Estudo da UENF revela que água consumida em assentamento no Norte Fluminense apresenta contaminação

Coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, foram encontrados

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Marcos Pedlowski alerta para o resultado apresentado (Foto: reprodução de Facebook)

Por Cláudia Freitas para o Portal Eu,Rio!

A revista científica Heliyon publicou nesta quinta-feira (7/3) um estudo feito por pesquisadores do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (CCH/UENF), que avalia a qualidade da água consumida por moradores do Assentamento Zumbi dos Palmares, localizado a cerca de 10 km do Centro de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Os resultados são alarmantes e revelam que em todos os parâmetros adotados as amostras apresentam índices elevados de contaminação por coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, inclusive nitrato, em comparação com os padrões internacionais. Para os cientistas, a água na região deve ser classificada como inadequada para o consumo humano.

A novidade da pesquisa está na metodologia aplicada pelos cientistas da UENF. Eles desenvolveram o trabalho integrando fatores que normalmente não são avaliados e com critérios integrados. Utilizando os parâmetros físico-químicos (PH, condutividade, turbidez), os pesquisadores conseguiram identificar diversificados elementos de contaminação. “O que mais nos preocupa é a constatação de que as amostras são semelhantes às de várias áreas rurais do Brasil, ou seja, o problema deve estar afetando muitas populações, mais do que estamos imaginando”, afirma o professor Marcos Pedlowski, que integra o grupo de estudo.

O conteúdo da pesquisa destaca: “os resultados de nossas análises de poços rasos no assentamento Zumbi dos Palmares mostraram que várias amostras apresentavam valores além dos limites estipulados pela legislação brasileira que regula a qualidade da água utilizada para a água potável. Além disso, também observamos relações significativas entre diferentes variáveis apontando para um processo de contaminação da água causado por fontes provocadas pelo homem”. Para Pedlowski, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo, como o caso do herbicida Atrazina.

Em outro trecho, os autores enfatizam que as amostras de concentração de nitrato apresentaram valores elevados, em dois casos ultrapassando o limite estabelecido na Portaria 2914/2011 e fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para água potável. Os professores acreditam que a contaminação deve estar relacionada à lixiviação dos fertilizantes do solo, pois a maior concentração foi encontrada em períodos de chuva.

“Lembro que o estudo foi feito num assentamento de reforma agrária onde o uso de agrotóxicos não é elevado quando comparado com grandes áreas de monoculturas.  Os assentados são uma espécie de canário das minas de carvão.  Se o problema está se manifestando em áreas de agricultura familiar, imagina o que não está acontecendo em áreas hegemonizadas pela soja e pela cana-de-açúcar”, destaca o professor.

Na conclusão do trabalho, os autores sugerem que a qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento tenha como referência outros parâmetros além da base no nível de contaminação biológica, passando a acrescentar, por exemplo, os níveis de nitrogênio associados ao uso de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos.

Pedlowski conta que as amostras de água analisadas foram coletadas em 2014, mesmo ano que o estudo foi finalizado. No entanto, os resultados só foram divulgados nesta quinta (7). Nos cinco últimos anos, outros trabalhos associados foram iniciados, mas ainda estão em andamento. De agosto de 2018 a fevereiro deste ano, Pedlowski esteve no Centro de Ecologia, Evolução e Alteração Ambiental da Universidade de Lisboa, em Portugal, participando de uma pesquisa sobre biorremediação de agrotóxicos. O estudo tem como uma das suas bases a pesquisa realizada pelos profissionais da UENF.

“A contaminação biológica é, talvez, de solução mais fácil. Mas a contaminação causada por fertilizantes sintéticos e agrotóxicos demanda uma mudança de paradigma no processo que é tradicionalmente utilizado para descontaminação de água para consumo humano. No caso dos agrotóxicos, o primeiro passo [em direção a uma bioerremediação] seria adotar padrões mais restritivos para a tolerância de resíduos na água, tal qual tem feito a União Europeia, por exemplo. Outra medida seria obrigar as empresas concessionárias de água e esgoto a aperfeiçoar seus sistemas de tratamento. Do contrário o problema só vai se agravar”, destaca Pedlowski.

