Jair Bolsonaro e sua recente visita à China: pragmatismo acima de tudo e de todos

bolso xi(Divulgação/Palácio do Planalto)

A recente passagem do presidente Jair Bolsonaro pela República Popular da China pode ter desagradado a parte mais dura do seu eleitorado, mas é um reconhecimento de que ele pode ser tudo, menos o político incapaz de concessões pragmáticas que parte da oposição parece acreditar que ela seja.

Ao convidar a China para participar do mega leilão de reservas do petróleo e para ampliar a compra de commodities  agrícolas brasileiras apenas reconhece o óbvio, pois há mais de uma década é o mercado chinês que mantém a balança comercial brasileira na condição de superávit.  O apetite chinês por minérios e produtos agrícolas como a soja fazem com que dos 27 estados brasileiros, 24 tenham a China como seu principal parceiro comercial. E, sim, muito em função da venda de produtos primários.

Assim, toda aquela conversa de que haveria um afastamento econômico da China em função da orientação dita comunista da sua economia não teria mesmo como sobreviver às necessidades brasileiras de vender as suas commodities. E agora foi substituída por um chamamento no sentido da ampliação da forte interação econômica existente. É que além de um rompimento com a China nos privar de moeda forte, os principais apoiadores da eleição de Jair Bolsonaro não o elegeram para inviabilizar o agronegócio exportador.

chilenes

O problema nessa relação com a China é que os dirigentes chineses parecem ter estabelecido uma dualidade que tem tudo para aumentar as pressões ambientais no território brasileiro.  Falo aqui da disposição de misturar o que os chineses chamam de estruturas “verdes” e “cinzas” para o seu processo de crescimento econômico. Pelo que eu presenciei recentemente durante a minha participação em eventos científicos em Shenzhen, os chineses já reconheceram que ao lado estabelecimento de infraestruturas “cinzas” como pontes, estradas, hidrelétricas e ferrovias, há a necessidade de se ampliar as “verdes” que incluem o aumento de áreas florestadas e a proteção de seus mananciais.

A questão que decorre disso é que a combinação cinza+verde é algo que se dará preferencialmente para dentro com a imposição de um modelo puramente cinza para parceiros comerciais que fornecem os produtos necessários para ampliar o controle chinês sobre a economia mundial.  E nesse caso o custo socioambiental ficará por conta daquelas áreas que se coloquem como periferia preferencial do modelo “cinza+verde” da China.

Como já está mais do que claro o desprezo do governo Bolsonaro pelas estruturas verdes, a ampliação da parceria com a China poderá não apenas ampliar o desmatamento na Amazônia e o uso dos agrotóxicos banidos que chegam aqui após serem produzidos em plantas chinesas, mas como também uma presença ainda maior das petroleiras chinesas na exploração da costa brasileira. Tudo essas possibilidades de ampliação da participação chinesa na economia brasileira deveriam então soar alarmes estridentes por aqui.

Interessante notar que todo esse cenário poderá ser alterado se ocorrer um acordo a partir das rodadas de negociação que os EUA e a China estão desenvolvendo neste momento.  É que se o desfecho for positivo, o agronegócio brasileiro será diretamente afetado já que os EUA são concorrentes diretos no comércio de soja e carne. Essa situação é, no mínimo, muito curiosa. É que o governo de Donald Trump, a quem o presidente Bolsonaro já teceu juras públicas de amor, poderá ser o coveiro da parceria pragmática que se busca com os chineses.

 

 

 

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