Os efeitos dos cortes de investimentos sobre os pós-graduandos

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Por Weverthon Machado*

Em meio aos ataques do governo federal às universidades, achei que seria interessante colocar em perspectiva a situação dos pós-graduandos, principalmente para quem não acompanha de perto o mundo acadêmico.

Bolsistas de mestrado e doutorado não ganham simplesmente “para estudar”. Me parece que essa é uma confusão comum entre quem não está familiarizado com a natureza da pós-graduação e da pesquisa. Não que financiar formação seja um problema, pelo contrário. Mas o fato é que a pós-graduação stricto sensu não envolve somente estudo. Mestrandos e doutorandos não estão (apenas) se preparando para trabalhar, eles estão trabalhando e produzindo ao longo da formação. De fato, particularmente no doutorado, o tempo dedicado a disciplinas é uma parte pequena do programa. A maior parte é dedicada à pesquisa.

Mestrandos e doutorandos são responsáveis por parte substancial da produção científica, seja com suas próprias pesquisas de dissertação e tese, seja como assistentes em outros projetos, se envolvendo em várias atividades de apoio e tocando o dia a dia de laboratórios e núcleos de pesquisa. É trabalho altamente especializado, mas sem qualquer direito trabalhista.

As bolsas exigem dedicação exclusiva e, no caso das federais, foram reajustadas pela última vez em 2013. Um mestrando, que, por óbvio, tem ensino superior completo, ganha R$ 1.500,00 o que é pouco mais que a média salarial (R$ 1.430,00) de quem tem o fundamental completo. Um doutorando ganha R$ 2.200,00, algo próximo do rendimento médio de quem tem superior incompleto.

ganho salarial

Para ser justo, a pós-graduação aumenta seu potencial de renda a longo prazo. Se você sair vivo do outro lado do túnel que são cerca de 10 anos de educação pós-secundária, a probabilidade de ganhar decentemente, para os padrões brasileiros, é razoável. Com a ressalva de que as chances de seguir uma carreira de pesquisa — o que almeja boa parte dos que se dedicam à formação de… pesquisador — nunca foram grande coisa e estão piorando consideravelmente. E a pergunta é: quem consegue? Quem conseguirá, com menos estrutura e assistência estudantil na graduação, com menos e menores bolsas na pós-graduação?

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*Weverthon Machado é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense, Mestre e Doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), e tem experiência de pesquisa na área de estratificação social.

Um pensamento sobre “Os efeitos dos cortes de investimentos sobre os pós-graduandos

  1. Edson Correa disse:

    Importante essa questão colocada pelo Weverthon. O período de pós-graduação é de formação e trabalho produtivo, essencial para o desenvolvimento científico. Mas os pós-graduandos ganham bolsa e estão fora da proteção trabalhista (tempo para aposentadoria, seguro saúde, etc.). Cheguei a propor no meu tempo de UNICAMP a discussão sobre a implementação de contratos de trabalho temporários para os pós-graduandos (como eu vi no meu tempo de Alemanha). Mas não prosperou. Esse seria um dos pontos de pauta da luta pela recuperação do protagonismo das universidades públicas no desenvolvimento da C&T&I, junto com a autonomia das universidades, eleições diretas e tripartites para Reitor entre outras. Juntar essa pauta aos nossos gritos contra os “cortes” no financiamento das universidades públicas.

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