Para entender a selvageria contra os venezuelanos em Paracaima

Paracaima-1

Quem já andou pelo interior da Amazônia como eu fiz por quase duas décadas sabe que na maioria dos estados da região a presença do Estado é, quando muito, restrita e meramente formal.  Isto não ocorre por acidente ou por falta de recursos, mas como parte da expansão do modelo de construção que o Capitalismo adotou no Brasil. 

É que se o Estado fosse estabelecido para construir uma sociedade efetivamente ancorada em formas democráticas de construção, o saque desenfreado às vastas riquezas naturais existentes na Amazônia seria mais difícil.

Essa realidade de “economia de fronteira” é um aspecto dominante no reino da força sobre a razão que naturaliza formas de coerção e uso desenfreado da violência que está vigente na Amazônia. Vi isso mais de perto no estado de Rondônia onde compartilhei o balcão de uma birosca com um indivíduo cuja ficha corrida incluiu o extermínio de famílias inteiras, sem que isso o tenha privado de um só dia de liberdade. A justificativa que me foi dada era que nos tempos da economia de fronteira esse tipo de sujeito é visto como um mal inescapável.

Por causa desse convivência com a “sociedade de fronteira” que objetivamente prevalece na Amazônia, não me surpreendi muito com as cenas de selvageria na cidade roraimense de Paracaima, onde uma turba expulsou de forma violenta cerca de 1.200 exilados venezuelanos.  Mas não me detive a analisar a situação por falta de maiores elementos sobre o ocorrido.

Felizmente encontrei na rede social Facebook o texto abaixo escrito pela cantora, compositora, instrumentista e produtora musical Malu Aires que nos oferece uma análise interessante sobre os elementos que organizaram a violência contra os exilados venezuelanos.  A conexão feita no texto entre a situação vigente na sociedade brasileira e os atos de selvageria em Paracaima me parece perfeita. Mas mais do que isso, nos obriga a pensar nas tarefas que estão postas para evitarmos que a situação ocorrida em Paracaima transborde para o resto do Brasil.

Para entender Paracaima

Por Malu Aires*

Num Estado de Golpe, nada é o que parece. Nada do que a TV diz, é verdade. Autoridades? Nenhuma. Só trambiqueiros ou porta-vozes do trambique.

Pacaraima foi emancipada em 1995. O Muniucípio, fronteiriço com a Venezuela, conta com aproximadamente 12 mil habitantes e é uma invasão de comerciantes, dentro de uma reserva indígena, a reserva de São Marcos. A sede da Prefeitura é um galpão de distribuição de produtos. O único atrativo da cidade é o comércio na sua principal avenida – a Rua do Comércio.

A energia elétrica de Pacaraima vem da Venezuela. O único posto de abastecimento de combustíveis, vem da Venezuela. Os moradores da cidade de Pacaraima dependem da Venezuela para aquecer o comércio do município e para consumo de energia. Sem gasolina, o comércio e o trânsito de Pacaraima param. Sem compradores venezuelanos, o comércio de Pacaraima para. 

Para os serviços de transporte entre as duas fronteiras, Pacaraima conta com mais de 90 taxistas que, diariamente, cruzam livres, a fronteira entre os dois países. Brasileiros não-índios e venezuelanos, são parceiros há décadas e esta parceria sustenta Pacaraima.

O ódio surgiu agora?

A política local é comandada por latifundiários, invasores de terras indígenas. Difícil achar um prefeito que não tenha uma ficha criminal extensa, currículo obrigatório para alcançarem as cadeiras do Congresso Nacional, por Roraima.

Conflitos entre estes invasores e índios, são constantes e o extermínio indígena, na região de Pacaraima, é situação alarmante, há alguns anos. O lobby pela extinção da reserva de São Marcos, move a política local.

Uma cidade comandada pela política da violência, pistolagem e xenofobia, há tantos anos, era cenário perfeito ao conflito deste final de semana. 

O vigilante Wandenberg Ribeiro Costa, orgulhoso organizador do ato fascista de Pacaraima, consta da folha de pagamentos da Prefeitura. O prefeito, Juliano Torquato, que em outubro de 2017, atropelou 2 crianças venezuelanas, coincidentemente estava fora da cidade, durante a vergonhosa atuação do seu empregado.

Em julho deste ano, outro “protesto” foi organizado contra os venezuelanos, formando uma comissão que em reunião com o Ministro da Justiça, pediu reforço ao governo ilegítimo e mais dinheiro pro Município. Os líderes desta comissão foram 3 secretários municipais, 2 vereadores, 1 representante do Comércio e 3 moradores.

As lideranças que provocaram este ataque violento contra os venezuelanos, já comandaram um ataque à sede da Funai, já formaram bandos de pistoleiros para ataque contra os índios e fazem enorme lobby no Congresso Nacional para a extinção da reserva indígena de São Marcos, com a intenção de remarcar o Município, invadindo mais terras indígenas e desmatar a região, para ampliação do cultivo de arroz.

Estes mesmos latifundiários que apoiam o golpe, agora se organizam para provocar, com a barbárie deste último final de semana, um desgaste e uma provocação à Venezuela, dias depois que o Secretário de Defesa dos EUA, o “Cachorro Louco”, discute com o Ministro de Segurança Pública, Raul Jungmann, da Defesa, Joaquim Silva e Luna e com o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, “soluções” para a imigração venezuelana, no Brasil. 

Não é de se estranhar que o exército não tenha interferido no arrastão fascista de Pacaraima.

É importante entender o contexto histórico da região, seus conflitos e sobre que bases são fundados. Importante rever o cronograma de acontecimentos para analisar o que de fato acontece quando uma mobilização daquela esfera, nada espontânea, surge. Não surge assim, do nada. Não é feita apenas para provocar em nós a vergonha, apesar de alcançar, rapidamente esse objetivo. Mas tem sempre uma característica – fazer passar por “popular” o que é criminosamente político. 

O ataque de Pacaraima foi organizado por políticos locais, latifundiários genocidas por natureza, mancomunados com esferas do governo ilegítimo e golpista, a mando dos EUA. Cantaram o hino brasileiro porque ainda não aprenderam o hino norte-americano.

*Malu Aires é cantora, compositora, instrumentista e produtora musical

FONTE: https://www.facebook.com/maluaires/posts/10215654861700496?__tn__=K-R

Um pensamento sobre “Para entender a selvageria contra os venezuelanos em Paracaima

  1. Emmanoel Vieira disse:

    Esse é o governo facista que se instalou no país. Onde vamos chegar? Mais desmatamento mais genocidios indígenas e agora xenofobia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s