Com a demissão de Mandetta vem por aí a subnotificação da subnotificação

subnotificacao_interna_01042020

A mais do que anunciada demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), poderá se concretizar nas próximas horas.  Mandetta sairá do ministério com um dos menores índices de testagem para a infecção do coronavírus no mundo, e, com isso, deixará (caso sua demissão seja confirmada) o Brasil sem uma política clara de enfrentamento da difusão exponencial da COVID-19. Em que pese as supostas refregas com o presidente Jair Bolsonaro, esse será o real legado de Mandetta.

teste

Número de testes para detecção do coronavírus no Brasil é irrisório e dificulta a coordenação ao controle e combate da pandemia

Mas como no Brasil as coisas sempre podem piorar, há que se ver quem será indicado para preencher o cargo hoje ocupado por Mandetta. É que apesar de fraco e compromissado com os setores privatistas da saúde brasileira, Mandetta acabou se sobressaindo no mar de incompetências que caracteriza o ministério formado por Jair Bolsonaro.  Em outras palavras, o ministro da Saúde acabou se tornando um rei porque tem pelo menos um olho nesse pandemônio em que o sistema político brasileiro se tornou. Outros ministros que antes eram tidos como o filé mignon do ministério de Bolsonaro simplesmente saíram de cena para preservar a própria pele, sendo Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Fazenda) os principais exemplos dessa postura de desaparecimento em momento de crise aguda. Agora, perigamos ver não apenas um negacionista da pandemia assumindo o cargo, mas alguém que se dedicará a dificultar ainda mais aquilo que Mandetta já tornou difícil.

Falo aqui da correta identificação do número de infectados e óbitos associados à infecção pelo coronavírus.  Essa será uma manobra óbvia que um ministro alinhado à visão negacionista de Jair Bolsonaro deverá realizar.  Mas também deverá ter dificuldades maiores ainda para a realização de testes para a verificação da infecção pelo coronavírus. Esses dois passos criarão em um primeiro momento o reforço de que o problema não é tão grave quanto cientistas e médicos tentam demonstrar, e, depois, uma aceleração exponencial da pandemia em todo o território nacional.

O problema é que como em países onde a COVID-19 já ceifou milhares de vida também no Brasil será difícil ocultar os milhares de cadáveres que vão ser geradas por uma política intencional de negligenciar um vírus cuja letalidade está mais do que demonstrada.  Com isso, saíremos do negacionismo para uma profunda crise política, a qual se encontrará com uma forte recessão econômica.

cemitério© FELIPE RAU/ESTADAO Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo 

Todo esse cenário reforça a necessidade de que se dissemine o mais amplamente possível a falaciosidade dos embates dentro do governo Bolsonaro em relação a essa pandemia. Todo meio de esclarecimento nesse processo deverá ser utilizado, pois ampliar a informação sobre a situação que realmente enfrentamos será fundamental para se alcancem soluções que, por um lado, minimizem o número de mortos e, por outro, preparem uma resposta organizada aos ataques aos direitos sociais e trabalhistas que estão sendo realizados enquanto grassa a confusão gerada propositalmente acerca da necessidade de enfrentar com a devida seriedade a pandemia que nos ameaça.

 

Meu nome é COVID-19, mas pode me chamar de SRAG

srag

Um dos meios de se abafar um determinado problema é chamá-lo por outro nome.  E esse parece ser exatamente o caminho que os governantes brasileiros estão escolhendo para achatar artificialmente a curva do número de mortes pelo coronavírus (a.k.a. COVID-19).  

É que os dados oficiais estão registrando, e a mídia corporativa noticiando de forma não relacional, o aumento explosivo da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em meio à pandemia da COVID-19, como se uma coisa não tivesse muito a ver com a outra, quando tem.

Vejamos por exemplo, os dados de SRAG que foram compilados pelo jornal “O POPULAR” que é publicado em Goiânia para  o período de 2016 a 2020 (que mal chegou a abril) que demonstram um aumento explosivo para essa condição no estado de Goiás.

doenças respiratórias

Fonte: O Popular

Ainda que a SRAG possa  ser causada por diversos tipos de vírus, o fato é que, neste momento, o número acachapante de casos em meio à pandemia do COVID-19 deveria servir para que providências mais severas fossem tomadas para se testar de forma célere os pacientes para se determinar qual agente infeccioso foi responsável por causar a condição.  Mas até onde se sabe, não é isso que está ocorrendo e muitos estão sendo enterrados sem que os testes estejam sequer sendo realizados.

Por isso é que cresce a taxa de subnotificação e, por consequência, o risco de que o Brasil se torno o próximo epicentro global do COVID-19.  Enquanto isso, os números da SRAG poderão continuar sendo contabilizados, como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra.

Subnotificação gigantesca agrava pandemia da COVID-19 no Brasil

Covid-19: número de mortes sobe para 201; são 5.717 casos no Brasil

No dia 25 de março comentei o problema que estava se armando no horizonte em função da evidente subnotificação de casos da COVID-19 no Brasil. Ali mostrei estimativas do Imperial College de Londres de que a taxa de subnotificação brasileira estava na ordem de 11:1. Desde então, já li outras estimativas que colocaram a subnotificação em uma faixa de 11:1 a 100:1, o que torna os números oficiais minúsculos em relação ao que está realmente ocorrendo.

