A polícia federal acusa 37 pessoas de crimes, incluindo conspiração e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo

Jair Bolsonaro se dirige a apoiadores durante comício em São Paulo, Brasil, em 25 de fevereiro de 2024. Fotografia: André Penner/AP
Por Tom Phillips para o “The Guardian”
O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e alguns de seus aliados mais próximos estão entre dezenas de pessoas formalmente acusadas pela Polícia Federal de fazerem parte de uma conspiração criminosa criada para destruir o sistema democrático brasileiro por meio de um golpe de Estado de direita.
A polícia federal confirmou na quinta-feira que os investigadores concluíram sua longa investigação sobre o que chamaram de uma tentativa coordenada de “desmantelar violentamente o estado constitucional”.
Em um comunicado, a polícia disse que o relatório — que foi encaminhado à Suprema Corte — acusou formalmente um total de 37 pessoas de crimes, incluindo envolvimento em uma tentativa de golpe, formação de uma organização criminosa e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo.
Os acusados incluem Bolsonaro, um capitão do exército desonrado que se tornou político populista, que foi presidente de 2018 até o final de 2022, bem como alguns dos membros mais importantes de seu governo de extrema direita.
Entre eles estavam o ex-chefe de espionagem de Bolsonaro, o deputado de extrema direita Alexandre Ramagem; os ex-ministros da Defesa, general Walter Braga Netto e general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres; o ex-ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno; o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos; o presidente do partido político de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto; e Filipe Martins, um dos principais assessores de política externa de Bolsonaro.
Também foi citado o blogueiro de direita, neto do general João Baptista Figueiredo, um dos militares que governaram o Brasil durante a ditadura de 1964-85.
A lista contém um nome não brasileiro: o de Fernando Cerimedo, um guru argentino de marketing digital que foi responsável pelas comunicações do presidente da Argentina, Javier Milei , durante a campanha presidencial de 2023 no país. Cerimedo, que mora em Buenos Aires, é próximo de Bolsonaro e de seus filhos políticos.
A tão esperada conclusão do inquérito policial acontece poucos dias depois de policiais federais terem efetuado cinco prisões como parte de uma operação contra supostos integrantes de um complô para assassinar o sucessor de esquerda de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice-presidente de centro-direita, Geraldo Alckmin, além do desembargador Alexandre de Moraes.
Pouco antes de a polícia anunciar o fim do inquérito, Lula expressou gratidão pelo fracasso da tentativa de envenená-lo. “Estou vivo”, disse o esquerdista de 79 anos durante um discurso.
O Gen Mario Fernandes, uma das cinco pessoas presas pelo suposto plano de assassinato “Adaga Verde e Amarela”, também estava entre as 37 pessoas nomeadas pela polícia federal na quinta-feira – e, como os outros, foi formalmente acusado de fazer parte de uma tentativa criminosa de golpe. “Estamos em guerra”, Fernandes teria dito em uma mensagem descoberta por investigadores da polícia.
Bolsonaro negou anteriormente envolvimento em uma tentativa de anular o resultado da eleição de 2022, que ele perdeu para Lula. Falando a um jornalista do site de notícias brasileiro Metrópoles depois que ele foi nomeado no relatório policial, o ex-presidente disse que precisava ver o que estava na investigação. “Vou esperar o advogado”, acrescentou Bolsonaro.
Braga Netto, Heleno e outros nomes proeminentes na lista não fizeram comentários imediatos sobre as acusações no relatório da polícia federal, que o comunicado policial disse ser baseado em um grande acervo de evidências coletadas por meio de acordos de delação premiada, buscas e análise de registros financeiros, de internet e telefônicos. Mas políticos pró-Bolsonaro proeminentes criticaram o relatório, com Rogério Marinho, o líder da oposição no senado, atribuindo-o à “perseguição incessante” visando a direita do Brasil. “Quanto mais perseguem Bolsonaro, mais forte ele fica”, tuitou Sóstenes Cavalcante, um deputado bolsonarista do Rio.
A suposta tentativa de golpe pró-Bolsonaro teria ocorrido durante os turbulentos dias finais de seu governo de quatro anos, que chegou ao fim quando ele foi derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Na preparação para essa votação decisiva, um manifesto assinado por quase um milhão de cidadãos alertou que a democracia brasileira estava enfrentando um momento de “imenso perigo à normalidade democrática” em meio a suspeitas generalizadas de que havia planos em andamento para ajudar Bolsonaro a se agarrar ao poder, mesmo se ele perdesse.
Depois de perder sua tentativa de reeleição, Bolsonaro voou para o exílio temporário nos EUA enquanto milhares de apoiadores se reuniam em frente a bases militares no Brasil para exigir uma intervenção militar que nunca aconteceu.
A tentativa frustrada de anular a vitória de Lula culminou nos tumultos de 8 de janeiro de 2023 na capital, Brasília, quando bolsonaristas radicalizados invadiram o palácio presidencial, o congresso e o supremo tribunal.
Quase dois anos depois, Lula está no poder, mas a ameaça da extrema direita à sua administração continua. Na quarta-feira passada à noite, um membro do partido político de Bolsonaro foi morto após aparentemente se explodir com explosivos caseiros enquanto atacava a Suprema Corte.
Durante uma busca no trailer do homem, a polícia teria encontrado um boné estampado com o slogan do movimento de extrema direita de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”
Em uma declaração em vídeo, Paulo Pimenta, ministro das Comunicações de Lula, disse que o governo estava “completamente perplexo e indignado” com as revelações de que o ex-presidente e membros das Forças Armadas supostamente estavam conspirando para derrubar a democracia brasileira “com uma audácia quase inacreditável”.
“São crimes gravíssimos [e] acusações gravíssimas”, acrescentou Pimenta, que disse que o governo Lula agora esperaria o Ministério Público decidir qual dos 37 seria processado e levado a julgamento. Os condenados teriam que pagar pelos crimes que cometeram contra a democracia, contra a constituição e contra o povo brasileiro, disse Pimenta. “Bolsonaro na cadeia”, escreveu o ministro ao lado do vídeo, ecoando um chamado de muitos brasileiros progressistas.