Não tivesse eu vivido no Brasil durante a privataria tucana e nem conhecesse múltiplos casos em que os governantes associados a este partido estão envolvidos em vultosos casos de corrupção, se eu me ativesse apenas ao que é escrito ou repercutido pela mídia empresarial, eu seria levado a achar que o PT fundou a corrupção sistêmica no Brasil. Mas como eu vivi aqui durante o grosso da privataria tucana quando as teles, as siderúrgicas, as ferrovias, barcas e quase tudo mais foi entregue à iniciativa privada em trocas de ninharias que foram pagas com moedas podres, eu não caio nessa conversa mole.
Agora, isso não quer dizer que eu isente o PT de ter assumido as práticas e costumes dos tucanos. Aliás, se há uma crítica de fundo a ser feita ao PT é justamente essa. Ao se misturar aos porcos e comer o farelo, o petismo emporcalhou-se. Mas é preciso que se diga claramente que os montantes atribuídos ao PT são ninharia quando comparados, por exemplo, ao caso do Trensalão tucano em São Paulo. Aliás, em São Paulo também temos o escândalo da SABESP que a mídia empresarial até hoje se recusa a apurar da forma que deveria, provavelmente porque acabaria se encontrando no emaranhado corrupto como, aliás, acaba de acontecer no caso do HSBC da Suíça.
Mas vamos à “bola da vez” que é o BNDES. Em relação ao que o governo petista fez com o BNDES já tive a oportunidade de publicar artigos de opinião, artigos em conferências internacionais e até um artigo no Journal of Latin American Geography que pode ser acessado por meio do meu CV Lattes. Assim, me sinto à vontade para dizer que todos esses números de empréstimos ancorados na obrigação de “comprar brasileiro” são pela lógica empresarial bastante aceitáveis. Tanto é verdade que o BNDES deu um lucro de R$ 8.1 bilhões em 2013 e de R$ 8.594 bilhões em 2014! O problema, ao menos para mim, é que a opção de se entregar dinheiro para setores que sequer deveriam receber por estarem altamente capitalizados não me parece correto para um país que necessitaria investir em áreas que não estão tão bem das pernas. A minha maior crítica aos empréstimos do BNDES, entretanto, é que não foram criados canais de transparência e governança que permitissem aos atingidos pelos megaempreendimentos financiados condições de terem seus direitos defendidos e vozes ouvidas. O caso mais clássico para mim é o do Porto do Açu, onde só a Prumo Logística recebeu R$ 1.8 bilhão para concluir a obra. Enquanto isso, tome salinização, erosão costeira e desapropriações violentas contra os habitantes tradicionais do V Distrito de São João da Barra.
Contudo, eu sei que minhas preocupações não são as mesmas dos que disseminam que o BNDES é um escândalo para explodir. Afinal, num país onde a herança corrupta da ditadura militar de 1964 não foi nem arranhada nos governos civis que o sucederam, é de se esperar que o fenômeno esteja presente. Mas ao contrário do que propõe determinados analistas que usam a mira do Ciclope, a culpa não é de perto só do PT. Que o diga o enrolado governador Beto Richa do Paraná que acaba de ser “homenageado” no jornal da GLOBO com minutos de execração por causa da corrupção galopante em seus anos no Palácio Iguaçu. Mas está óbvio que esperar uma análise minimamente equilibrada de certos personagens é pura perda de tempo, já que sua adesão ao golpismo da extrema-direita é indisfarçável, mesmo quando está coberto por um fina camada de óleo de peroba.
Finalmente, como já venho dizendo para quem quer ouvir, a saída dessa crise terá de ser forçosamente pela esquerda, pois o que teríamos de esperar de um governo tucano, caso Dilma Rousseff venha a ser derrubada do poder? Ora, perigaríamos ter o mesmo ministro da Fazenda e os mesmos caras ocupando os cargos chaves do congresso. Romper com essa lógica do Ciclope poderá não ser fácil, mas os ricos de regressão serão ainda maior se ficarmos inertes em meio a esse campeonato para ver quem rouba mais e quem empurra mais profundamente as políticas neoliberais em nossas gargantas e mete mais a mão nos nossos bolsos.
