O receituário de Gramsci para combater o “trash science” e outras deformações da produção científica flexível

gramsci

No atual semestre acadêmico estou ministrando um curso de Metodologia da Ciência para os doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais, após ministrar por 17 anos um outro sobre fundamentos da Metodologia da Pesquisa em nível de mestrado. Por considerar que o nível de doutorado deveria exigir mais preparação de minha parte e dos meus alunos, resolvi redesenhar completamente a ementa para discutir com mais profundidade elementos da Filosofia da Ciência. É que como professor e orientador tenho me inquietado com a proliferação de uma visão de produção científica flexível, a qual vem gerando frutos malditos como o “trash science”.

Pois bem, por uma dessas coincidências acabei incluindo a leitura do Volume 11 dos Cadernos do Cárcere do filósofo e militante revolucionário italiano Antonio Gramsci. O Volume 11 não é o mais badalado, pois se refere a um esforço que Gramsci chamou de “Introdução ao estudo da Filosofia“.  A leitura do Volume 11 não é das mais fáceis, mas é essencial para os que hoje se sentem incomodados com o estado de coisas que perdura na ciência nacional e mundial.

Em uma das elaborações mais pertinentes que encontrei no Volume 11 em relação a definir o que é um cientista, separei a seguinte:

Desta  forma, pode-se dizer que não é cientista quem demonstre escassa segu­rança em seus critérios particulares, quem não tenha uma plena inteli­gência dos conceitos utilizados, quem tenha escassa informação e conhecimento do estágio precedente dos problemas tratados, quem não seja muito cauteloso em suas afirmações, quem não progrida de uma maneira necessária, mas sim arbitrária e sem concatenação, quem não saiba levar em conta as lacunas que existem nos conhecimentos já atingidos, mas as ignore e se contente com soluções ou nexos pura­mente verbais, ao invés de declarar que se trata de posições provisórias que poderão ser retomadas e desenvolvidas, etc. (Cada um desses pon­tos pode ser desenvolvido, com as oportunas exemplificações.)

Levando-se em conta que Gramsci morreu em 1932, o trecho acima revela uma análise precisa das deformações que a fragmentação da ciência já impunha aos que queriam enveredar por esse caminho. Além disso, se olharmos para cada uma das condições incluídas na passagem que eu selecionei, eu diria que uma porção significativa dos detentores de títulos de Doutor no Brasil teria graves dificuldades para cumprir não apenas o conjunto, mas pelo menos uma delas. Mas o bom é que ler o parágrafo, todos aqueles que quiserem evitar o pântano do “trash science” já saberão o que fazer para não cair dentro dele.

Em outras palavras, e citando o artigo do professor Lewis Joel Greene, professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (Aqui!), isto nos leva ao fato de que, como regra geral, até agora o sistema nacional de pós-graduação vem treinando técnicos em sua maior parte, em vez de formar doutores. Outra consequência disso é a disseminação do “trash science” e a multiplicação de casos de plágio e outros tipos de fraude acadêmica.

Trash science é apenas a ponta do iceberg

iceberg

A postagem que fiz aqui neste blog sobre a cassação de um título de mestre pela Universidade Federal de Viçosa e uma retratação de um artigo publicado pelo autor da dissertação cassada na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG) (Aqui!) gerou (plagiando o ex-presidente Lula) um tráfico nunca visto na história deste blog e obteve inúmeros comentários relativos aos problema. Da leitura desses comentários, eu verifico que os problemas relacionados a variados tipos de plágio parecem estar assumindo uma característica epidêmica, pois os relatos, apesar de variados em forma, apontam para o problema de que muitos pós-graduandos estão se valendo do trabalho alheio para concluir as suas tarefas e para publicar seus próprios artigos científicos.

Um desses comentários atacou para mim um problema que me parece crucial, qual seja, a forma atomizada e varejista de se fazer ciência que parece estar entranhada nos programas de pós-graduação brasileiros, muito em função das determinações da agência reguladora que é a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes).

