Escândalo no Tsulama: governo de MG expropria terras em Bento Rodrigues para a Mineradora Samarco construir dique de rejeitos

Já comentei neste blog o fato de que a primeira coletiva de imprensa promovida pelo governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), para tratar do TsuLama ocorrido em Bento Rodrigues ocorreu na sede da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Belo Horizonte. 

De lá para cá foram diversas as injunções promovidas pelo governo de Minas Gerais para livrar a cara das mineradoras envolvidas no maior desastre da mineração mundial nos últimos 300 anos em escala mundial. Um exemplo disso foi a estapafúrdia celebração de um acordo medido pela Advocacia Geral da União (AGU) que criou um fundo de recuperação do Rio Doce que seria financiado e gerenciado pelas três mineradoras que causaram o TsuLama em Bento Rodrigues.

Agora, o governo de Minas Gerais sob a batuta de Fernando Pimentel acaba de dar um super prêmio para a Samarco e suas proprietários. É que por meio do Decreto No. 500 de 20 de Setembro de 2016 que foi publicado nesta quarta- feira (21/09) pelo Diário Oficial de Minas Gerais (ver extrato abaixo), o governo mineiro efetivamente expropriou  (quer dizer, requisitou administrativamente ) parte do território de Distrito de Bento Rodrigues para que a Samarco (Vale + BHP Billiton) construa um novo dique de rejeitos (o chamado S4).

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Essa ação do governo Pimentel mais uma vez pune as vítimas e premia as mineradoras. Acompanhando os debates que têm ocorrido em Bento Rodrigues a partir do que é veiculado nas redes sociais, posso afirmar que esta interferência do estado em prol das mineradores vai totalmente de encontro ao que desejava a maioria dos moradores de Bento Rodrigues.

E, pior, dado o fato de que até hoje as mineradoras não pagaram qualquer indenização aos atingidos nem nenhuma das multas aplicadas pelo TsuLama, esse decreto de expropriação é um verdadeiro prêmio aos poluidores.  Aliás, não custa lembrar que a intenção de compra das terras de Bento Rodrigues já foi reportada em diferentes momentos. Agora, com o Decreto No. 500, a possibilidade é que as eventuais indenizações sejam pagas abaixo do valor de mercado que as terras tinham antes da ocorrência do TsuLama. Em outras palavras, um negócio da China para as mineradoras, e um tapa na cara de todos os proprietários que agora terão de entregar suas terras sem saber quando serão pagos.

Por outro lado, como mostra a figura abaixo, com a transformação da maior parte do distrito de Bento Rodrigues em um dique de rejeitos vão desaparecer um dique arqueológico tombado e um trecho da chamada Estrada Real. Assim, além dos prejuízos sociais e ambientais, ainda teremos perdas no patrimônio histórico de Minas Gerais.

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Finalmente, há que se lembrar que o governador Fernando Pimentel recebeu generosas doações da Vale para a sua campanha eleitoral em 2014. Agora, ao que tudo indica, chegou a hora de retribuir a generosidade.  É que além de entregar as terras sabe-se-lá a qual preço, Pimentel ainda delegou à Samarco amplos poderes para operar na área expropriada. Haja generosidade, com a mineradores é claro. É que para o povo de Bento Rodrigues o que vai sobrar é o mesmo tipo de respeito que lhe tem sido dispensado desde 0 dia 05 de Novembro de 2015. Ou seja, nenhum!

Samarco insiste, mas luta dos atingidos contra diques em Bento Rodrigues continua

Durante primeira audiência de conciliação com MPF, Samarco, Vale e BHP ignoram pauta dos atingidos e cobraram agilidade na liberação do dique que pode alagar comunidade

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O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) participou na tarde desta terça-feira (13) da primeira audiência de conciliação da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a Samarco, a Vale e a BHP  e que pede R$ 155 bilhões em reparação aos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão.

Famílias manifestaram no prédio na 12ª Vara Federal cobrando direito à participação nas decisões. Dos 25 presentes, apenas 9 conseguiram entrar. Mas, a juíza Rosilene Maria Clemente de Souza Ferreira acolheu todas as questões que o MAB apresentou, incluindo Assessoria Técnica em Barra Longa, asfalto para Ponte Nova como necessidade para rota de fuga e questões envolvendo a saúde da população. No entanto, as empresas e sua multidão de advogados pautaram toda a reunião com a nova barragem em Bento Rodrigues.

