Foto da Assembleia da fábrica Putilov em apoio à Revolução, Petrogrado, julho de 1920
Durante o ato realizado no dia de ontem para relembrar a tentativa de golpe de estado ocorrido no dia 08 de janeiro de 2023, o presidente Lula reservou uma parte do seu discurso para apontar para uma suposta ausência de trabalhadores no processo revolucionário que materializou a Revolução de 1917. Nesse sentido, o presidente Lula disse que “Se você pega a fotografia da Revolução Russa de 1917, não tem um operário na foto (…) porque historicamente sempre se pensou que trabalhador não prestava para nada a não ser para trabalhar”.
Como o presidente Lula não é uma pessoa desinformada sobre processos revolucionários, a menção à ausência de trabalhadores no processo revolucionário russo aparentemente se presta a dois tipos de exercícios retóricos. O primeiro é de colocar em xeque o papel dos intelectuais na formulação de ideias e programas que possam alavancar a luta dos trabalhadores, inclusive para impulsionar a realização de processsos revolucionários. O segundo parece estar ligado que o modelo burguês de democracia é uma espécie de ápice do que se pode fazer em termos de organizar a relação social dos seres humanos. Algo como sentido do que foi expresso pelo filósofo alemão Georg Hegel que via no Estado uma espécie de superiodade moral sobre formas anteriores de organização política da sociedade.
Eu nem vou perder tempo com o primeiro exercício sobre os intelectuais, pois Lula já expressou posições de desdém contra os intelectuais, apesar de ter tido sempre o apoio destes para sua própria formação e para a criação do Partido dos Trabalhadores (PT). A questão que me parece mais importante é a defesa da democracia burugesa como ápice, pois ao fazer isso, Lula indica aos membros do PT que não há espaço para transgressões do tipo da Revolução Russa e que o negócio é manter tudo como está no quartel de Abrantes.
O problema é que para fazer isso, teremos ainda mais ataques contra os direitos dos trabalhadores, na medida em que o modelo de democracia burguesa, especialmente o praticado no Brasil, se encaminha para ampliar ao limite o processo de concentração da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria de pessoas, os chamados ultrarricos. E para isso se manter nos moldes democráticos burgueses vigentes, um grau ainda maior de violência será aplicado contra a classe trabalhadora.
Mas eu estou devendo uma indicação de leitura para o presidente Lula que é um homem dos livros. Eu estou pensando em comprar uma cópia do livro “Os 10 dias que abalaram o mundo” do jornalista estadunidense John Reed para enviá-la para Lula. Afinal, para quem leu o livro, como o fiz há mais de 40 anos, a mera ideia de que os trabalhadores russos foram meros espectadores da primeira revolução operária do mundo é pulverizada.
Eu não tenho ilusão de que a leitura do livro de Reed irá mudar a posição ideológica de Lula. Mas como ele é uma pessoa inteligente, a minha expectativa é de que se ele ler, não volte a desafiar a inteligência alheia daqueles que sabem minimamente como ocorreu a Revolução Russa.
E antes que me esqueça, John Reed foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Comunista da América e participou, pouco antes de sua morte, do congresso do III Internacional Comunista, que advogava pelo comunismo internacional, na capital russa.
Em agosto de 2020, completaram-se 80 anos do assassinato de Lev Davidovich Bronstein (1879-1940), mais conhecido por Trotsky, concluindo tragicamente um longo período de exílio e perseguição política promovida pelo governo da URSS, sob o comando de Josef Stalin (1878-1953).
A perseguição a Trotsky e aos militantes comunistas que se organizaram, primeiramente, na Oposição de Esquerda e, depois, na IV Internacional Comunista, chegou ao ponto de o Comintern proibir qualquer relação ou contato com os adeptos do trotskismo. Trotsky e os trotskistas foram sistematicamente estigmatizados ao longo do século XX e, até o presente, esta perspectiva sectária ainda se manifesta em parte da cultura comunista em todo o mundo.
Em geral, Trotsky é facilmente reconhecido como um opositor político de Stalin, mas raramente são, de fato, conhecidos o seu papel durante a Revolução Russa e suas análises sobre a URSS e seu regime político. Contudo, a discussão sobre a natureza do regime soviético e a proposta de sua superação são, a rigor, suas principais contribuições ao marxismo do século XX.
