Argentina: o fundo de um afluente do Rio Paraná tem mais glifosato que um campo de soja

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Um estudo recente da Conicet detectou a presença alarmante de agroquímicos e metais pesados ​​na bacia de um dos principais rios do país.

“Não há nenhuma razão de Estado e dos interesses económicos das empresas para justificar o silêncio quando se trata de saúde pública”, disse o pesquisador Andres Carrasco (1946-2014), o cientista argentino célebre que desafiou a política estabelecimento e seus pares-a denunciar os efeitos nocivos do uso de glifosato em cultivos transgênicos quando ninguém fez.

Essa mesma frase lembrou Dr. Damian Marino, CONICET pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), durante uma palestra no Chaco, que apresentou os resultados de estudos que comprovaram a presença de resíduos de agroquímicos e metais pesados ​​nas águas do rio Paraná.

Como para os detalhes, a biólogo revelou que na secção superior da bacia “não há concentrações de vários insecticidas para uso agrícola”, enquanto que a partir da média para baixo “contém uma contaminação múltipla” com alguns metais e especialmente com glifosato.

“Eles são os sites mais afetados. O glifosato é uma molécula dominante. O Paraná está com problemas “, destacou Marino.

Ele também explicou que, se levadas em conta as normas internacionais, amostras excederam por uma ampla níveis toleráveis ​​presença de margem em relação ao inseticida endosulfan (proibida no país em 2013), e seus substitutos mais tarde: clirpirifós e cipermetrina.

“A publicação científica globalmente validada diz que todas as amostras de água excederam, pelo menos para alguns dos pesticidas, o nível de orientação recomendado para toda a biota aquática e recomenda a articulação de políticas imediatas. Hoje, no mercado mundial, 90 por cento dos pesticidas é o glifosato e os restantes 10% é dividido entre clirpirifós, cipermetrina e endosulfan “, ele disse e mencionou que resultados semelhantes foram obtidos no Rio Paraguai, que também foi incluído no trabalho.     

Os monitoramentos ambientais sobre as bacias Rio Paraná foram definidos em três fases: a primeira foi em 2013, o segundo, em 2016 e, mais recentemente, em Janeiro de 2017, com a presença de produtos agroquímicos em água e sedimento foi ratificado (lama de baixo).

“As amostras foram tomadas na foz dos córregos ou rios que drenam a partir do interior em direção Paraná, a fim de ver o gotejamento permanente sobre o grande rio”, disse Marino, que durante cinco anos (2010-2015) Ele realizou um trabalho de pesquisa sobre o estado dos recursos hídricos na área de Pampa del Índio, junto com a Dra. Alcira Trinelli, especialista em química da UBA e Conicet.

O especialista disse que, a partir das amostras obtidas, os efeitos letais (organismos mortos) e subletais (alteração de desenvolvimento e reprodução) foram analisados. “O que importa que se obteve é ​​que as concentrações de metais não excedeu os níveis de guias”, revelou, e apontou que apenas o chumbo encontrado em quase todas as amostras de sedimentos, abaixo das quantidades aceites, verificando o impacto das actividades humanas das cidades que cruza o Paraná em sua bacia.

Como exemplo, ele mencionou que as águas dos rios San Lorenzo, Saladillo e Pavón possuem sedimentos com concentrações mais altas que causam efeitos letais nos organismos. Em tanto, as implicações subletales foram notadas na alta cuenca (província de Buenos Aires), com alterações no crescimento ligadas a altos níveis de plaguicidas.       

“Olhando para os resultados, vimos que o glifosato estava preso em partículas em suspensão ou fazendo parte do sedimento. A partir da bacia média, a concentração começou a aumentar. E quando chegou ao auge de Luján, aumentou muito “, disse ele.

Levando números explicação e comparações advertiu níveis de glifosato mais AMPA (metabólito na degradação glifosato) encontrados na bacia do rio “são cerca de quatro vezes as concentrações podem estar em um campo plantado com soja”. Então ele concluiu:”O fundo de um rio que deságua no Paraná tem mais glifosato do que um campo de soja.”

Há mais: todas as amostras de água, material em suspensão e sedimento de fundo tiveram presença de inseticidas projetados para matar insetos. “Isso mostra que os inseticidas estão distribuídos em toda a bacia”, disse o pesquisador.

