De que segurança precisamos em Campos?

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Por Luciane Soares da Silva*

Desde que a intervenção iniciou no estado do Rio de Janeiro, com foco na cidade e especialmente nas favelas cariocas,tenho recebido questões de jornalistas da cidade de Campos sobre minha opinião em relação a ação do Exército no território fluminense. Escrevo este texto com um único objetivo: mais do que esclarecer minha posição sobre a intervenção no Rio, explicitar minha preocupação com a cobertura do fenômeno. 

Considero que é vital para pesquisadoras e pesquisadores, divulgar suas pesquisas e aceitar ocupar um lugar no debate público. Tenho feito isto nos últimos anos, tanto por televisão como rádio e jornal. Digo isto porque embora todos saibam das edições de programas televisivos que reduzem uma fala de 10 minutos a 40 segundos, em alguns casos, a redução ou a edição das posições do entrevistado, pode ser grave. Como temos cada vez mais um jornalismo quase em tempo real, creio que o que possibilitará a continuidade da profissão, bela e nobre do jornalista e portanto, dos jornais, é a capacidade de informar bem. Ou melhor, informar em compromisso concreto com o bem estar de seu público. 

Ou seja, pauto minhas falas para evitar o pânico. Por exemplo: dois homicídios em Guarus, um no Jóquei e outro perto da Rodoviária saindo da cidade, não são razão para pânico se observados em seu contexto e investigados. E digo isto porque é preciso olhar sempre em perspectiva para pensar segurança pública. Não se pode, para aumentar audiência ou vender mais jornais e programas de televisão, ligar pontos, que à princípio não têm conexão. O resultado disto serve apenas para aumentar no cidadão comum a sensação de insegurança que ele já vive. Isto é negar que as taxas de criminalidade tenham aumentado? De forma alguma. Acontece que para fazer esta afirmação, qualquer trabalhador sabe que é preciso mostrar os números. Estamos comparando o quê? Com que período? 

Decorre desta observação o tipo de manchete que tem me preocupado: a de que a intervenção no Rio impacta os números de criminalidade em Campos. Esta afirmação é o pior tipo de serviço que veículos de informação podem prestar. Ela causa pânico de fato. Porque ao criar algo que seria possível (hipoteticamente) sem apresentar dados, gera uma percepção borrada dos fatos. 

Acabamos de sair de um período de verão, o que em geral, altera taxas de criminalidade em qualquer cidade que viva o fenômeno de deslocamento de população como é o caso de Campos. A cidade de Macaé tem vivido dias complicados no seu policiamento cotidiano e acredito que as forças policiais em comunicação, acabam focando nestas áreas, tendo de solicitar colaboração de cidades próximas quanto a efetivo. Se não temos um Observatório de Segurança que relacione investigação, tipo de crimes e áreas, não podemos saber se há relação entre intervenção na cidade do Rio e aumento de criminalidade nas cidades do interior.

Para terminar, sobretudo, sem investimento não se faz segurança pública. Lojistas não são gestores de veículos. A Polícia Militar é e tem autonomia para ação em áreas que considere estratégicas. A não ser que mudemos o contrato, o Estado tem o monopólio para decisões desta natureza e entendo isto como poder público. 

O que precisamos em Campos é um grande debate entre Prefeitura, Universidade, população, escolas, comércio, sobre a segurança que queremos. E que ao contrário do Rio, ela não aja de forma inconstitucional nas regiões de periferia da cidade. Precisamos de espaços realmente democráticos de discussão que possam esclarecer o cidadão comum e não apavorá-lo.

*Luciane Soares da Silva é professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.

Um pensamento sobre “De que segurança precisamos em Campos?

  1. Fausto Luís disse:

    Mestre,a invergadura da intervenção, está na postura do Conad de determinar uma resolução onde o usuário de drogas como crack, terão barracas ao redor das Cracolândia, desqualificando e descredenciado os CAPS A/D, e fim das abstinência . Só de o pentecostalismo tem 28%de espaço nessa retórica ou seja , os locais de vulnerabilidade social, os CRAS deixam existir , não existe educação planificada e permanente , a essência é a o ataque reducionista , é protofacista ouso a qualificar, a os territórios são as vertentes do combate que é o indiferente.logo é o desejo de aniquilar o pobre flagelado dos espaços de discussão

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