COVID-19 nos EUA: hospitais lotam novamente em estados com baixos níveis de vacinação

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Por Katharina Buchholz para o Statista
 Hospitais em alguns estados dos EUA com baixas taxas de vacinação, por exemplo Louisiana, estão se enchendo mais uma vez de pacientes com coronavírus infectados com a variante Delta.

Uma comparação de dados de hospitalização dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e números de vacinação coletados por Our World in Data mostra que as hospitalizações tendem a ser significativamente maiores nos estados dos EUA, onde um grande número de pessoas não vacinadas permanece.

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Dos cinco estados menos vacinados de acordo com o Our World in Data e os números de 2020 do US Census Bureau, quatro experimentaram níveis elevados de hospitalizações. Louisiana, onde mais de 60% permanecem não vacinados, teve o segundo maior nível de hospitalizações COVID-19 no país em 520 para cada milhão de habitantes. Alabama e Mississippi, onde cerca de dois terços ainda não estão totalmente vacinados, ficaram logo atrás, com 446 e 473 pacientes com coronavírus no hospital por um milhão de pessoas. Apesar das baixas taxas de vacinação, a situação era menos tensa no pouco povoado Wyoming.

A Flórida, onde apenas cerca de metade da população não está totalmente vacinada, apresenta atualmente o maior número de pacientes hospitalizados com COVID-19, com 648 por milhão de pessoas. Os melhores estados vacinados, localizados na Costa Leste, não experimentaram tais surtos perigosos de infecções por coronavírus. Apesar de também ter entre 34 e 40 por cento de residentes não vacinados, as internações hospitalares permaneceram na casa dos dois dígitos.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Statista [Aqui! ].

Com 1.192 mortos pela COVID-19, Campos vive misto de relaxamento de regras de isolamento,falta de vagas de UTI e caos na vacinação

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As notícias da manhã desta 4a. feira (12/05) sobre a situação da pandemia da COVID-19 em Campos dos Goytacazes mostra um momento, no mínimo, contraditório.  Após se alcançar o total de 1.192 mortos, a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes decidiu relaxar as regras  de confinamento social e ampliou os horários de funcionamento de uma série de atividades comerciais.  Ao mesmo tempo, apareceu a notícia de que a unidade preferencial para tratamento de doentes com COVID-19 atingiu sua lotação máxima ao receber 17 pacientes apenas em um dia, o que obrigou a distribuição dos casos adicionais para outras unidades de saúde do município.

Por outro lado, noto com alguma perplexidade que o critério para o relaxamento das regras de isolamento social teria sido exatamente a existência de vagas em Unidades de Terapia Intensiva especializadas em COVID-19!

Finalmente, eu gostaria de saber por que o critério para relaxar as regras de isolamento não está sendo a taxa de contaminação em vez da disponibilidade de vagas de UTI. É que o nível de contaminação é que determina qual é o estoque potencial de UTIs de que se necessitará nas próximas semanas.

Enquanto isso, a campanha de vacinação contra a COVID-19 aparece imersa uma situação que beira o caos, especialmente no tocante ao oferecimento da segunda dose da Coronavac. 

Daí é que eu pergunto: essa é realmente a hora de relaxar?

Campos dos Goytacazes: a COVID-19 se espalha como fogo em canavial seco, mas nem parece

 

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Eu venho tentando me abster de oferecer maiores opiniões sobre o cenário municipal, pois tenho preferido me concentrar em questões mais gerais, com a qual prefiro me concentrar. Mas talvez provocado por duas instigantes no blog agora batizado de “Peido News“, impulsionado pelo sempre inquieto Douglas da Mata, resolvi abrir uma exceção e abordar o que os números da COVID-19 mostram para Campos dos Goytacazes, em que pese a retomada quase absoluta da “normalidade” do comércio local.

Comecemos pelo gráfico disponibilizado ontem pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes em sua página oficial na rede social Facebook:

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Os números não deixam que não queira ser, seja enganado. Chegamos ao absurdo número de  1.044 óbitos confirmados, o que representa 0,2 da população campista, um pouco acima do valor de 0,18 que abarca o total de mortos em relação à população brasileira.  Pensar que uma doença que poderia ter sido relativamente controlada se houve vacinação no tempo correto esteja causando este estrago deveria revirar os estômagos e as mentes de todos nós. Mas outro número é igualmente avassalador, a taxa de ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) que é de astronômicos 96,5%.  Esse número só não é maior porque a taxa de mortos está alta, criando uma situação em que os pacientes dão baixa, em vez de receber alta.