Trotsky entendia o stalinismo mais do que um mero governo de Stalin, mas como um fenômeno social de raízes profundas: uma ditadura bonapartista em um Estado proletário economicamente atrasado e internacionalmente isolado e sitiado que, politicamente, atuava para a perpetuação dessa situação ao sabotar e trair processos revolucionários em outros países, daí decorrendo consequências nefastas para a transição da URSS ao socialismo.
Entre suas outras contribuições, destacam-se a sua teoria do desenvolvimento desigual e combinado, e a teoria da revolução permanente a ela atrelada, que consiste em uma elaborada análise dialética do desenvolvimento capitalista em sua fase imperialista e das consequências deste para as possibilidades e limites de desenvolvimento político e econômico impostos aos países da periferia capitalista. É uma elaboração que, como interpretam alguns trotskistas, pode ajudar a compreender os aspectos da conjuntura atual, marcada pela degradação do regime democrático-burguês vigente em um contexto internacional de crise permanente da ordem capitalista.
Também de particular atualidade seria a análise sobre o fascismo, onde Trotsky formulou uma definição precisa do fenômeno, particularmente do caso alemão, e delineou formas de combatê-lo.
Além disso, são também muito importantes a sua proposta de uma arte revolucionária, mas que não se submetesse ao controle do Estado socialista; e, suas análises sobre a política de colaboração de classes defendida pelo stalinismo na Espanha e França dos anos 1930, através da linha da “Frente Popular”.
Infelizmente, a maioria da vasta obra de Trotsky não se encontra traduzida para o português e, entre o que há disponível em nossa língua, ademais, há muitos materiais que não estão disponíveis online. O mesmo se aplica às suas principais biografias, escritas por Isaac Deutscher, Pierre Broué e Jean Jacques-Marie, e às obras de comentadores. Por isso, inserimos links para acervos online mais completos, em língua inglesa e espanhola.
Também acrescentamos grande número de textos e materiais acadêmicos dedicados à compreensão do movimento trotskista, uma vez que ainda existe mais mito do que conhecimento sobre ele. Como é de se imaginar, a grande maioria dos materiais disponíveis em português – com algumas exceções – está dedicada à história do trotskismo no Brasil. Por isso, também inserimos links para alguns acervos online em língua inglesa e espanhola, que contêm um volume maior de materiais sobre o movimento trotskista internacional e em outros países.
Por fim, incluímos também diversos materiais audiovisuais sobre Trotsky e o trotskismo, que ajudam sobremaneira na divulgação do que se conhece hoje sobre os temas.
A Editoria é grata a Marcio Lauria Monteiro, pesquisador que colaborou ativamente com a organização deste dossiê; novas matérias pertinentes ao tema, a nós enviadas, poderão ser incluídas no dossiê.
CASTRO, Ricardo Figueiredo de. O movimento trotskista brasileiro nos anos 1930: teoria e práxis. Niterói, 1993. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense.
Leon Trotsky, no centro da imagem, com soldados do Exército Vermelho durante a guerra contra o chamado “exército branco” apoiado pelas potências europeias.
Em meio ao tiroteio verbal que ocorre dentro de diferentes cliques do governo Bolsonaro, uma caracterização inusitada para o “jack-of-all-trades” Olavo Carvalho partiu do general reformado e ex-comandante do Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Boas. Segundo ele, Olavo de Carvalho estaria se comportando como um “trótski de direita” ao criticar, até de forma xula, os generais que hoje estão alojados em diferentes postos do governo Bolsonaro (ver imagem do tweet em que o general senta o dedo em Olavo).
Como alguém que leu uma fração pequena da vasta obra de Leon Trotsky, eu me dou a liberdade de indicar que provavelmente o general Villas Boas não leu qualquer livro de um dos principais líderes da Revolução Russa, incluindo o clássico “História da Revolução Russa”. Nessa obra, que possui dois tomos, Trotsky apresenta em riqueza de detalhes a trajetória revolucionária não apenas dele, mas, principalmente, do Partido Bolchevique e do proletariado russo em direção à tomada do poder.
