Reunião no Quilombo da Barrinha usa “enamoramento corporativo” para tentar quebrar oposição a terminal portuário

Já comentei aqui neste blog a situação que está ocorrendo no município de São Francisco de Itabapoana (RJ) envolvendo a proposta da construção de mais um terminário portuário que ameaça a estabilidade territorial da comunidade quilombola da Barrinha (Aqui!, Aqui! e Aqui!).  Espelhando o que já ocorreu em vários megaempreendimentos portuários como no caso do Açu, (RJ), Pecém (CE) e Suape (PE), o Terminal Portuário Offshore Canaã ameaça um território do qual a população quilombola da Barrinha depende diretamente para a sua sobrevivência.

Após algum tempo sem ter novidades sobre esse caso, recebi ontem imagens e informações sobre uma curiosa reunião que foi organizada para mais uma vez tentar “vender” a ideia para os habitantes do Quilombo da Barrinha de que este empreendimento será benéfico para eles (ver imagens abaixo).

A curiosidade da reunião se deve a dois fatores básicos. O primeiro foi a composição dos que organizaram o encontro que teriam sido os representantes da empresa que pretende construir o terminal portuário, da Prefeitura Municipal de São Francisco do Itabapoana e, surpresa das surpresas, da multinacional anglo-holandesa Shell (que estaria interessada em construir um píer offshore no empreendimento).  Interessante notar que o mote do encontro não foi o terminal portuário, mas a questão do licenciamento ambiental.

O segundo fator foi a forma de aplicação do método que eu venho chamando de “enamoramento corporativo” neste caso específico. Segundo a minha fonte local, os representantes destes três atores institucionais permaneceram parte do dia na comunidade, e ali mantiveram uma reunião particular com uma liderança, e depois ofereceram um pequeno “regabofe” durante a apresentação para a coletividade.

A boa notícia é que os membros da comunidade que estavam presentes no convescote oferecido pelos apoiadores do terminal portuário saíram de lá negativamente impressionados com o que foi dito, pois a maioria não quer deixar o território que abriga o Quilombo da Barrinha, e desconfiaram que por detrás da oferta grátias de salgadinhos e refrigerantes há a disposição de expulsá-los de suas terras.

Segundo o que me disse a minha fonte, a reação da comunidade da Barrinha a esse uso da tática do “enamoramento corporativo” em São Francisco do Itapoabana é um reflexo direto das lições aprendidas com o que foi feito contra os agricultores familiares e pescadores artesanais durante a implantação do Porto do Açu. Melhor que seja assim mesmo, já que sabemos bem os métodos de ação que se seguem ao “enamoramento”. E eles não são nada amorosos com os que tradicionalmente habitam os territórios escolhidos para implantar esses empreendimentos!

 

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