Em entrevista, Kátia Abreu decreta a extinção do latifúndio no Brasil

A indicação da dublê de latifundiária e senadora, Kátia Abreu, para ocupar o posto de ministra da Agricultura foi uma escolha pessoal de Dilma Rousseff. Essa escolha visou enviar um sinal claro no sentido de que a opção de seu governo pelo latifúndio agro-exportador não apenas está mantido, mas como deverá ser aprofundado ao longo dos próximos quatro anos. Mas pensando bem, há uma nova segunda mensagem embutida nessa indicação: os números pífios de novos assentamentos de reforma agrária também continuarão ou, quiça, serão piorados.

É que a trajetória de Kátia Abreu não deixa dúvidas sobre seu compromisso com os setores mais truculentos do latifúndio, o que foi evidenciado ao longo dos anos no seu combate à proteção das florestas e contra a luta pela erradicação do trabalho escravo que, sem nenhuma surpresa, está concentrado nas áreas controladas por latifundiários.

A visão que deverá guiar o exercício do cargo de ministra da Agricultura acaba de ficar ainda mais explicito em uma entrevista dada por Kátia Abreu à jornalista Mônica Bergamo da Folha de São de Paulo (Aqui!). A leitura do conteúdo dessa entrevista permite a todos nós entender a lógica que guiará a ação da nova grande amiga de Dilma Rousseff, e por isso lê-la deveria ser uma tarefa a ser assumida por todos os que anseiam por um novo modelo de agricultura, tanto no plano da produção quanto da distribuição das terras.

A entrevista está repleta de declarações espetaculosas, mas a principal é a de que não existe mais latifúndio no Brasil e, consequentemente, não haveria mais necessidade de uma reforma agrária “massiva”, seja isso lá o que for. Essa concepção não resiste ao exame mínimo dos dados cadastrais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), mas é problemática porque reflete uma posição que, ao negar o óbvio, nos manterá presos num sistema que combina concentração da terra com um modelo suicida de agricultura.

Além disso, Kátia Abreu põe sobre as costas largas dos indígenas a causa dos conflitos de terras que estão ocorrendo em todo o território nacional. Segundo Kátia Abreu, a culpa é dos índios que estão saindo das florestas para ocupar terras produtivas! É a velha estratégia de culpar a vitima, apenas revestida de um cinismo maior. É que muitos índios foram desprovidos de florestas pelo desmatamento, nem as áreas que eles reclamam como suas estão tendo qualquer uso produtivo.

Mas, convenhamos, destrinchar e desmontar os argumentos toscos de Kátia Abreu não coisas difíceis. Difícil mesmo serão os enfrentamentos com uma presidente que se dispôs a colocar Kátia Abreu para dirigir uma pasta tão estratégica, sem sequer considerar os conflitos que inevitavelmente ocorrerão no campo em função das políticas que serão implementadas para beneficiar ainda mais os latifundiários, enquanto se mantém a reforma agrária no congelador.  

Caberá aos movimentos sociais e organizações de apoio traçarem estratégias de resistência contra o balde de maldades que serão gestadas por Kátia Abreu sob o olhar aprovador de Dilma Rousseff. Agora, a questão que se coloca é se haverá disposição para enfrentar um governo que parte significativa julga, de forma equivocada, ser seu. Já o latifúndio que sabe que, na verdade, o governo é seu terá apenas que se preocupar com a necessidade de arrancar ainda mais dinheiro público para tocar seus negócios em meio a uma crise mundial que deprecia inercialmente os preços das commodities. Mas para isso eles sabem que poderão contar com Kátia Abreu. Já os trabalhadores rurais e o sem terra terão, quando muito, Patrus Ananias que deverá liderar o esvaziado ministério do Desenvolvimento Agrário.

 

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