Mas Trotsky (ou melhor, Lev Davidovich Bronstein) não foi apenas um teórico brilhante e com uma obra literária que extrapola a formulação de um viés particular para a construção e consolidação da revolução proletária. Entre outras coisas, como homem extremamente culto que era, Trotsky enveredou por searas distintas, a começar pela arte e pela literatura.
Entretanto, algo que o general Villas Boas não poderia esquecer é que, ao contrário de Olavo de Carvalho que brinca com seus mosquetes em fragmentos florestais no norte da Virginia, Leon Trotsky foi um gênio militar e criador do Exército Vermelho. Aliás, ao contrário de muitos generais brasileiros, experimentou liderar suas tropas nas frentes de batalha da sangrenta contrarrevolução comandada pelos generais czaristas, e que acabou derrotada pelo exército que Trotsky construiu basicamente a partir do nada, usando inovações interessantes como a combinação entre forças regulares e de guerrilha. Um livro interessante para que se saiba mais sobre a atuação de Trotsky como “Comissário da Guerra” e fundador do Exército Vermelho é o ” Trotsky e a formação do Exército Vermelho” do historiador Saymon de Oliveira Justo.
Leon Trotsky discursando em cima de um tanque durante a guerra civil.
Uma coisa parece saltar aos olhos nessa pequena menção, mesmo que enviesada, a Leon Trotsky pelo general Villas Boas, e é o fato de que o revolucionário russo ainda assombra, ainda que seja lembrado para oferecer comparações incabíveis com eventuais adversários. E certamente, lá do seu túmulo em Coyoacán, bairro da cidade do México, os ossos de Trotsky devem estar chacoalhando com a comparação indevida.
Estive hoje no Museu Nacional da História Natural e da Ciência para assistir a uma peça de teatro que ocorria em um pátio interno, e ao passar por um dos corredores entrei por pouco tempo no interior da mostra “MARGEM ESQUERDA: A Revolução Russa e a Cultura Científica em Portugal no século XX.” Lá pude ver alguns materiais relacionando a importância da Revolução Russa no desenvolvimento do pensamento científico, inclusive em Portugal.
Chegando em casa descobri que a mostra está sendo exposta desde o dia 07 de Novembro e foi aberta para marcar as celebrações dos 100 anos da Revolução Russa. Segundo os organizadores da mostra, um fato que foi marcante na realização da revolução foi o seu impacto teórico na área das ciências a partir do uso do materialismo histórico dialético incluindo a História, a Filosofia e o conhecimento da Natureza.
Uma lembrança a mais sobre o impacto da Revolução Russa na cultura científica foi que “apesar de sujeito a uma ditadura de direita durante a maior parte da existência da URSS, Portugal não ficou alheio a este movimento.” [1].
Um detalhe a mais nessa visita: não vi sinais de protestos contra a realização da mostra , nem tive notícias de que houve qualquer protesto pedindo o seu fechamento. Coisa bem diferente do que aconteceria no Brasil se essa mostra tivesse sido organizada por algum museu que funcione com recursos públicos. Esta diferença de comportamento apenas mostra como conseguimos regredir uma cultura política que já não era lá tão elevada. E deu no que deu, e estamos vendo os resultados disso na atual campanha eleitoral.
No dia 25 de Outubro se completam 100 anos do início da segunda fase da Revolução Russa, movimento que colocou firmemente a classe operária russa como a principal força motriz das transformações preconizadas por Karl Marx e Friederich Engels em seus exaustivos trabalhos acerca da necessidade de que o Capitalismo seja superado. Apesar de todos os percalços que marcaram os 100 anos desde que se deu a tomada do Estado russo sob o comando do Partido Bolchevique, a Revolução Russa ainda cumpre o papel insubstituível de nos mostrar que é possível passar da utopia à ação política concreta, e de se lutar para que a riqueza gerada pelo trabalho humano não fique concentrado nas mãos de uns poucos, enquanto a maioria sobrevive em meio a privações cada vez mais profundas.
