Por Luciane Soares da Silva*
Em 2026 a maior parte da população reside em cidades. A urbanização torna-se um desafio cotidiano. Não apenas a criminalidade urbana mas problemas de trânsito, coleta de lixo, mobilidade, poluição, acesso aos espaços comuns de parques e praças. Como coordenar a vida compartilhando a cidade com milhares de pessoas? Nossas utopias de um futuro mais rápido foram soterradas por problemas não resolvidos durante o século XX. A desigualdade, a segregação, o racismo ambiental, a contaminação de rios e afluentes são alguns dos problemas. E qual a agência da população diante destes desafios?
Saio de casa as 8:00 horas de uma manhã chuvosa de agosto. Uma caminhada curta até a avenida Gilberto Cardoso e a paisagem apresenta lixo. Na rua, embalagens de quentinhas que não foram recolhidas na noite passada. Na esquina, restos de plástico, comida, fraldas e outros objetos depositados em lugar inadequado. Próximo ao valão, um lixão a céu aberto sempre frequentado por urubus que usam os postes para tomar sol ao longo da avenida Alberto Lamego. Após o valão, garrafas de cerveja, sacos plásticos e aviso de proibição em relação ao lixo e carros na calçada. Pensando a produção de um dossiê sobre espaço, questão urbana e periferia, questiono o que faz a cidade de Campos tão diferente de periferias globais, no Rio de Janeiro ou na Índia? Sim, a comparação é necessária para avaliarmos as cidades no século XXI e suas periferias.
Após 20 anos pesquisando as favelas do Rio de Janeiro posso afirmar que caçambas de lixo são retiradas diariamente da Rocinha, da Maré, do Alemão. E ainda assim, sempre há uma luta inglória contra a capacidade de produção de lixo. A quantidade de latas, garrafas e materiais que permanecerão anos na natureza, iguala sociedades que ainda não resolveram esta questão central para qualidade de vida de seus habitantes. E aqui reside uma compreensão que pode ser estendida para questões como combate ao mosquito da dengue, o uso de máscaras e outras medidas que só funcionam coletivamente: como lidar com a atual situação ultra privatizada do espaço público? Condomínios de luxo não realizam um trabalho de manutenção das calçadas (porque esta é a sociedade do carro), não cortam a grama (o que impacta o controle de mosquitos se considerarmos pequenas formações de poças) e vivem em áreas de limpeza privada ignorando a restante da cidade. O mesmo ocorre em áreas nobres: a coleta nunca atinge o nível ótimo, o que em minha avaliação, revela que estamos produzindo mais lixo e descartando de forma absolutamente caótica. Como pensar o direito à cidade, a partir de Henri Lefebvre sem pensar o comum?
O parque abandonado na Artur Bernardes, apenas com um pórtico. A cidade não utiliza o espaço que literalmente torna-se um elefante na paisagem. A praça São Salvador, revitalizada a contragosto da população, já foi lugar prazeroso para sentar embaixo de árvores. Que modernidade é esta, na qual árvores têm de ceder espaço para carros, estacionamentos, igrejas e mármore? Que modernidade é esta, na qual a verticalização de prédios ao longo da avenida Pelinca, transforma dez minutos de chuva em horas de alagamento?
As relações na cidade se expressam no trânsito e neste caso, subimos pela Saldanha Marinho, descemos pela Formosa. Anda-se pela Beira Valão como em São Paulo. Mas a cidade, em sua zona central de circulação não deveria viver sob um caos completo, de costas para o Rio Paraíba.
Caos que se repete no rodoviária Roberto Silveira. Ali não apenas caos, mas sujeira, espera, perigo e desânimo. Descaso com os mais pobres que precisam chegar aos distritos da cidade. Na outra ponta, o Shopping Estrada apresenta uma infestação de pombos e andorinhas. O asco do cidadão comum só não é maior que a espera por transformações jamais vistas. Bancos não podem ser usados, e um teto metálico de 30 anos, mostra sinais do tempo, tomado por ferrugem. E esta é a rodoviária que liga a cidade a região nordeste, São Paulo, Vitória, Rio, Belo Horizonte. Difícil lembrar de algo parecido em outras cidades.
A cidade pós pandemia segue sua rotina sem coleta seletiva de lixo em todos os bairros, sem melhoria de transporte, sem acesso aos parques. O equipamento do CEPOP passa o ano fechado, usado raras vezes para alguma feira de carros, as bienais e o feriados oficais. É a expressão máxima da ausência de vida pulsante e eventos abertos.
A cidade cresce mas os hospitais não dão conta da complexidade representada pelo envelhecimento da população. Além disto, não há acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção que precisem atravessar uma das pontes em Campos. Pontes que separam dois mundos. O preconceito do campista em relação a Guarus é uma das formas de racismo ambiental mais explícito que já presenciei. Lá estão a cidade de Palha, Santa Rosa, Novo Horizonte, Santa Helena. Mas hoje, Guarus apresenta aquecimento do setor imobiliário. Ainda assim, ao pesquisar imagens, encontramos carros da PM, corpos furados à bala e quando discutimos de Guarus é um gueto, não há como esquecer a recusa de carros de aplicativo em levar passageiros aos bairros após as oito da noite (problema igual vive a Penha).
É curioso perceber como a região que abriga o Porto do Açu, a Bacia de Campos, grandes Universidades, uma rede extensão de escolas e terras para plantio, ocupe posições tão lamentáveis em indicadores de educação como o IDEB. Tecnologia de ponta e escassez de associação. A recepção dos royalties não altera a vida das famílias na Portelinha e na Tira Gosto. Acreditar que a pobreza é resultado de escolhas individuais colabora para que nada mude, é adesão à ideologia escravocrata da cana e obviamente, a neo escravização pelo petróleo. Mentalidade extrativista decadente. Nem para espoliação de trabalho servem aqueles que nunca tiveram carteira assinada. A renda que não circula, não produz melhores condições.
A cidade é vivida como estranhamento, negação e vergonha. Nos escandalizamos com a compra de votos como motor de uma política do “meu pirão primeiro”. Mas mesmo diante de denúncias, nenhuma fiscalização surte efeito. São em pequenas mesas que o poder legislativo encontra o judiciário e os empresários e coronéis. Talvez alguns pastores atualmente.
Como mover a vida, o urbano, a cidade, na direção do futuro? Como resistir a degradação social, fruto de segregação?
Que utopia ainda ocupa nossa imaginação nas cidades do século XXI?
É preciso pensar este com urgência sobre o lixo, a violência, a ausência de praças e escolas no campo, o uso de terra, o lugar do Rio Paraíba.
É preciso pensar a cidade.
*Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.
