Desmatamento na Amazônia coloca sob risco o acordo Mercosul-União Europeia

Embaixador alemão diz que acordo entre UE e Mercosul depende de redução de desmatamento do Brasil

fogo amazoniaFumaça oriunda de incêndios florestais ilumina o céu em Humaitá (AM). Reuters

O embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, disse durante um evento que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia não será ratificado pela parte europeia caso o governo brasileiro não reduza o desmatamento.

O embaixador deu as declarações durante mesa-redonda sobre economia e meio ambiente no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio. As informações foram publicadas pelo jornal Valor Econômico.

“Se o governo não conseguir lutar contra o desmatamento ilegal e reduzi-lo para as taxas de 2017, eu acho que não tem nenhuma chance de ratificar [o acordo] na Alemanha e o [presidente da França Emmanuel] Macron e outros ficarão bem felizes sobre isso”, disse Georg Witschel.

Witschel: “O fracasso do Fundo Amazônia será um torpedo no acordo UE-Mercosul“ — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Witschel: “O fracasso do Fundo Amazônia será um torpedo no acordo UE-Mercosul“ — Foto: Leo Pinheiro/Valor

O embaixador alemão disse que notícias negativas sobre o desmatamento no Brasil fazem com os deputados europeus sejam questionados nos distritos.

“É cada vez mais difícil convencê-los [os deputados] de que eles devem aprovar o acordo. Por isso, o Brasil tem de reduzir a taxa de desmatamento, de maneira rápida e significativa”, afirmou.

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia foi finalizado em 28 de junho de 2019 e atualmente passa por uma revisão técnica e jurídica prevista para terminar até o final deste mês.

Segundo o jornal, Georg Witschel se disse mais de uma vez “louco” ou “desesperado” por ter de travar embates internacionais sobre meio ambiente e o governo brasileiro dizer que “mudança climática é mentira”.

“Isso coloca um risco altíssimo para a ratificação [do acordo]”, disse.

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Esta matéria foi inicialmente publicada pela Sputniks News [Aqui!].

Presidente da Suzano Celulose prevê desmatamento catastrófico na Amazônia

fireDesmatamento e fogo: irmãos siameses da destruição da Amazônia

Em entrevista produzida para a Bloomberg e repercutida pelo site UOL, o presidente da Suzano Papel e Celulose, Walter Schalka, fez uma previsão sombria sobre o avanço do desmatamento na Amazônia. Segundo o que escrevem os jornalistas Gerson Freitas Jr. e Fabiana Batista, Schalka acredita que as taxas de desmatamento na Amazônia serão ainda maiores em 2020, o que representará, nas palavras da maior empresa de celulose do mundo, uma “verdadeira catástrofe”.

Amazônia catastrofe

Vinda da boca de um membro do alto empresariado mundial, esta previsão remonta a quase que uma certeza de que o pior ocorrerá.  A verdade é que este avanço da franja de desmatamento para partes ainda relativamente intocadas da floresta amazônica é algo mais do que previsível visto que o governo Bolsonaro operou para desconstruir a frágil governança ambiental existente na Amazônia, bem como desmantelou os igualmente tíbios mecanismos de comando e controle que impediam a ação descontrolada de todo tipo de agente de pilhagem das riquezas naturais estocadas nos biomas amazônicos.

Diante das ações objetivas do governo Bolsonaro é que foi dada uma ordem não escrita para a realização de uma pilhagem generalizada na Amazônia, a qual envolve desde elementos paroquiais ligados a grupos liderados por aliados políticos de Jair Bolsonaro até grandes corporações multinacionais. Com isso, o aumento das taxas de desmatamento não é só previsível, mas quase que inevitável. 

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O que a entrevista do presidente da Suzano Celulose não abordou é que o desmatamento é apenas uma das faces da moeda, pois há ainda que se levar em conta o aumento do processo de degradação florestal que é causado, entre outras coisas, pelos garimpos e pela exploração ilegal de madeira.  Como já existem evidências que a degradação corre quase como um processo separado e autônomo em relação ao desmatamento, a catástrofe poderá ser maior do que a antevista por Walter Schalka.