Para complicar ainda mais a situação, a campanha de vacinação contra a COVID-19 caminha a passos de uma tartaruga que teve suas quatro patas quebradas, fato que amplia não apenas a chance de termos ainda mais pessoas infectadas, como também o surgimento de variantes ainda mais contagiosas e letais do que aquelas que já estão circulando na cidade. Em cima dessa lentidão, ainda temos a continuação de filas que favorecem ainda mais a ocorrência de casos de transmissão do Sars-Cov-2.

Enquanto isso, quem circula pelas ruas dos dois centros que a cidade possui atualmente (Hiistórico e Pelinca) vai ter que se beliscar para ter certeza que não está vivendo uma cena do filme “Matrix”, pois em Campos dos Goytacazes parece não haver mais necessidade de se impor medidas restritivas para conter o avanço da pandemia. Para alegria dos necrocomerciantes que não se importam sequer com o aumento de mortes entre suas próprias fileiras, tudo em nome do nada santo direito de levantar as portas para deixar lojas às moscas.

E o prefeito Wladimir Garotinho nessa barafunda toda? Parece mais um personagem de um daqueles épicos que destacam a desnecessidade de alguém, seja o famoso “A volta dos que não foram” ou “Apertem os cintos que o piloto sumiu”.  No caso de mais um jovem prefeito que parece não saber o rumo a tomar enquanto o navio afunda, não tenho como deixar de ser acometido pelos sentimentos de tristeza e desolação. Mas vá lá, pelo menos o comércio segue aberto, em que pese o fato de que o vento sopra forte no canavial em chamas…..

Jeitinho até na fila da vacinação contra a COVID-19 expõe as entranhas da sociedade brasileira

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Vacina contra covid-19 não chega em UBS de Moema (sul da cidade de São Paulo) e idosos ficam horas em pé em fila.  COSME RÍMOLI/R7

A par das lamentáveis cenas de “turistas” enfrentando de forma agressiva as barreiras sanitárias colocadas em regiões de praia que decidiram que a chegada deles não é bem vinda neste momento, há um outro lado também pouco pitoresco na atual fase da pandemia da COVID-19 no Brasil que é o uso do famigerado “jeitinho brasileiro” nas filas (ou na furação delas) de vacinação. 

E não pense que estou falando apenas daquele grupo de políticos e empresários de Minas Gerais que decidiram montar o seu próprio serviço de vacinação comprando vacinas sabe-se lá onde e como. Esse caso é apenas a faceta mais ignóbil de uma parte das elites brasileiras que se acha acima do bem e do mal.  A furação da fila que eu estou falando envolve, o que eu chamaria, de “gente como a gente”, mas que na hora “H” e no dia “D” (só para lembrar do agora ex-ministro Eduardo Pazuello) está optando por usar aquela faceta do “jeitinho brasileiro” com o “você sabe com quem está falando

Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes tenho recebido relatos diversos sobre práticas que envolvem desde a concessão de atestados para estudantes de graduação recém-saídos da adolescência (sob a desculpa insustentável que estão na linha de frente do combate à pandemia), passando pela formação de grupos de “pessoas especiais” que pertencem a determinadas categorias profissionais, e chegando até na simples manipulação das filas com a tática “um carro, famílias inteiras”.  Enquanto isso, aqueles que deveriam estar sendo vacinados são expostos a graves humilhações, ficando horas esperando pelo momento de serem vacinados, enquantos os “espertos” fulam a vez, e ainda têm o desplante de postar imagens do momento da “furada” em suas redes sociais.

Toda essas manobras para furar a fila da vacina são práticas que revelam as tripas de uma sociedade baseada na segregação e na concentração de oportunidades nas mãos de uma minoria. Somos assim todos os dias, mas o que está acontecendo nas filas de vacinação tem o dom de expor o odor fétido que pulsa nas veias de uma sociedade que preza mais a esperteza individual do que a solidariedade coletiva. É a mistura acabada entre o jeitinho e o “você sabe com quem está falando?”. 

