Arrocho orçamentário e o aumento do risco ocupacional na Uenf

arrocho

Nos últimos dias temos presenciado as idas e vindas do governo Bolsonaro em relação à zerar o orçamento de universidades e institutos federais. Se confirmados os últimos cortes, as universidades e institutos não poderão apenas ter que suspender suas atividades essenciais, mas também não terão como pagar os salários de milhares de servidores terceirizados que hoje prestam uma ampla de serviços via empresas contratadas, a começar por segurança e limpeza.

Quem acompanha o drama causado pelo governo Bolsonaro, pode achar que nas universidades estaduais a coisa vai melhor, mas a verdade é que não. Aqui mesmo no Rio de Janeiro, as universidades estaduais convivem com um forte arrocho orçamentário que ocorre em descumprimento da Constituição Estadual que agora determina a entrega do valor aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro na forma de duodécimos (uma entrega por cada mês do ano). O causador do arrocho é o governador Cláudio Castro que todos sabem até ontem era um fiel seguidor do presidente Jair Bolsonaro.

As consequências para o cotidiano da Uerj e da Uenf são muitos, pois como nas federais ficam comprometidas suas atividades essenciais, mas também a capacidade de contratação de servidores terceirizados, e o “enxugamento” dos orçamentos impõe que a cada ano seja possível contratar cada vez menos pessoas para, por exemplo, limpar e manter a segurança.  

Mas como dizia Darcy Ribeiro, essa situação de ataque ao ensino público universitário não ocorre por acidente e incompetência, pois se trata de um projeto de destruição que é facilitado pela aplicação de uma lógica fiscal que serve apenas para manter o pagamento de uma dívida pública que jamais é auditada.

Na Uenf, um acidente que poderia ter gerado uma desgraça por falta de pessoal de segurança

Um dos problemas que rondam o cotidiano da Uerj e, mais ainda, da Uenf é que se reduzir o número de pessoal de segurança há de forma paralela o aumento do risco das pessoas que ali trabalham, especialmente no turno noturno. É que com menos iluminação e menor controle sobre quem pode acessar (ou não) o interior dos campi universitários, aumenta a chance de quem alguém adentre as instalações para cometer algum tipo de ação delituosa.

Pois foi exatamente esse contexto de arrocho orçamentário que causou um incidente na última 4a. feira (30/11), e que poderia ter tido consequências graves se a professora que dava aula no período noturno em uma das salas do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf não tivesse agido rápido e trancado a porta para impedir a entrada de uma pessoa estranha ao ambiente universitário, o qual havia iniciado perseguição a um das funcionárias da empresa da limpeza que cuida sozinha de um andar inteiro.

Após tentar forçar a sua entrada na sala, o indivíduo se retirou do prédio antes que os seguranças patrimoniais que estavam em outro local do campus Leonel Brizola chegassem para prestar socorro a um coletivo onde mulheres eram a imensa maioria, na medida em que a sala era usada pelo curso de Pedagogia.

Como cheguei no prédio do CCH imediatamente após a evasão do desconhecido, pude constatar o nível compreensível de estresse em que as alunas e servidoras da limpeza se encontravam. Ao ouvir os relatos tive a exata noção de que provavelmente uma tragédia havia sido evitada pelo raciocínio rápido da professora, já que coletei informações que o invasor estava visivelmente alterado e “com fala arrastada”.

A constatação que me restou é que se não fosse pelo raciocínio rápido da professora envolvida neste incidente, a Uenf poderia ter acordado na quinta-feira sob o impacto de alguma tragédia, já que claramente o pior deixou de acontecer por muito pouco.  E há que se constatar que não apenas os servidores terceirizados sofrem com o arrocho neoliberal, já que os mesmos professores que se arriscam a trabalhar em um ambiente inseguro estão com diversos direitos trabalhistas sem serem cumpridos.

E a reitoria da Uenf nisso tudo?

Quem olha a Uenf do lado de fora, pode até achar que somos uma espécie de ilha onde “se faz ciência” e que aqueles que carregam o piano estão sendo devidamente cuidados para que possam trabalhar em segurança e com seus direitos garantidos.

Como mostrei até aqui, nem uma coisa nem outra. O fato é que a mesma reitoria que aceita ser uma espécie de “barriga de aluguel” no caso da reforma do Solar do Colégio é a mesma que aceita passivamente a redução da capacidade orçamentária da  Uenf, com os inevitáveis furos que isso gera na limpeza e na segurança, apenas para começo de conversa. É aquela máxima do Leão da Montanha, sendo que a saída é sempre pela direita.

Com isso, o que temos, especialmente no turno noturno, é o estabelecimento da naturalização de um nível de risco ocupacional que coloca professores, estudantes e servidores terceirizados no que é inglês se chama de “clear and present danger” (ou em português “perigo claro e presente”).

A pergunta que fica é a seguinte: se na próxima vez, a tragédia se consumar, quem vai responder por isso? O governador ou o reitor?

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