Oceanos mais quentes: o sinal de alerta que vem do mar

A reportagem “Com El Niño, dia mais quente em oceanos é registrado pelo Copernicus”, assinada pelo jornalista José Henrique Mariante, chama a atenção para uma dimensão da crise climática que muitas vezes recebe menos destaque do que o aumento da temperatura do ar: o aquecimento persistente dos oceanos. O texto, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, informa que os oceanos atingiram uma temperatura média global recorde de 20,96°C, segundo dados do serviço europeu Copernicus, superando o recorde anterior registrado em 2016.

O El Niño ajuda a explicar a intensidade do fenômeno, mas seria um erro atribuir o recorde exclusivamente a ele. Como a própria reportagem destaca, os oceanos acumulam grande parte do excesso de calor produzido pelo desequilíbrio energético provocado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa. O El Niño atua, portanto, sobre um sistema oceânico que já se encontra progressivamente mais quente em consequência do aquecimento global. Essa combinação ajuda a explicar por que novos recordes vêm sendo alcançados.

A questão merece extrema preocupação porque os oceanos não funcionam apenas como grandes reservatórios de água. Eles constituem um dos principais componentes do sistema climático terrestre, absorvem enorme quantidade de calor e participam ativamente da redistribuição de energia entre as regiões tropicais e as altas latitudes. Quando a temperatura oceânica aumenta de maneira persistente, modifica-se também a interação entre oceano e atmosfera, com consequências sobre evaporação, circulação atmosférica, precipitação e ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

Além disso, existe ainda um problema ecológico de enormes proporções. O aumento da temperatura da água submete ecossistemas marinhos a condições que muitas espécies não conseguem tolerar. Ondas de calor marinhas podem provocar branqueamento e mortalidade de corais, deslocamento geográfico de populações de peixes, alterações nas cadeias alimentares e mudanças na produtividade dos ecossistemas. A redução da mistura vertical da coluna d’água também pode dificultar o transporte de nutrientes das águas profundas para as camadas superficiais, justamente onde ocorre grande parte da produção primária dos oceanos.

A verdade é que essa transformação ultrapassa em muito uma discussão sobre conservação da biodiversidade. Bilhões de pessoas dependem direta ou indiretamente de pescados e outros organismos aquáticos como fonte de proteína, micronutrientes, renda e segurança alimentar. O deslocamento ou a redução dos estoques pesqueiros pode atingir de maneira particularmente severa populações costeiras e países nos quais a pesca artesanal desempenha papel fundamental na alimentação. Nesse sentido, o aquecimento oceânico transforma uma questão climática e ecológica também em um problema social e alimentar.

Por outro lado, também há uma retroalimentação preocupante. Durante décadas, os oceanos amorteceram parte importante do aquecimento provocado pelas atividades humanas ao absorverem grande quantidade do excesso de calor do sistema climático e uma parcela significativa do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Esse serviço planetário, entretanto, não possui capacidade ilimitada. Oceanos progressivamente mais quentes podem absorver calor adicional com maior dificuldade em determinadas regiões e circunstâncias, enquanto águas mais quentes também tendem a reter menos gases dissolvidos. Ao mesmo tempo, alterações na circulação, na estratificação e nos ecossistemas marinhos podem modificar a eficiência da chamada bomba biológica de carbono.

Por isso, talvez o aspecto mais inquietante do recorde apresentado por José Henrique Mariante seja justamente aquilo que um único número não consegue mostrar. 20,96°C parece uma diferença pequena quando observada em um termômetro doméstico, mas representa uma quantidade extraordinária de energia adicional quando aplicada à enorme massa de água dos oceanos do planeta. A elevada capacidade térmica da água significa que mudanças aparentemente pequenas na temperatura média oceânica correspondem a gigantescas acumulações de calor.

O recorde registrado pelo Copernicus deve ser entendido, portanto, como muito mais do que uma curiosidade estatística associada ao El Niño. Ele mostra que uma das principais estruturas reguladoras do clima terrestre está acumulando energia em níveis excepcionais. Os efeitos podem aparecer nos recifes de coral, nos estoques pesqueiros, na distribuição das chuvas, na intensidade das ondas de calor marinhas e atmosféricas e, finalmente, na mesa de populações que dependem do mar para obter alimento.

Finalmente, precisamos lembrar que o oceano durante muito tempo funcionou como um enorme amortecedor da crise climática. O problema é que o funcionamento da engrenagem capitalista ancorada no consumo de combustíveis fósseis está aquecendo justamente o amortecedor. E, quanto mais reduzirmos a capacidade oceânica de regular o sistema climático, maior será a quantidade de calor com a qual a atmosfera, os continentes, os ecossistemas e as sociedades humanas terão de conviver.

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