O interessante é que outra coisa previsível que deverá acompanhar o avanço do desmatamento e da degradação será o aumento das dificuldades para que seja aprovado no Parlamento Europeu o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Isso se dá por causa das salvaguardas postas neste acordo em termos da proteção dos ecossistemas amazônicos e dos povos indígenas que neles vivem. Como o governo Bolsonaro não está agindo para conter tanto o desmatamento como a invasão dos territórios indígenas, a vida dos que se opõe à assinatura do acordo de livre comércio entre UE e o Mercosul vai ser facilitada. Com isso, aumentará ainda mais a dependência do Brasil da apetite do mercado chinês. Isso até que o governo da China resolva parar de olhar para o outro lado em relação ao processo de destruição das florestas amazônicas. Isto sem falar nos impactos inevitáveis que a epidemia do coronavírus irá causar no apetite importador dos chineses.

De toda forma, há que se preparar o espírito e os pulmões para a próxima estação de queimadas que vai ocorrer na Amazônia brasileira. Eu não me surpreenderei se tivermos por aqui um cenário semelhante ao que acaba de acontecer na Austrália. Lembrando-se que hoje a imensa maioria dos habitantes da região amazônica vivem em cidades que estarão cercadas de incêndios criados pelo desmatamento e pelo uso de outras estratégias de aproveitamento das terras desflorestadas. Em  outras palavras, a catástrofe poderá ser muito maior do que a prevista pelo presidente da Suzano Celulose. 

Mais problemas para o Brasil: Partido Verde alemão pede renegociação substantiva no acordo UE-Mercosul

O Brasil, o coração do bloco do Mercosul,  desmatam a Amazônia e viola os direitos humanos. Os Verdes acusam o governo alemão de fracassar na política comercial

mercosulOs Verdes alemães estão pedindo que as negociações com o grupo de representantes da América do Sul sejam interrompidas. Imagem:  Reuters

Por Moritz Koch e Silke Kersting

Os Verdes alemães estão pedindo ao governo federal da Alemanha que trabalhe no Conselho Europeu para congelar a ratificação do acordo Mercosul . “O capítulo de sustentabilidade do acordo é completamente inadequado”, diz uma solicitação dos verdes no grupo parlamentar do Bundestag, que foi submetida ao Handelsblatt e está programada para ser levada ao parlamento na sexta-feira. A cláusula de direitos humanos também deve ser reforçada.

O governo federal deve “advogar um novo mandato de negociação no Conselho da União Europeia (UE) que forneça regras para a proteção e conservação do meio ambiente, biodiversidade e clima, bem como normas trabalhistas e sociais para todos os capítulos relevantes para o comércio”, continua. Também precisava de um capítulo de sustentabilidade sancionável, acordos para preservar a floresta amazônica em seu tamanho atual e um mecanismo de reclamação eficaz por violações de direitos humanos.

“Vários governos europeus expressaram críticas claras ao acordo de livre comércio UE-Mercosul; a Áustria agora se comprometeu com um não ” , disse Katharina Dröge, porta-voz da facção Greens Bundestag, o Handelsblatt. “É incompreensível que o governo alemão cumpra obstinadamente um contrato que continua a alimentar o desmatamento da floresta amazônica.” Dada a situação devastadora no Brasil e o desmatamento progressivo da floresta tropical, o acordo do Mercosul deve ser interrompido e renegociado.

Os Verdes acusam a grande coalizão de fracassar na política comercial. Uma política comercial responsável reconcilia interesses econômicos, proteção climática e ambiental, desenvolvimento sustentável e proteção dos direitos humanos.

O governo federal da chanceler Angela Merkel não cumpre essa reivindicação há anos. Berlim deveria se unir à Finlândia e defender “que geralmente não entram mais na UE produtos que contribuam para a destruição de áreas florestais ecologicamente importantes”, disse Dröge.