Mas para mim a novidade não é nem se ver críticas à forma pela qual a Capes vem regulamentando a pós-graduação no Brasil, com todos os efeitos perversos que foram notados pela pessoa que enviei o comentário. Para mim a novidade é que as pessoas estejam dispostas a falar abertamente no assunto, tocando em aspectos que são incompreensivelmente tabus, a começar pela disseminação de diferentes tipos de plágio. Essa disposição de tocar no assunto é indicativo de que há uma reação salutar que começa a emergir, a qual poderá obrigar a Capes e também o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a repensarem as suas formas de premiação e qualificação da produção científica nacional. Aliás, só mesmo uma reação generalizada e explícita teria essa capacidade de mudança, visto que a cultura atual de se premiar a quantidade em vez da qualidade está bastante entranhada e ouso dizer, naturalizada entre aqueles que deveriam estar buscando um aperfeiçoamento de nosso sistema nacional de pós-graduação.

A questão crucial,  como observou um dos comentaristas da postagem citada acima, o que será da pesquisa brasileira  amanhã com um quadro composto por pessoas de péssima formação?

Graças à “Lei de Gerson”, trash science está instalado no topo da pirâmide científica no Brasil

e3 journals

Graças a um colega que me repassou um convite feito por uma das muitas editoras predatórias que existem atualmente no mercado de publicações científicas (a E3Journals Aqui!), resolvi verificar se havia algum pesquisador brasileiro nos corpos editoriais das diversas revistas que a empresa disponibiliza e, bingo!, achei dois bolsistas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq). Aliás, um desses pesquisadores é como dizem os franceses da “crème de la crème“, ou seja, o melhor do melhor, já que está no nível 1A, o máximo em que alguém pode ser classificado pelo CNPq, e de onde decorrem vários benefícios financeiros diretos e indiretos. O outro pesquisador vinculado a essa editora predatória também é bolsista de produtividade no nível 2, algo que também não é fácil de se conseguir.

Ao verificar aos currículos acadêmicos desses dois pesquisadores na Base Lattes que é mantida pelo próprio CNPq, notei algo peculiar: ambos os pesquisadores indicam que são membros de não apenas uma revista classificada como predatória pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver (Aqui!), mas de várias e com localizações e endereços em vários países fora do que se pode considerar de ponta na produção científica mundial. Em outras palavras, a vinculação a editoras predatórias e revistas científicas desqualificadas é feita por dois bolsistas de produtividade (um deles no topo da cadeia meritocrática) sem qualquer parcimônia. É como se a vinculação a revistas “trash” fosse uma medalha ao honra ao mérito, e não o que é realmente, uma nódoa no currículo de qualquer pesquisador sério e comprometido com o avanço da ciência brasileira.

Esse escancaramento do descompromisso com o rigor científico é que me parece mais chocante, já que fica evidente que a chamada “Lei de Gérson” está fortemente entranhada em, pelo menos, parte da comunidade científica e exatamente entre pesquisadores que são considerados como sendo “produtivos” pelo CNPq

Diante dessa situação é que ninguém deve mesmo se sentir surpreendido pelo caso que mostrei aqui mesmo nesse blog sobre a cassação de um título de mestre na Universidade Federal de Viçosa em função de acusações de fraude e plágio (Aqui!). É que o vale tudo da “Lei de Gerson” que está estabelecido entre pesquisadores seniores, como é que se espera que jovens pesquisadores escolham um caminho oposto? Eu pessoalmente só vejo um caminho: o CNPq mudar suas regras de concessão de bolsas de produtividade. O problema aqui é se alguém dentro da agência vai querer mexer nesse vespeiro.

Quando o trash science é finalmente fisgado, título de mestre é cassado e artigo fraudado é retratado

Blog_Predatory_Publications

Tenho narrado neste blog os amplos efeitos da disseminação dos vícios da ciência predatória (trash science) nas universidades brasileiras. Mas um caso que me veio recentemente à atenção parece exemplar de como o problema é grave e pode ser encontrado nas nossas melhores e tradicionais instituições de ensino superior.