Biodiversidade no outono

O contexto inicial em que Marino localizou sua apresentação foi o relatório do Planeta Vivo, uma organização internacional que produz um índice que mede a biodiversidade do planeta. Este índice foi feito em 10 mil espécies de diferentes tipos. “É visto que entre 1970 e 2010, houve um declínio de 52% das populações em todo o mundo. Mas na América Latina o valor é de 80%. Não é que há menos espécies, mas que os grupos populacionais são menores “, disse ele, e passando para a experiência diária, ele explicou que as pessoas podem observar a presença de quantidades menores de rãs ou peixes.

Como um conceito emergente do relatório, ele enfatizou que em menos de duas gerações humanas, metade da população de espécies que estiveram na Terra durante toda a sua evolução foi destruída. Enquanto isso, usando o conceito de Pegada Ecológica, que é medido em vários países, disse que “a Argentina tem essencialmente uma pegada baseada em sistemas agro-produtivos”.

Então ele disse outra dados gráficos: tomar biocapacidade, ou seja, o quanto você pode oferecer ao mundo sobre o que está sendo usado, e cruzando com informações sobre a evolução da população, pode ser visto que o 08 de agosto de 2016 a humanidade consumiu todos os recursos naturais desse ano. “De lá, consumimos recursos a crédito, estamos levando-os para as gerações futuras. A última vez que saímos foi em dezembro de 1970. Hoje estamos consumindo um ano e meio de planeta. Algo não está indo “, ele avisou.

Nesse sentido, ele ressaltou que os pesticidas “são uma pegada que estamos deixando para os sistemas ecológicos” e disse que eles têm um conceito dinâmico associado a eles. A partir do momento da aplicação, os processos ocorrerão na atmosfera, no solo e outros que ligam o solo à água. Eles são todos dados simultaneamente “.    

O caso de Pampa del Indio

Depois de encontrar o glifosato na água usada para consumo em Pampa del Indio em 2012, a medida provisória teve efeitos e as pulverizações pararam de ser feitas em superfícies perto de cidades. Este foi resumida Doctor química da UBA e CONICET científica, Alcira Trinelli, que durante meia década água estudado para beber e para irrigação na localidade Chaco e lugares na área onde a população indígena é a vulnerabilidade social predominante e de alta .  

“Sabíamos que naquela época havia aviões fumigando sem restrições sobre o afastamento das áreas povoadas. Encontramos níveis elevados, como 500 partes por bilhão na entrada da estação de tratamento de água “, disse Alcira Trinelli.

Trinelli explicou que as amostras foram coletadas na estação de tratamento de água, tanques de água da escola, águas de Napa, Pampa Chica, Lote 4, Campo Medina e Campo Nuevo; o rio Bermejo e a rede de água Presidencia Roca. Houve campanhas de amostragem em 2012, 2013 e 2014.

“Graças à medida de precaução que foi registrada logo após as amostras em que o glifosato foi encontrado, a partir de 2013, as amostras não foram detectadas novamente”, disse ele. A coisa mais preocupante, ele lembrou, era a água analisada na área de Campo Medida, que misturava vários contaminantes.

O estudo em Pampa del Indio surgiu um pedido expresso da comunidade Qom na região, a falta de acesso à água de qualidade, e foi financiado por uma voluntária, concede o secretário de Políticas Universitárias e da própria universidade.

Como detalha Trinelli, o objetivo foi analisar a qualidade da água para consumo e irrigação, e assim poder gerar uma ferramenta científica que serviria para sustentar as reivindicações de acesso à água. “Em todos os lugares encontramos algum tipo de tóxico, exceto no rio Bermejo e na presidencia Roca”, concluiu o especialista.

Fonte: Foro Ambiental / Diario Norte

Links para pesquisar documentos (em Inglês): 


Este texto foi publicado originalmente em Espanhol pelo Foro Ambiental [Aqui!]

Banido na União Européia, acefato continuará com venda liberada no Brasil

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O anúncio pelo Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia  de que estabeleceu uma espécie de período de moratória para a soja brasileira se adaptar aos padrões vigentes para os limites máximos de glifosato  parece ter caído em ouvidos mocos no governo Bolsonaro.

É que a  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou no último dia 23 a atualização anual dos temas que fazem parte da lista de prioridades da agência para definição de regras até 2020.  E para este anor etirado da lista de prioridades, o processo de “revisão do regulamento técnico para o ingrediente ativo acefato em decorrência de sua reavaliação toxicológica”.