E o elemento que permanece atual é o fato de que a classe operária quando dotada de um partido com um programa claramente estabelecido sob as bases do materialismo histórico dialético e do internacionalismo é capaz de realizar proezas como a Revolução Russa. Nada do que aconteceu ao longo do Século XX, mesmo a degeneração do estado socialista que foi fundado pelos revolucionários russos, apaga o fato de que só apoiado por um programa explicitamente orientado para superar o Capitalismo é que a Humanidade poderá chegar a um estágio superior de organização social.
E nesse aniversário, a principal saudação que deixo é para aquela multidão de cidadãos comuns que sob as bandeiras levantadas pelo partido de Vladimir Lênin e Leon Trotsky ousaram mostrar ao mundo a sua capacidade de enfrentar os inimigos mais terríveis em nome de uma sociedade mais justa e fraterna. É graças às multidões de operários e camponeses insurretos que ainda podemos manter viva as utopias que eles colocaram em marcha.
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E como disse Leon Trotsky em seu testamento, “A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente.”
O livro O Horizonte Vermelho: o impacto da Revolução Russa no movimento operário do Rio Grande do Sul (1917-1920) vem a público em um momento em que o estudo e a reflexão sobre a história do movimento operário se tornam um exercício cada vez mais importante e necessário.
Neste ano, no qual se completam cem anos das greves de 1917 no Brasil e da Revolução Russa, Frederico Duarte Bartz disponibiliza este trabalho para contribuir com os debates acadêmicos sobre aquele período agitado da história da classe operária, e para difundir, entre o maior número de pessoas, o conhecimento sobre aqueles trabalhadores e trabalhadoras que se mobilizaram em prol da Revolução Social.
A memória e a história das lutas que se desenvolveram na década de 1910 surgem como um importante legado para todos aqueles que se interessam pelo processo de construção da classe trabalhadora e se solidarizam com suas reivindicações.
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O químico aposentado, de 91 anos, abordará o papel de seu avô na história. Nascido em 1926, na Ucrânia, aos treze anos foi viver com o avô no México. Nesse período, sobreviveu a um fuzilamento, parte de um atentado orquestrado contra Trotski, na própria casa em que moravam, e assistiu à morte de seu avô. Único sobrevivente de uma das perseguições mais obsessivas da história, Volkov busca resgatar a memória da vida e da obra do intelectual bolchevique. Volkov preside hoje o Museu Leon Trotski, no México, na casa em que seu avô viveu e foi assassinado.
É um dos personagens do romance histórico “O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura (Boitempo, 2013). O autor está no Brasil até 26/8 em uma programação imperdível que você confere aqui:https://business.facebook.com/Boitempo/posts/1428051740576258:0
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“Estava amanhecendo o dia 24 de outubro. Eu ia de andar em andar, para não ficar quieto em um lugar, para ver se tudo estava em ordem e para levantar a moral de quem o necessitasse. Pelos intermináveis corredores ainda envoltos em sombras [do Smolny], ouvia-se rolarem as metralhadoras arrastadas valentemente pelos soldados, com um estrépito alegre e buliçoso. Era o novo destacamento que havia chamado. Pelas portas se assomavam, com cara de terror, os poucos socialistas revolucionários e mencheviques que haviam permanecido no Smolny. Aquela música não prenunciava nada bom para seus ouvidos. Pouco a pouco, um atrás do outro, se apressaram a deixar o Smolny. Ficávamos como donos absolutos daquele edifício que se dispunha a plantar a bandeira bolchevique na capital e em todo o país”.
Assim iniciava Trotsky um dos capítulos de sua autobiografia, Minha Vida, dedicado a recordar as noites decisivas em Outubro que antecederam a tomada do poder pelo proletariado russo em Petrogrado, em 1917.
Este episódio, que desencadeou sob diversos pontos de vista o evento mais importante da história universal, dando nascimento ao primeiro Estado operário da história – continuando a tradição da Comuna de Paris de 1871 que resistiu em Paris durante dois meses – e que provaria a validez da teoria e da estratégia marxista, muitas vezes se perde na rotina do dia que passa. Deve, em verdade, ser lembrado como motivo de nossa paixão histórica e o sentido de existência daqueles que militamos diariamente para por fim à sociedade de exploração e opressão capitalista.