O médico Décio Lerner, chefe do setor de Oncologia do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), esclarece que esses tipos de agrotóxicos podem causar dano no DNA, elemento que está em todas as células e carrega toda a informação genética do indivíduo. Segundo ele, os agrotóxicos podem funcionar como fator desencadeante do câncer ao provocar esta modificação no DNA. O médico enfatiza também que não há estudos conclusivos sobre qual a quantidade e o tempo de exposição para causar prejuízos ao organismo humano.

Lerner diz ainda que alguns agrotóxicos estão implicados com lesão na medula óssea, órgão que fica dentro dos ossos e é responsável pela produção dos elementos sanguíneos. Nesse caso a “fábrica” do sangue pode simplesmente parar ou funcionar irregularmente, necessitando, assim, de um transplante de medula óssea.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Eu,Rio! [Aqui!]

Pesquisadores da Uenf verificam a presença de agrotóxicos na água consumida por assentados da reforma agrária

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Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) avaliou a qualidade da água consumida por agricultores familiares do Assentamento Zumbi dos Palmares a partir da integração de  parâmetros que tradicionalmente são avaliados separadamente.

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Os resultados desta pesquisa acabam de ser publicados pela revista “open access” Heliyon, e trazem como principal diferencial metodológico a combinação de diferentes técnicas de avaliação da qualidade da água  usada para o consumo humano.  O estudo avaliou amostras de água coletadas em poços rasos usados pelos assentados do Zumbi dos Palmares, incluindo parâmetros físico-químicos (pH, condutividade, turbidez),  a presença de coliformes fecais e totais,  a quantidade de nitrogênio, e as concentrações de resíduos de agrotóxicos.

Uma das principais constatações do estudo é que a qualidade das amostras utilizadas estava inadequada para consumo em cada um dos parâmetros analisados. O problema assim seria mais grave do que normalmente se considera, pois todos os parâmetros considerados apresentaram problemas, o que agravaria o comprometimento da qualidade da água consumida em áreas rurais no Brasil.

Outro aspecto notável foi a constatação de que no tocante à contaminação por resíduos de agrotóxicos foi verificado que, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo. No caso do herbicida Atrazina, este composto é conhecido por ser um disruptor endócrino e tem sido associado à redução na qualidade do esperma humano, além de também ser considerado como potencial causador de diferentes tipos de câncer.

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Em função dos resultados obtidos, os autores do estudo consideram que a avaliação da qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento deixe de ser feita apenas com base no nível de contaminação biológica para incluir também outros fatores como os níveis de nitrogênio (associados principalmente ao uso de fertilizantes sintéticos) e de agrotóxicos.

Os resultados deste estudo são ainda mais significativos quando se considera que o nível de uso  de insumos agrícolas na agricultura familiar é consideravelmente menor do que nas grandes propriedades onde a aplicação de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos atinge escalas ainda mais significativas dada a dependência das monoculturas em relação a estes compostos.

Quem desejar obter o artigo intitulado “An integrated assessment of water quality in a land reform settlement in northern Rio de Janeiro state, Brazil “, basta clicar [Aqui!]

Campos dos Goytacazes vivenciou o padrão atmosférico extremo das mudanças climáticas e mostrou o seu despreparo

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Se existe uma certeza no mundo científico nos tempos atuais é que o clima da Terra está passando por um forte padrão de mudança causado pela emissão de gases poluentes, mais popularmente conhecido como mudanças climáticas.
Esse padrão é responsável por alterar o ritmo e a intensidade dos eventos atmosféricos que passarão a ser extremos. Lamentavelmente, pouca atenção tem sido dada à necessidade de serem produzidos ajustes na forma de organização das cidades, de forma a preparar seus habitantes para o que parece inevitável a estas alturas do campeonato.
Esse preâmbulo é apenas para dizer que o que aconteceu ontem em Campos dos Goytacazes com ventos médios de 80 km/h e chuva intensa por algo em torno de 30 minutos, mas que serviu para criar um rastro de destruição por toda a cidade, é apenas um aperitivo do que pode estar por vir nas próximas décadas.