Como informou a “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o “acefato é um componente altamente tóxico usado em agrotóxicos e que pode causar câncer”, segundo a própria Anvisa.  Além disso, na nota técnica publicada por ocasião da reavaliação do acefato, a Anvisa estabeleceu que “o potencial carcinogênico do acefato foi avaliado em vários estudos em roedores (ratos e camundongos) e em um estudo em cães” e que “há uma preocupação em relação à exposição crônica à doses baixas aos possíveis efeitos sobre a saúde humana”.

O acefato é um agrotóxico do grupo dos Organofosforados cuja utilização tem sido associado a várias consequências negativas sobre a saúde humana. Em função disso, os organofosforados vem sendo paulatinamente proibidas em várias partes do mundo.   O uso acefato já se encontra completamente banido na União Europeia, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, onde é fabricado pela Nortox S/A.

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Um detalhe a mais é que uma das culturas onde o acefato é mais largamente usAado é justamente a soja, a mesma que está sob o efeito de uma “bandeira vermelha” na Rússia por causa do glifosato. Além disso, como já mostrado pela professora Larissa Bombardi na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, o limite brasileiro para resíduos de acefato na soja é três vezes maior do que o aplicado pela União Européia (ver figura abaixo).acefato soja

Assim, que nenhum grande produtor de soja venha reclamar se barreiras fitossanitárias foram levantadas por causa do amplo uso de agrotóxicos que, como o acefato e glifosato, estão sendo cada vez mais vistos como detrimentais à saúde dos consumidores.  É que eles estão sendo repetidamente avisados sobre os riscos de continuarem com seu modelo de agricultura viciada em agrotóxicos perigosos, vários deles banidos no exterior.

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Agronegócio viciado em agrotóxicos vai acabar quebrando o Brasil

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Modelo ancorado em grandes monoculturas tornou agricultura brasileira viciada em agrotóxicos.

A notificação recebida recentemente pelo governo Bolsonaro de que a Rússia irá suspender a compra de soja brasileira deveria ter soado um alarme estridente na mídia corporativa brasileira e, principalmente, nos altos escalões do agronegócio brasileiro.  É que, como já declarei em postagem anterior, se a Rússia está seguindo este caminho, outros parceiros comerciais o seguirão, incluindo a China. 

Entretanto, não acredito que essa sinalização russa será levada a sério, até que a seja concretizada. É que o mês de janeiro passou e ficará marcado pela liberação de mais substâncias tóxicas para serem usadas na agricultura, incluindo um agrotóxico à base de Sulfoxaflor, princípio ativo que tem sido associado ao extermínio de espécies não-alvo, incluindo as abelhas, que desempenham papel fundamental na polinização de diversas espécies. O Sulfoxaflor é tão polêmico que chegou a ter seu registro cancelado nos Estados Unidos, mas a licença foi recuperada depois, com restrições (ou seja, só pode ser usado em condições muito controlados. Apesar dos ativos presentes em outros 27 agrotóxicos já eram liberados no Brasil,  partes deles estão proibidos no exterior devido à alta toxicidade.

A verdade dura e crua é que o agronegócio brasileiro, que se suporta em grandes monoculturas de soja, cana de açúcar, milho e algodão, está crônica e agudamente viciado e dependente de agrotóxicos, muitos deles já banidos em outras partes do mundo. Um exemplo de substância banida por sua alta periculosidade à saúde humana (sendo considerado um mutagênico) e ambiental é o Paraquat (também vendido com o nome de Gramaxon).  No caso da China, maior produtor desta substância, o Paraquat foi banido de uso em lavouras chinesas desde 2016, e teve sua venda banida pelo governo chinês para o resto do mundo a partir de 2020.

Enquanto isso no Brasil, o banimento do uso do Paraquat só deverá ocorrer em 2020 (coincidentemente o mesmo ano em que a China deverá parar de produzir a substância ativa do agrotóxico). Isso se os esforços da bancada ruralista para derrubar este banimento não forem exitosos.

Mas os casos do Glifosato, do Sulfoxaflor e do Paraquat são apenas ilustrativos de uma ampla dependência do uso de venenos agrícolas por parte do agronegócio brasileiro. Como mostrou recentemente uma reporagem da Agência de Jornalismo Investigativo Pública, apenas em 2018  o governo “de facto” de Michel Temer aprovou o registro de 450 agrotóxicos, um recorde histórico, e destes apenas 52 são de baixa toxicidade (ver figura abaixo).

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Além das consequências negativas para o meio ambiente e para a população do Brasil, essa condição de viciados em veneno tenderá a criar um cordão de isolamento sanitário contra as commodities agrícolas brasileiras em todo o mundo.  