A insurreição de Outubro não surgiu como desenlace automático da luta de classes, nem como uma resposta espontânea dos trabalhadores russos à tirania da guerra e da fome. Foi preparada e dirigida minuciosamente em seus mais sólidos detalhes como movimento revolucionário das massas.
Uma vez conquistada, com os testes de aço da revolução e da contrarrevolução, a imensa maioria dos trabalhadores organizados nos sovietes – ou conselhos operários e de soldados, principalmente dos dois mais importantes centros industriais do país, Petrogrado e Moscou – para a idéia da tomada do poder da classe operária como única forma de resolver os problemas imediatos impostos pela história, a tarefa dos bolcheviques passava a ser “desencadear os elementos ofensivos da defesa, transformar a defesa em ataque” e combinar a conspiração como parte integrante da insurreição de massas.
A estratégia revolucionária conduz à conclusão do momento insurrecional como necessidade, como condição para desobstruir o desenvolvimento humano e de suas forças criadoras interrompido pela burguesia. Isso não quer dizer que seja automático encontrar o ponto em que se deva passar “das palavras aos fatos” e transformar a energia e a vontade revolucionária de operários e soldados, temperadas por anos, numa força ofensiva para destruir o Estado burguês. A teoria e a estratégia dão a solidez de granito para a tarefa; mas esta capacidade de percepção é uma arte. O homem – poderíamos chamar de artífice da revolução – que arquitetou o plano de Outubro foi Leon Trotsky.
Segundo as palavras do estudioso militar norteamericano Harold Walter Nelson, Trotsky aproveitou brilhantemente uma combinação favorável das circunstâncias (a ira das massas contra a guerra e contra o Governo Provisório de Kerensky que a mantinha, a debilidade militar deste governo, a segregação no Exército russo e a crescente disposição dos camponeses em por fim à guerra, a recém conquistada hegemonia dos bolcheviques nos sovietes operários) para diminuir a quase zero a possibilidade de fracasso da insurreição.
Esta obra-prima de um verdadeiro gênio militar, que criaria anos depois das ruínas do exército czarista derrotado na Primeira Guerra o poderoso Exército Vermelho, mostra a importância de levantar um marxismo com predominância da estratégia e orientado a fazer a revolução no século XXI. A “arte da insurreição” constitui um elemento fundamental para a fusão da teoria marxista com as novas gerações de trabalhadores e jovens que despertam depois da crise mundial.
A arte da insurreição em 1917
A grande lição da revolução russa é que a tomada do poder, a insurreição das massas exploradas e oprimidas, libera uma enorme quantidade de energia social que deve ser canalizada e conduzida pelos trilhos que levam ao triunfo da revolução.
Cabe destacar que Petrogrado era uma cidade ocidentalizada. Com pouco mais de 1 milhão de habitantes, uma quarta parte correspondia a trabalhadores assalariados, em sua grande maioria industrial metalúrgicos – o complexo metalúrgico de Putilov tinha entre 15 e 20 mil trabalhadores. Os bairros operários de Ovukhovsky, Putilovsky, Baltiisky e Trubotchnyi, além do famoso bairro de Viborg, evidenciavam uma genuína cidade capitalista moderna. De fato, já em 1911, 54% dos trabalhadores russos trabalham em fábricas com mais de 500 assalariados, enquanto as cifras correspondentes nos Estados Unidos eram de 31%.
A insurreição de Petrogrado, através da ocupação de todos os pontos estratégicos de comunicação e abastecimento da capital e a posterior tomada do Palácio de Inverno, constituiu a prova da necessidade de planificar com clarividência a ofensiva para conseguir um objetivo determinado. A audácia de Trotsky residiu em sua capacidade de aproveitar o Segundo Congresso dos Sovietes como antesala preparatória da insurreição. Como afirmou Isaac Deutscher, a sutileza e a perspicácia tática de Trotsky impedia que seus inimigos soubessem com certeza o que sucederia nos dias seguintes.
