Governo Bolsonaro brinca com fogo ao provocar a China

guedes china 2O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, está preocupado com possíveis repercussões econômicas e políticas das citações desairosas que foram feitas à China na reunião ministerial de 22 de abril.

No dia 12 de maio escrevi uma postagem neste blog acerca do que entendo ser uma relação esquizofrênica do presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros com o principal parceiro comercial do Brasil, a República Popular da  China. Eis que ontem o jornal Folha de São Paulo publicou um artigo assinado pelos jornalistas Gustavo  Uribe e Bernardo Caram indicando o medo de que estão possuídos o ministro da Fazenda Paulo Guedes e seus pares militares de ministério em função da possível divulgação de partes ainda sob sigilo do vídeo da malfadada reunião ministerial de 22 de abril. 

guedes china

A razão para as preocupações de Paulo Guedes e seus companheiros seriam as menções nada honrosas que são feitas à China, a começar as que emanaram do próprio Jair Bolsonaro. Do falado pelo ministro Paulo Guedes já se sabe que ele disse que a China seria uma espécie de sujeito rico, mas chato, que se precisa aturar porque ele tem poder de compra. Mas o trecho abaixo indica que Guedes pode ter dito coisa ainda pior.

guedes china 1

Em favor de Guedes há o reconhecimento dele que a China hoje compra 3 vezes mais do Brasil do que, por exemplo, os EUA. Entretanto, é quase certo que a liderança chinesa não recebeu com um mínimo de riso a afirmação de que os chineses são vistos como chatos que precisam ser tolerados porque podem comprar bastante commodities brasileiras (que é isso que o Brasil está vendendo para eles).

Como já afirmei em outras ocasiões não sou um especialista em China, apenas estive lá por duas vezes quando pude interagir com cientistas e autoridades das cidades que visitei (i.e., Yantai e Shenzen).  E posso dizer que os cientistas e líderes chineses são extremamente gentis, mas não são chegados a piadas de mau gosto ou desrespeito ao que eles entendem ser seu direito de ter relações apenas com quem lhes retorna a gentileza. Desta forma, é mais do que provável que o governo Bolsonaro já tenha causado fissuras consideráveis na disposição dos líderes chineses em manter relações comerciais com o Brasil nos níveis atuais. Há que se lembrar que o embaixador da China,Yang Wanming, já mostrou forte exasperação com os filhos do presidente Jair Bolsonaro por afirmações proferidas em relação à pandemia da COVID-19 em março. 

O problema é que desde então, os ataques desferidos de dentro do governo Bolsonaro contra a China não cessaram e parecem ter tido seu ápice na reunião ministerial de 22 de abril.  Por isso, a situação econômica do Brasil que já se encontra na fase do real ser considerado como moeda tóxica (afungentando assim até os especuladores do mercado financeiro), ainda poderá piorar em breve, caso os chineses não esperem o fim da pandemia para dar o troco a Jair Bolsonaro et caterva.

Esta situação toda é causada pelo alinhamento ideológico (para não dizer submissão) do presidente Jair Bolsonaro ao governo de Donald Trump que, curiosamente, decidiu fechar as fronteiras dos EUA aos brasileiros por causa da gestão caótica da pandemia da COVID-19 por parte do governo federal. E durma-se com um barulho desses.

 

Vacina desenvolvida na China mostra sinais promissores para o combate ao coronavírus

vacina chinesa

O mundo inteiro vem esperando ansiosamente pelo desenvolvimento de uma vacina  que possa acabar com a pandemia da COVID-19 que matou mais de 330.000 pessoas até  o momento.  Eis que agora, surge a primeira candidata a ser uma vacina viável, segundo artigo publicado no dia ontem (22/05) pela respeitada revista “The Lancet”, que disponibilizou o trabalho em formato digital para que os resultados alcançados por uma equipe liderada pelo professor Chen Wei, professor do Instituto de Biotecnologia de Beijing, e membro da Academia de Ciências Médicas Militares e  da Academia Chinesa de Engenharia.

wei chen

A vacina, classificada como “vetor adenovírus recombinante tipo 5” (Ad5-nCoV), atuaria como uma infecção natural e é especialmente boa em ensinar ao sistema imunológico como combater o vírus, e foi testada em 108 voluntários. Estes voluntários foram   divididos em três grupos, cada um tomando uma dose diferente da vacina.

vacina anticorposRespostas específicas de anticorpos ao domínio de ligação ao receptor e anticorpos neutralizantes do SARS-CoV-2 vivo

O estudo mostra que após 28 dias de inoculação da vacina, nenhuma reação séria foi encontrada nos participantes, indicando que a vacina parece ser tolerada por seres humanos.  Além disso,  anticorpos contra o SARS-CoV-2 começaram a aumentar nos voluntários duas semanas após a injeção, tendo atingido o pico no dia 28 do experimento.   Com base nos resultados obtidos na chamada “fase 1” do experimento,já foi iniciado o ensaio clínico de fase 2, agora com a participação de 508 voluntários envolvidos. É importante notar que  existem outras duas vacinas sendo testadas em seres humanos na China, a ShaCoVacce  a PiCoVacc.

