assegura que Lula será um eterno e doloroso espinho na garganta da família Marinho. 

Uenf: de Darcy Ribeiro a Regina Duarte?

Muitos ainda devem ser lembrar daquela propaganda feita pelo então candidato José Serra mostrando a atriz global e latifundiária Regina Duarte dizendo que estava com medo pelo futuro do Brasil caso Lula ganhasse as eleições presidenciais. Pois bem, mais de uma década depois daquela peça ter sido levada ao ar, eu tenho ouvido repetidas manifestações dentro do campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) que me transportam ao mundo previsto por Regina.É que, invariavelmente, muitos que criticam a situação em que a UENF foi colocada se declaram estar “com medo” de vir a público para proferir algo que seria básico em uma instituição universitária: uma simples opinião.

Uma das explicações para essa situação de medo é estrutural. É que apesar do ciclo autoritário ter sido oficialmente encerrado em 1985, os impactos da ditadura militar de 1964 têm sido duradouros sobre a sociedade brasileira, onde as universidades estão inseridas. Assim, se a herança autoritária da ditadura está permeada nas relações gerais da sociedade brasileira, não haveria por que não estar dentro das universidades.

Mas existem outras explicações mais simples do que a herança da ditadura. A carta-ameaça do reitor Silvério Freitas ao signatários do “Manifesto em Defesa da UENF” é um exemplo prático de como muitos, especialmente entre os professores, foram levados ao estado “Regina Duarte” de ser e vivenciar o cotidiano da instituição. Afinal, fica patente que a universidade é dirigida por um grupo que não tolera a crítica, e não hesita em lançar mão de instrumentos administrativos para tentar coagir quem ousa fazer aquela coisa básica que é emitir uma opinião crítica.

Por outro lado, não é possível deixar de notar que o homem que idealizou o projeto UENF não entrou na história por ter medo. Aliás, muito pelo contrário. Darcy Ribeiro, com todas as suas contradições e ambivalências políticas, pode ser chamado de qualquer coisa, menos de medroso. Darcy viveu na sua plenitude e desafiou por anos a fio a sentença de morte ditada por um câncer, e morreu sem medo.

Assim, me parece no mínimo contraditório que a sua última obra, a UENF, seja dominada pelo espírito de Regina Duarte e não de Darcy Ribeiro. Se for para ser assim, que se mude o nome da universidade para “Uenf Regina Duarte”.  Pelo menos ficaria mais fidedigno e correto com Darcy.

De minha parte, prefiro continuar construindo a instituição sonhada por Darcy Ribeiro, onde o medo não tenha espaço e, tampouco, a mediocridade.