E que ninguém se surpreenda, se apesar dessa possibilidade, o agronegócio e seus representantes dentro do congresso nacional e do governo Bolsonaro  (a começar pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) continuarem a ampliar o registro de venenos agrícolas, incluindo os que já foram banidos em outras partes do mundo.  É que como a prioridade que parece guiar os representantes do agronegócio é com as escalas de curto e médio prazo, eles tenderão a prosseguir com essa marcha do envenamento, a despeito dos avisos e alertas que venham da comunidade científica e até dos principais parceiros comerciais brasileiros.

Desta forma,  há que se ampliar não apenas o conhecimento público da situação de envenamento coletivo via um modelo dependente em venenos agrícolas, mas também das formas de criação de mecanismos de apoio a modelos alternativos de produção de alimentos que são menos dependentes em venenos e fertilizantes sintéticos. Essa me parece será uma das principais batalhas a serem desenvolvidas no Brasil nos próximos anos.

Rússia pode parar compra de soja brasileira por excesso de agrotóxicos

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Excesso de resíduos de glifosato poderá levar a Rússia a suspender a compra de soja brasileira.

Faz algum tempo que venho alertando para os riscos que as principais commodities brasileiras estão correndo de sofrer um boicote generalizado de seus principais parceiros comerciais, entre outras coisas pelo excesso de resíduos de agrotóxicos que ultrapassam os limites estabelecidos em outras partes do planeta.

Para piorar a situação, o presidente Jair Bolsonaro colocou à frente do ministério da Agricultura uma deputada que liderou as tentativas de aprovação do chamado “Pacote do Veneno” no Congresso Nacional.  Apesar de não ter conseguido a aprovar o Pacote do Veneno, a ministra Tereza Cristina está usando o seu cargo para aceleração da entrada de agrotóxicos extremamente tóxicos no mercado brasileiro. Uma prova disso é que só em janeiro foram liberados 28 agrotóxicos e princípios ativos; entre  o Sulfoxaflor, que já foi banido nos EUA e agora só pode ser usado por lá em condições altamente controladas.

Pois bem,  o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) informou hoje (31/01) que poderá proibir temporariamente a importação de soja brasileira devido à  alta quantidade de resíduos de agrotóxicos, principalmente do herbicida glifosato (ver comunicado oficial do Rosselkhoznadzor logo abaixo).

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Em seu comunicado,  o Rosselkhoznadzor afirma que já avisou à Secretaria para a proteção de plantas e animais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil sobre a necessidade de tomar medidas urgentes para garantir o cumprimento dos regulamentos técnicos da União Aduaneira TR TS 015/2011 “Sobre a segurança dos grãos” em termos de conteúdo de pesticidas fornecido à Rússia produtos. 

Na prática, isso significa que foi dado um prazo para que os produtores brasileiros se ajustem à diretiva TR TS 015/2011 sob pena de terem a sua produção bloqueada no mercado russo. 

Como alguém que estuda o uso de agrotóxicos há quase duas décadas, eu fico só imaginando o que as autoridades sanitárias russas farão quando souberem os tipos de agrotóxicos que foram aprovados pelo governo Bolsonaro apenas ao longo do mês de janeiro.

Outro detalhe que mereceria ser levado em questão é que se os russos realmente implementarem essa suspensão na compra de soja brasileira por causa do excesso de agrtóxicos, outros mercados ainda mais exigentes irão inevitavelmente seguir o exemplo.

Aí vamos ver como vai se sair a ministra Tereza Cristina e a bancada ruralista que são os responsáveis diretos pelo aumento do grau de contaminação da produção agrícola brasileira por agrotóxicos de alta toxicidade. 

Uma viagem aos povos fumigados da Argentina

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Ainda que eu sempre fale das graves consequências sociais e ambientais do abundante uso de agrotóxicos (muitos deles proibidos em outras partes do mundo) na agricultura brasileira, é importante lembrar que o caso da Argentina é ainda mais agudo em muitos aspectos. Lamentavelmente, os brasileiros não têm muito conhecimento do que se passa no país vizinho, onde os monocultivos de soja resultaram em processos de contaminação ambiental e humana que podem servir como uma espécie de  “worst case scenario” do que se passa por aqui.

Felizmente, há uma forte resistência entre os argentinos ao modelo de envenenamento que os cultivos impuseram em seu país. De quebra, também existe uma crescente documentação visual sobre os impactos que os agrotóxicos estão tendo sobre ecossistemas e seres humanos.