Apresentado como única solução técnica para impedir a descida de rejeitos para os rios Gualaxo, Carmo e Doce, os diques são questionados por atingidos, movimentos sociais e órgãos ambientais. “Temos a clareza de que o Dique S4 é uma manobra das empresas. Não para garantir a segurança dos atingidos, conforme alegado. Mas, para garantir o futuro da expansão da atividade mineraria, a destruição da memória do crime cometido e o alagamento de um patrimônio cultural e histórico que vai expulsar definitivamente as famílias daquele território”, afirma Thiago Alves, integrante da coordenação estadual do MAB em Minas Gerais.

Thiago Alves ainda questionou o papel do Estado neste processo de debate com as empresas. “Ficou nítido como os governos e seus órgãos estão empenhados em garantir os privilégios da Samarco. Hoje, o Advogado Geral do Estado de Minas foi, claramente, o Advogado Geral da Samarco. Nenhuma palavra sobre a pauta apresentado pelas famílias. Mas, a luta contra os diques em Bento continua. É uma questão de soberania e de respeito à memória das vítimas de um crime”, completou.

Luta por autonomia e participação

Um dos acordos da reunião foi a realização três perícias: para avaliar os danos da tragédia; para verificar se as ações que estão sendo feitas estão de acordo e para avaliar a situação socioeconômica. De acordo com o procurador, estas perícias devem ser custeadas pela Samarco, mas vinculadas ao MPF.

Também ficou acertado a realização de 11 audiências públicas em localidades ao longo do Rio Doce até 16 de dezembro. Cinco delas devem ser feitas em comunidades até a Usina Hidrelétrica de Risoleta Neves, conhecida como Candonga, três em locais após esse ponto e outras três em comunidades tradicionais.

Simone Maria da Silva, atingida e integrante do MAB de Barra Longa, espera que estas reuniões possam ser, de fato, um espaço de reinvindicação e autonomia dos atingidos. Mas, questionou a decisão da realização das perícias. “Como confiar nestes estudos se será a empresa a indicar os nomes? Não faz sentido!”, reclama Simone.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) continua mobilizado na bacia do Rio para questionar o processo de violação de direitos que continua crescendo. Respeito à autonomia das famílias, garantia do protagonismo no processo de reparação e punição para os criminosos da mineração é parte deste grande trabalho para reconstruir a Bacia do Rio Doce que cresce cada dia mais da Mariana e foz do Rio Doce.

Com informações do G1.

FONTE: http://tragedianunciada.mabnacional.org.br/2016/09/14/samarco-insiste-mas-luta-dos-atingidos-contra-diques-em-bento-rodrigues-continua/

TsuLama tem uma bomba relógio à espera das chuvas

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A imagem acima mostra a situação atual da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, também conhecida como  Candonga, que está localizada entre os municípios de Rio Doce e S.C.Escalvado, sendo denominada Candonga, em função da grande montando onde está inserida, que por sinal , está localizada também em terras riodocenses, ou seja, no município de Rio Doce/MG.

Por sua proximidade geográfica de Mariana, a UHE Risoleta Neves acabou estocando algo em torno de 10 milhões de metros cúbicos que vazaram da barragem de Fundão sa Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton). Foi a existência dessa barreira que impediu que esse volume gigantesco de rejeitos passasse diretamente para o sistema do Rio Doce. Entretanto, com a proximidade da estação chuvosa, a UHE Risoleta Neves está sendo transformada numa verdadeira bomba relógio que ameaça explodir e liberar ainda mais rejeitos na calha do Rio Doce.

Há que se destacar que apesar de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ter sido assinado em Junho de 2016 pela Samarco  com o Ministério Público de Minas Gerais, a Advocacia-Geral do Estado (AGE) e com o consórcio Candonga (Aqui!), até o momento as medidas estabelecidas não foram executadas, tornando a possibilidade de rompimento da UHE Risoleta Neves bastante provável.

Aí eu pergunto: por que nada está sendo feito para obrigar a Samarco, a Vale e a BHP Billiton (que são as donas da empresa causadora do TsuLama) a impedir que esse novo incidente ocorra?

Uma coisa é certa: se as chuvas ocorrerem mesmo nos valores médios históricos, é bem provável que em Novembro, quando a tragédia de Mariana completa um ano, estejamos diante de uma repetição mais do que anunciada do TsuLama. Simples, mas ainda assim completamente inaceitável.

