Brasil, o pária

bolso fogoAs políticas anti-ambiente e a gestão desastrosa da pandemia da COVID-19 pelo govenro Bolsonaro jogaram o Brasil em pária global

A palavra “pária” significa basicamente a designação de uma pessoa mantida à margem da sociedade ou excluída do convívio social. Mas países também ser colocados na condição de párias, dependendo da condição em que se encontra a sua governabilidade, o respeito a direitos básicos (mais para mínimos) que sejam acordados em fóruns multilaterais onde as regras de convívio são estabelecidas entre os Estados-Nação.

Desde 2016 venho afirmando neste espaço que o Brasil estava se encaminhando, e os brasileiros juntos com o país, em uma condição de pária global. As diversas regressões em termos de direitos trabalhistas e sociais somados a uma forma ultrapassada de apropriação de recursos naturais, especialmente na Amazônia, acabaram por erodir a imagem bem polida que foi construída durante os anos em que ex-presidente Lula esteve no poder.

Essa erosão de imagem teve grande impulso após a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder visto o seu desdém notório por políticas de direitos, igualdade de gênero, de proteção de povos indígenas, e ainda da proteção das florestas tropicais existentes ainda em grande quantidade no Brasil.  As grandes queimadas que ocorreram na Amazônia em 2019 deram ainda um grande impulso para que movimentos de boicote aos produtos agrícolas brasileiros começassem a ocorrer a partir da Europa, sendo o iniciado por Johannes Cullberg da rede Paradiset apenas o primeiro de uma série que agora se amplia na Alemanha.

boicote bolsonaro 2

Abaixo-assinado válido em toda a União Europeia visa pressionar principais cadeias de supermercados da Alemanha a suspender a compra de produtos agrícolas brasileiros

Nesse contexto, a divulgação da política “passa boiada” na hoje famigerada reunião ministerial de 22 abril agravou ainda mais a percepção internacional de que o Brasil se tornou um pária, um país de quem é preciso tomar distância. É que, apesar do resto do mundo ser capitalista e viver da extração das riquezas contidas em ecossistemas naturais, também existe um acordo de que o planeta vive um dramático processo de mudanças climáticas que demanda a proteção das florestas que agem como mega reservatórios de carbono.

As constantes ameaças públicas de um novo golpe militar para dar suporte a um presidente cada vez mais isolado e com rápida sangria em sua popularidade, que ontem motivou uma matéria no “The New York Times“, também contribuíram para que o Brasil passasse a ser visto com uma espécie de leproso, do qual até os governantes de direita, como o presidente Donald Trump, tentam se desvincular por simplesmente pegar mal aparecer associado a Jair Bolsonaro, em qualquer capacidade que seja.

Mas nada do que foi feito para desacreditar a imagem do Brasil em termos ambientais e de direitos de sua população trabalhadora chega perto do descrédito que foi gerado pela forma desastrosa da pandemia da COVID-19.  É que apesar de vivermos em uma espécie de labirinto, onde a poderosa indústria de fake news que dá suporte às políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes nos mantém em um estado de suspensão da verdade, o resto do mundo pode ver sem filtros o que está ocorrendo dentro do Brasil. E o que se vê é a ação proposital para deixar que passemos por um processo de contaminação generalizada para aplicar o que se chama de “efeito de manada”, em nome do funcionamento de uma economia que já vinha cambaleando, mesmo antes da erupção da pandemia.

A evidência inegável de que o Brasil  e, por consequência, os brasileiros que vivem no seu interior, foram transformados em párias globais aparece na forma do banimento de viagens internacionais, primeiro pelos EUA e agora pela União Europeia. É que a UE acaba de anunciar que impedirá a entrada de brasileiros nos 27 países que compõe a sua comunidade após 1 de julho, momento em que reabrirá suas fronteiras ao resto do mundo,  até que se verifique que a pandemia da COVID-19 foi efetivamente controlada dentro do Brasil. Como isso parece improvável no curto prazo, o resultado prático é que não haverá viagens para a Europa e, lembremos, tampouco, para os EUA.

Antes que alguém desdenhe o banimento de viagens porque a maioria dos viajantes pertencem às classes mais ricas dos brasileiros, há que se lembrar que também estarão interrompidas todas as viagens profissionais, com inevitáveis impactos sobre intercâmbio comercial e científico. 

A realidade é dura: o Brasil foi transformado em um pária e o custos disso vão ficar especialmente evidentes quando forem implementadas diferentes formas de boicote à produção agrícola brasileira. As chamas que começarão em breve a arder em toda a Amazônia vão certamente tornar isso inevitável. A ver!

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