Ante o possível ataque alemão à cidade imperial, a 9 de outubro de 1917 se constituiu o Comitê Militar Revolucionário, sob a iniciativa de um jovem socialista revolucionário de esquerda, Lizimir. Este Comitê ficou sob as ordens de Trotsky. A função deste organismo foi organizar a guarnição que tomaria conta da capital, estabelecendo contatos com as tropas do Báltico, da fortaleza de Kronstadt e a marinha finlandesa; contabilizar os recursos humanos disponíveis e as munições; e elaborar um plano de defesa. Imediatamente gozou da autoridade de ser um organismo do Soviete de Petrogrado.
Deste modo, de 10 a 17 de outubro, Trotsky se encarregou de transformar a tarefa de defesa da cidade na insurreição proletária. Ante a notícia de que o Governo Provisório queria abandonar a cidade, o Comitê se pronunciou contrário à decisão do governo e declarou a obrigação das tropas estacionadas na capital de defender a cidade até as últimas conseqüências, exortando o Comitê Executivo a convocar o II Congresso dos Sovietes. Trotsky fez um chamado a rádio a todos os sovietes da Rússia para que enviassem delegados a Petrogrado. Se Kerensky era impotente para garantir a realização do Congresso, isso seria feito pelo Comitê Militar Revolucionário.
O Comitê conquistou a confiança das guarnições de Petrogrado, incluindo os reticentes soldados da Fortaleza de Pedro e Paulo, cárcere dos revolucionários durante décadas. Finalmente, o Soviete deu instruções para que as guarnições obedecessem exclusivamente as decisões do Comitê Militar. Os regimentos e as guardas vermelhas ficaram sob a direção indiscutível de Trotsky.
Nas vésperas da realização do II Congresso, a 23 de outubro o Comitê Militar colocou em marcha o plano de defesa da cidade. Ocuparam-se na madrugada as posições estratégicas da cidade, como a Central de Correios e Telégrafos. De todos os distritos da cidade se lançam destacamentos armados, batendo às portas ou entrando sem bater e ocupando militarmente os edifícios públicos. Em quase toda a parte os trabalhadores os esperam ansiosos.
Nas estações de trem, o Comitê Militar Revolucionário enviou comissários nomeados especialmente para vigiar a chegada e partida de trens, principalmente os que transportam soldados.
Enquanto os periódicos burgueses clamavam furiosamente pela violência, os saques e rios de sangue que correriam com a insurreição, os soldados, marinheiros e operários das guardas vermelhas, executando as ordens vindas do Smolny, sem disparar um tiro e sem derramamento de sangue, iam ocupando todos os prédios públicos.
Trotsky propagandeou e “legalizou” o armamento das guardas vermelhas e da guarnição de Petrogrado para defender a cidade de um possível ataque alemão e garantir a realização do II Congresso dos Sovietes, a 24 de outubro de 1917. Com isso, preparou as condições para transformar uma tática defensiva em uma manobra ofensiva (um rápido golpe fulminante ao que restava do aparato estatal burguês) o que lhe permitiu tomar o poder na capital imperial sem disparar um único tiro. Dito de outra maneira, a insurreição de Petrogrado constituiu a expressão máxima da combinação de manobras de posição (defesa) com a guerra de movimento (ataque). Isto fez com que Harold Nelson definisse o plano de Trotsky como “praticamente inexpugnável: por trás de uma defensiva tática, ele escondia uma ofensiva estratégica”.
Entre 24 e 25 de outubro as guardas vermelhas e a guarnição de Petrogrado tomaram a cidade. O único edifício que ainda não fora tomado era o Palácio de Inverno. Enquanto os delegados debatiam e tomavam decisões no II Congresso, o cruzeiro Aurora bombardeou o Palácio com balas de festim. A rendição das últimas sombras políticas da burguesia encasteladas no velho prédio estava garantida. Os bolcheviques contaram com 2/3 dos delegados no Congresso, que somados aos socialistas revolucionários de esquerda resultavam 75% da representação soviética. A tomada do poder político estava consumada. Era o triunfo da revolução de Outubro. Seu maestro, Trotsky. Segundo Deutscher, em seu retorno da clandestinidade em Viborg, Lênin “reconheceu Trotsky, sem reservas, como um companheiro monumental numa ação também monumental”.
