Sem muito alarde, Ministério da Agricultura publica resultado de Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos

contaminaçaõ de alimentos

Um dos graves problemas que enfrentamos em escala mundial é a contaminação de alimentos por todo tipo de substância química, a começar por agrotóxicos.  Por isso, um fato que deveria ter ganho manchetes, mas aparentemente passou despercebido, foi a publicação no dia 17 de Novembro de 2021 dos resultados do “Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos”, por meio da Portaria SDA Nº 448.

Inicialmente é preciso que se diga que o Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC) em alimentos analisa a presença de metais pesados, micotoxinas, MDT (Morfolina, Dietanolamina e Trietanolamina), Salmonella, e resíduos de agrotóxicos em uma ampla gama de alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros, sejam produzidos no Brasil ou no exterior.

Dentre as culturas analisados pelo PNCRC estão: abacaxi, alface, alho, amêndoa (Prunus dulcis), amêndoa de cacau, amendoim, arroz, avelã (Corylus avellana), banana, batata-inglesa, beterraba, café, castanha de caju, castanha do brasil, cebola, cenoura, cevada malteada, citros, farinha de trigo, feijão, goiaba, kiwi, maçã, mamão, manga, melão, milho, morango, pera, pimenta do reino, pimentão, soja, tomate, trigo, uva.

Uma análise preliminar dos resultados publicados por meio da Portaria SDA Nº 448 fica evidente que estamos diante de um grave problema de contaminação alimentar, na medida em que foram detectados contaminantes em praticamente todos os produtos analisados, e com uma combinação de contaminantes em diferentes produtos. Em outras palavras, não estamos comendo alimentos contaminados com “isto ou aquilo”, mas com “tudo aquilo”.  O problema é que os efeitos combinados (os chamados efeitos sinérgicos) podem não aparecer imediatamente em função das baixas concentrações, mas isto não significa que não haja um efeito cumulativo, como no caso dos metais pesados e dos agrotóxicos.

Alguns casos específicos da contaminação por metais pesados acima do estipulado pela legislação (ou em não conformidade com ela) é, por exemplo, o do alho, tanto o nacional, como o importado da China e da Espanha, cujas amostras analisadas apresentaram contaminação por chumbo.  Outro caso notável foi o do arroz, em que 74 das 75 amostras analisadas estavam contaminadas por arsênio, cujos efeitos tóxicos para a saúde humana são bem estabelecidos na literatura científica.

Outro exemplo de “não conformidade” com a legislação foram as micotoxinas que foram detectadas em um grande número de amostras analisadas. As micotoxinas são substâncias produzidas pelos fungos e que provocam efeitos tóxicos. A presença dessas substâncias nos alimentos consumidos por seres humanos tem sido associada a uma série de doenças, e vem ganhando mais atenção recentemente por ter um caráter muitas vezes subliminar. 

Mas se observarmos os resultados para os resíduos de agrotóxicos, a situação parece ser ainda mais dramática, pois a presença de substâncias altamente tóxicas além de limite permitida está disseminada em toda a gama de produtos analisados. Um detalhe a mais é que os resultados do PNCRC detectaram algo que já é sabido, mas nem sempre facilmente documentavel que é o uso de agrotóxicos que não são permitidos para determinadas culturas. Um exemplo disso é o famigerado Fipronil que foi encontrado no tomate. Mas além do Fipronil muitos outros agrotóxicos foram aplicados em culturas para as quais não possuem aprovação, demonstrando que essa prática está disseminada, representado não apenas uma violação da lei, mas também grave risco à saúde humana, já que temos substâncias que são potencialmente causadoras de doenças graves, como é o caso do inseticida Acefato que está banido na União Europeia por causar, entre outras coisas, a perda da fertilidade masculina, e por causar a morte de aves e espécies marinhas, como anfíbios e peixes. 

O fato é que os resultados globais do PNCRC deveriam estar sendo amplamente publicizados, de modo a permitir que haja a devida reação por parte de organizações que representam os interesses dos consumidores, bem como para orientar a ação de grupos de pesquisa e de organizações não-governamentais. Afinal, o quadro que emerge dos resultados publicados em relativa surdina pelo governo Bolsonaro não é nada bom.

2 comentários sobre “Sem muito alarde, Ministério da Agricultura publica resultado de Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos

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