Aí quando se revelam esse especialmente maldoso do “jeitinho brasileiro” há quem culpe este ou aquele governante, pedindo que se organize as filas e se imponha a ordem das coisas. Ainda que haja a necessidade da intervenção do aparato estatal para se colocar “um mínimo de ordem na casa”, para mim está mais claro do que nunca que o único remédio para essa doença individualista é que saiamos da calma olímpica que nos caracteriza para uma posição ativa de ostracização daqueles que se acham “mais iguais do que os demais”. Só assim teremos uma chance de formar uma sociedade que preze a solidariedade e o coletivo.

Vacinação contra COVID-19 virou bagunça e Ministério da Saúde está nas mãos de amadores, diz Drauzio Varella

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 Em sua coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo, o médico Drauzio Varella afirma que a vacinação contra o coronavírus no Brasil virou uma “bagunça”. De acordo com o médico, “sem autonomia para coordenar a estratégia de vacinação”, o Programa Nacional Imunizações (PNI) “houve por bem pulverizar pelo país as poucas vacinas existentes, como se a epidemia ameaçasse todos os municípios com igual virulência”. 

“Ao lado desse equívoco, facultou a estados e municípios a adoção dos critérios para estabelecer prioridades, de acordo com as realidades locais”, continua Varella. 

Segundo o médico, “a falta de uma coordenação centralizada com regras válidas para o país inteiro gerou essa confusão de grupos e de pessoas que subvertem a ordem prioritária e confundem a população, incapaz de entender porque em cada cidade a vacinação chega para uns e não para outros”.

Varella constata amargamente: “Profissionais formados em psicologia, biologia, veterinária, educação física, além de trabalhadores da área da saúde que nem sequer chegam perto dos doentes com Covid, são vacinados antes das mulheres e homens com mais de 80 anos. Enquanto nos entretemos com as imagens dos telejornais que mostram senhoras e senhores de 90 anos, infantilizados pelo repórter que lhes pergunta se estão felizes com a vacina, passa a boiada dos mais jovens que furam a fila.

Tem cabimento vacinar veterinários, terapeutas, personal trainers, escriturários de hospitais, antes dos mais velhos, que representam mais de 70% dos mortos? É justo proteger essa gente antes dos professores, dos policiais e de outras categorias mais expostas ao vírus?”

Ele conclui com uma crítica direta ao governo Bolsonaro: “Que azar. Quando o Brasil mais precisava de técnicos treinados para executar a difícil tarefa de vacinar seus habitantes, única forma de reduzir a mortalidade e dar alento à economia, caímos nas mãos de um Ministério da Saúde fragilizado, dirigido por amadores”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo portal Brasil 247 [Aqui!].

Início da vacinação no Brasil é duplo desastre de relações públicas para o presidente Bolsonaro

Jair Bolsonaro espera em vão pelas entregas da AstraZeneca da Índia. Seu arquiinimigo político, o governador do estado de São Paulo, entretanto, inicia a vacinação com uma vacina chinesa

posePose de vitória após a vacinação: A enfermeira Mônica Calazans, 54, do estado de São Paulo, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. O governador do estado comemora a vacinação com uma vacina chinesa. Carla Carniel / AP

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o Neue Zürcher Zeitung

Mônica Calazans, 54, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. A enfermeira de uma unidade de terapia intensiva da COVID-19 do maior estado de São Paulo recebeu a vacina CoronaVac no domingo, poucos minutos após a aprovação emergencial pela autoridade da Anvisa. O governador do estado, João Doria, foi festejado na ocasião. Com os dedos estendidos para marcar a vitória, ele falou de um “dia V” histórico como “vacina, vitória, verdade, vida” – “vacinação, vitória, verdade e vida”. Doria planeja concorrer contra o presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. As fotos do sucesso do início da vacinação são úteis para ele.

Doria fazia campanha para o instituto de vacinas do Butantan, em São Paulo, para colaborar com a fabricante chinesa Sinovac desde meados do ano passado. Desde o final de novembro, já chegam a São Paulo transportes com latas do produto CoronaVac da Sinovac, onde já estão armazenados seis milhões de vacinas e a matéria-prima para a produção de mais cinco milhões delas. No entanto, a agência federal Anvisa atrasou a aprovação da vacina. Para pressionar a autoridade, Doria anunciou em dezembro que iniciaria a vacinação em São Paulo em janeiro.