O caso em tela ocorreu no Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, onde o acadêmico Paulo Henrique Bittencourt Moreira teve seu título de Mestre em Ciências cassado por violação de direito autoral e de fraude acadêmica, como mostra a imagem abaixo.

titulo retiradoComo a cassação de um título acadêmico é coisa extremamente rara em qualquer lugar do mundo, me pus a procurar mais informações sobre o assunto, e me deparei com mais evidências deste incidente na base de artigos científicos Scielo, mais precisamente na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG). Ali encontrei um pedido de retratação do artigo “Qualidade de vida de cuidadores de idosos vinculados ao Programa Saúde da Família – Teixeiras, MG (Quality of life of elderly caregivers of link to the Family Health Program – Teixeiras, MG)” de autoria do mesmo Paulo Henrique Bittencourt Moreira, O surpreendente é que o pedido de retratação do artigo (na prática cassação do trabalho) foi feito pela autora de um artigo que teria sido plagiado, a professora Márcia Regina Martins Alvarenga, uma das autoras do artigo plagiado, e que é docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

retratado 1A denúncia da professora Márcia Alvarenga resultou em outra situação rara que foi a cassação do artigo que possuía três autores, incluindo a orientadora da dissertação de mestrado cassada pela Universidade Federal de Viçosa, a professora Simone Caldas Tavares Mafra.

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A retratação do artigo, obviamente combinado com a cassação do título de Mestre, resultou ainda numa ainda mais rara explicação pública da professora Simone Mafra sobre os “malfeitos” do seu orientando.

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Ao ler a resposta e as diferentes explicações da professora orientadora pelas quais a fraude e o plágio não foram detectados em tempo hábil (ver imagem acima), não me restou senão a curiosidade sobre quantos casos semelhantes de fraude e plágio não estão também passando despercebidos por defronte os olhos de outros docentes/orientadores. É que a imensa maioria dos que labutam hoje na pós-graduação brasileira se encontra hoje sob forte pressão para se adequar ao sistema de produtivismo científico imposto pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E há que se frisar que essa pressão se estende a todos os pesquisadores interessados em obter financiamentos e prêmios por produtividade científica.

Uma coisa para mim é certa: ou se muda as formas de avaliar e premiar a produção acadêmica produzida no Brasil ou este caso será apenas uma pequena parte da ponta de um imenso iceberg de contaminação da ciência brasileira pelo que há de pior no trash science. A principal pergunta que fica aos gestores que comandam o CNPq e a CAPES é a seguinte: qualidade ou quantidade, o que vai ser?

Descaminhos do “trash science”: a falsa pesquisa sobre a dieta do chocolate

Você deve ter lido alguma coisa sobre a suposta dieta que trazia resultados mais rápidos ao incluir chocolate no cardápio. As matérias sobre a tal dieta se baseavam em uma pesquisa do Instituto de Dieta e Saúde (Institute of Diet and Health) e eram de autoria do médico alemão e diretor do instituto Johannes Bohannon. Ela foi publicada por revistas científicas e divulgada mundialmente em sites, revistas e programas de TV. E ela não passou de uma grande mentira.

Johannes Bohannon e o Instituto de Dieta e Saúde não passam de invenções do jornalista John Bohannon. Ele criou o site do instituto e publicou o estudo para expor como é fácil divulgar um estudo científico duvidoso.

O estudo

O jornalista explica no io9 que a pesquisa foi encomendada por um canal de televisão alemão. Uma equipe do canal produzia um documentário sobre a ciência fajuta da indústria da dieta, que transformam ciência ruim, barata e duvidosa em grandes manchetes em jornais. E, tirando os resultados, tudo foi feito como uma pesquisa de verdade: com médicos, um profissional de estatística e objetos de pesquisa — pessoas dispostas a participar da dieta.

Os sujeitos participantes da pesquisa — 5 homens e 11 mulheres, de 19 a 67 anos — receberam 150 euros cada e foram informados que o estudo fazia parte de um documentário sobre dietas e nada mais.

A escolha do chocolate amargo veio do médico responsável pelos exames clínicos da pesquisa. Gunther Frank, clínico geral e autor de um livro contra a pseudociência por trás de dietas, explica: “Chocolate amargo tem gosto ruim, e por isso as pessoas acham que ele faz bem”, diz. “É como uma religião”.

Depois de uma bateria de exames, o clínico separou os participantes em três grupos distintos: o primeiro em uma dieta de baixa caloria, o segundo na mesma dieta de baixa caloria mais a inclusão de 40 g de chocolate por dia e o terceiro grupo continuou com os mesmos hábitos alimentares que já mantinham. Cada indivíduo se pesou diariamente por 21 dias consecutivos e foi submetido a um questionário e mais uma bateria de exames ao final do experimento.