Entretanto, ainda há dúvidas sobre a possibilidade dessa vacina ser usada para todos os grupos etários,  já que ela usa um vírus do resfriado humano vivo, porém enfraquecido, o adenovírus 5, no qual o material genético do coronavírus SARS-CoV-2 foi fundido. O vírus Ad5 é efetivamente um sistema de entrega que ensina o sistema imunológico a reconhecer o coronavírus.  Entretanto, dado que muitas pessoas já tiveram infecções anteriores com adenovírus 5, levantando preocupações de que o sistema imunológico se concentre nas partes Ad5 da vacina e não na parte SARS-Cov-2. 

Afora os elementos científicos que cercam este experimento da equipe liderada pelo professor Chen Wei, obviamente o elemento geopolítico da corrida em torno da descoberta de uma vacina eficiente para controlar a COVID-19. É que o presidente chinês, Xi Jinping, declarou que uma vacina eventualmente desenvolvida pela China seria considerada como um “bem público global“, e que esta designação seria uma a contribuição chinesa para garantir a acessibilidade e a acessibilidade das vacinas nos países em desenvolvimento”.

Jair Bolsonaro e sua recente visita à China: pragmatismo acima de tudo e de todos

bolso xi(Divulgação/Palácio do Planalto)

A recente passagem do presidente Jair Bolsonaro pela República Popular da China pode ter desagradado a parte mais dura do seu eleitorado, mas é um reconhecimento de que ele pode ser tudo, menos o político incapaz de concessões pragmáticas que parte da oposição parece acreditar que ela seja.

Ao convidar a China para participar do mega leilão de reservas do petróleo e para ampliar a compra de commodities  agrícolas brasileiras apenas reconhece o óbvio, pois há mais de uma década é o mercado chinês que mantém a balança comercial brasileira na condição de superávit.  O apetite chinês por minérios e produtos agrícolas como a soja fazem com que dos 27 estados brasileiros, 24 tenham a China como seu principal parceiro comercial. E, sim, muito em função da venda de produtos primários.

Assim, toda aquela conversa de que haveria um afastamento econômico da China em função da orientação dita comunista da sua economia não teria mesmo como sobreviver às necessidades brasileiras de vender as suas commodities. E agora foi substituída por um chamamento no sentido da ampliação da forte interação econômica existente. É que além de um rompimento com a China nos privar de moeda forte, os principais apoiadores da eleição de Jair Bolsonaro não o elegeram para inviabilizar o agronegócio exportador.

chilenes

O problema nessa relação com a China é que os dirigentes chineses parecem ter estabelecido uma dualidade que tem tudo para aumentar as pressões ambientais no território brasileiro.  Falo aqui da disposição de misturar o que os chineses chamam de estruturas “verdes” e “cinzas” para o seu processo de crescimento econômico. Pelo que eu presenciei recentemente durante a minha participação em eventos científicos em Shenzhen, os chineses já reconheceram que ao lado estabelecimento de infraestruturas “cinzas” como pontes, estradas, hidrelétricas e ferrovias, há a necessidade de se ampliar as “verdes” que incluem o aumento de áreas florestadas e a proteção de seus mananciais.

A questão que decorre disso é que a combinação cinza+verde é algo que se dará preferencialmente para dentro com a imposição de um modelo puramente cinza para parceiros comerciais que fornecem os produtos necessários para ampliar o controle chinês sobre a economia mundial.  E nesse caso o custo socioambiental ficará por conta daquelas áreas que se coloquem como periferia preferencial do modelo “cinza+verde” da China.

Como já está mais do que claro o desprezo do governo Bolsonaro pelas estruturas verdes, a ampliação da parceria com a China poderá não apenas ampliar o desmatamento na Amazônia e o uso dos agrotóxicos banidos que chegam aqui após serem produzidos em plantas chinesas, mas como também uma presença ainda maior das petroleiras chinesas na exploração da costa brasileira. Tudo essas possibilidades de ampliação da participação chinesa na economia brasileira deveriam então soar alarmes estridentes por aqui.

Interessante notar que todo esse cenário poderá ser alterado se ocorrer um acordo a partir das rodadas de negociação que os EUA e a China estão desenvolvendo neste momento.  É que se o desfecho for positivo, o agronegócio brasileiro será diretamente afetado já que os EUA são concorrentes diretos no comércio de soja e carne. Essa situação é, no mínimo, muito curiosa. É que o governo de Donald Trump, a quem o presidente Bolsonaro já teceu juras públicas de amor, poderá ser o coveiro da parceria pragmática que se busca com os chineses.