Desde o início, o presidente Bolsonaro sabotou os esforços de Doria, seu mais feroz adversário político. Bolsonaro tentou jogar tacos burocráticos entre as pernas de Doria para atrasar o início da vacinação em São Paulo com o CoronaVac. No final do ano passado, o ex-militar anunciou que em hipótese alguma a população do Brasil seria vacinada com a vacina chinesa. Bolsonaro ordenou ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que rescindisse o contrato já fechado com São Paulo para a entrega de 46 milhões de doses do CoronaVac para os postos de vacinação estaduais. Em hipótese alguma quis conceder a Doria e aos chineses, a quem acusava de causadores da pandemia, o triunfo da imunização da população brasileira com o CoronaVac

Bolsonaro apostou com AstraZeneca

Em vez disso, o governo federal do Brasil assinou um contrato com a fabricante anglo-sueca AstraZeneca e a Oxford University para a entrega de milhões de doses e transferência de tecnologia para futura produção da vacina no Brasil. O governo rejeitou as ofertas da Pfizer/Biontech por razões de custo. Mas Bolsonaro apostou fora. Porque as entregas prometidas da AstraZeneca para o Brasil continuam atrasadas. A tentativa desesperada de coletar rapidamente dois milhões de doses da vacina AstraZeneca na Índia no sábado falhou. Precisamos das doses de vacinação para nossa própria população, foi o motivo alegado pelas autoridades indianas.

Desastre de relações públicas do Bolsonaro

Bolsonaro e seu ministro da saúde Eduardo Pazuello, um general rígido e de aparência hostil que organizou a logística para os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro em 2016, mas não tem experiência no setor de saúde, teve que assistir a primeira vacinação  de João Doria Brasil no domingo. Além do CoronaVac, a Anvisa também emitiu a vacina AstraZeneca com aprovação emergencial neste domingo. Mas como não é certo quando a vacina britânica pode ser esperada, o governo central terá que iniciar sua campanha de vacinação nacional com o CoronaVac.

Em frente à imprensa no domingo, um ministro da Saúde visivelmente irritado, Pazuello, pediu ao governo de São Paulo que entregasse todas as seis milhões de doses do CoronaVac ao governo central. Isso vai distribuir as vacinas em todo o país na segunda-feira, para que as vacinações em massa possam começar simultaneamente em todas as regiões na quarta-feira. A vacinação em massa só pode ser realizada no Brasil pelo sistema público de saúde SUS, que é subordinado ao Ministério da Saúde, e os estados individuais não podem fazer isso sozinhos, disse Pazuello. Todas as doses de vacinas fabricadas ou armazenadas no Brasil teriam que ser entregues exclusivamente ao governo central.

No entanto, João Doria não pensa em fazer isso. Já nesta segunda-feira, ele quer iniciar as vacinações em massa sob sua direção nos hospitais de São Paulo. De acordo com a proporção da população de São Paulo em relação à população total do Brasil, 20% das vacinas CoronaVac serão retidas. Os restantes 80 por cento serão colocados à disposição do Ministério da Saúde em solidariedade. O ministro da Saúde, Pazuello, já anunciou que entrará com ações judiciais contra a suspensão das vacinas, se necessário.

Bolsonaro nega os perigos da Covid-19

O presidente Bolsonaro tem que aceitar outro revés. No início da pandemia, ele disse que a Covid-19 era uma gripe menor e se manifestou contra as restrições e bloqueios. Ele se recusou a usar uma máscara ou seguir as regras de distância. Ele também afirmou que não queria ser vacinado. Você não poderia saber se isso o transformaria em um crocodilo. Nesse ínterim, cerca de 210.000 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. Somente nos Estados Unidos há mais mortes por pandemia. É crescente o descontentamento da população com a passividade do governo no combate à pandemia.