Nova estratégia de matérias-primas é pedida

As organizações de direitos humanos Germanwatch e Misereor também estão pedindo que o acordo comercial seja interrompido. “A oportunidade de ancorar regras efetivas para a proteção dos direitos humanos e da floresta tropical no acordo foi perdida”, reclamam em comunicado conjunto.

Ministério Federal da Economia , por outro lado, argumenta que o acordo comercial oferece vantagens geoestratégicas além da política de crescimento. Por exemplo, é importante vincular os países mais importantes da América Latina à Europa – principalmente com vistas às atividades dos chineses, que também estão expandindo sua esfera de influência nessa região.

A competição geoeconômica se intensificará ainda mais no futuro, o fornecimento de matéria-prima também entrará em foco. Portanto, o Gabinete Federal decidiu uma nova estratégia de matérias-primas na quarta-feira. Os Verdes elogiam abordagens, mas pedem uma abordagem mais determinada.

Por esse motivo, o grupo parlamentar verde desenvolveu seu próprio conceito que, além da devida diligência em direitos humanos, também enfatiza a reciclagem. “O requisito deve ser que o consumo de recursos diminua e não continue aumentando”, disse o político econômico verde Dieter Janecek.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pelo jornal da área financeira Handelsblatt que é impresso na cidade de Dusseldorf [Aqui!].

Agricultura envenenada: a lista completa dos 503 agrotóxicos liberados em 2019

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Após a última rodada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro por meio do Ato No. 91, publicado no dia 27 de dezembro, alcançou-se o incrível total de 503 produtos liberados para comercialização no mercado nacional.

Em função disso, atualizei a base que comecei a construir desde a primeira rodada de liberações do governo Bolsonaro que se deu por meio do Ato No. 1 que foi publicado na edição do Diário Oficial da União do dia 10 de janeiro de 2019.

A minha expectativa é que o acesso livre a esta base sirva para que pesquisadores e cidadãos preocupados com o aprofundamento de um modelo agrícola viciado em venenos rejeitados em outras partes do mundo possam estudar as principais características das substâncias liberadas em 2019, de forma a se ampliar os estudos sobre os impactos que estas substâncias trarão sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Os interessados em ter acesso a base dos 503 agrotóxicos liberados em 2019, basta clicar Aqui!

Mariane Crespolini, a doce face do negacionismo climático dentro do governo Bolsonaro

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Mariane Crespolini  em evento promovido pela Scot Consultoria onde proferiu a palestra intitulada “De que adianta adubar, se eu não sei meu custos?”: Fonte CEPEA USP/ Facebook

O fato do governo Bolsonaro estar repleto de figuras que rejeitam o conhecimento científico que atesta de forma inescapável a ocorrência de um processo de mudanças climáticas causadas pela ação humana não chega a ser novidade.  Nesse time nada seleto de negacionistas climáticos estão inclusos o próprio presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e também o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. 

Mas foi em uma “live” feita por Jair Bolsonaro que o Brasil pode conhecer, digamos, uma face mais doce do negacionismo climático que grassa no atual governo na figura da diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação na Secretaria de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação (SDI) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a doutoranda da Universidade de São Paulo,  Mariane Crespolini dos Santos (ver vídeo abaixo).

Como se vê nesse trecho,  Mariane Crespolini dá uma espécie de “aulão privé do negacionismo climático” a Jair Bolsonaro, à sua chefe imediata, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e a outros presentes no “evento”.

Dentre os diversos absurdos proferidos por Mariane Crespolini neste curto vídeo é de que “muito pesquisador bom, de credibilidade, que mostra que mudança climática não existe“.  Esse tipo de afirmação poderia até passar batida se quem a proferisse não tivesse sido treinada em duas das melhores universidades do Brasil e da América Latina, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É que apesar dessas instituições certamente possuírem docentes que negam as obviedades em torno da ciência das mudanças climáticas, elas também hospedam pesquisas de peso e de grande influência nos debates em curso em torno dos problemas causados por esse processo, a começar pelo pesquisador e professor do Departamento de Física, Paulo Artaxo, que é membro e importante contribuinte dos documentos científicos produzidos pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).