 

 

Relatório do TsuLama: painel de experts chega a respostas desagradáveis para os contratantes

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A Mineradora Samarco e suas proprietárias (as mineradoras Vale e BHP Billiton) acabam de liberar um extenso relatório produzido por um painel de especialistas em reservatórios de rejeitos que foi contratado para elencar as possíveis causas do rompimento do reservatório de Fundão no dia 05 de Novembro de 2017 no município de Mariana (MG).

O documento intitulado “Report on the Immediate Causes of the Failure of the Fundão Dam” (ou em bom em português “Relatório sobre as causas imediatas da ruptura do Reservatório de Fundão”)  é assinado por Norbert R. Morgenstern (Chair), Steven G. Vick
Cássio B. Viotti e Bryan D. Watts.

É importante notar que as mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton contrataram este painel de especialistas com um mandato bastante estrito a partir de questões bastante focados que foram basicamente as seguintes: 1. por que o derramamento de rejeitos ocorreu, 2. por que o derramamento oocorreu no local onde se o evento se deu, e 3. por que o derramament ocorreu no momento e mque se deu?

A partir daí, o que fica claro é que todos os outros aspectos relativos ao pós-TsuLama ficaram de fora da análise desses especialistas todos os aspectos ambientais e sociais que decorreram do evento. Essa é para mim seria uma saída bastante conveniente para quem quer se livrar das responsabilidades por ter causado o maior desastre da área da mineração nos últimos 300 anos em todo o mundo!

Entretanto, mesmo com um mandato tão estreito e restrito ao processo de rompimento do reservatório de Fundão, os especialistas acabaram chegando a um cojunto de conclusões que trazem consequências potencialmente desagradáveis para as mineradoras. É que apesar de terem incluído até o misterioso terremoto que teria ocorrido no mesmo dia do rompimento do reservatório, o máximo que os especialistas puderem dizer foi que o evento sísmico pode ter apenas contribuído para acelerar o inevitável. 

Outro aspecto bastante interessante das conclusões dos especialistas é sobre o que tornou o rompimento de Fundão inevitável. Nesse caso, apesar de apontarem para a boa qualidade do “design” do reservatório, os especialistas apontaram que a forma de uso e manejo do reservatório contribuiu diretamente para o rompimento. Em outras palavras, a culpa das mineradoras está explícita num relatório que elas mesmas encomendaram!

Para quem quiser ter acesso a este relatório, basta clicar Aqui!. E, sim, o texto está disponível apenas em inglês e certamente não por acaso!

BHP Billiton, co-proprietária da Samarco, tem perdas bilionárias

Em um artigo publicado hoje no site World Socialist Web, o articulista Mike Head analisou as causas das perdas de cerca de 6,4 bilhões de dólares da mineradora BHP Billiton para o ano fiscal 2015/2016 (Aqui!). Estas perdas são bastante significativas e colocam a mineradora  no segundo pior posto de perdas econômicas entre as empresas australianas listadas em bolsas de valores.

Este resultado se mostra ainda mais dramático se for comparado com o resultado obtido pela BHP Billiton no ano fiscal 2010/2011 quando a empresa alcançou um lucro astronômico de 21,7 bilhões de dólares!

Entre as causas principais desse resultado desastroso foram arroladas a retração no processo de commodities minerais após 2011 e o desastre da Mineradora Samarco em Novembro de 2015 na cidade de Mariana (MG). O papel do incidente ambiental da Samarco é claramente expressivo na má fortuna que se abateu sobre a BHP Billiton, visto que  7,7 bilhões de dólares tiveram que ser alocados para cobrir, entre coisas, as reparações que terão ser pagas no Brasil. 

Como outras mineradoras, a BHP Billiton se tornou diretamente dependente das demandas oriundas do mercado chinês, o que se provou ser uma grande fragilidade quando o apetite da China por commodities minerais arrefeceu.

Para responder a essa crise, a BHP Billiton está tomando o mesmo rumo que qualquer corporação toma quando tempos difíceis aparecem: venda de ativos, redução de investimentos e demissão de trabalhadores. No caso das demissões, a BHP Billiton está estimando que irá demitir em torno de 17,000 trabalhadores, sendo que apenas na Samarco são esperadas 1,200 demissões.

Diante deste quadro todo, as expectativas de retomada das atividades da Samarco que já estavam complicadas agora certamente vão ficar ainda mais complicadas.

