São Mateus e a luta pelo direito à água potável

Ainda em São Mateus (ES) continuo acompanhando as tensões que cercam a situação de virtual colapso hídrico que está ocorrendo no município. Também estou podendo acompanhar a disposição da população em exigir da Prefeitura Municipal que haja o fornecimento de água em condições de consumo.

Duas demonstrações disso vão logo abaixo. A primeira é a capa da edição desta terça-feira de um jornal local, o Tribuna do Cricaré, que noticia a realização de um manifestação pública (o “Grito pela Água”) exigindo o fornecimento de água de qualidade após a cidade de São Mateus ficar exatos 59 dias sem água potável nas torneiras.

tribuna

A segunda demonstração é a convocação que está circulando nas redes sociais para a referida manifestação e que é assinada pela Frente Brasil Popular e pelo  Sindicato dos Trabalhadores em Àgua, Esgoto e Meio Ambiente do Espírito Santo

grito

Eu particularmente continuo achando a situação que está acontecendo em São Mateus algo para lá de estranho, já que a empresa municipal responsável pelo fornecimento de água e esgoto está declaradamente, e com autorização judicial, entregando água salinizada para a população. Se isso não for estranho, eu não sei o que seria. Afinal, por onde anda o chamado princípio da precaução? É que está mais do que provada de que a ingestão de água salinizada tem efeitos totalmente negativos sobre a saúde humana.

São Mateus é a face mais evidente do colapso hídrico que ronda o ES

Vim visitar São Mateus, município localizado no extremo norte do Espírito Santo, a convite para proferir uma palestra num seminário multidisciplinar no Faculdade do Vale do Cricaré com a temática centrada nos efeitos sociais e ambientais da implantação do Porto do Açu.

O que eu não havia antecipado é que encontraria o município que possui uma população de mais de 125.000 habitantes imerso no mais perfeito exemplo de colapso hídrico que resulta de uma combinação de diversos fatores, começando pela diminuição do aporte hídrico no Rio Cricaré, fato que agudizou um processo de intrusão salina causada pela chegada de água oceânica até o ponto de captação utilizado pelo Serviço Autônomo de Abastecimento de Água e Esgoto (SAAE) de São Mateus.

Como consequência desse processo de causas múltiplas, ao invés de se suspender a captação de uma água imprópria para o consumo, a opção feita pela Prefeitura de São Mateus e chancelada pela justiça, foi de manter o abastecimento de uma água que reconhecidamente não atende os padrões estabelecidos pelas portarias do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

Essa situação inusitada acabou gerando uma corrida à fontes alternativas de suprimento de água (dado que a água fornecida pela SAAE estaria imprópria para a maioria dos usos feitos corriqueiramente), gerando ainda um vigoroso comércio de água e de perfuração de poços. Como não há aparentemente um controle sobre a qualidade das águas obtidas nessas fontes alternativas, verifiquei que há uma atmosfera que mistura incerteza, inquietação e indignação na população de São Mateus. Também, pudera, como conviver com um contexto em que não existem alternativas sustentáveis para o caos criado pelo colapso hídrico que ronda São Mateus?

Por outro lado, achei também peculiar a solução que está sendo adotada pela Prefeitura Municipal de São Mateus para tentar resolver os problemas causados pelo colapso hídrico que ronda o município: privatizar a SAEE.  O temor de muitos habitantes de São Mateus é que depois da privatização a única coisa que mudará efetivamente será o custo da água salgada que chega em suas torneiras. 

Mas a pergunta que fica é a seguinte: quantas cidades brasileiras estão vivendo neste momento os mesmos problemas de São Mateus e a mídia corporativa não nos informou?