Das formas de atuar em contextos de sofrimento

trabalho01

Por Luciane Soares da Silva

Uma das questões que permearam a XI Jornada do Programa de Pós Graduação em Políticas Sociais que ocorreu entre 08 e 09 de outubro de 2024 na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, foi como lidar com os tempos que virão. Em certo momento parecíamos compartilhar o mesmo sentimento de “andar em uma montanha russa”. Na qual olhávamos o Ocidente e toda sua arrogância histórica nas relações de poder com povos originários, mulheres, negros e outras minorias políticas e perguntávamos onde estaria a humanidade. Ao mesmo tempo, as mesas sobre mudanças climáticas trouxeram conhecimentos absolutamente urgentes para viver realidades globais nas quais já sentimos um cotidiano alterado. Clima, água, poluição. Entre uma esperança magrela e um desejo por melodias menos áridas, cumprimos a Jornada com a clareza de quem não busca falsos instrumentos de mitigação diante das emergências climáticas.

Ainda na mesma semana, transcrevi trechos das entrevistas que tenho feito em meu retorno a campo nas favelas do Rio de Janeiro. Ainda são apenas percepções. Mas relações entre milícia e tráfico, aumento do custo de vida e enfraquecimento das condições de luta contra violência do Estado têm chamado minha atenção. Sempre é um desafio descrever cenários de violência e minha orientadora  sugeriu o livro de Veena Das, “ Vida e Palavras, a violência em sua descida ao ordinário”. Estou avançando em uma leitura que trata do cotidiano e das palavras a partir de alguns eventos de sofrimento para sociedade indiana.  Não é recente meu interesse sobre territórios periféricos nestes dois países. No entanto a sensação de que algo escapa na tradução não só da língua mas da cultura permanecem ali, no meio de minha reflexão sobre Índia e Brasil.

Em uma segunda-feira após a ressaca eleitoral para cidade de Campos, torna-se um desafio sair do mundo para focar uma pesquisa na qual precisamos ouvir até que nosso objeto apareça. Para mim nunca foi fácil. E depois da crise vivida no Rio de Janeiro, sangrando o funcionalismo público, tornou-se quase impossível este afastamento. É como tentar sair do mundo e ser tragado por uma manchete que compromete sua capacidade de concentração.

No fim das contas, eu pensava sobre sofrimento cotidiano, terceirização de serviços essenciais, falta de luz em São Paulo, água de má qualidade em Campos. E compra de votos. O desafio em descrever realidades que são culturais e políticas estava ali cristalizado. Senti tremenda repulsa ao pensar na condição de famílias infectadas pelo HIV dentro de uma rede de relações, estranhas contratações e trágicas consequências em uma área tão séria como a de transplantes no Brasil.

No fim das contas, imagino que nosso lugar como cientistas resida no desafio de viver “os fins de mundo” diários sem abrir mão das trincheiras que passam por um investimento na capacidade de aproximação e afastamento. Não desmoronar enquanto uma tarefa de resistência.  E sequer acredito que seja uma tarefa para a qual estamos plenamente preparados. Não se pode ver pessoas queimando na Palestina e seguir nas redes sociais. Organizar a resistência diante das diferentes formas de sofrimento me parece urgente. Esta tarefa ao contrário de sua aparência, não está apenas no terreno dos afetos. Percebo a exigência de compreender os fenômenos em suas conexões. O que evita respostas fáceis de motivação mas também evita que se caia na visão apocalíptica à qual a classe trabalhadora não pode se dobrar.

Eu espero ver o fim do governo de Cláudio Castro. E espero algo melhor para o Estado do Rio de Janeiro. Cada sofrimento deve ter seu dia de acabar.

Um comentário sobre “Das formas de atuar em contextos de sofrimento

  1. Cara Luciane.

    Está na moda este sentimento, chamado de “desalento”.

    Em outras épocas e geografias, tem outro nome, “banzo” (para os negros sequestrados e escravizados), “blasé”, ou a “deprê” do Belle Époque, ou o que foi descrito como completa desumanização por alguns psicanalistas e psicólogos, acerca dos judeus sobreviventes nos campos da morte.

    Não é preciso quebrar tanto a cabeça, é só ler O Velho.

    O pós-capitalismo, ou capitalismo rentista, como querem alguns, é a quintessência da desumanização programada, um estágio onde a captura de rendas e sua acumulação prescindem, cada vez mais, das relações institucionais e sociais da antiga ordem burguesa anterior.

    Sim, estamos deixando de ser humanos.

    A saída? A boa e velha luta anticapitalista de classes.

    O problema é que estamos atolados em uma diversidade de traquitanas tecno-ideológicas, lutas de gênero, étnicas, etc, que nos impedem de olhar tudo isso com pessimismo necessário, mas com clareza otimista.

    Curtir

Deixar mensagem para Douglas da Mata Cancelar resposta