E o resultado? O terceiro grupo manteve ou teve mudanças insignificantes no peso, enquanto cada indivíduo do segundo e do primeiro grupo emagreceram cerca de 2.5 kg, com o segundo grupo, o que incluía chocolate na dieta, perdendo peso 10% mais rápido e com melhores resultados nos exames de colesterol que o primeiro.

O resultado

Então o estudo funciona? Bem, sim e não. O estudo mostrou uma aceleração na perda de peso do grupo que comeu chocolate, no entanto, o número de indivíduos testados é muito pequeno para se chegar a qualquer conclusão — os testes foram feitos com apenas 15 pessoas. Mas os responsáveis pelo estudo sabiam disso. Bohannon explica no post:

“Se você medir um grande número de coisas em um número pequeno de pessoas, você quase certamente terá um resultado ‘estatisticamente significativo’”

E adivinha? O estudo conta com dezoito medidas diferentes — peso, colesterol, sódio, níveis de proteína do sangue, qualidade do sono, bem-estar e outros — e apenas 15 pessoas para teste. Eles estavam fadados a receber pelo menos um resultado bom. “Não sabíamos com o que terminaríamos — as manchetes poderiam ser que chocolate melhora o sono ou diminui a pressão arterial — mas sabíamos que nossas chances de ter pelo menos um resultado ‘estatisticamente significativo’ eram boas”, diz o jornalista.

Além disso, Bohannon explica que os hábitos alimentares do terceiro grupo, que não recebeu nenhuma dieta, sequer foi questionado; e alguns fatores, como o ciclo menstrual, que pode oscilar o peso de mulheres em quantidades próximas ao que a dieta prometia eliminar, também não foi levado em consideração.

Publicando e divulgando

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Com os resultados em mãos, Bohannon submeteu a pesquisa para publicação em revistas científicas e dentro de 24 horas diversas publicações mostraram interesse em divulgá-la — a equipe acabou escolhendo a International Archives of Medicine, que, apesar de afirmar revisar cada pesquisa rigorosamente, publicaria o estudo por 600 euros.

Uma vez publicada, era a hora de divulgar a história: um release à imprensa bem explicado, que frisava os pontos fortes da pesquisa – como o chocolate ser um instrumento para perder peso – e omitia possíveis questionamentos, como o pequeno número de participantes da pesquisa. O release era praticamente uma matéria pronta para os jornalistas a publicarem, como diz o próprio Bohannon — e ela serviu perfeitamente para chamar a atenção de revistas e sites dos mais diversos lugares.

Dezenas de mídias de todo o mundo publicaram a história: Irish Examiner, o site alemão da Cosmopolitan, Times of India, o site alemão e indiano do Huffington Post, um telejornal do Texas e um programa matinal da Austrália divulgaram o estudo.

No Brasil, caíram na pegadinha o portal Vírgula, a TV Cultura e o site F5, da Folha de S. Paulo. (Só o F5 corrigiu o texto.)

FONTE: http://gizmodo.uol.com.br/pesquisas-fajutas-midia/

A Ciência deu uma guinada em direção à escuridão

“METADE DE TODA A LITERATURA MÉDICA É FALSA”, diz editor-chefe de uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo

CIENCIA

Nos últimos anos, cada vez mais cientistas passaram a compartilhar verdades que muitas pessoas acham difícil de acreditar. Uma destas pessoas é o Dr. Richard Horton, atual editor-chefe da Lancet – considerada pelos atuais cientistas, uma das revistas médicas mais respeitados do mundo. Ele declarou recentemente que muitas pesquisas publicadas não são confiáveis , senão completamente falsas.

“…grande parte da literatura científica, talvez a metade, pode ser simplesmente falsa. São pequenas amostras, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e alimentadas por flagrantes conflitos de interesse, juntamente com uma obsessão para perseguir tendências de moda de importância duvidosa.”

Isto é muito preocupante, pois todos esses estudos (que são patrocinados pelas indústrias farmacêuticas)) são usados para desenvolver medicamentos / vacinas para supostamente ajudar as pessoas, formar o pessoal médico, educar os estudantes de medicina e muito mais.

