Consequências inescapáveis da chegada do Deserto Verde em Campos dos Goytacazes

Em 2004 fui um dos autores de um capítulo no livro “Conflito social e meio ambiente no estado do Rio de Janeiro” cujo título era “Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro”. O capítulo era essencialmente uma análise das alianças inusitadas ocorridas naquele período para impedir a chegada dos grandes plantios de eucalipto no território campista, tendo unido representantes dos ceramistas, pesquisadores das universidades locais, ambientalistas e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  Na conclusão daquele capítulo, colocamos uma espécie de alerta no sentido de que aquele era um conflito inconcluso e que cedo ou tarde, o espectro do deserto verde iria novamente pairar sobre nossas cabeças.

Eis que agora pouco mais de duas décadas daquela tentativa frustrada de implantar a monocultura de árvores no território de Campos dos Goytacazes, estamos assistindo a uma nova tentativa, agora com o apoio explícito do prefeito Wladimir Garotinho e do seu secretário de Agricultura, Almy Junior.  As informações que me chegam de fontes que conhecem as transações que estão ocorrendo no mercado de terras (a maioria improdutivas) é que milhares de hectares já foram adquiridos por empresários capixabas, e que efetivamente a ideia é transformar o Norte Fluminense em um imenso deserto verde. Assim, ainda que os anúncios bilionários de investimentos sejam irreais, o espectro do deserto verde está realmente mais próximo do que esteve no início do século 21.

Agora, o que não está se mostrando ( e eu irei fazê-lo com a lupa científica nos próximos anos) é que essa tentativa não for tiro com pólvora molhada, o que está se preparando trará amplas consequências sobre o meio ambiente, a saúde humana e até a capacidade de circulação em um BR-101 já sobrecarregada com a falta de duplicação no trecho entre Campos dos Goytacazes (RJ) e Anchieta (ES).

A primeira coisa é que grandes plantios de eucalipto não geram empregos, mas acabam destruindo mais do que criam.  Assim, em uma região que já possui déficit de empregos, a chegada da monocultura de árvores gerará mais desemprego e mais êxodo rural, o que contribuirá para a ampliação das favelas. 

Em segundo lugar, plantios de eucalipto demandam um grande uso de agrotóxicos, principalmente no combate às formigas que encontram nas mudas um amplo pasto. Com isso, viveremos a ampliação do uso de substâncias químicas altamente tóxicas, o que deverá causar mais adoecimento nos trabalhadores e espalhar a contaminação via os corpos hídricos. Como vivemos em um município que já possui um sistema de saúde sobrecarregado por doenças oriundas da monocultura de cana, a perspectiva é que nos próximos anos e décadas assistamos a uma piora do quadro de saúde, sem que haja a devida cobertura  de serviços de saúde.

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Em terceiro lugar,  monoculturas de árvore em escala industrial, principalmente em ciclos de plantio/colheita altamente velozes, há um aumento na demanda hídrica.  Em especial, o eucalipto demanda muita água para cumprir um processo de crescimento rápido que possa gerar a matéria prima para a produção de celulose que certamente é o alvo da expansão do deserto verde em terras campistas.  Com isso, como já vivemos em uma região em que o fornecimento de água é altamente pressionado, o futuro se desenha como bastante desafiador.

Em quarto lugar, há que se mencionar que certamente o principal comprador das árvores plantadas em Campos dos Goytacazes e municípios vizinhos será a Suzano Papel cuja planta estabelecida em Aracruz (ES) precisa de mais de matéria prima para operar nos níveis de competição que seus acionistas demandam. Com isso, a via de transporte preferencial terá de ser a BR-101, visto que inexiste outra forma de acesso viável, tanto para Aracruz como para as unidades portuárias existentes ou em construção na região.  Com isso, imaginemos o que vai acontecer quando a produção dos eucaliptais começar a ser transportada pela via realmente existente, a BR-101.

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Um quinto e importante aspecto se refere às pressões sociais em prol da reforma agrária.  A transformação de Campos dos Goytacazes em um deserto verde é também uma forma de impedir que a reforma agrária prospere.  Os últimos anos têm mostrado que uma retomada das ações do MST e de outros movimentos sociais em prol da utilização do grande estoque de terras improdutivas em assentamentos de reforma agrária.  Ao transformar terras improdutivas em mais um deserto verde, as oligarquias agrárias que ainda dominam a política municipal e regional procuram se prevenir contra o “mau exemplo” da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis.  Por mais contraditório que possa ser, vender as terras por preços aquém do que se poderia obter do governo federal via desapropriações faz sentido, pois a ordem social existente se baseia justamente na desigualdade de acesso à terra, nos campos e nas cidades.

Por isso tudo é que não se pode ignorar os esforços de implantação do deserto verde em Campos dos Goytacazes. É que aqui está se dando mais um capítulo que coloca de frente um para o outro, modelos de sociedade e de desenvolvimento econômico e social.   E uma última nota: como não comemos celulose nem casca de eucalipto,  não deve ser difícil de se estender a urgência da tomada de posição por parte daqueles que não querem ver o deserto verde instalado em Campos dos Goytacazes.

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