Empresa recorre a personagens e historinhas e deixa de lado a principal mensagem esperada: o que fará, de fato, para minimizar a maior tragédia da história da mineração mundial
Por Felipe Turlão
Sempre suspeite de um comercial com pianinho e depoimentos “reais”. Ainda mais se ele for assinado pela causadora da maior tragédia da história da mineração mundial, com a intenção de “estabelecer o diálogo com a população”.
Para contextualizar o inacreditável comercial da Samarco postado no YouTube e veiculado em horário nobre da TV aberta, nesta segunda-feira, 15, é preciso entender que a empresa tem um plano de gerenciamento de crise com profissionais renomados no mercado de comunicação, já preparados para monitorar críticas nas redes sociais e análises. E para dialogar com a população através de técnicas de stortytelling (como contar histórias bem contadas) que pretendem minimizar os danos à reputação.
Como parte desse roteiro, fazem parte cada imagem, cada dado e cada depoimento do comercial. A Tom Comunicação é a agência dona da conta de Samarco, mas não se sabe ainda se é a responsável pela criação do comercial.
Com o jogo mais claro, vamos às mensagens do filme, com alguns comentários:
1 – A Samarco começa dizendo que “é sempre bom olhar para todos os lados”, deixando explícito que as pessoas estão analisando apenas o lado da tragédia – Uma tremenda injustiça delas, claro.
2 – O filme diz que poucas pessoas conheciam a Samarco – talvez, se ela tivesse sido uma boa anunciante antes, investindo regularmente em comunicação para trabalhar sua reputação, talvez fosse mais fácil resgatar sua imagem após a tragédia que causou.
3 – Um funcionário fala da comoção geral e de como “a gente nem conseguia trabalhar direito” – exatamente no momento em que eles deveriam trabalhar como nunca.
4 – A empresa diz que amanheceu com a missão de ajudar as pessoas. Na parte mais inacreditável, um funcionário diz algo como “A gente abriu os braços e falamos: Tamo aqui” – como se sabe, a resposta à tragédia, inclusive no campo da comunicação, foi muito demorada.
5 – A peça termina com o raciocínio “Vestimos a camisa e estamos minimizando os danos que causamos. As pessoas juntando forças para fazer o que precisa ser feito. Esse é o nosso compromisso”. O comercial traz letreiros com “feitos” da empresa, como o monitoramento da qualidade da água (o mínimo a ser feito) e a área revegetada equivalente a 304 campos de futebol (quantos campos de futebol foram danificados? O dado mais justo, claro, seria a porcentagem de área recuperada em relação ao estrago feito)
O pior desse final do comercial é o “compromisso” de fazer o que precisa ser feito. Em nenhum momento, ficam claras quais são as próximas metas. São mencionadas apenas as “conquistas”, como os 304 campos de futebol revegetados.
Não é a primeira vez que a Samarco se comunica de forma destrambelhada. Apenas 20 dias após a tragédia, o diretor-presidente Ricardo Vescovi falava do “orgulho da empresa” e a também inacreditável mensagem de que quem critica a Samarco o faz por não conhecê-la. No começo de fevereiro, foi afastado do cargo, para se defender no inquérito em que é acusado de crime ambiental.
Uma empresa com um problema desse precisava ter feito muito melhor. Sempre me lembro de um case de gerenciamento de crise de 2007.
Naquele ano – quando o YouTube tinha pouco mais de dois anos – a companhia aérea Jet Blue foi à mídia pedir desculpas, após uma séria crise operacional que resultou em voos cancelados e consumidores irritados.
Apesar de ser uma crise muito menos danosa à vida humana e ao meio-ambiente, ela demonstra lições que poderiam ser feitas pela Samarco. Nesse caso, o stoytelling foi feito da seguinte forma:
1 – A resposta veio apenas uma semana depois da crise e da boca do próprio presidente e fundador David Neeleman (que saiu algum tempo depois, mas em outro contexto) – quem é o dono da Samarco?
2 – A empresa reconheceu ser o pior momento de sua história e disse que faria mudanças internas para isso não acontecer nunca mais. E descreveu as mudanças, com prazos (7 ou 30 dias, dependendo do caso)
3 – Fala de seu legado de sete anos, mas reconhecendo que clientes e funcionários ficaram na mão. Disse ainda que iria voltar a se comunicar no futuro. E pede a confiança das pessoas.
Em 5 de novembro, o rompimento das barragens de Fundão e Santarém, em Mariana (MG), ocasionou números superlativos. Verdadeiros recordes mundiais: 60 milhões de metros cúbicos de lama, percurso de 600km e prejuízo estimado em US$ 5,2 bilhões – a tragédia mais grave da história da mineração, segundo a Bowker Associates, citada pela Folha de S. Paulo. O pior dos números: 17 mortos e dois desaparecidos. A Samarco é controlada pela Vale e BHP Billiton.
O mínimo que precisamos saber de um comercial da Samarco, hoje em dia, são os detalhes do que a empresa vai fazer no futuro, e não o que ela já fez para cumprir o mínimo que se esperava dela. E exigir que seja mais incisiva ao reconhecer ser a responsável pela tragédia. E que não invada nossas vidas para pedir que sejamos mais “cabeça aberta” e olhemos todos os lados da tragédia.
No final das contas, considerando a maneira como o comercial foi construído, como suas mensagens e gestos amarrados e divulgados pouco mais de três meses após uma tragédia ainda viva em nossas mentes, temos um resultado de causar arrepios aos grandes profissionais da publicidade brasileira – uma das mais criativas e premiadas do mundo. Parece até outra profissão.
FONTE: http://goadmedia.com.br/criatividade/o-inacreditavel-comercial-de-samarco/
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Important to not let this flimsy public relations campaign keep the people of Minas Gerais and the other state affected from demanding accountability. The campaign is an affront to the “public interest”. Compare Samarco’s December 2015 report on the “clean up” and assessment of damages with the United Nation’s Working Group’s report and assessment. ( By the Way te U.N. is using the same figures we at Bowker Associates provided to Folha on the scale of consequence in recorded mining history). The U.N. working group made special note of the disconnect between Samarco’s comprehension of the damages and prospects of recovery and what they observed and evaluated in damage assessments. The PR campaign you describe is just further proof of how extensive and profound this disconnect is. You have done excellent work at tis blog keeping the right questions and perspectives before your readers. Muito Obrigado.
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