É comum que um monte de grandes trabalhos sejam descartados por peritos e investigadores em várias instituições ao redor do mundo por não parecer “críveis” …As revistas médicas continuam a perder o seu carácter sustentável aos olhos de especialistas e funcionários dos próprios jornais, como o Dr. Horton.

Ele também passou a alertar que a quantidade de pesquisas “loucas” é alarmante, que os dados são manipulados para se adequar às teorias preferidas. Ele passou a observar que as confirmações importantes são muitas vezes rejeitadas, e pouco é feito para corrigir as más práticas. O que é pior, muito do que se passa até poderia ser considerada como um delito.

Ao longo da história humana, nosso planeta tem experimentado várias realizações e mudança de paradigma; todos eles foram recebidos com resistência dura no momento da sua revelação. Um grande exemplo é quando percebemos a Terra não era plana.

Hoje, estamos vendo esses tipos de mudanças reveladoras no pensamento acontecer em múltiplas esferas, tudo ao mesmo tempo. Isto pode parecer esmagador para aqueles que estão prestando atenção, especialmente tendo em conta o fato de que muitas dessas ideias vão contra os sistemas de crenças atuais. Haverá sempre resistência às novas informações que não se encaixam no quadro atual, independentemente de que sejam ou não razoáveis.

FONTE: http://www.globalresearch.ca/editor-in-chief-of-worlds-best-known-medical-journal-half-of-all-the-literature-is-false/5451305

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!

Trash science e a contaminação dos concursos públicos nas universidades brasileiras

PredatoryPublishers

Venho falando aqui neste blog dos problemas causados pela difusão em ritmo espetacular de publicações de baixa qualidade em revistas com nível ainda mais baixo sobre o processo de alocação de recursos financeiros pelas agências de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Por sua vez, o jornalista Maurício Tuffani já alertou em seu blog hospedado no site do jornal Folha de São Paulo sobre a presença de revistas predatórias (i.e., produtoras de lixo científico) no Sistema Qualis Capes, o que confere a estas publicações uma legitimidade indevida (Aqui!).

Pois bem, conversando hoje com um colega que acaba de retornar de uma banca de concurso numa universidade pública localizada fora do estado do Rio de Janeiro, ele compartilhou a situação inusitada por que passou ao avaliar o currículo de um candidato que havia acumulado impressionantes número de de artigos num período de dois anos numa revista científica publicada um país sul americano sem muita tradição na área do concurso. A banca, mesmo suspeitando dessa proficuidade concentrada, não teve saída a não ser assinalar o número de pontos a que o montante de publicações fez por um simples e prosaico motivo: a revista em questão estava classificada no Sistema Qualis Capes por 29 comitês, e com notas variando entre B3, B4, B5 e C! Em outras palavras, tinha a chancela de legitimidade que terminou garantindo a aprovação do candidato.  Mas como era de se esperar,  o concurso em questão está sendo alvo de vários recursos, já que os candidatos perdedores se sentiram lesados.

O problema é que esse caso parece estar se repetindo em escala ampliada nos concursos sendo realizados ao longo do território brasileiro! Um perigo que emerge dessa situação é que essa faceta ainda obscura do “trash science” sobre a contratação de docentes pelas universidades públicas poderá ser usada para questionar o rigor e transparência do próprio mecanismo do concurso público via exames de conhecimento e títulos!

Nesse sentido me parece inadiável que se faça uma revisão do processo de ranqueamento no Sistema de Qualis Capes. É que se o sistema nacional de pós-graduação depende de quadros docentes bem preparados, não há como aceitar que a Capes continua ignorando a necessidade de estabelecer critérios que considerem não apenas a quantidade, mas principalmente a qualidade e o impacto do que está sendo publicado.  A falta de ação da Capes neste caso poderá resultar no colapso completo da pós-graduação no Brasil. Simples assim!

Trash science: ofertas mirabolantes de editores obscuros enchem caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros. Quantos estão resistindo à tentação?

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A existência de editoras científicas predatórias que oferecem serviços fáceis a preços módicos a incautos (aliás, nem sempre tão módicos assim) se tornaram conhecidas no Brasil a partir de uma série de matérias publicadas pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog que está hospedado no site UOL (Aqui!). 