 

TsuLama: ainda impune pelo incidente de Novembro, Samarco faz planos para voltar a utilizar a barragem de Fundão

O jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria assinada pelo jornalista José Marques que tem tudo para transformar numa prova cabal de que a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) tem completa e total certeza de sua impunidade (Aqui!).

Chamo atenção abaixo, usando imagem da matéria, para mostrar que as mineradoras Vale e BHP Billiton, que são efetivamente as donas da Samarco, vem se valendo de todo tipo de estratégia para não conter o vazamento da barragem rompida em 05 de Novembro de 2015, enquanto fazem planos para voltar a despejar rejeitos de suas atividades de mineração em seu interior. De quebra, ficamos sabendo que o governo de Minas Gerais sabia das obras que resultaram no rompimento da barragem do Fundão.

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A questão que fica evidente a partir da leitura desta reportagem é de que as mineradoras continuam tocando seus negócios como o TsuLama nunca tivesse existido, e fazem planos para lucrar imensamente com a desgraça dos moradores de Bento Rodrigues.

E para quem pensa que a situação da Samarco é uma exceção na situação das barragens de rejeitos de mineração no Brasil, melhor pensar de novo. É que segundo reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico e assinada pelo jornalista pelo jornalista Murillo Camaratoo,  72% das barragens consideradas em condição de maior risco “sequer foram fiscalizadas pelo poder público nos últimos quatro anos“, e que o montante fiscalizado não chega nem a 50% dos reservatórios existentes no território nacional (Aqui!). (ver gráfico abaixo).

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E para piorar todo o prospecto socioambiental em torno das atividade de mineração, temos no congresso uma proposta que precariza ainda mais o chamado “Código de Mineração”, e abra caminho para uma ação ainda mais deletéria das mineradoras. É como se o TsuLama nunca tivesse existido, e o que importa é abrir ainda mais o caminho para suas múltiplas repetições.

Enquanto isso, os rejeitos continuam fluindo para o Rio Doce e a expectativa é de que uma estação chuvosa forte faça o desastre de Novembro parecer apenas um ensaio.  Enquanto isso, a Samarco e a Vale continuam divulgando suas propagandas bonitas para demonstrar um compromisso com a sociedade que não resiste a uma visita a Bento Rodrigues. 

Rede que defende atingidos da Anglo American mostra que moradores de regiões de próximas de barragens de rejeitos da mineradora temem repetição de Mariana

Comunidades rurais não confiam em sistema de alerta de barragem de rejeitos da mineradora Anglo-American

 “Não queremos ser mais uma Bento Rodrigues”   e  “queremos dormir sem precisar sair correndo sem rumo” foi a resposta dos moradores da comunidade e São José do Jassém, município de Alvorada de Minas, à proposta de um sistema de segurança para uma barragem de rejeitos da mineradora Anglo American na reunião ocorrida dia 27 de julho de 2016. O plano visa a instalação de uma sirene e rotas de fuga para facilitar o resgate dos moradores rurais localizados abaixo do empreendimento. O volume desta barragem será de 380 milhões de metros cúbicos, seis vezes maior do que a da Fundão da SAMARCO (Vale, BHP Billiton) no município Mariana, Minas Gerais, que rompeu em novembro de 2015, retirando 19 vidas, deixando centenas famílias desabrigadas e um lastro de destruição ao longo de mais de 600 km no Vale do Rio Doce.

 Um agravante no caso da barragem da Anglo American é o fato que existem, além da Comunidade de Jassém, os povoados Água Quente e Passa Sete, município de Conceição do Mato Dentro,  na área de risco imediato do empreendimento. Desde 2008 , com o início da instalação do empreendimento minerário, estas comunidades sofrem com a degradação e poluição que impossibilitou o consumo da água do Córrego Passa Sete e tornou a comunidade dependente do caminhão pipa. Já em 2014 – antes de finalizado licenciamento ambiental – o vazamento de produtos químicos da barragem de rejeitos provocou a morte de alguns bezerros que tomaram da água contaminada e de todos os peixes do Córrego Passa Sete que atravessa os povoados.

 Na reunião, os moradores também denunciaram outras violações das quais são vítimas nos últimos anos, tais como a intimidação através de seguranças da empresa mineradora que procura criminalizá-los pela retirada de lenha nas imediações do distrito do Jassém e outros usos tradicionais do rio que jamais configuraram uma ameaça ao ecossistema como as atividades devastadoras da mineradora.