Graças a um colega professor que é argentino, recebi a sugestão para que assistisse ao documentário “Viaje a los pueblos fumigados” do diretor Fernando E. Solanas que foi lançado no início de 2018, e que permanece basicamente desconhecido no Brasil (ver extrato abaixo).

Entre os dados mais alarmantes que o documentário apresenta estão os casos de malformação, abortos instântaneos e câncer, cuja incidência explodiu nas provîncias argentinas onde o uso de agrotóxicos foi exponencializada pelo uso de soja transgênica fortamente.

Quem desejar assistir à versão integral deste documentário altamente revelador das chagas sociais e ambientais causada pelo uso intensivo de agrotóxicos na Argentina, basta clicar [Aqui!].

Enquanto Brasil afronta, EUA vendem soja para a China

As últimas semanas têm sido caracterizadas por uma série de ataques de membros da família Bolsonaro contra a China, percebida como um dos componentes de uma pretensa ameaça comunista ao Brasil [1]. Isto em que pese a China ser atualmente o primeiro parceiro comercial do Brasil, sendo inclusive o principal mercado para a soja, principal commodity da agricultura brasileira.

Pois bem, eis que hoje (13/12), o jornal China Daily publicou uma matéria informando que a China irá realizar uma grande aquisição de soja, só que dos EUA [2].  Esta compra será segundo o China Daily, uma espécie de porta voz extra oficial do governo chinês, uma demonstração de boa vontade da China para com os EUA no processo de retomada de negociações para resolver as pendências comerciais existentes entre os dois países.

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Como se pode verificar de apenas esta única aquisição que beira o valor de US$ 180 milhões, o governo Trump pode até arreganhar os dentes para a China, mas não tem como desprezar o potencial de consumo do mercado chinês. E aí o que conta é a necessidade de vender produtos, e a ideologia que se dane.

A coisa é que a geopolítica da trocas capitalistas não tem mais (se algum dia já teve) espaço para amadores. E seria bom que o governo Bolsonaro entendesse isso logo na relação com a China. Do contrário, quem vai acabar sendo isolado do mercado chinês de soja será o Brasil. Aí eu gostaria de ver o que diriam os latifundiários que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/poder/376943/Chanceler-informal-Eduardo-Bolsonaro-amea%C3%A7a-rela%C3%A7%C3%A3o-Brasil-China.htm

[2] http://www.chinadaily.com.cn/a/201812/13/WS5c127dbaa310eff303290e56.html

França lança plano para evitar desmatamento que pode impactar soja transgênica

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Parcela da Floresta Amazônica desmatada para uso de agricultores. REUTERS/Nacho Doce

Por RFI

O governo francês adotou nesta quarta-feira (14) sua “Estratégia Nacional contra o Desmatamento Importado (SNDI)”. O plano interministerial prometido ao ex-ministro ecologista Nicolas Hulot tem como objetivo oficial “encerrar até 2030 o desmatamento causado pela importação de produtos florestais ou agrícolas não sustentáveis”, o que pode ter impacto na soja transgênica produzida no Brasil e em outros países da América Latina, destinada à alimentação do gado, além do óleo de palma do sudeste da Ásia e o cacau da África.

Um relatório recente da ONG WWF mostrou que nos últimos cinco anos a França contribuiu potencialmente para o desmatamento de 5,1 milhões de hectares apenas com a importação de sete matérias-primas, incluindo a soja, o couro e o dendê. Entre 1990 e 2015, a área florestal do planeta foi reduzida em 129 milhões de hectares, uma superfície equivalente ao dobro do tamanho do território francês. Esse desmatamento é responsável por cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa e tem consequências desastrosas para a biodiversidade.

De acordo com cálculos da ONG Envol Vert, divulgados na semana passada, os hábitos de consumo dos franceses (carne, ovos, couro, agrocombustíveis, cacau, borracha etc.) levam a um desmatamento anual massiço.

O plano de 17 medidas propõe uma mudança nas práticas de todos os atores do mercado, começando pelos países produtores dessas matérias-primas. No entanto, a iniciativa não tem caráter vinculante nem prevê sanções.

Monitoramento visual das áreas desmatadas

No início de 2019, será lançada uma plataforma onde as empresas francesas importadoras desse tipo de insumo poderão se informar sobre produtos de origem duvidosa, tendo acesso a dados de controles de fronteira aprimorados, dados alfandegários e de monitoramento por satélite da cobertura florestal. Essa plataforma também terá a missão de desenvolver até 2020 um selo de “desmatamento zero” para orientar os consumidores. O plano não prevê multas ou a proibição de importações, mas aposta numa mudança de mentalidade para reduzir o desmatamento.

