No Brasil, inundações devastadoras se tornaram duas vezes mais prováveis por causa do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis

Cientistas dizem que calamidades na mesma escala do desastre que matou 169 pessoas se tornarão mais comuns se as emissões não forem reduzidas

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Inundações em Canoas, Rio Grande do Sul, em 5 de maio de 2024. Imagem de Ricardo Stuckert/PR

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As inundações extraordinariamente intensas, prolongadas e extensas que devastaram o sul do Brasil foram pelo menos duas vezes mais prováveis ​​devido à queima humana de combustíveis fósseis e árvores, mostrou um estudo realizado pelos cientistas da World Weather Attribution.

O desastre recorde provocou 169 mortes, destruiu casas e destruiu colheitas, e foi agravado pela desflorestação, cortes de investimento e incompetência humana.

A equipe de cientistas internacionais por detrás do estudo previu que calamidades desta escala – as piores a atingir a região – tornar-se-iam mais comuns no futuro se não houvesse uma redução acentuada nas emissões de gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

Centenas de milhares de pessoas no estado do Rio Grande do Sul e no vizinho Uruguai ainda tentam reconstruir as suas vidas depois de um mês de chuvas persistentes que deslocaram 80 mil pessoas e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais, como eletricidade e água potável.

Durante o pico das chuvas no dia 1º de maio, a cidade de Santa Maria estabeleceu um recorde de precipitação em 24 horas de 213,6 mm. Em apenas três dias, a capital do estado, Porto Alegre, foi inundada por chuvas equivalentes a dois meses, transformando estradas em rios, estádios de futebol em lagos e danificando tanto o aeroporto internacional da cidade que permanece fechado.

O custo económico deverá exceder 5,25 bilhões de reais e o terrível impacto na agricultura deverá aumentar os preços do arroz – o Rio Grande do Sul normalmente produz 90% da colheita do Brasil – e dos produtos lácteos em todo o país. 

A ponte para abruptamente na margem do rio, onde uma parte dela foi destruída, levando a uma queda acentuada
Ponte destruída sobre o Rio Forqueta, no Rio Grande do Sul. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

O foco da região na agricultura teve um custo elevado. Os autores do estudo afirmaram que nas últimas décadas, as defesas naturais contra inundações, como florestas ribeirinhas e pântanos, foram desmatadas para campos, muitas vezes em violação de regulamentos ambientais mal aplicados.

A catástrofe em Porto Alegre foi agravada pelas fracas defesas contra inundações, que deveriam suportar 6 metros de água, mas que alegadamente começaram a falhar a 4,5 metros.

Nos últimos anos, os governos municipais reduziram o investimento nestas protecções, apesar dos avisos de que esta região baixa e desflorestada, na intersecção de cinco grandes rios, seria cada vez mais vulnerável a inundações como resultado de perturbações climáticas provocadas pelo homem. Além de serem incapazes de deter a subida das águas, as barreiras contra inundações da capital do estado retiveram as águas das cheias, retardando o processo de secagem e recuperação.

Cientistas do World Weather Attribution confirmaram a poderosa influência humana no desastre das enchentes, a quarta a atingir o estado mais ao sul do Brasil no último ano e meio.

Eles analisaram um período de quatro dias e um período de 10 dias de inundações, combinando observações meteorológicas com resultados de modelos climáticos computacionais. Os pesquisadores descobriram que as mudanças climáticas provocadas pelo homem tornaram as chuvas extremas duas a três vezes mais prováveis ​​e cerca de 6% a 9% mais intensas. Esta influência foi semelhante ao efeito natural do fenômeno El Niño.

Além de aumentar a frequência e a intensidade das fortes chuvas, o aquecimento global empurrou a cintura tropical mais para sul, que funciona como um muro no centro do Brasil que bloqueia as frentes frias vindas da Antártica. Como resultado, inundações que antes eram mais comuns no norte de Santa Catarina, agora são mais prováveis ​​no Rio Grande do Sul. Mais de 90% do estado, que cobre uma área do tamanho do Reino Unido, foi afetado.

Os autores afirmaram que o aquecimento global também está aumentando a frequência dos eventos El Niño e La Niña, que estão associados a condições meteorológicas extremas. Não houve um ano neutro sem nenhum deles na última década.

Olhando para o futuro, para um mundo que ficará mais quente como resultado das emissões dos carros, das fábricas e do desmatamento, eles descobriram que tal desastre se tornaria 1,3 a 2,7 vezes mais provável no Rio Grande do Sul se o aquecimento global subisse do nível atual de 1,2. C a 2C, o que é cada vez mais provável. “Esses eventos se tornarão mais frequentes e graves”, conclui o artigo.

Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, disse que o clima no Brasil já havia mudado: “Este estudo de atribuição confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, destacando a vulnerabilidade do país às mudanças climáticas. É essencial que os tomadores de decisão e a sociedade reconheçam esta nova normalidade.”

Para minimizar o impacto potencial de desastres futuros, os autores sugerem um planejamento urbano mais abrangente, maior investimento em defesas contra inundações e maior atenção ao desenvolvimento social equitativo, porque as inundações podem criar uma “armadilha da pobreza” em que as comunidades de baixos rendimentos estão nas áreas mais vulneráveis. .

A prioridade deveria ser proteger e reforçar as barreiras naturais, como florestas e pântanos, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. “As mudanças no uso da terra contribuíram diretamente para as inundações generalizadas, eliminando a proteção natural e podem exacerbar as alterações climáticas, aumentando as emissões.”

Contudo, como sempre, a medida mais importante é reduzir rapidamente a queima de árvores e de combustíveis fósseis que está a causar cada vez mais carnificina em todo o mundo.


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Fonte: The Guardian

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