Imagens de destruição na cidade de Campos dos Goytacazes são o prenúncio do que virá com as mudanças climáticas. Fonte: Isaías Fernandes, Folha da Manhã.
Frente a esse cenário é forçoso reconhecer que a atual administração municipal comandada pelo jovem prefeito Rafael Diniz conseguiu piorar uma área que nunca foi, digamos, muito lustrosa que é a do meio ambiente.
Venho falando, por exemplo, dos problemas que temos na área da arborização urbana desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em 1998, mas parece que minha mensagem sempre cai em ouvidos mocos. Entretanto, entre uma administração e outra tivemos alguns lapsos de melhoria e até algumas sinalizações de que teríamos um plano diretor de arborização. Entretanto, passados mais de dois anos da atual gestão, desconhece-se qualquer ação nesse sentido. E, pior, o que venho assistindo é a paulatina destruição do pouco que foi construído.
A queda de árvores no padrão de ventos intensos que predominaram ontem é devido ao fato de terem sido plantadas espécies de rápido crescimento (mormente leguminosas) mas que possuem raízes emergentes. Se houvesse um mínimo de cuidado e atenção com que a ciência climática vem alertando, a cidade de Campos dos Goytacazes não só estaria plantando mais árvores, mas como também estaria optando por espécies que possuam raízes profundas. E há que se lembrar que no mundo das mundaças climáticas, as árvores serão nossas grandes aliadas.
A minha expectativa é que o episódio de ontem sirva de alerta para a chegada do mundo novo das mudanças climáticas onde eventos atmosféricos extremos serão a sua principal marca. E que o jovem prefeito Rafael Diniz saia da seu eterno discurso (de fachada) de que buscará expertise científica nas universidades que atuam em Campos dos Goytacazes para estabelecer mecanismos que nos preparem para a repetição do que atingiu a nossa cidade no dia de ontem. E que ninguém se iluda, o que se viu ontem é apenas o começo deste novo tempo que as mudanças climáticas causarão. A inércia representará a certeza de grandes perdas econômicas e humanas.

Aula Magna da UENF de 2019 será proferida por um dos seus fundadores, o Prof. Carlos Eduardo de Rezende

A ideia em torno do que se convenciona chamar de “Aula Magna” é de se ter uma personalidade com representatividade dentro de uma instituição para enviar uma mensagem aos alunos ingressantes.  Em função disso é que não tenho dúvida de afirmar que a escolha feita pela reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para o ano letivo de 2019 não poderia ter sido melhor. 

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É que o encarregado de dar as boas vindas aos alunos ingressantes é um dos fundadores da instituição, o professor Carlos Eduardo de Rezende. Poucos sabem, mas ele participou do processo de formulação do projeto revolucionário que Darcy Ribeiro pensou para a Uenf nas reuniões que ocorreram Fundação de Apoio à Escola Pública (Faep) ao longo do ano de 1992.

O professor Rezende também estava no grupo de professores que escolheram viver em Campos dos Goytacazes já a partir de 1993 quando ocorreu a aula inaugural da Uenf. Desde então, ele estabeleceu uma carreira científica sólida, e que teve como ápice, ao menos  em minha opinião, ser um dos líderes da pesquisa que confirmou a existência de um complexo sistema de corais no delta do Rio Amazonas, descoberta que quebrou um paradigma no estudo deste tipo de organismo.