Eis que hoje, o jornalista Fernando Canzian publicou um artigo no jornal “Folha de São Paulo”  cujo o título é “Estados e municípios relatam subnotificação gigantesca de casos” (de COVID-19).  Nesse artigo, a subnotificação foi estimada como estando na ordem de  30:1.  

subnotificação canzian

Assumindo então que a taxa correta de subnotificação é de 30:1, o número oficial de infectados, como fornecido pela Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeiro Preto (FMRP/USP) que até ontem era de 6.836 pessoas, o valor real de infectados passaria a 205.080  de brasileiros.  Isto faz com que o número potencial de infectados esteja entre 6.836 e 205.080, o que dificulta sobremaneira estimativas mais precisas sobre a evolução da pandemia em território brasileiro. Isto acaba deixando os profissionais de saúde e gestores governamentais completamente cegos em meio à batalha contra a COVID-19.

covid 19 números

A matéria assinada por Fernando Canzian traz duas razões pelas quais o Brasil está hoje em um efetivo voo cego contra a COVID-19.   A primeira seria a  falta de kits para testes, e a segunda a inexistência de uma portaria específica do Ministério da Saúde para determinar quais casos devam ser considerados confirmados ou suspeitos têm feito com que muitos doentes não entrem nas estatísticas. Em outras palavras, o Ministério da Saúde é o lócus primário para a falta de preparação que dificultam a vida dos governos estaduais e municipais, e dos profissionais de saúde que estão à frente do combate à pandemia. 

Por causa dessa situação que é de inteira responsabilidade do governo Bolsonaro, o Brasil está cada vez mais dependente das ações de isolamento social que estão sendo impostas por estados e municípios.  Será graças a elas que o Brasil poderá evitar os piores cenários em termos de mortos pela COVID-19. 

Por outro lado é fundamental que haja uma mobilização política por parte de cidadãos, organizações da sociedade civil, sindicatos, partidos políticos e até de representantes das grandes empresas nacionais para impor uma modificação no curso adotado até aqui pelo governo Bolsonaro no enfrentamento desta pandemia. Do contrário, o que teremos em poucas semanas no Brasil é a repetição agigantada do que está sendo visto agora em países como Itália e Espanha. Afinal de contas, todos já sabem que a COVID-19 não é a gripezinha ou o resfriadinho que o presidente Bolsonaro quer nos convencer que é.

Em tempos de Coronavírus, o Brasil é o país da subnotificação e da falta de prevenção

corona02Sem testagem em massa e com uma rede de saúde insuficiente, o Brasil não terá como saber o número de infectados por coronavírus

Em meio às manifestações de empresários, políticos, e do presidente da república Jair Bolsonaro no sentido de que a pandemia do coronavírus não é o bicho papão que os governos do resto do mundo estão fazendo parecer (o da Índia, por exemplo, acaba de colocar 1,3 bilhão de pessoas em confinamento total). 

Um grande problema para qualquer apreciação realista da amplitude que a pandemia do coronavírus poderá ter no Brasil é o fato de que os sistemas de controle para detectar se os indivíduos estão doentes ou não são historicamente falhos.

Tomemos por exemplo o caso das notificações de intoxicação por agrotóxicos.  Em 2015, a pesquisadora Rosany Bochner, vinculada ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict/Fiocruz) e  então coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox),  trouxe à tona um problema grave de saúde pública. A partir de dados coletados pelo Sinitox, Bochner chegou à conclusão de que para cada caso de intoxicação registrado (ou seja notificado), outros 50 casos passavam em branco, gerando uma estrondosa taxa de subnotificação de 50:1.

No caso do coronavírus, esta subnotificação estaria no Brasil na ordem de 11:1 segundo estudo realizado pelo insuspeito Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas (CMMDI)  da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido, que fez um cálculo da subnotificação da COVID-19 em vários países. O levantamento feito pelo CMMDI sugere que no Brasil apenas 11% do total de casos  teriam sido diagnosticados. Como a testagem por aqui ainda está sendo restrita aos casos que já deram entrada em hospitais, os dados do CMMDI também poderia estar subestimados, pois efetivamente não há um controle sobre aqueles que já foram infectados e não atingiram o grau necessário para procurarem unidades hospitalares.

Supondo que a incidência real de infectados por Coronavírus esteja na faixa de 11% a 50% do número sendo difundido pelo Ministério da Saúde até agora, o que temos pela frente é efetivamente um desafio que a nossa rede de hospitais não tem como enfrentar sem que ocorra um grande números de óbitos. Há que se notar que o total de mortes não ficará nos números estimados pelo proprietário da rede Madero que estimou que teremos algo entre 5.000 e 7.000 fatalidades causadas pelo coronavírus até que haja o achatamento da curva.

Para que se veja o tamanho do problema que se aproxima no horizonte, o site “The Intercept Brasil” publicou hoje uma matéria indicando que um relatório da Agência Brasileira de Informação (Abin), se a mesma curva de progressão de países como China, Itália e Irã for aplicada, o nosso país chegará a 6 de abril com 5.571 mortos e 207.435 casos de infectados pela doença. Também é importante notar que as curvas dos países citados tem possui uma taxa de subnotificação, o que torna as previsões da Abin ainda mais graves.

evolução coronavírus

Fonte: Abin, 22/03/2020

Então como explicar as manifestações do presidente Jair Bolsonaro e de determinados empresários de que governadores e prefeitos estão exorbitando em face de uma “gripezinha”?  Como a matéria do “The Intercept Brasil”,  pelo menos o presidente Jair Bolsonaro não o faz por falta de informações já que ele recebeu o citado relatório da Abin.  Daí que o motivo para tentar reabrir o que está fechado, desconsiderando o efeito que teria sobre o agravamento da difusão já subnotificada da pandemia do coronavírus, atende a outros interesses que não o da saúde da maioria do povo brasileiro.  Quais interesses são esses é que esta aberto para debate, pois quanto ao tamanho do desafio que estamos enfrentando não há.