A situação é atualmente particularmente crítica na metrópole amazônica de Manaus. Os hospitais de lá estão sem oxigênio para os ventiladores há uma semana. Além disso, centenas de leitos de terapia intensiva estão desaparecidos e muitas pessoas morrem sem chance de atendimento médico em casa. Bolsonaro colocou a culpa pelo caos no governo local. No entanto, disse que já havia pedido ajuda ao governo central e a outros Estados membros semanas atrás

Hidroxicloroquina em vez de oxigênio

O ministro da Saúde, Pazuello, havia visitado Manaus apenas no início da semana passada. No entanto, sua visita não era para fornecer o oxigênio urgentemente necessário. Em vez disso, Pazuello promoveu o uso do medicamento contra a malária, a hidroxicloroquina. Bolsonaro havia anunciado a droga como uma “arma milagrosa divina” na luta contra a COVID-19. Embora cientistas de todo o mundo duvidem da eficácia do medicamento contra a COVID-19, Pazuello insiste que os médicos em hospitais públicos tratem os pacientes com o medicamento. Enquanto há falta de oxigênio em Manaus, milhares de embalagens do medicamento antimalária produzida pelos militares estão armazenadas sem uso.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal suíço Neue Zürcher Zeitung [Aqui! ].

Academia Nacional de Medicina emite nota sobre crise sanitária causada pela COVID-19

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A Academia Nacional de Medicina, em seus 191 anos de luta pela saúde da população brasileira e como instituição apolítica, manifesta enorme indignação pelo descaso, descuido e negligência por parte das autoridades governamentais e da classe política que seguem omissas e servis a interesses eleitorais, menosprezando a vida dos cidadãos. 

Como entidade de assessoramento à política de saúde do país, nos cabe apresentar, novamente, propostas e conclamar a sociedade brasileira a não ficar omissa, sob o risco de sermos corresponsáveis por erros que seguem prejudicando de maneira grave o Brasil. 

A Academia Nacional de Medicina acompanha com extrema preocupação a evolução da pandemia pela COVID-19, que recrudesce no Brasil. O negacionismo irresponsável de muitos gestores e políticos precisa cessar já. Grande parte das 200 mil mortes que logo contabilizaremos poderia ter sido evitada. O tempo perdido com a falsidade, matou dezenas de milhares e vai seguir matando!

Quanta falta de decoro sanitário e inacreditável leviandade. Ignorância vergonhosa!

Sem dúvida, os executivos federal, estadual e municipal têm a maior responsabilidade, mas também o poder legislativo tem obrigação de assumir seu protagonismo, sendo indispensável o entendimento entre os gestores ao invés de inúteis debates político-demagógicos. Também, muitos governadores e prefeitos ardilosamente se omitem, não exercendo o poder de disciplinar e controlar as atividades sociais.  

A Sociedade tem de dar um basta!

É preciso impedir que a população se infecte. Não há outra solução. Sim, a vacina é indispensável e prioritária, mas não bastará. Serão muitos meses para se conter a epidemia e, antes, durante e depois, teremos que seguir usando máscaras e condutas sociais cientificamente comprovadas. 

Há necessidade imediata de implementação de exemplos e de medidas de proteção individual e coletiva, controlando-se o risco aumentado pelas atividades recreativas e sociais, atualmente descontroladas pela falta de liderança.

A vacina segue sendo explorada, de forma irresponsável, por autoridades que podem se merecer, mas o povo brasileiro não os merece. 

Para se evitar uma tragédia ainda maior, é imprescindível a priorização da avaliação técnica das diferentes vacinas e a imediata liberação de todas as que forem aprovadas pela Anvisa. 

Há necessidade premente da vacinação, como ocorre em outros países, nos quais, inclusive, já vem sendo aplicada.

Não há razão para punirmos mais o Brasil com a morosidade proposta de se aguardar meses. 

Estamos muito atrasados e precisamos construir estratégia sólida que permita, já no início de 2021, a realização segura da vacinação em massa da população. É impossível a vacinação contra a COVID-19 dar certo com planos nacionais e estaduais paralelos.

Uma irresponsável disputa levou à perda de precioso tempo na definição de um plano nacional de imunização efetivo, apesar de termos um extraordinário e bem-sucedido programa nacional de imunizações pelo SUS, reconhecido mundialmente por sua qualidade.

Além da vacina, é necessário educar e estimular exemplos e programas de informação adequados para o uso obrigatório de máscaras, do afastamento entre as pessoas, de coibir, a todo custo, as aglomerações. 

A testagem em massa é outra medida imprescindível, capaz de detectar casos e definir medidas epidemiológicas e de saúde pública que reduzam drasticamente a propagação da epidemia.

Enfim, uma coordenação das ações de forma eficiente em todas as esferas. 