Mas além de ser um cientista rigoroso e possuidor de uma visão compreensiva do processo de desenvolvimento da ciência brasieira, ele é principalmente um apaixonado pela Uenf, e pelo que a instituição significa para o processo de desenvolvimento social do Norte e do Noroeste Fluminense. Por isso, em todos os grandes momentos de conquistas, mas também de crises, Carlos Eduardo de Rezende foi uma presença constante, fosse como dirigente institucional ou como líder da associação de docentes.  

Por estarmos em um momento em que a Uenf se ressente de um longo período de ataques que contribuíram para um inevitável processo de inquietação e desalento é que considero a escolha de um dos seus fundadores para proferir a Aula Magna de 2019 mais do que acertada. É que tenho certeza que ele colocará em primeiro plano o sonho que Darcy Ribeiro transformou em realidade, e das tarefas que o tempo presente apresenta para manter esse projeto vivo em sua forma pública e gratuita.

Estudo realizado por parceria UENF e UFRJ mostra impactos ampliados do Tsulama da Samarco

Enquanto a mídia corporativa brasileira já esqueceu o maior desastre da mineração mundial em mais de 300 anos, a comunidade científica continua produzindo estudos que revelam um alcance ainda maior dos impactos associados ao Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

A matéria abaixo, produzida pela Assessoria de Imprensa da COPPE/UFRJ, mostra que mais de 3 anos após a ocorrência do Tsulama,  ainda existem impactos sobre o ambiente e à saúde humana, afetando a vida de dos 340 mil habitantes da região impactada pelo incidente causado pela ganância por lucros de duas das maiores mineradores do planeta, sobretudo na estação chuvosa.

O interessante é que a produção das evidências científicas do impacto continuado do Tsulama da Samarco (Vale+BHP Billiton) ocorre de forma simultânea à vitória das mineradoras na justiça mineira que concordou em recalcular os valores que deverão ser pagos a mais de 1.500 atingidos. Como se vê pelos resultados das pesquisas conjuntas da UFRJ e da UENF, estes valores deveriam ser é majorados.

Pesquisa desenvolvida na Coppe revela novos impactos do desastre ambiental de Mariana

Um projeto interdisciplinar de pesquisa derivado da dissertação de mestrado da aluna da Coppe/UFRJ Marcelle Cândido Cordeiro revelou que os rejeitos de mineração, levados ao rio Doce após o desastre de 2015, ainda causam impacto ambiental e risco à saúde dos 340 mil habitantes da região, sobretudo na estação chuvosa.  Sob a coordenação do professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe, o estudo ganhou visibilidade internacional, com a publicação do artigo Insights on the fresh water microbiomes metabolic changes associated with the world’s largest mining disaster, no periódico Science of the Total Environment, no último mês de novembro [1].

A pesquisa aponta que a maior parte dos 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que se depositou no leito e nas margens do rio Doce e afluentes da sua bacia hídrica, como os rios Carmo e Gualaxo do Norte, não é inerte. O rejeito é rico em nitrogênio e ferro. Este elemento favorece a multiplicação de bactérias nocivas à saúde, sobretudo no verão, quando as chuvas mais frequentes revolvem os sedimentos do leito dos rios.

O estudo é um dos produtos da dissertação de mestrado da aluna do PEP, Marcelle Cândido Cordeiro, intitulada “Qualidade das águas e diversidade microbiana do Rio Doce após o rompimento da barragem do Fundão”, sob a orientação dos professores Fabiano Thompson, da Coppe, e Gizele Duarte Garcia, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) da UFRJ, sediado no polo de Macaé.

O estudo reuniu pesquisadores da Coppe, do Instituto de Biologia e do Instituto de Microbiologia da UFRJ, e também do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Para chegar a este resultado, os pesquisadores realizaram três expedições, recolhendo amostras em 16 pontos ao longo do rio Doce: Bento Rodrigues; Camargo Ponte Caída; rio Gualaxo; rio Carmo; rio Piranga; São José do Goiabal; Bom Jesus do Galho; Ipatinga; Governador Valadares; Tumiritinga; Resplendor; Aimorés; Baixo Guandu; Mascarenhas; Colatina; e Linhares. Estudos anteriores abordaram os impactos ambientais do desastre, mas este é o primeiro a avaliar os efeitos na diversidade microbiana ao longo do rio Doce.
 