Mas o que muitos não sabem é que ofertas mirabolantes chegam cotidianamente nas caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros, como mostra a imagem que me foi enviada por um colega, que se mostrou indignado com a óbvia desfaçatez da oferta, bem como do desmazelo com que os editores de uma revista desconhecida tentaram chamar sua atenção para as “facilidades sendo oferecidas”

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Em sua justa irritação, esse colega ainda me perguntou “será que há alguém disposto a entrar nessa?” A minha resposta, baseando-me no pouco que já foi desvelado pelo trabalho do Maurício Tuffani é que, sim, há muita gente disposta a entrar nessa!

E o pior é que se os comitês assessores do Conselho de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) começassem a olhar de forma mais rigorosa os currículos dos pesquisadores brasileiros vão acabar descobrindo que não são apenas jovens pesquisadores imaturos que estão enveredando pelo caminho fácil de engordar seus CVs com publicações em editoras predatórias, onde que vale é pagar seja quanto for, para colocar no ar qualquer coisa que seja, apenas para atingir índices de produtividade que omitem a necessidade da qualidade e do impacto científico.  

A essas alturas, desconfio que até pesquisadores do topo da cadeia meritocrática montada pelo CNPq em cima de quantidade, e não da qualidade, estão aceitando o tipo de convite que meu colega julgou óbvio demais para ser levado à sério. Afinal, a pressão pelo número é muito forte, e as ofertas tentadoras aparecem todos os dias!

A pergunta que se coloca é a seguinte: qual é o tamanho da parcela dentro da comunidade científica brasileira que está resistindo à essas promessas mirabolantes? Interessante seria ver se a Capes e o CNPq estão dispostos a começar a apurar. A ver!

Percalços da “trash science”: sua revista favorita entrou em manutenção sem avisar e nem dizer adeus

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As peripécias dos pesquisadores que enveredam pelo caminho do “trash sicence” são muitas. Mas a maioria dos que enveredam por esse caminho só fica mesmo em alerta quando algo mais do que esperado ocorre: a revista onde se colocam “n” artigos repentinamente sai do ar, sem deixar maiores vestígios ou informações de quando deverá retornar ao ar para permitir acesso aos arquivos que contem, os arquivos com o material publicado.  

Essa situação, que era impensável até o advento da internet, hoje assola muitos pesquisadores em diferentes momentos de suas carreiras, os quais sacrificam o rigor e a qualidade em nome da quantidade que, no frigir dos ovos, é que premiações, enquadramentos e progressões e, ainda mais importante, financiamentos de agências de fomento e ministérios. Mas hoje não são raros os casos em que um pesquisador se vê diante da situação insólita de clicar no link do “Document Object Identifier” (DOI)  (Aqui!) que deveria levar ao seu artigo, e descobrir que a revista simplesmente não está mais operacional. Em outras palavras, a revista simplesmente tomou chá de sumiço.

Quando isso acontece é um tremendo “Deus nos acuda” porque não há mais prova virtual de que o artigo sequer existiu caso o pesquisador não tomou o cuidado de imprimir uma cópia física ou salvar o documento em um repositório digital.   E as consequências para isso não poucas, a começar pelo fato de que  o preenchimento do famoso Currículo Lattes contem um aviso de que quaisquer preenchimentos falsos implicam em crime de falsidade ideológica. 

O interessante é que acabei de identificar esse fenômeno com uma revista muito utilizada por pesquisadores que eu conheço, e que, inclusive, se encontra qualificada por diversos comitês técnicos da CAPES que determinam a classificação de revistas no sistema Qualis. E para não ter dúvidas no momento de escrever esta postagem, tomei o cuidado de ligar para a instituição onde a revista estava hospedada até recentemente, e lá fui dirigido ao Serviço de Informática. Ao falar com um dos técnicos que trabalham nesse departamento, o mesmo me ofereceu uma resposta que considerei enigmática: o serviço a que a referida revista estaria associada está em manutenção por tempo indeterminado, mas que brevemente deverá online. Em outras palavras,  apesar de eu insistir, não me foi dada uma informação mais precisa de quando, ou mesmo se, a revista voltará a ficar disponível online.

Agora, a pergunta que se coloca é a seguinte: o que farão os pesquisadores em diferentes momentos de formação que enviaram seus artigos para esta revista? Essa é uma boa pergunta para o CNPq, que é responsável pela base Lattes, e para a CAPES, responsável pela base Qualis.  A ver!