
Cenas dramáticas que mostram o efeito devastador das chuvas intensas que ocorrem na região metropolitana do Rio de Janeiro são a confirmação de que vivemos uma fase marcada por eventos meteorológicos cada vez mais intensos e que ocorrem em períodos mais curtos de tempo. O impacto sobre uma infraestrutura urbana que ainda não foi adaptada para o novo modelo climático acaba sendo inevitável, atingindo principalmente as regiões das cidades em que vivem os segmentos mais pobres da população (ver vídeo abaixo que mostra cenas de caos no bairro do Irajá, zona norte do município do Rio de Janeiro).
A reação a esse caos poderia ser aceitar os postulados teóricos do sociológo alemão Ulrich Beck que argumentava em prol do estabelecimento de uma sociedade de risco em que todos estaríamos sujeitos a perigos coletivos e que nos ameaçariam de forma universal. Entretanto, um rápido exame das áreas mais atingidas pelos impactos mais drámaticos das chuvas que caem no Rio de Janeiro indica que o caso não é bem esse, pois o grosso da devastação não se abate sobre os ricos, mas sim sobre aqueles que foram espacialmente segregados e empurrados para regiões que foram deixadas de lado pelos grandes incorporadores imobiliários.
A resposta das autoridades do Rio de Janeiro até agora está sendo marcada por apelos tradicionais e inúteis para que a população minimize o processo de circulação e que se opte para a permanência no interior das residências. O problema é que a estas alturas há uma quantidade enorme de famílias cujas casas foram completamente tomadadas pelas águas e que não possuem o luxo de se isolar até que as coisas voltem para o padrão normal.
Adaptar nossas cidades às mudanças climáticas vai requerer o reconhecimento de que a adaptação precisa ser socialmente justa. Do contrário, os planos de adaptação tenderão a beneficiar mais aos que têm menos a temer dos grandes eventos meteorológicos que continuarão ocorrendo em intensidade cada vez mais intensa.