Técnica inovadora para análise de amostras genéticas

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As coletas foram realizadas em novembro de 2015, logo após o desastre, em maio e em setembro de 2016. No Núcleo Professor Rogerio Valle de Produção Sustentável (Sage) da Coppe, o material recolhido passou pela análise físico-química e microbiológica, em especial por uma técnica inovadora denominada metagenômica, que permite estudar todos microrganismos presentes em uma amostra, utilizando fragmentos de DNA, sem a necessidade de cultivá-los.

“Por meio dessa análise de metagenômica conseguimos detectar a influência do rejeito na microbiota da água do Rio Doce. A lama não foi inerte, ao contrário do que se dizia, ela favoreceu alguns grupos microbianos. A técnica permite identificar os grupos taxonômicos e o potencial metabólico e funcional da amostra. Recuperamos onze genomas completos de micróbios, e verificamos os metabolismos que se encontravam em maior concentração. Conseguimos encontrar muitos genes relacionados ao metabolismo de ferro e ao de nitrogênio nestes genomas. Mais uma evidência da influência da lama na microbiota da região”, explica Marcelle Cordeiro, doutoranda do Programa de Engenharia de Produção.

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Marcelle Cândido Carneiro, aluna de doutorado da Coppe.

De acordo com Marcelle, também foram usados dados próprios das coletas feitas pelos pesquisadores envolvidos no projeto e também dados públicos do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que monitoram o rio Doce desde 1997, no âmbito do projeto Águas de Minas. “Em dezembro de 2016, pelos dados secundários do Igam, houve um aumento de turbidez muito maior que a média histórica da região e também 67 vezes maior do que o determinado pelo Conselho Nacional do Meio-Ambiente (Conama). Embora haja leve melhora nos níveis de turbidez, em dezembro de 2017 os valores de turbidez ainda eram 15 vezes maiores do que o limite (100 NTU) preconizado pelo Conama. Usamos como referencial a resolução 357 do Conama que estabelece o padrão mínimo de qualidade da água de acordo com o uso preponderante da mesma”, esclarece.

Em 2018, não há dados disponíveis. “Mas o nível continua sendo muito acima do tolerável, e não há previsão de quando será atingido um patamar seguro para o consumo. Além disso, as chuvas revolvem o solo e o material que suspende aumenta a turbidez da água e há aumento significativo na concentração de cianobactérias, anterobactérias, nutrientes orgânicos, inorgânicos, metais. É uma ameaça à saúde humana”, avalia o professor Fabiano Thompson.

Segundo a aluna da Coppe, o rio Doce é considerado Classe 2 pelo Conama, o que permite o uso de suas águas para consumo após tratamento, fins recreativos, pesca, irrigação de hortaliças. “Mas encontramos concentrações muito acima do nível de turbidez, o que acarreta prejuízo de todas essas atividades. Outra coisa foi o aumento no número de genes relacionados à virulência, isso é indicativo do risco à saúde humana, causado pelo derramamento de lama após o rompimento da barragem em Mariana”, explica a pesquisadora.

A microbiota avaliada pelos pesquisadores indicou a forte presença de metabólitos de ferro e nitrogênio, o que, segundo Marcelle, sugere a presença de nitrogênio no rejeito. Os pesquisadores utilizaram como parâmetro para comparação o rio Paraguaçu, cujo bioma é similar ao rio Doce. “A concentração deste grupo microbiano no rio Paraguaçu é muito inferior, o que reforça a conclusão de que a proliferação destes microrganismos decorre da deposição de ferro e nitrogênio no leito e nas margens do rio, na enxurrada que seguiu ao rompimento da barragem”.