Assim, ao reduzir uma discussão que será estratégica até para o setor do qual ela é claramente uma expert, o da pecuária bovina, Mariane Crespolini não apenas presta um desserviço ao governo do qual participa, mas aos interesses dos segmentos mais vinculados ao comércio global, da qual ela é aparentemente membro (ver abaixo vídeo de 2017 onde Crespolini fala sobre preços de bois em confinamento).

É que como mostrou matéria publicada hoje pelo “The Guardian”, a pressão política e econômico sobre os grandes frigoríficos para que se desvinculem de fornecedores vinculados ao desmatamento na Amazônia está aumentando fortemente a partir da União Europeia.  Como já está demonstrada estreita ligação entre desmatamento e emissões de CO2 que aceleram as mudanças climáticas, Mariane Crespolini pode até estar tocando música para os ouvidos de seus chefes no governo Bolsonaro, mas também está aumentando os riscos de que o Brasil e sua produção agropecuária sejam duramente punidos nos próximos anos pelo que está acontecendo na Amazônia em termos de desmatamento e violência contra os povos indígenas.

Por outro lado, o ataque de Mariane Crespolini à ciência das mudanças climáticas faz parte, como eu disse, de um movimento feito por pesquisadores brasileiros de baixa ou nenhuma credibilidade contra um sólido corpo de conhecimento científico.  O problema é que até este momento não tenho visto uma ação firme dos estudiosos das mudanças climáticas para isolar essas vozes, de modo a impedir que tenham qualquer influência na formulação das políticas do Estado brasileiro que afetam a conservação das nossas florestas e, por que não, a estabilidade do comércio de nossas commodities agrícolas. 

A minha expectativa é que a partir dos resultados desastrosos que a participação da delegação brasileira na COP25 e nas restrições que isto trará para a balança comercial brasileira, o governo Bolsonaro a falar com quem entende do assunto e não com quem adota uma postura ideológica que despreza o conhecimento científico, como parece ser o caso de Mariane Crespolini,  para mostrar serviço aos setores mais atrasados e retrógrados do agronegócio exportador.

Amazônia em chamas: estudo mostra que queimadas são três vezes mais comuns em áreas de pecuária

Investigação revela que 70% dos alertas de incêndio da Nasa estavam localizadas nas zonas estimadas de compra de empresas de carne bovina, algumas das quais exportam para o Reino Unido

guardian 1As zonas de compra estimadas de 128 matadouros foram combinadas com a localização de alertas de incêndio florestal. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Alexandra Heal, Andrew Wasley, Sam Cutler and André Campos para o “The Guardian”

Os incêndios foram três vezes mais comuns nas zonas produtoras de carne do que no restante da Amazônia neste verão, segundo uma nova análise.

As descobertas mais uma vez chamam a atenção para os vínculos entre a poderosa indústria de carne bovina do Brasil e o desmatamento da floresta amazônica, assim como o mundo debate as mudanças climáticas na COP25.

Em resposta ao trabalho do Guardian e do Bureau of Investigative Journalism (BIJ), os eurodeputados pediram à UE que bloqueie a carne bovina que pode estar ligada ao desmatamento. “É absolutamente urgente que a UE imponha um dever legal às empresas européias para garantir que suas cadeias de suprimentos estejam livres de desmatamento”, disse Heidi Hautala, uma eurodeputada finlandesa.

gado fogoNa imagem acima no lado esquerdo aparecem as áreas estimadas como sendo de pontos de compra de animais para abate pelos grandes frigoríficos. Já no lado direito aparecem os focos de incêndio na Amazônia brasileira. Em dois 2/3 dos casos há coincidência entre os dois fatores.