Em relação à instalação da sirene pretendida pela Anglo American os representantes da comunidade Jassém criticam a política de informação e a relação com a comunidade adotada pela empresa, já que a mineradora tentou impedir que as outras comunidades supracitadas fossem  convidadas para a reunião ocorrida no dia 27 de julho. Além disso, a comunidade manifestou o seu interesse em conhecer os estudos que indicam o tempo de deslocamento da lama desde a barragem até cada uma das comunidades, em caso de rompimento, dados não informados pela empresa.

A ineficiência da instalação da sirene para garantir a segurança da comunidade que possui distribuição dispersa das moradias e dos estabelecimentos rurais, a presença de escolas, assim como o grande número de idosos e crianças, que, freqüentemente, ficam sozinhas nas suas casas foi apenas um dos argumentos utilizados pela população para repudiar a medida proposta pela mineradora. Indignados, os moradores exclamaram frases como  “sirene não é alternativa de segurança”, “sirene é para bandido” e “não queremos ser tratados como ratos de laboratório”. O único meio para evitar a exposição ao risco de uma catástrofe ainda maior do que em Mariana será o reassentamento da comunidade. Entretanto, esta alternativa foi prontamente rechaçada pela mineradora sob a justificativa vaga de “que esta hipótese não está prevista pela empresa”.

A postura da Anglo American mostra, de acordo com os moradores e seus apoiadores, que as mineradoras ainda não estão dispostas a aprender a lição do desastre tecnológico causado pela SAMARCO, que configura um cenário de crime ambiental e homicídio doloso causado pela negligência calculada na busca de diminuição de custos. Trata-se de uma forma de racismo ambiental em que os lucros dos acionistas valem mais do que as vidas das populações rurais tradicionais. Cabe lembrar que o caso da SAMARCO é apenas o mais grave de uma série de oito rompimentos de barragens em Minas Gerais, causando inúmeros danos ambientais e vítimas fatais.

REAJA- REDE DE ARTICULAÇÃO E JUSTIÇA AMBIENTAL DOS ATINGIDOS PELO PROJETO MINAS-RIO DA ANGLO AMERICAN

 
 

TsuLama e as chances desperdiçadas de evitar o agravamento dos seus danos

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O jornal O Tempo publicou hoje um duro editorial sob o título de “Jogo de empurra” (Aqui!) sobre a situação de extrema gravidade que está se avizinhando com a proximidade do período chuvoso na região de Mariana onde está depositada parte significativa dos rejeitos que escaparam do reservatório do Fundão da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) (ver imagem abaixo).

Editorial O Tempo

Deveria parecer incrível (mas a estas alturas nada que cerca este caso pode ser considerado assim) que após quase 9 meses da erupção do TsuLama ainda não tenham sido estabelecidas estruturas de contenção para o derrame dos rejeitos na calha do Rio Doce. Mas tais estruturas não só não foram construídas, como agora as donas da Samarco (Vale e BHP Billiton) ainda têm o displante de aparecer com uma proposta que implica na transformação do que restou do Distrito de Bento Rodrigues num depósito permanente de rejeitos.

Em outras palavras, a construção de um dique servirá para definitivamente tornar o crime ambiental cometido pelas mineradoras num grande negócio para elas mesmas. Enquanto isso, os moradores de Bento Rodrigues e os proprietários rurais que existem ao longo do caminho dos rejeitos em peões de um jogo de xadrez onde só as corporações podem ganhar.

Samarco quer transformar crime ambiental em grande negócio, mas só para seus donos

Em matéria assinada pelo jornalista José Marques, enviado especial do jornal Folha de São Paulo em Mariana (MG) ficamos sabendo que a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) que literalmente transformar o crime ambiental de 05 de Novembro de 2015 em um grande negócio (Aqui!).

samarcoÉ que tendo mais de 8 meses para estabelecer mecanismos que contivessem o aporte de seus rejeitos tóxicos nos rios que chegam ao Rio Doce, a Samarco agora quer simplesmente construir um dique cujos resultados serão inundar parte do Distrito de Bento Rodrigues e encobrir um muro histórico construído no Século XVIII.

A matéria mostra que esse dique é, na verdade, a forma mais barata que a Samarco quer impor para não ter que estabelecer estruturas que, apesar de mais caras, poderiam oferecer saídas mais efetivas e sem tanto dano para Bento Rodrigues. E, pasmemos todos, não há garantia de que será efetivo na contenção dos rejeitos que ainda vazam da barragem do Fundão no pico da estação chuvosa que se inicia em Outubro!