Ameaça à saúde humana

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Professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe

Na opinião do professor da Coppe (foto acima, o monitoramento das águas é um passo fundamental para avaliar as medidas subsequentes, dentre as quais as alternativas para o tratamento avançado das águas do rio Doce. “O monitoramento permite também que se faça a análise comparativa com os cenários passados e a projeção do futuro, a partir deste ambiente doente para o ambiente saudável, biodiverso, que permita filtrar o material causador da turbidez”, explica.

O professor destaca ainda a importância do uso da metagenômica no estudo. “Se não tivéssemos feito a análise de metagenômica, não teríamos constatado a importância do nitrogênio, e a proliferação de genes ligados ao seu metabolismo. Ou seja, mesmo que haja escamoteamento do que foi, de fato, liberado na enxurrada de rejeitos de mineração, a metagenômica age como uma análise forense. Essa nova técnica faz com que o próprio Conama precise atualizar os seus parâmetros, que embora úteis, certamente não capturam a totalidade de interferências antropogênicas e industrais no ambientes. É preciso dar respostas ágeis, confiáveis e independentes para a recuperação do rio Doce”, avalia Thompson.

Segundo o professor, os relatos da população local sobre problemas de saúde variados, tanto agudos quanto crônicos, reforçam a percepção acerca dos problemas ambientais existentes.

Fonte: COPPE/UFRJ

Pesquisa de mestrado da UENF vira cartilha de boas práticas para o manejo de recursos hídricos

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Atualmente vê-se muita crítica acerca de uma suposta incapacidade das universidades públicas de gerarem conhecimento que seja útil à sociedade em geral e, mais especificamente, para aqueles que mais precisam de formas adequadas de gestão de recursos ambientais estratégicos como é o caso da água.

É preciso que se reconheça que parte dessas críticas é bastante razoável, já que a forma pela qual as universidades são obrigadas a funcionar para garantir a sua sobrevivência acaba sendo um impeditivo para que haja a necessária transposição entre o conhecimento básico e aplicado que a comunidade científica produz e a sociedade que precisa estabelecer novas formas de uso e gestão de recursos cada vez mais demandados.

Por isso, quando determinadas iniciativas são realizadas a importância que elas assumem vão muito além dos seus idealizadores e até do público alvo inicial das mesmas.  É por isso que tenho uma a imensa satisfação de disseminar a cartilha de boas práticas ambientais que foi produzida com base no esforço do meu ex-orientando no Programa de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Guilherme Campos Valvasori, que concluiu com êxito sua dissertação de mestrado em Março de 2018.

Agora, com base nas pesquisas realizadas em seu mestrado, Guilherme Valvasori e  Daniel Morris lançam esse trabalho que mistura informações científicas em linguagem acessível a todo tipo de público e belas ilustrações como a da capa que aparece logo abaixo.

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Esse tipo de esforço deixa evidente os riscos que correremos se a guerra já declarada às universidades públicas não for enfrentada com o devido vigor. É que sem universidades públicas não haverá nada em termos de conhecimento que possa ser difundido, pois simplesmente não haverá geração de conhecimento.

Quem desejar ter acesso ao conteúdo completo da cartilha “Belisário: em busca de harmonia entre o homem e a Serra do Brigadeiro”, basta clicar [Aqui!]

Reitoria emite comunicado à comunidade universitária após “visita” à minha sala na UENF

Informei neste blog de uma inspeção que ocorreu na minha sala de trabalho no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense por pessoas que se apresentaram como sendo membros da fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral  (TRE) em Campos dos Goytacazes [1].  Os que leram a postagem onde informei de tal “inspeção” notaram que houve uma série de comentários por parte do Sr. Matheus Machado, que se apresentou como fiscal do próprio TRE,  negando que qualquer operação de fiscalização oficial tivesse ocorrido no meu local de trabalho, e que eu estarei propagando uma “fake news“.