Na defesa de milhares e milhares de vidas que certamente serão ainda perdidas, se essa política suicida e criminosa não for de imediato inteiramente modificada, a Academia Nacional de Medicina, mais uma vez, manifesta enorme preocupação e conclama a todos da sociedade brasileira a exigir de nossos governantes e políticos o que o Brasil tem direito e não vem recebendo.

Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2020

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Campos dos Goytacazes: saúde com orçamento milionário e hospitais caindo aos pedaços

Bebê internado no Hospital Ferreira Machado com meningite - Portal Ururau -  Site de Notícias - Campos dos Goytacazes

Por um desses acidentes caseiros, hoje pude conferir de perto a situação em que se encontra o Hospital Ferreira Machado (HFM). E a notícia que eu trago não deve ser nenhuma novidade: o abandono está evidente tanto fora quanto dentro de uma das maiores unidades de saúde pública do estado do Rio de Janeiro, com pacientes espalhados pelos corredores e com os acompanhantes postados ao lado de macas. E tudo isso em meio a uma pandemia letal que já ceifou, pelo menos, 374 campistas.

HFM1JPGHFM: a cena comum de pacientes colocados em macas deixadas nos corredores

O mais interessante é que a ida ao HFM decorreu da inexistência de vacina de tétano no chamado Polo de Vacinação que está, ao menos em tese, funcionando na Cidade da Criança. E, pior, ao sermos recebidos pelos competentes profissionais que nos atenderam no HFM, eles sequer tinham conhecimento de que estavam designados para vacinar crianças necessitando de vacinas que, agora sabemos inexistem, no Polo de Vacinação. Em outras palavras, além da falta de recursos, há um grave problema de gestão que impede que os cidadãos mais pobres tenham acesso a serviços de saúde de qualidade.

Fecha o pano para a situação catastrófica encontrada no HFM!

Abramos agora a postagem do economista José Alves Neto onde ele nos informa que na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LOA) de 2021 a secretaria municipal de Saúde está aquinhoada com a fantástica quantia de R$ 636 milhões e uns quebrados (ver figura abaixo).

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Aí é que pergunto aos leitores deste blog: como explicar a situação do HFM, e por extensão de todas as unidades municipais de saúde, em face de um orçamento tão, digamos, generoso?  É que, ao contrário do que tentam apresentar o jovem prefeito Rafael Diniz e seus menudos neoliberais, a questão não parece ser falta de recursos, mas a forma pela qual se escolha usar o montante disponível.

Enquanto isso, aqueles que podem pagar algum tipo de plano de saúde privada continuam ignorando a condição em que milhares de seus concidadãos pobres estão colocados toda vez que precisam de algum tipo de atendimento médico.

Aos servidores do HFM, deixo a minha total solidariedade porque posso testemunhar que a luta que eles desenvolvem para oferecer saúde digna é árdua. Com certeza o caos causado pela falta de gestão só não é maior por causa da ação altamente compromissada dos servidores do HFM.

Vacinação do gado põe a siderúrgica de papel da Prumo, a SNF, no centro do conflito agrário no Porto do Açu

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Notei recentemente neste blog  uma situação estranha que estaria ocorrendo em relação à vacinação de gado pertencente a agricultores que tiveram suas terras desapropriadas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial de São João da Barra. Naquela postagem solicitei a algum leitor que me enviasse, se possível, uma cópia do documento que estaria sendo apresentado aos agricultores para permitir a vacinação do gado (Aqui!). Eis que hoje consultando o endereço eletrônico do blog vi que meu pedido foi atendido, conforme mostra a imagem abaixo.

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A leitura do documento enviado, notei o retorno à cena da Siderúrgica do Norte Fluminense (SNF) cuja existência já havia sido notada por mim em 2012 (Aqui!e  2013 (Aqui!). Para quem não se lembra, a SNF foi criada pela LLX Operações Portuárias para ser instalada no natimorto Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB), depois foi vendida à Ternium que depois a revendeu à LLX Operações Portuárias após desistir de instalar a sua planta no DISJB (Aqui!Aqui!)

