Por Redação de AND
A vazão de água dos rios do Cerrado brasileiro caiu em 27% desde a década de 1970, segundo o relatório Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil, publicado pela Ambiental Media no dia 23 de junho. Sendo este um bioma com forte atuação do latifúndio com uma fronteira agrícola em atividade, os dados são reveladores quanto à atuação lesiva do “agronegócio” sob o meio natural.
O relatório levanta dados a partir de 51 anos de informações coletadas em relatórios da Agência Nacional da Água (ANA). Entre outros dados alarmantes, destaca-se o que se refere ao desmatamento: entre 1985 e 2022, o desmatamento no Cerrado para o cultivo da soja passou de 65,3 mil hectares para 211,5 mil hectares, um aumento de 300% da área desmatada. Este cenário impacta o regime de chuvas, dado que as florestas desempenham papel chave na ciclagem da água através da evapotranspiração: nos anos de 1970, a evapotranspiração era de 117,87 mm, entre 2012 e 2021, o número saltou para 131,63 mm, números que dizem respeito à perda de água para a atmosfera.
O resultado desses números aponta uma redução drástica no regime de chuvas: na divisa entre o Maranhão e o Piauí, houve uma redução de 38% da pluviosidade. Na bacia do Rio São Francisco, houve uma diminuição de 20% da pluviosidade, sendo um dos fatores que ocasionaram a queda de 50% da vazão do rio. O Rio São Francisco, particularmente, abastece um total de 507 municípios entre o Nordeste e o Centro-Oeste brasileiro, e a diminuição da sua vazão representa uma ameaça para milhões de camponeses que habitam o semiárido
Matopiba: O latifúndio contra o meio natural
Não é à toa que os dados mostram o aprofundamento de uma crise hídrica no Cerrado a partir dos anos de 1970: foi neste período de tempo que se consolidou neste bioma a mais recente fronteira agrícola do Brasil, o chamado Matopiba – região de divisa entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que concentrou um crescimento de 7,023% da área destinada ao plantio de commodities, principalmente soja.
O latifúndio que atua no Matopiba dispõe de uma grande quantidade de incentivos estatais e tecnologias. O Cerrado concentra 80% de todos os pivôs centrais de irrigação de toda a América Latina (sistemas de irrigação utilizados para o cultivo da soja). Enquanto o latifúndio dispõe de licenças para o uso da água, concedidas pelo Estado, os camponeses da região são acometidos pela crise hídrica.
Em 2017, camponeses da cidade de Correntina, no Oeste baiano, região integrante do Matopiba, protestaram contra o latifúndio Igarashi, que monopolizava as outorgas de uso da água e era responsável pela redução do nível das águas do Rio Arrojado, que abastece as terras dos camponeses pobres da região. As instalações de irrigação do latifúndio foram destruídas pela fúria das massas. A crise hídrica se mostra, portanto, um ponto sensível da luta pela terra, e seu aprofundamento é de total responsabilidade do latifúndio.
Fonte: A Nova Democracia