Pois bem, dado a gravidade do ocorrido, já que agora está clara a hipótese de que quem inspecionou a minha sala não estavam realizando uma operação oficial do TRE,  o reitor da Uenf, Prof. Luís Passoni, divulgou um comunicado à toda comunidade universitária da Uenf indicando o procedimento que deverá ser adotado na ocorrência de visitas de pessoas que se apresentem como “fiscais eleitorais” (ver documento abaixo).

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Como já disse de forma repetida, não tenho como prática a produção de “fake news” e não teria porque começar agora. Desta forma, vou aguardar os procedimentos que a Uenf adotará para apurar o que de fato ocorreu no meu espaço de trabalho e quem foram os responsáveis pelo fato.

Mais informações sobre esta situação inusitada serão oferecidas assim que forem obtidas.


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/10/19/fiscais-do-tre-inspecionaram-minha-sala-na-uenf-vao-agora-nas-igrejas-e-templos/

Alô TRE! Propaganda eleitoral no campus da UENF pode ou não?

Na semana passada o veículo transportando o deputado federal Chico Alencar, candidato ao senado pelo PSOL, foi impedido de entrar no campus Leonel Brizola sob a alegação de que está proibida a entrada de veículos om propaganda eleitoral dentro de instituições públicas. Além disso, ouvi pelo menos um relato de professor da própria universidade que foi proibido de entrar com seu veículo no pátio do campus de Macaé por estar portando propaganda eleitoral. 

Pois bem, hoje (11/09) um veículo com placa de Bom Jesus do Norte (ES), não só pode entrar no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense, mas como pode permanecer estacionado, enquanto portava uma propaganda do candidato a deputado federal pelo DEM do Rio de Janeiro (ver imagem abaixo).

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A questão que se coloca para os sempre atentos juízes e fiscais do TRE/RJ:  propaganda eleitoral no campus da UENF pode ou não? Ou a restrição é apenas para candidatos de esquerda e a coisa pode correr livre, leve e solta para quem é apoiado, por exemplo, pelo Pastor Silas Malafaia?

Mas como as discrepâncias estão ocorrendo no campus da UENF, a reitoria da instituição também poderia se manifestar sobre essa situação.

Que o lamento pelo Museu Nacional se transforme em cuidado com a Casa de Cultura Villa Maria

Por Simonne Teixeira*– João Pessoa, setembro de 2018.

Domingo à noite entrei numa espécie de torpor, numa atmosfera nublada, da qual ainda não consegui sair completamente. As imagens do Museu Nacional ardendo em chamas abrasou meus olhos e chorei. O Museu Nacional é (porque ainda não assimilei seu desaparecimento) uma referencia na minha formação: estágio e pesquisas; colegas professores, antes estudantes. Partilhei as angustias cotidianas de saber e reconhecer o valor material e imaterial desde que seria o maior e mais importante patrimônio cultural e cientifico da nação, ao mesmo tempo que via o deterioro do edifício e das coleções, apesar dos esforços ciosos dos professores, estudantes e alunos para garantir sua integridade. Uma luta sem trégua, resistência persistente daqueles que zelavam pelo patrimônio de todos.

Na noite de domingo recebi inúmeras mensagens de amigos, alunos e ex-alunos chocados  diante daquelas imagens. Não sei se buscavam consolo ou queriam me consolar. Em realidade, estávamos todos nos sentido atacados por alguma coisa que não eram apenas aquele fogo que levava consigo parte da historia do mundo. Muitos vinham me lembrar das aulas, dos debates e discussões que tivemos ao longo destes 22 anos em que sou professora na Universidade Estadual do Fluminense (Uenf). Era para me sentir orgulhosa. Me sentia envergonhada.