As matérias agrícolas visadas inicialmente pelas medidas são soja, óleo de palma, carne bovina, cacau, borracha e madeira. Mas a lista poderá ser acrescida de outros produtos, como café, algodão, cana-de-açúcar, milho e produtos de mineração, em etapas de revisão do dispositivo previstas em 2020 e 2025.

Campanha de imagem

Em relação à soja transgênica utilizada na alimentação do gado, a intenção do governo é promover alternativas, em discussão com os produtores, para alcançar a autonomia proteica a partir de 2030. Mas nada impede que até lá atores públicos, como municípios e regiões, além de empresas, adotem a tática de “nomear para envergonhar” (“name and shame), educando os consumidores para marcas e produtos que não respeitam as florestas, disse o Ministério da Transição Ecológica.

O diretor-geral da WWF na França, Pascal Canfin, felicitou o governo pela “estratégia nacional mais completa produzida até hoje nessa área”. A iniciativa propõe “um ângulo concreto” para enfrentar o declínio da biodiversidade, afirma Canfin, um tema que ainda enfrenta lacunas jurídicas e de conteúdo político e diplomático sensíveis. Segundo Canfin, as mudanças vão depender da capacidade de liderança política e da mobilização da sociedade civil nessa direção.

Já a ONG Greenpeace considerou “tímidos” os avanços do governo e lembrou que o plano não remedia a autorização concedida à petrolídera Total para importar 550 mil toneladas de óleo de palma para sua biorefinaria de La Mède (sul). Clément Senechal, responsável pela campanha de florestas na Greenpeace França, criticou a falta de mecanismos de coerção no plano, nenhuma proibição ou regulação. “Como poderemos freiar o desmatamento dessa forma?”, questionou Senechal.

FONTE: http://br.rfi.fr/franca/20181114-franca-lanca-plano-para-evitar-desmatamento-que-pode-impactar-soja-transgenica?fbclid=IwAR0FrSGr_ODzMxxQ6uFNW4BKZZKyjOnNUVj2NaxEHekBJUB-dMoza5EywTg

 

Extinção do Ministério do Meio Ambiente tornará Brasil um pária no sistema de nações

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O anúncio feito hoje de que o Ministério do Meio Ambiente será fundido com o da Agricultura é uma forma indireta de dizer que o mesmo será extinto [1]. Esta medida sendo tomado em um país que contém os principais estoques de biodiversidade do planeta não pode ser tomada de forma leve, pois representa um erro gravíssimo e que comprometerá ainda mais a já depauperada imagem internacional do Brasil.

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Para quem não sabe, o Brasil foi, ainda na vigência do regime militar instaurado em 1964, um dos pioneiros na criação de um órgão específico para cuidar das questões relacionadas ao meio ambiente. Isto ocorreu em 1973 com a criação da  Secretaria Especial de Meio Ambiente, então vinculada ao Ministério do Interior,  com a promulgação do Decreto nº 73.030, de 30 de outubro de 1973.

Como alguém que realiza estudos relacionados na Amazônia desde 1991 não posso deixar de apontar que hoje o Brasil já possui dificuldades significativas para entrar na União Europeia que possui regras bastantes rígidas para a entrada de carne, por exemplo, vinda de áreas recentemente desmatadas na região amazônica.  Como já existe quem antecipe o estabelecimento de aceleração de desenfreada do desmatamento na Amazônia graças às várias promessas feitas pelo presidente eleito, o que poderia chegar a um aumento de quase 300% de novas áreas de florestas impactadas [2].

O incrível é que existem evidências científicas suficientes demonstrando que há um ligação direta entre a floresta amazônica e o cerrado com a disponibilidade de água no território nacional. Essa ciência é robusta e está amparada em incontáveis estudos acerca dos impactos climáticos locais e regionais do desmatamento na Amazônia. Em outras palavras, a facilitação do desmatamento e do aumento da área degradada nesses dois biomas deverá acarretar ciclos ainda mais agudos de seca e escassez hídrica para além da Amazônia e do Centro Oeste. Isto apenas se for considerado os impactos nacionais. O problema é que a proteção da Amazônia e seus estoques de carbono é um elemento chave na tentativa de impedir que as mudanças climáticas se tornem ainda mais aceleradas. 