E a quantas andam a propriedade da SNF nos dias atuais? A resposta pode ser encontrada num relatório de informações trimestrais produzida pela Prumo Logística Global (Aqui!), de onde destaco o seguinte trecho relacionado à propriedade da SNF:

“Em 5 de setembro de 2013, a LLX Açu recebeu comunicação da Ternium Brasil S.A. (“Ternium”), na qual foi informada que aquela empresa não prosseguiria com seu projeto siderúrgico no Porto do Açu. Como consequência a Ternium exerceu opção de revenda à Companhia, pelo valor de US$ 2.000, da totalidade das ações da Siderúrgica do Norte Fluminense (“SNF”), que tinham sido adquiridas em 15 de setembro de 2010. A operação, que estava sujeita à aprovação dos órgãos regulatórios competentes e da celebração dos devidos instrumentos entre as partes, foi efetivada em 08 de janeiro de 2014, e a partir desta data a SNF se tornou uma subsidiária integral da LLX Açu. Com a recompra da SNF, seus terrenos foram integralmente incorporados à retroárea e serão destinados a locação para terceiros.

Se não ficou claro, eu explico. A SNF é hoje a “siderúrgica” da Prumo, de papel, é claro.  Essa condição aparece de forma óbvia no site da Bloomberg que aponta que a SNF não possui diretoria conhecida (Aqui!). Aliás, essa condição de siderúrgica de papel é reforçada pelo simples fato de que as licenças ambientais para a sua construção foram suspensas pela justiça (Aqui!), e desconheço qualquer modificação nesta situação.

Mas o que não é de papel são os terrenos que são oriundos das propriedades desapropriadas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (CODIN) para instalar o natimorto DISJB! E atentemos ainda para o detalhe que em seu relatório, a Prumo Logística nos informa que os terrenos da SNF serão alugados para terceiros! 

Enquanto isso, os agricultores continuam em sua maioria sem receber as devidas indenizações relacionadas à apropriação de suas terras pela CODIN, e ainda são instados a assinar documentos que possibilitam, ao menos em tese, à SNF (quer dizer Prumo Logística) dar o destino que melhor se parecer ao gado que pertence de fato aos proprietários desapropriados!

Ao fim e ao cabo de todo esse corolário de fatos, eu pergunto: será que sou que acha tudo isso muito estranho?

O Porto do Açu e as disputas no seu entorno : todo dia uma novidade

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Eu venho acompanhando com alguma atenção as múltiplas disputas que ocorrem no entorno do Porto do Açu desde que o (des) governador Sérgio Cabral promulgou os infames decretos de desapropriação para criar os natimortos Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB) e Corredor Logístico.  E eu posso dizer francamente que eu não me cansa de me surpreender com as notícias que chegam das terras do V Distrito de São João da Barra.

Pois bem, ao longo dos últimos anos existe um conflito entre os agricultores que tiveram suas terras tomadas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin) e a Prumo Logística (ex- LL(X) para que se proceda a vacinação do gado que se encontra hoje vagando em diferentes partes do V Distrito contra a chamada febre aftosa. No ano passado, apesar das dificuldades, a Secretaria Municipal de Agricultura de São João da Barra realizou a vacinação desse rebanho.

Mas agora vejam o e-mail que acaba de chegar no e-mail deste blog em relação a problemas envolvendo a Prumo Logística e os agricultores do V Distrito que desejem vacinar seu gado:

” Para retirar o gado, seja para vacinar ou levar pra outro local, os funcionários da Prumo mandam o produtor assinar um documento onde o mesmo se compromete a não mais trazer o animal de volta para a área, se trazer, o animal poderá ser vendido, abatido ou transferido sem qualquer conhecimento do proprietário. A Prumo meio que irá “desapropriar” o produtor com seu próprio rebanho assim como fizeram com as terras. Como sabemos não há currais dentro da área desapropriada, e na época da vacinação é necessário retirar o gado, vacinar e voltar com o gado. Quem não assinar o documento eles irão filmar/fotografar e se virem o gado novamente na área irão utilizar do mesmo procedimento, assim dizem os funcionários.”

Como este blog tem leitores no V Distrito, eu peço que se alguém tiver uma cópia deste documento que me envie porque eu gostaria de ler o seu inteiro teor. O fato é que se o que está afirmando acima for mesmo comprovado, estaremos diante de um desdobramento bastante peculiar, para dizer o mínimo.

Por outro lado, seria interessante conhecer a posição da Secretaria Municipal de Agricultura em relação ao processo de vacinação do gado existente no V Distrito. É que a produção leiteira que ali ocorre continua sendo uma das poucas fontes tangíveis de produção de renda em São João da Barra, e cabe ao poder público garantir que o rebanho permaneça protegido e saudável.