Há que se ressaltar que uma das desconfianças que emergiram dos depoimentos dados por moradores de Bento Rodrigues é de que, dado a disposição mostrada ao longo dos anos pela Samarco para comprar as suas terras, o incidente ambiental de 5 de Novembro acabou sendo um grande negócio para as mineradoras Vale e BHP Billiton que são as donas da empresa. Afinal, se livraram de um volume gigantesco de rejeitos sem ter comprar terras ou reassentar os moradores de Bento Rodrigues.

A construção desse dique parece ser a cereja no bolo de lama da Samarco.

Relatório do MPMG constata que barragem de Fundão não teria rompido com drenagem adequada

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) finalizou relatório em que constata que o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em novembro de 2015 no município de Mariana, teve início no chamado “recuo”, na região próxima à “ombreira” esquerda, de forma abrubta, sem qualquer sinalização, e rapidamente se expandiu para todo o corpo da barragem. O documento, elaborado com estudos realizados pela Geomecânica e o Norwegian Geotechnical Institute (NGI), apresenta as causas principais do desastre que causou 19 mortes e provocou uma corrida de lama ao longo de 600 km de rios. Segundo o relatório, sob condições drenadas, a barragem não teria rompido.

De acordo com as provas documentais e testemunhais que fazem parte dos inquéritos civis conduzidos pelo MPMG, em 2013, na elevação aproximada de 864m o eixo da barragem foi recuado a partir da sua região central em direção à ombreira esquerda. Como consequência da mudança no eixo e a criação do “recuo”, a nova seção da barragem, acima da elevação de 864m, passou a ter como fundação rejeitos que eram menos resistentes e menos permeáveis do que o esperado.

Consta no relatório que, para explicar a ruptura rápida, catastrófica, e sem aviso, os rejeitos na fundação da barragem precisariam não apenas ser de baixa resistência e menos permeáveis, mas, principalmente, suscetíveis à liquefação estática.

Com base nas análises realizadas, a ruptura da barragem pode ser explicada pela rápida  (não drenada)  ruptura progressiva em uma camada fraca ou zona fraca existente abaixo da barragem na região do “recuo” em torno da elevação de 860m.

Outras conclusões:

1) Sob condições drenadas, mesmo se o lençol freático tivesse chegado à superfície do material de rejeito  devido   a,   por   exemplo, um mau   funcionamento   do   sistema   de drenagem, a barragem de Fundão não teria rompido;

2) Como consequência da mudança no eixo e a  criação  do “recuo”,  os alteamentos  acima da elevação  864m  passaram  a  ter como  fundação  rejeitos  que  eram  menos  resistentes  e menos  permeáveis  do  que  o esperado;

3) A ruptura da  barragem de  Fundão  aconteceu  sob condições  não drenadas,  propiciada pela   ocorrência  de  pelo   menos  uma camada   de   baixa   permeabilidade  e   baixa resistência em, pelo   menos, uma   única   seção   da barragem, que apresentava resíduos altamente  heterogêneos  na  sua  fundação;

4) A análise de elementos finitos considerando  a  construção  contínua  da  barragem  na área do  recuo no  lado  esquerdo  da  barragem, acima  da  elevação  864  m, indica que a  tensão e  cisalhamento  horizontal aumenta  com  a  elevação  da  crista,  onde  o  talude  médio  de jusante muda  de  uma  leve  inclinação  para  uma  inclinação  mais  acentuada;

5) Um ponto local  situado  nesta camada  de  baixa  resistência  poderia estar  no  estado de ruptura   mesmo   quando   o   fator  de   segurança obtido   em  uma   análise   de estabilidade convencional não  indicasse  qualquer  problema;

6) Quando a  altura  da  barragem  atingiu um  nível  crítico,  em  torno  da  elevação  898  m, o ponto  local, em  estado  de  ruptura,  se  expandiu progressivamente  levando  a  uma  ruptura global como em um “efeito dominó”.

7) Esse nível crítico é função da permeabilidade, da resistência ao cisalhamento da zona fraca, associada à taxa de elevação da barragem,ao nível d´´agua e, principalmente, altura da barragem.

FONTE: https://www.mpmg.mp.br/comunicacao/noticias/relatorio-do-mpmg-constata-que-barragem-nao-teria-rompido-com-drenagem-adequada.htm#.V223wvkrKUk