Desconhecer a necessidade ampliar o processo de proteção ambiental trará consequências desastrosas para o Brasil e sua já combalida economia. Como bem alertou hoje a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a extinção do ministério implicará num triplo desastre, na medida em que: 1) trará prejuízo à governança ambiental e à proteção do meio ambiente; 2) passará aos consumidores no exterior a ideia de que todo o agronegócio brasileiro, em que pese ter aumentado sua produção por ganho de produtividade, sobrevive graças à destruição das florestas, sobretudo na Amazônia, atraindo a sanha das barreiras não tarifárias em prejuízo de todos; 3) empurrará o movimento ambientalista, a ter que voltar aos velhos tempos da pressão de fora para dentro, algo que há décadas vinha sendo superado, graças aos sucessivos avanços que se foram galgando em diferentes governos, uns mais outros menos [3].

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Particularmente não acredito que os formuladores da nova estrutura ministerial serão demovidos dessa extinção desastrosa.  O que veremos será um avanço da franja de desmatamento nos mesmos moldes que a região amazônica experimentou no início da década de 1970, algo que um dos generais que assessoram o presidente eleito já se mostrou nostálgico.  Essas são favas praticamente contadas, e provavelmente favas de soja. O problema para o Brasil é que o mundo mudou bastante nas últimas 4 décadas e os custos políticos e econômicos serão incalculáveis.  


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/30/governo-bolsonaro-transicao-fusao-ministerios-guedes-e-onyx.htm

[2] http://amazonia.inesc.org.br/destaque/desmatamento-saida-do-acordo-de-paris-a-amazonia-no-governo-bolsonaro/

[3] https://www.revistaforum.com.br/marina-critica-extincao-do-ministerio-do-meio-ambiente-retrocesso-e-incalculavel/

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

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A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

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A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts

Paraísos fiscais protegem empresas responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e pesca excessiva no mundo

70% dos navios implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada estão registrados em paraísos fiscais, segundo o relatório

soja guardian

Monocultura de soja na floresta amazônica perto de Santarém, no Brasil, com algumas árvores isoladas. Foto: Ricardo Beliel / LightRocket / Getty Images

Por Fioney Harvey, correspondente do “The Guardian” para matérias relacionadas ao Meio Ambiente

O dinheiro canalizado através de paraísos fiscais secretos tem sido usado para alimentar o desmatamento na Amazônia e a pesca ilegal em todo o mundo, acumulando um pesado custo ambiental, mas deixando poucas maneiras para as empresas serem responsabilizadas.

Bilhões de libras esterlinas foram enviados países reconhecidos como paraísos fiscais, e foram rastreadas como tendo sido usadas em atividades que contribuem para a destruição do meio ambiente, tais como o crescimento da monocultura da soja e produção de carne bovina em áreas desmatadas da Amazônia, e expandir uma rede, em grande parte não regulamentada, de navios de pesca que operam sob “bandeiras de conveniência”.

Os montantes traçados são provavelmente apenas uma fração do montante total canalizado através de paraísos fiscais que acabam financiando praticas ambientalmente destrutivas, de acordo com Beatrice Crona, co-autora de um relatório publicado hoje na revista “Nature, Ecology and Evolution”.

Victor Galaz, do Stockholm Resilence Centre da Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, acrescentou que: “o uso de paraísos fiscais não é apenas um desafio sociopolítico e econômico, mas também ambiental. Embora o uso de paraísos fiscais não seja ilegal, o sigilo financeiro dificulta a capacidade de analisar como os fluxos financeiros afetam as atividades econômicas no terreno e seus impactos ambientais. “

O estudo constatou que mais de dois terços do capital estrangeiro direcionados aos setores de soja e carne bovina do Brasil entre 2000 e 2011, conforme registrados pelo Banco Central do Brasil, foram canalizados por meio de paraísos fiscais.  E os plantios de soja a pecuária bovina têm sido associados ao desmatamento na Amazônia.

Durante o período estudado, quase US$ 27 bilhões de capital estrangeiro foram transferidos para empresas-chave dentro desses setores, e cerca de US$ 18,4 bilhões vieram de paraísos fiscais, sendo que as Ilhas Cayman foram as mais usadas.

Beatrice Crona, diretora-executiva da Comissão Econômica para a Dinâmica global e do Programa Biosfera na Real Academia Sueca de Ciências, disse que a disponibilidade dos dados do Banco Central do Brasil para o período em questão foi incomum, e jogou um pouco de luz sobre o que é provavelmente um negócio global muito maior.