Olhando aquelas imagens na TV não podia deixar de pensar nos riscos que nossas instituições centenárias estão expostas pelo descaso e pela falta de investimento. Não seria a primeira vez que tive sobressaltos com a possibilidade ver a Casa de Cultural Villa Maria da Uenf Darcy Ribeiro, ardendo em chamas. Mas naquele momento elas assumiam uma concretude dolorosa, cheguei a ver nas ruínas do Museu Nacional as da Villa Maria.

O dia-a-dia como gestora da Casa de Cultura Villa Maria exige uma espécie de cegueira consciente aos inúmeros problemas que enfrentamos devido à falta de recursos para uma restauração adequada ou mesmo para acudir aos pequenos reparos. Depois de dois anos e nove meses como gestora na Casa, vamos nos acostumando a ver os buracos no teto; as peças dos mosaicos do piso soltas, assim como os tacos de madeira; as infiltrações e as paredes manchadas; aos arbustos que brotam no telhado, assim como os problemas estruturais no telhado do anexo construído mais recentemente, sem os cuidados e os materiais de qualidade; dentre tantos outros. A lista é grande e os recursos inexistem. Nossa resistência tem sido, apesar dos problemas, dar vida à Casa, conhecer os problemas e buscar soluções que permitam o desenvolvimento das atividades fins.

Que bom seria neste ano em comemoramos o seu centenário, termos os recursos, para garantir que a Villa Maria possa comemorar o seu bicentenário, e outros tantos centenários! O espectro do incêndio do Museu Nacional deveria se configurar como alerta a todos nós, gestores da universidade, do município, do estado e dos órgãos de cultura. É preciso um esforço consciente e poderoso, com apoio da sociedade civil no sentido de tratar a cultura e a ciência como um elemento fundamental em nossa existência. O que podem tirar nós para que deixemos de ser nós mesmos? A resposta é curta: nossa memória. A memória deve ser como um farol, iluminando nosso passado para sabermos quem somos e podermos construir o nosso futuro, ou quem queremos ser. Defender nosso patrimônio, é defender nossa memória, é construir o futuro.

Desejo à Villa Maria um futuro longevo (milenar, se acaso não estou exagerando), reafirmando a importância cultural e científica da UENF no norte fluminense, resguardando a memória local. Que sua presença no Quadrilátero Histórico, seja para nós, sempre um inspiração à generosidade, a mesma que Maria de Queiróz, a Finazinha, teve como sua cidade e com sua gente. Desejo que o único fogo seja o de nossos corações, ardendo em júbilo por sermos capazes de garantir às futuras gerações nosso legado cultural, científico, cultural.

*Simonne Teixeira é professora associada do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e diretora da Casa de Cultura Villa Maria.

Em visita surpresa, Eduardo Paes e Comte Bittencourt vêem de perto o caos criado pelo (des) governo Pezão na UENF

O campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi hoje palco de uma inesperada (e não comunicada) visita da chapa ao governo do Rio de Janeiro formada por Eduardo Paes (DEM) e Comte Bittencourt (PPS) (ver imagem abaixo).

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Essa visita é daquele tipo do carrasco que visita a vítima, já que Eduardo Paes esteve até recentemente no PMDB de Sérgio Cabral e Pezão que colocaram a Uenf na maior crise financeira e acadêmica da sua jovem história de 25 anos. Já Comte Bittencourt, presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, passou ao comportamento “tô vendo, mas finjo que não” desde que o seu partido, o PPS, o mesmo do prefeito Rafael Diniz, entrou para a base do (des) governo Pezão.

A coisa foi tão de sopetão (providencialmente, aliás) que a reitoria da Uenf nem usou a intranet da universidade para informar sobre a presença dos “ilustres visitantes”. Talvez para evitar algum tipo de manifestação desairosa por parte da comunidade universitária.

Mas como desse mato não deverá sair coelho caso os dois sejam, sabe-se lá como, eleitos para governar o Rio de Janeiro, fica o registro da presença que certamente foi autorizada pelo Tribunal Regional Eleitoral, sempre tão cioso da presença de políticos em repartições públicas durante campanhas eleitorais.