Estudo da UENF revela que água consumida em assentamento no Norte Fluminense apresenta contaminação

Coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, foram encontrados

pedlowski

Marcos Pedlowski alerta para o resultado apresentado (Foto: reprodução de Facebook)

Por Cláudia Freitas para o Portal Eu,Rio!

A revista científica Heliyon publicou nesta quinta-feira (7/3) um estudo feito por pesquisadores do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (CCH/UENF), que avalia a qualidade da água consumida por moradores do Assentamento Zumbi dos Palmares, localizado a cerca de 10 km do Centro de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Os resultados são alarmantes e revelam que em todos os parâmetros adotados as amostras apresentam índices elevados de contaminação por coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, inclusive nitrato, em comparação com os padrões internacionais. Para os cientistas, a água na região deve ser classificada como inadequada para o consumo humano.

A novidade da pesquisa está na metodologia aplicada pelos cientistas da UENF. Eles desenvolveram o trabalho integrando fatores que normalmente não são avaliados e com critérios integrados. Utilizando os parâmetros físico-químicos (PH, condutividade, turbidez), os pesquisadores conseguiram identificar diversificados elementos de contaminação. “O que mais nos preocupa é a constatação de que as amostras são semelhantes às de várias áreas rurais do Brasil, ou seja, o problema deve estar afetando muitas populações, mais do que estamos imaginando”, afirma o professor Marcos Pedlowski, que integra o grupo de estudo.

O conteúdo da pesquisa destaca: “os resultados de nossas análises de poços rasos no assentamento Zumbi dos Palmares mostraram que várias amostras apresentavam valores além dos limites estipulados pela legislação brasileira que regula a qualidade da água utilizada para a água potável. Além disso, também observamos relações significativas entre diferentes variáveis apontando para um processo de contaminação da água causado por fontes provocadas pelo homem”. Para Pedlowski, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo, como o caso do herbicida Atrazina.

Em outro trecho, os autores enfatizam que as amostras de concentração de nitrato apresentaram valores elevados, em dois casos ultrapassando o limite estabelecido na Portaria 2914/2011 e fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para água potável. Os professores acreditam que a contaminação deve estar relacionada à lixiviação dos fertilizantes do solo, pois a maior concentração foi encontrada em períodos de chuva.

“Lembro que o estudo foi feito num assentamento de reforma agrária onde o uso de agrotóxicos não é elevado quando comparado com grandes áreas de monoculturas.  Os assentados são uma espécie de canário das minas de carvão.  Se o problema está se manifestando em áreas de agricultura familiar, imagina o que não está acontecendo em áreas hegemonizadas pela soja e pela cana-de-açúcar”, destaca o professor.

Na conclusão do trabalho, os autores sugerem que a qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento tenha como referência outros parâmetros além da base no nível de contaminação biológica, passando a acrescentar, por exemplo, os níveis de nitrogênio associados ao uso de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos.

Pedlowski conta que as amostras de água analisadas foram coletadas em 2014, mesmo ano que o estudo foi finalizado. No entanto, os resultados só foram divulgados nesta quinta (7). Nos cinco últimos anos, outros trabalhos associados foram iniciados, mas ainda estão em andamento. De agosto de 2018 a fevereiro deste ano, Pedlowski esteve no Centro de Ecologia, Evolução e Alteração Ambiental da Universidade de Lisboa, em Portugal, participando de uma pesquisa sobre biorremediação de agrotóxicos. O estudo tem como uma das suas bases a pesquisa realizada pelos profissionais da UENF.

“A contaminação biológica é, talvez, de solução mais fácil. Mas a contaminação causada por fertilizantes sintéticos e agrotóxicos demanda uma mudança de paradigma no processo que é tradicionalmente utilizado para descontaminação de água para consumo humano. No caso dos agrotóxicos, o primeiro passo [em direção a uma bioerremediação] seria adotar padrões mais restritivos para a tolerância de resíduos na água, tal qual tem feito a União Europeia, por exemplo. Outra medida seria obrigar as empresas concessionárias de água e esgoto a aperfeiçoar seus sistemas de tratamento. Do contrário o problema só vai se agravar”, destaca Pedlowski.

O médico Décio Lerner, chefe do setor de Oncologia do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), esclarece que esses tipos de agrotóxicos podem causar dano no DNA, elemento que está em todas as células e carrega toda a informação genética do indivíduo. Segundo ele, os agrotóxicos podem funcionar como fator desencadeante do câncer ao provocar esta modificação no DNA. O médico enfatiza também que não há estudos conclusivos sobre qual a quantidade e o tempo de exposição para causar prejuízos ao organismo humano.

Lerner diz ainda que alguns agrotóxicos estão implicados com lesão na medula óssea, órgão que fica dentro dos ossos e é responsável pela produção dos elementos sanguíneos. Nesse caso a “fábrica” do sangue pode simplesmente parar ou funcionar irregularmente, necessitando, assim, de um transplante de medula óssea.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Eu,Rio! [Aqui!]

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