Os defensores do verde pediram aos governos que tornem os fluxos financeiros mais transparentes. “Isso é dinheiro sujo, usado para alimentar atividades ilegais que estão impulsionando a crise ambiental global”, disse Elaine Gilligan, ativista internacional da Amigos da Terra. “Comunidades de evasão fiscal agressivas de fundos necessários para uma série de medidas, entre elas as proteções ambientais que desempenham um papel no combate ao caos climático.”

Esta ações estão atrasadas,  afirmou Gilligan. “Está claro que o governo do Reino Unido pode fazer muito para consertar isso. Para começar, eles devem apoiar os esforços internacionais para cobrar impostos e cumprir seu compromisso de maior transparência nos territórios ultramarinos britânicos “.

Andrea Marandino, gerente de finanças sustentáveis ​​do WWF, acrescentou que as empresas também podem desempenhar um papel. “A natureza está enfrentando ameaças sem precedentes à medida em que continuamos a tirar mais recursos das áreas naturais mais ricas do mundo. Os paraísos fiscais dificultam o rastreamento dos fluxos internacionais de capital e isso significa que não há responsabilidade “, disse ela. “Se quisermos garantir um futuro para áreas como a Amazônia, precisamos ter uma maior transparência corporativa e rastreabilidade dos fluxos de capital ao redor do mundo que financiam a destruição da natureza.”

Nos oceanos, cerca de 70% dos navios que foram implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada, foram registrados em paraísos fiscais, de acordo com os resultados do estudo. A posse de barcos de pesca tem sido de interesse para os ativistas, devido às enormes diferenças existentes no monitoramento e regulação da pesca em várias jurisdições. Teias complexas de propriedade permitem que as capturas sejam comercializadas, desembarcadas e, em alguns casos, eliminadas fora dos regulamentos que devem impedir a sobrepesca.

Tony Long, executivo-chefe da Global Fishing Watch, disse: “[O jornal] acrescenta à crescente evidência que ilustra as práticas criminosas e obscuras que fornecem cobertura para a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada [IUU]. Um foco internacional em bandeiras de conveniência e sua diligência insuficiente no monitoramento de suas embarcações sinalizadas já está há muito tempo “.

Os proprietários de embarcações podem usar “bandeiras de conveniência” para disfarçar suas atividades ou torná-las mais difíceis de rastrear, registrando sua embarcação sob a jurisdição que tem regulamentação frouxa sobre o envio. A enorme sobreposição entre os navios conhecidos por estarem operando em pesca IUU e voando bandeiras de conveniência de paraísos fiscais reconhecidos mostra a extensão do problema, disseram os autores do estudo da Nature.

Há muito tempo pedimos mais transparência nos movimentos dos navios, licenciamento, documentação de captura e a divulgação dos verdadeiros proprietários de todos os navios de pesca. “Sem isso, esses operadores inescrupulosos extrairão tudo, do oceano, para os próprios bolsos, com dinheiro às custas da sustentabilidade, afirmou Tony Long.

O secretismo de que as empresas desfrutam nos seus negócios em paraísos fiscais é usado principalmente para reduzir seus pagamentos de impostos, transferindo dinheiro entre as jurisdições para aproveitar as baixas taxas de impostos. Alguns dos métodos utilizados e empresas envolvidas foram destacados nos últimos anos por revelações nos chamados Panama Papers e os Paradise Papers, amplamente cobertos pelo “Thr Guardian”.

Mas a falta de transparência também permite que aqueles que querem esconder suas atividades destrutivas ao meio ambiente, disseram os pesquisadores no estudo da Nature. Eles pediram que a ONU examinasse como esse dinheiro financia o dano ambiental.

A abertura dos paraísos fiscais para o escrutínio minucioso dos órgãos reguladores e do público seria impopular com milhares de empresas, muitas delas nomes familiares, que tiram proveito de sua existência e da regulamentação frouxa que os mesmos proporcionam.

Muitas empresas se orgulham de seus altos padrões ambientais, mas ainda canalizam fundos por meio de paraísos fiscais para reduzir seus pagamentos de impostos, que custam aos governos US $ 200 bilhões por ano em receitas fiscais perdidas. Uma vez que o dinheiro passe para paraísos fiscais, há pouca maneira de descobrir como e onde ele foi usado.

O artigo do jornal Nature não nomeia empresas individuais, embora algumas tenham sido questionadas como parte da pesquisa.

Quem desejar ler o artigo a que esta matéria se refere, basta clicar [Aqui!]


Este artigo foi originalmente publicado em inglês no “The Guardian” [Aqui!]