Há dois anos, a ONG brasileira Imazon coletou dados para estimar as zonas de compra de carne bovina em toda a Amazônia. Eles identificaram 128 matadouros e começaram a estabelecer as áreas a partir das quais essas plantas poderiam comprar seu gado para processamento. Por meio de entrevistas por telefone com a equipe dos matadouros, ou fazendo médias com base em métodos em outras frigoríficas, a equipe de pesquisa coletou informações sobre as distâncias máximas das quais cada um provavelmente obteria gado.

Eles modelaram esses dados com base em fatores locais, como estradas, rios navegáveis e padrões climáticos, e estimaram a zona de compra potencial máxima para cada matadouro. As zonas de compras cobrem grandes áreas de centenas de km e há sobreposição significativa entre as zonas de compras para diferentes empresas. Somados, os dados criam uma imagem convincente das áreas da Amazônia onde o gado está sendo criado para a carne bovina.

Usando métodos projetados pelo projeto de sustentabilidade sem fins lucrativos Chain Reaction Research, o Guardian e o BIJ mapearam os alertas de incêndio da Nasa arquivam dados na área legalmente definida da Amazônia e descobriram que dos 554.000 alertas de julho a setembro, quase 376.000 – cerca de 70% – estavam nas zonas de compra estimadas, apesar de essa área cobrir muito menos da metade da Amazônia legal.

Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na região. Mais de um quarto de milhão de alertas de incêndio foram emitidos nas zonas estimadas de compra da JBS, a maior fornecedora de carne do mundo, por exemplo. Sabe-se que suas fábricas exportam para a Europa, inclusive para empresas do Reino Unido.

Havia quase 80.000 alertas de incêndio nas prováveis ​​áreas de compra da Marfrig, o terceiro maior exportador brasileiro de carne bovina, e mais de 66.000 em torno de matadouros pertencentes à Minerva. Esses três frigoríficos dominam a Amazônia brasileira e respondem por quase metade do gado abatido na região, segundo o Imazon.

guardian 2Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na Amazônia. Fotografia: Marco Antonio Rezende / Getty

JBS, Marfrig e Minerva disseram ao Bureau que estavam comprometidos com as cadeias de suprimento de “desmatamento zero” e que todos monitoram seus fornecedores para garantir isso.

“A correlação teórica baseada em estimativas não é causal e é enganosa”, disse um porta-voz da JBS. “A JBS está trabalhando ativamente para reunir outras partes interessadas e empresas importantes para unir forças para preservar a Amazônia.”

A empresa acrescentou: “Se as fazendas são consideradas não compatíveis com nossas políticas de abastecimento sustentável por qualquer motivo, incluindo o desmatamento, elas estão bloqueadas em nossa cadeia de suprimentos … Não estamos envolvidos nem toleramos a destruição da Amazônia”.

A Marfrig também disse que bloqueou todas as fazendas encontradas envolvidas no desmatamento e que começou a monitorar os focos de incêndio em agosto deste ano. “Sempre que qualquer sobreposição de áreas entre as propriedades e os focos de incêndio é identificada, há um alerta para que a compra seja reavaliada”, afirmou a empresa em seu comunicado.

Minerva disse que não havia evidências de que havia comprado animais de fazendas onde ocorreram incêndios e culpou a crise deste ano pelo clima. Ele disse que “não há conexão comprovada com as atividades do agronegócio”.

Em uma investigação separada, também foram encontrados incêndios em pelo menos três fazendas conhecidas por vender gado diretamente aos matadouros da JBS. Trabalhando com a Repórter Brasil, o BIJ descobriu que pelo menos uma dessas plantas exporta carne e couro globalmente.

Enquanto JBS, Marfrig e Minerva dizem estar confiantes de que o gado que compram não provém de áreas ilegalmente desmatadas, eles também aceitam que não sabem a origem de muitos porque o gado é frequentemente movimentado entre os milhares de fazendas de criação, criação e engorda.

