Entrevista ao “Terceira Via” sobre alagamentos e mudanças climáticas

Marcos Pedlowski | Pesquisador afirma que alagamentos em Campos devem se agravar com mudanças climáticas.

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“Temo as piores consequências dos eventos meteorológicos extremos”, diz Marcos Pedlowski, geógrafo e professor da Uenf

Uma das reportagens em destaque do Jornal Terceira Via desta semana, “Chuvas põem à prova sistema de drenagem de Campos” (clique aqui), avalia alguns problemas relacionados a enchentes e alagamentos. Para o geógrafo e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, há vários desafios para serem enfrentados pelo poder público e pela população de Campos dos Goytacazes. Ele afirma que, com as alterações climáticas extremas, os problemas tendem a se agravar nos próximos anos.

A cidade cresce e várias intervenções urbanas acontecem. Como avalia a situação de alagamentos em Campos?

Algo que precisa ser lembrado é que o avanço da malha urbana campista se deu sobre um rico ecossistema de lagoas, o que torna alguns pontos da cidade mais propensos a alagamentos, já que os corpos aquáticos passaram a uma condição de “fantasmas” na paisagem urbana que são incapazes de cumprir as funções de escoamento que prestavam antes de serem aterradas. É por isso que determinadas áreas são sempre o foco de alagamentos mais intensos e persistentes. Eu diria que temos aí um problema crônico cuja busca de soluções tem sido historicamente negligenciada pelo poder público municipal e pelos incorporadores imobiliários que controlam o processo de alteração da paisagem natural para construir seus empreendimentos.

O problema está se tornando mais visível porque estamos passando por um período de alteração dos padrões de chuvas, e agora eventos meteorológicos mais extremos estão ocorrendo mais frequentemente em maior intensidade e em períodos curtos de tempo. Nesse sentido, eu diria que os alagamentos são apenas uma espécie de ponta de um iceberg de problemas urbanos e que deverão se agravar nos próximos anos e décadas já que as mudanças climáticas são um fenômeno que já está claramente demonstrado pela ciência.

Como observa as obras de drenagens e as ações do governo municipal?

Eu diria que essas intervenções foram parciais e insuficientes em função dos problemas acumulados em face do tipo de expansão urbana que se deu, como eu já disse anteriormente com base no sacrifício dos elementos naturais da paisagem. A verdade é que a cidade de Campos dos Goytacazes, apesar de já ter mapeado as áreas que deveriam ser alvo de intervenções retificadoras e alvo de ações de preservação ambiental em seu Plano Diretor Municipal, não possui ações estruturantes para cuidar dos alagamentos e de outros problemas causados por eventos meteorológicos extremos. Na prática, estamos sentados sobre uma bomba de tempo, já que as estruturas construídas não apenas são insuficientes, mas sem a devida manutenção. Eu diria que essa é uma condição propícia para a ocorrência de situações que vão perturbar bastante as vidas dos campistas, especialmente daqueles que vivem em áreas mais propensas a perturbações que esses eventos meteorológicos extremos são capazes de causar. Aliás, o que temos visto em cidades dos estados que estão sendo atingidos por chuvas intensas é que estamos completamente despreparados para a nova realidade climática.  E pior, sem que haja um processo de planejamento que dê conta de preparar nossas cidades para resistirem a esses eventos. Nesse sentido, me parece que a cidade de Campos dos Goytacazes é um bom exemplo do atraso existente no tocante a fazer ajustes para dar conta desses eventos extremos.

Obstrução e coberturas de canais como o caso do Campos-Macaé interfere de que modo nas questões de alagamentos?

Me parece que o caso da obstrução dos canais e o uso deles para despejo de todo tipo de material expressa bem o atraso que temos diante de nós em relação à manutenção dessas estruturas.  Se houvesse um mínimo de planejamento, como já existe, por exemplo, na Europa, a rede de canais existentes no município estaria sendo alvo do mais cuidadoso gerenciamento por parte do governo municipal. Mas o que se vê é a realização esporádica de dragagens que não resolvem o problema e servem apenas para justificar o desperdício de recursos que poderiam estar sendo melhor aproveitados para, por exemplo, recuperar as áreas marginais dos canais com políticas de recuperação da paisagem, de forma a ampliar os serviços ambientais que podem ser oferecidos pelo uso correto dessas estruturas.

Acredita que obras definitivas solucionariam os problemas na cidade?

Em minha opinião há que se ter um processo de planejamento que vá além de obras de engenharia que são necessárias, mas que não resolverão o problema se não estiverem integradas a outras intervenções que coloquem a área urbana do município dentro de um contexto de preservação que vá além de suas poucas áreas verdes.  O fato é que temos de pensar a cidade como algo que faz parte de um contexto geográfico e não apenas algo apartado da paisagem natural.

O que a população e o poder público devem atentar sobre prevenção e combate a alagamentos?

Um fato que me parece urgente é que o governo municipal, independente de quem esteja sentado na cadeira do prefeito, comece a agir de forma a incorporar a inevitabilidade das mudanças climáticas e seus efeitos extremos no planejamento urbano. Cidades que fizerem essa transição, e já existem muitos exemplos disso, poderão responder melhor aos desafios que estão sendo criados pelas mudanças climáticas.  E eu tenho que lembrar que alagamentos e inundações são apenas facetas do processo de mudanças climáticas. A tendência é que passemos a viver por períodos extremos tanto de chuvas como de falta delas, e que tenhamos alternâncias entre muita água e nenhuma água.

No caso do poder público, eu diria que é urgente que se passe de uma postura de completa alienação em relação ao processo de mudanças climáticas para se adotar formas de planejamento ecológico da cidade. E eu não estou falando aqui simplesmente de esforços pontuais de plantio de árvores e criação de praças e outros tipos de áreas verdes.  Há que se transformar a forma de planejar o processo de expansão e de funcionamento da cidade, de forma a assimilar os fenômenos extremos que estão ocorrendo e que tudo indica serão agravados.  Um excelente exemplo disso está sendo realizado pela prefeitura de Estocolmo, capital da Suécia, que está desenvolvendo um programa de iniciativas climáticas que visam preparar a cidade para as consequências das mudanças climáticas dentro de um processo de planejamento de médio e longo prazo.

Aqui em Campos dos Goytacazes, um primeiro passo seria recriar a Secretaria Municipal de Meio Ambiente para que ali sejam concentrados os esforços para estabelecer um processo de planejamento urbano de tipo ecológico, como o que está sendo implementado em Estocolmo. Sem esse primeiro passo, temo que fiquemos condenados a experimentar as piores consequências dos eventos meteorológicos extremos. Além disso, há que se aproveitar o capital humano existente nas universidades locais, pois existe muito conhecimento sobre essa problemática, mas que permanece ignorado na hora de se definir as ações de governo.

Já em relação à população, o que eu esperaria é que se abandone a postura de expectadores de catástrofes para uma mais ativa que não apenas cobre soluções pontuais, mas que se pense em um ambiente urbano que seja acessível e equilibrado em termos das oportunidades dadas a todos os seus habitantes. Mas isso só será possível com mais organização política, especialmente daqueles segmentos que vivam ou trabalham justamente nas áreas mais propensas a serem mais afetadas pelos eventos meteorológicos extremos. Sem essa organização política e a geração de demandas de caráter coletivo, temo que o futuro das cidades brasileiras seja tão tenebroso quanto o que temos assistido com as inundações desse início de 2022.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo jornal “Terceira Via” [Aqui!].

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