Não é novidade que a adesão de muitos pesquisadores à revistas “trash” está ligada à necessidade de mostrar números que os possibilite a galgar posições, obter financiamentos e adquirir algum tipo de notoriedade. Mas isso não quer dizer que não existem estratégias adicionais que as editoras responsáveis pela disseminação do lixo científico usam para atrair incautos para suas conferências caça-niqueis e, posteriormente, para suas revistas. Uma das estratégias favoritas que eu venho sendo agraciado é o de apelar para o ego dos pesquisadores, e a tática favorita para fisgar os interessados é o súbito aparecimento para cumprir o papel normalmente nobre de ser um “keynote speaker“, o que equivale a ser um orador principal em uma dada conferência. Nem é preciso dizer que essa é uma função normalmente ambicionada, pois dá destaque e notoriedade a quem a cumpre.
Para deixar mais claro, posto um convite que me chegou no dia de hoje para ser um “keynote speaker” na “4th International Conference on Biodiversity” que ocorrerá entre os dias 15 e 17 de Junho na aprazível cidade de Las Vegas, que o site da conferência identifica como sendo a capital internacional do entretenimento.
Como nunca ouvi falar dessa conferência, fiz o que qualquer pesquisador responsável faria: identifiquei o grupo OMICS International como organizador da conferência, e depois disso fui consultar a lista preparada pelo Professor Jeffrey Beall da University of Colorado Denver para identificar publicadores predatórios (Aqui!). E não deu outra: o OMICS International aparece listado como responsável por publicações predatórias. E ao verificar o site da própria OMICS International pude ver a clara conexão entre as múltiplas conferências que o grupo organiza e quase 500 periódicos “trash”!
Em face de um exemplo recente que foi identificado pelo jornalista Maurício Tuffani que descobriu a conexão entre uma conferência caça-niqueis na UNICAMP como o turbinamento de CV Lattes dos participantes a partir da publicação de artigos apresentados no evento em uma determinada revista ligada ao organizador do evento (Aqui!), acho pertinente perguntar quantos outros pesquisadores na área dos estudos da conservação receberam este mesmo convite e tiveram o cuidado que eu tive. É que baseado nas evidências sendo levantadas pelo jornalista Maurício Tuffani, não é improvável que pedidos de auxílio de viagem internacional para participar dessa conferência já não estejam sendo preparados neste momento para enviar à CAPES e ao CNPq.
