Precisa desenhar?

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Por José Luis Vianna da Cruz*

Neste período eleitoral, está-se consolidando, em Campos dos Goytacazes, algo muito importante, em termos de cultura política.

Estamos assistindo o amadurecimento da participação de alguns personagens e de alguns instrumentos, em meio a um contexto atípico, que é o de uma campanha eleitoral em meio a uma pandemia que obriga ao afastamento físico e ao recolhimento das pessoas.

A constituição de Campos enquanto Cidade Universitária, com mais de 20 mil estudantes, das mais diferentes partes do Brasil, possibilitado pelo SISU e pela interiorização do ensino superior, vem mudando o cenário da cena política. Entram em cena um número maior de jovens, de coletivos formados em torno das questões de gênero, de orientação sexual, de raça, além de outros, como dos artistas de rua, da dança e da pintura, da poesia do slam e do rap. Fortalecem-se partidos vinculados mais estreitamente a essas manifestações, como o PSOL e o PT.

São iniciativas ainda dispersas, às vezes fragmentadas, não ainda soldadas em uma articulação em torno de convergência e potencialização da ação política voltada para a participação na política institucional, como na Prefeitura e na Câmara. Mas, sem dúvida, adicionam oxigênio ao ar que se respira, oferecendo aberturas, diversidade, criatividade, liberdade, autonomia e ampliação dos horizontes da sociabilidade e de poder. Anunciam um novo horizonte de cidadania e de ação política.

Mas, a Cultura Universitária que se consolida em Campos tem também contribuído para uma profunda transformação, às vezes imperceptível para uma parcela tradicional da população, refém das tradições e vícios da política de favores, clientelismos, coronelismos, elitismos e autoritarismos diversos. O campo popular dos trabalhadores mais afetados pela dominação conservadora, elitista, discriminatória, preconceituosa, exploradora e concentradora, de Campos, cresce, invade a cena política, ganha protagonismo, e ocupa espaço público, penetrando na agenda da universidade, de segmentos da população fora dos espaços estritamente políticos e acadêmicos, e, afortunadamente, de alguns candidatos à Prefeitura e à Câmara e Vereadores!

Trata-se das Trabalhadoras em Recicláveis e dos Produtores da Agricultura Familiar. Falam por si, têm voz própria, são portadoras e portadores de experiência, de conhecimento e construtores de uma economia eficiente; têm projetos e propostas de política pública. São gestores, senhores e condutores das suas atividades. Por serem excluídos, discriminados, invisibilizados, apartados e hostilizados pelos Poderes Públicos Locais, tiveram que buscar seus próprios caminhos. São apoiados e formados nas lutas e nas articulações dos companheiros, nos movimentos e organizações próprias e de apoio, como nos casos aqui analisados, o Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis e no MST, mas não somente nessas organizações, que são nacionais, estaduais e municipais.

Eles sistematizaram suas experiências, seus conhecimentos, e construíram atividades sólidas e eficientes, principalmente no que diz respeito aos valores da sociabilidade, da cidadania, da democracia, da justiça social, ambientais e da segurança alimentar. Souberam construir suas alianças com as universidades, com pesquisadores, técnicos, acadêmicos, estudantes, intelectuais, artistas, segmentos da mídia, principalmente.

Sua ação hoje é pública, visível, exigindo reconhecimento e ação social e política de construção e efetivação de políticas públicas que enfrentem questões candentes, que nossas elites teimam em ignorar, hostilizar e invisibilizar.

PRECISA DESENHAR a urgência em elaborar, com o protagonismo dos Produtores Familiares, a POLÍTICA MUNICIPAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR, que fomente a rede de mais de mil famílias, na produção e comercialização de alimentos, em grande parte agroecológicos?

PRECISA DESENHAR a urgência em elaborar, com o Protagonismo das Catadoras e dos Catadores de Recicláveis, o PLANO MUNICIPAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS, previsto em Lei Federal, que contrate as cooperativas, conforme ORDEM JUDICIAL já existente?

O MUNICÍPIO ESTÁ QUEBRADO. Essas e outras Políticas ECONOMIZAM GASTOS DA PREFEITURA com a empresa de coleta de lixo atual e com a compra de alimentos no Espírito Santo. Fazem CIRCULAR DINHEIRO na economia do município, ao invés de ir para fora. Consolidam MILHARES DE EMPREGO, imediatamente. AUMENTAM A ARRECADAÇÃO MUNICIPAL, pela movimentação de insumos, transporte, equipamentos, comercialização, pontos de venda, beneficiamento, etc.

Se são políticas tão positivas, de resultados imediatos, que ajudam a administrar o Orçamento, por quê a maioria dos candidatos a Prefeito e a Vereador, evitam tratar delas? Faço a ressalva de que os candidatos a prefeito, e alguns do PT, do PSOL e do PC do B, já se comprometeram com elas.

Se os demais discordam, porque fogem do debate? Porque não explicitam suas divergências? Quero saber o que têm contra essas políticas? Rafael Diniz se mostrou totalmente contrário. E os demais? São como ele?

Será que estão envolvidos com interesses inconfessáveis, com os quais estariam comprometidos; interesses esses que prejudicam as finanças municipais, e por isso eles não se pronunciam, ligados a grandes empresas que concentram a renda e retiram as oportunidades de trabalho e renda dos trabalhadores e produtores familiares? É por isso que preferem defender o ajuste fiscal radical, demissão de servidores, ao invés de rever contratos e cortar certas despesas, para gerar emprego e renda, e, com isso comprometer nosso orçamento e o desenvolvimento de Campos?

Ou, quem sabe, são contra essas políticas de apoio aos trabalhadores e trabalhadoras de recicláveis e da agricultura familiar, assim como os demais trabalhadores, porque são conservadores, preconceituosos, elitistas, e favoráveis à exploração e à manutenção desses trabalhadores no limite da sobrevivência, com baixíssimos rendimentos e condições de vida precárias?

PRECISA DESENHAR?

*José Luís Vianna da Cruz é professor aposentado da UFF e professor permanente do Programa de Mestrado e  Doutorado em Planejamento Regional e Gestão de Cidades, da Universidade Candido Mendes/Campos dos Goytacazes.

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