Uma contribuição chave para o marxismo na época imperialista
Uma das maiores contribuições de Trotsky ao marxismo foi ser o teórico (e prático) da insurreição proletária, ou seja, da tomada do poder político. Seus escritos enfatizaram como as posições conquistadas da classe operária devem servir ao combate que – dirigido por um partido revolucionário – concentre num ponto determinado a tensão de todas as forças para desferir um golpe mortal no Estado burguês. Trotsky analisou caso a caso distintos processos revolucionários e os momentos históricos de desagregação do poder burguês, definindo as situações precisas da articulação entre a preparação defensiva e a ofensiva da classe operária, para tomada do poder ou para conquistar novas posições preparatórias visando a batalha decisiva: a insurreição revolucionária de massas e a tomada do poder.
A não preparação e utilização das posições conquistadas para fortalecer a classe trabalhadora como sujeito político independente para a revolução é a base do fracasso de distintas correntes da esquerda que vislumbram posições na democracia burguesa como “fins em si mesmas”. Enquanto revolucionários, devemos pensar, pelo contrário, cada posição em função de sua utilidade para o combate e no fragor das lutas atuais, em meio à crise mundial, desenvolver a tarefa apaixonante de dotar os trabalhadores da ferramenta política que destruirá o capitalismo.
Como diz Trotsky, “O marxismo se considera como expressão consciente de um processo histórico inconsciente. Mas o processo ‘inconsciente’ em sentido histórico-filosófico só coincide com sua expressão consciente nos pontos culminantes, quando as massas, pelo impulso de suas forças elementares, arrebentam as comportas da rotina social e dão uma expressão vitoriosa às necessidades mais profundas da evolução histórica. A consciência teórica mais elevada que se tem de uma época, em um determinado momento, se funde com a ação direta das camadas mais profundas das massas oprimidas, afastadas de toda teoria. A fusão criadora do consciente com o inconsciente é o que se chama comumente inspiração. A revolução é um momento de impetuosa inspiração da história”.
Abaixo, um trecho do documentário sobre a Revolução Russa realizado pelo grupo Contraimagem, ligado ao PTS, organização irmã do MRT na Argentina.
A aprovação em primeiro turno da PEC 241 (ou PEC da Morte) representa um profundo ataque contra a maioria pobre da população brasileira e ao nosso futuro enquanto Nação livre e soberana. Afinal, está se cortando o investimento na educação e na saúde do povo brasileiro para que se continue financiando a riqueza e o fausto dos banqueiros, uma classe que enriquece ao custo da pobreza coletiva.
Mas não é sobre isso que eu quero falar. O que mais me impressionou nessa votação não foi a opção dos deputados em si, pois da maioria do congresso nacional eu só espero o pior. O que impressionou foi a realização de um banquete preparatório no final de semana, onde o presidente “de facto” Michel Temer convocou deputados e consortes para um banquete no Palácio da Alvorada ao custo estimado (por baixo) de 150 mil reais (ver imagem abaixo).
Esse banquete é um tapa na cara dos contribuintes que bancaram o regabofe e expressa bem como as elites políticas brasileiras se portam no momento em que vão atacar direitos sociais: custos para os pobres ,benesses para as elites.
Mas por uma dessas coisas que só a internet possibilita, encontrei a imagem abaixo numa página pessoal do Facebook e ela mostra que não é de hoje que as elites banqueteiam enquanto se preparam para aprovar medidas que implicarão em graves prejuízos aos pobres.
Essa foto é de Maio de 1917 e mostra um banquete na casa de um dos príncipes do Império do Czar Nicolau II no mesmo período em a nobreza russa votava o regime de contenção de alimentos para a população (em virtude da Primeira Guerra Mundial).
Pois bem, o que aconteceu cinco meses depois que um fotógrafo imortalizou esse jantar suntuoso? Sim, isso mesmo, a Revolução Russa! Aliás, esta foto foi tirada do livro de A’lbert P. Nenarokov intitulado “A revolução mês a mês” e que foi publicado no Brasil pela Editora Civilização.
Ainda que no Brasil nos falte um partido como o liderado por Lênin e seus camaradas, não posso deixar de pensar que também aqui o jantar suntuoso de hoje poderá ser sucedido por uma revolta do povo. A ver!