A indústria de carne bovina é vista como uma das principais causas do desmatamento na região amazônica. Os criadores de gado são responsáveis ​​por 80% da derrubada de terra em todos os países com cobertura florestal na Amazônia, de acordo com a Escola de Estudos Florestais e Ambientais da Universidade de Yale.

JBS, Minerva e Marfrig admitem que não podem monitorar as fazendas que estão mais abaixo em suas cadeias de suprimentos. “Atualmente, nenhum dos participantes do setor consegue rastrear fornecedores indiretos”, disse Minerva.

guardian 3Havia mais de meio milhão de alertas de incêndio da Nasa na Amazônia de julho a setembro. Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Marfrig disse ao Bureau que mais da metade do gado que abate é originário desses fornecedores indiretos.

Todas as três empresas disseram que estavam trabalhando com o governo ou ONGs para abordar esse ponto cego nos seus processos de monitoramento.

A JBS afirmou: “Estamos trabalhando com autoridades locais, governo e setor em geral para obter acesso aos dados e ferramentas necessárias para resolver esse problema.” A Marfrig disse que solicita informações de compra de gado de seus fornecedores diretos, enquanto Minerva afirma que mais policiais era necessário em todas as etapas da cadeia.

Os incêndios na Amazônia neste verão causaram alarme global. Não há evidências de que esses incêndios tenham sido iniciados em ou por fazendas que fornecem JBS, Marfrig ou Minerva, mas a própria existência de uma colcha de retalhos de fazendas na floresta tropical pode estar ajudando a agravar o efeito geral dos incêndios iniciados em outros lugares. “Todo o clima local é mais seco porque você está obtendo menos evaporação das árvores”, disse Yavinder Malhi, professor de ciência de ecossistemas da Universidade de Oxford.

Especialistas dizem que o aumento dos incêndios foi causado diretamente pelo aumento do desmatamento: a queima intencional de árvores que haviam sido derrubadas meses antes, em vez de incêndios florestais aleatórios. “Depois de limpar a floresta para fazer uma fazenda, você tem muitos materiais mortos espalhados e os agricultores esperam até a estação seca para queimar esse material”, disse Malhi.

O desmatamento tem sido uma questão-chave nas negociações sobre mudanças climáticas em Madri, e importantes empresas do Reino Unido escreveram ao governo brasileiro na semana passada para pedir ações urgentes.

Em resposta às novas descobertas, os deputados Manon Aubry e Heidi Hautala pediram uma ação. “Não pode ser responsabilidade do consumidor garantir que os produtos nas prateleiras dos mercados europeus sejam produzidos de maneira sustentável”, disse Hautala ao Guardian. “O consumidor precisa confiar que apenas os itens produzidos com responsabilidade são vendidos na Europa.” Aubry pediu uma reavaliação do Acordo Comercial UE-Mercosul, que aumentaria as importações para a Europa do Brasil e de outros países da América do Sul.

guardian 4Um número recorde de incêndios florestais no Brasil em 2019 provocou protestos globais. Fotografia: Kenzo Tribouillard / Getty

A UE também tem que questionar o impacto dos acordos de livre comércio que são prejudiciais para o planeta e as pessoas. Um acordo com o Mercosul pioraria a situação e aceleraria o desmatamento na Amazônia. ”

“Nossas descobertas ilustram que incêndios e desmatamento continuam ocorrendo na cadeia de suprimentos da JBS, apesar das políticas e compromissos da empresa”, disse Marco Tulia Garcia, que liderou a pesquisa na Chain Reaction. “É da maior urgência que a JBS resolva esses problemas.”

A JBS recentemente criou um site que permite que os clientes pesquisem códigos de produtos para o nome e as coordenadas da última fazenda para criar o animal antes do abate, em um movimento descrito na imprensa especializada como uma redução da transparência. Os clientes agora são redirecionados para outro site, onde apenas o nome e o município das fazendas são fornecidos.

A empresa afirmou: “Devido a questões legais baseadas no Regulamento Geral de Proteção de Dados do Brasil, a empresa limitou algumas das informações de terceiros publicadas em seu site … A JBS possui uma política de transparência robusta.”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

O discurso delirante de Jair Bolsonaro na ONU aumentará isolamento do Brasil

bolsonaro-onuO discurso fortemente ideológico de Jair Bolsonaro na assembleia geral da ONU deverá aprofundar o isolamento do Brasil

Acabei de assistir à relativamente longa (pelos padrões praticados até aqui em eventos multilaterais) e dolorosa fala do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). O doloroso fica por conta da tarefa árdua de ouvir o amontoado de clichês que alguém colocou no papel para ser lido por um presidente que objetivamente não possui a menor noção dos problemas que seu ainda breve governo já criou para o Brasil. E que agora certamente aumentarão como fruto de um discurso puramente ideológico cuja essência é negar fatos concretos.

Das questões mais notáveis da fala de Jair Bolsonaro estão os ataques à mídia, à Cuba e À Venezuela, ao cacique Raoni Metuktire, ao globalismo, às ditas ingerências na soberania do Brasil, e desaguando em uma citação bíblica, a de João 8:32 (E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”).

Não faltou ainda os ataques a uma suposta ideologização da sociedade brasileira, que estaria perpassando todos os segmentos imagináveis, começando, obviamente, pela mídia que estaria mostrando, por exemplo, uma devastação inexistente na Amazônia brasileira. Nesse quesito, Jair Bolsonaro apresentou números muito peculiares, tanto na área do território nacional usada para agricultura (que seriam meros 8%) e para a conservação ambiental (estrondosos 60%).  Bolsonaro não deixou citar as comparações com o que estaria sendo usado para agricultura em países como Alemanha e França, os quais, segundo ele, usariam quase 6 vezes mais do seu território para produzir alimentos.

Um momento esquisito do discurso foi a deferência especial à Israel que teria enviado suas tropas para participar de ações de resgates no Brasil (o que se reduziu a 4 dias em Brumadinho e 4 dias em Rondônia). O problema é que essa deferência toda antecedeu uma sinalização de que o Brasil pretende aprofundar suas parcerias com os países árabes, os quais têm visto a aproximação com Israel com grande reserva, o que já resultou em grandes perdas econômicas.

Na mesma direção, o presidente Bolsonaro misturou ataques aos países europeus com uma saudação ao acordo de livre comércio com a União Europeia.  Esse acordo, como sabemos, subiu no telhado após o início das queimadas devastadoras que ocorreram na Amazônia como fruto do avanço da franja de desmatamento.

Interessante notar que o secretário de estado dos EUA,  Mike Pompeo, chegou no minuto final do discurso de Jair Bolsonaro, o que demonstra de forma cabal o isolamento diplomático em que o Brasil está posto neste momento. 

Este isolamento certamente será agravado pelo ataque direto que foi feito ao cacique Raoni e a apresentação de uma suposta liderança indígena,  a youtuber Ysani Kalapalo, para tentar legitimar suas visões de exploração de riquezas dentro das áreas indígenas.

A forma com que o discurso foi recebido foi evidenciado pelo silêncio que se seguiu a ele.  O fato é que os problemas políticos e econômicos que o Brasil vive neste momento têm tudo para piorar depois desse discurso lamentável.

Um adendo necessário é a extrema semelhança do discurso de Jair Bolsonaro com o seu parceiro preferencial, Donald Trump. Determinados trechos do discurso de Donald Trump que se seguiu imediatamente ao de Bolsonaro saíram da mesma cartilha que repete a cantilena do anti globalismo. Como dificilmente, o Departamento de Estado dos EUA daria ouvidos a Jair Bolsonaro para preparar o discurso de Trump, o mais provável é que o contrário tenha ocorrido.