Do liberalismo ao neoliberalismo: a economia política das catástrofes climáticas

Mike Davis mostrou como El Niños, desigualdade e políticas liberais ajudaram a transformar secas em mortandade no século XIX. Em 2026, sua análise lança um alerta inquietante para o Brasil e outros países profundamente desiguais

A leitura de Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, oferece uma chave particularmente inquietante para observar o El Niño que se desenvolve em 2026. Ao analisar as grandes fomes que atingiram Índia, China e outras regiões do mundo no final do século XIX, Davis contesta a explicação confortável segundo a qual milhões de pessoas teriam morrido simplesmente porque grandes secas acompanharam sucessivos episódios de El Niño. As secas existiram e foram severas, mas a transformação do fenômeno climático em mortandade de massa dependeu fundamentalmente das relações sociais e das decisões políticas existentes nos territórios atingidos.

O caso da Índia sob domínio britânico é especialmente revelador. Davis mostra como as autoridades coloniais combinaram princípios do liberalismo econômico, uma leitura malthusiana da pobreza e a crença na capacidade reguladora dos mercados para justificar uma intervenção limitada diante da fome. A assistência aos pobres poderia supostamente estimular dependência, a intervenção sobre os preços distorceria o funcionamento dos mercados e gastos excessivos comprometeriam as finanças públicas. Enquanto isso, populações já empobrecidas enfrentavam secas, perda das colheitas, elevação dos preços dos alimentos e destruição de seus meios de sobrevivência.

Eu reconheço que seria historicamente incorreto transportar mecanicamente aquela realidade para 2026. O colonialismo britânico do século XIX e os Estados contemporâneos são formações políticas profundamente diferentes. Mas a pergunta fundamental formulada por Davis permanece extraordinariamente atual: por que um mesmo fenômeno climático produz consequências relativamente administráveis para determinados grupos sociais e verdadeiras catástrofes para outros? Essa pergunta ganha importância diante de um El Niño que poderá alcançar grande intensidade justamente quando o planeta já se encontra muito mais quente devido à mudança climática antropogênica. O que teremos diante de nós, portanto, não será simplesmente mais um episódio da oscilação natural do Pacífico. Seus efeitos ocorrerão sobre temperaturas médias mais elevadas, cidades gigantescas, sistemas alimentares altamente concentrados, forte dependência de cadeias globais de abastecimento e sociedades marcadas por enormes desigualdades.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre neoliberalismo e austeridade retorna ao centro do problema. A linguagem mudou desde o século XIX. Poucos governos defenderiam hoje explicitamente que a fome constitui um mecanismo natural de regulação populacional. Em seu lugar aparecem conceitos aparentemente neutros como disciplina fiscal, equilíbrio das contas públicas, redução dos subsídios, focalização dos programas sociais, diminuição do tamanho do Estado e confiança dos mercados. O problema surge quando esses princípios passam a limitar a capacidade pública de responder a uma emergência climática. A questão fundamental será observar o que governos fortemente comprometidos com programas neoliberais farão quando forem obrigados a escolher entre preservar metas fiscais e ampliar rapidamente gastos com saúde, abastecimento de água, energia, defesa civil, segurança alimentar, agricultura familiar e proteção social. Uma grande crise climática exige justamente aquilo que décadas de austeridade procuram restringir: capacidade estatal, infraestrutura pública, planejamento, estoques estratégicos e possibilidade de mobilizar recursos rapidamente.

Essa contradição se torna ainda mais perigosa nos países marcados por desigualdades sociais profundas. Uma onda de calor de 45°C não significa a mesma coisa para quem dispõe de uma residência climatizada e para quem vive numa casa precária, trabalha oito horas sob o sol e depende de transporte coletivo superlotado. Uma seca prolongada não produz as mesmas consequências para uma grande empresa agrícola irrigada, capitalizada e segurada e para uma família de agricultores que depende diretamente das chuvas. Da mesma forma, uma crise no abastecimento de água é radicalmente diferente para quem pode comprar água mineral, instalar reservatórios e perfurar poços e para quem depende exclusivamente de uma rede pública já precária.

É por isso que o Brasil deveria prestar atenção especial ao argumento de Mike Davis. Somos uma das maiores economias do mundo, mas continuamos convivendo com enormes desigualdades de renda, habitação, saneamento, infraestrutura urbana e acesso aos serviços públicos. Em nossas cidades, essas desigualdades possuem inclusive uma geografia bastante clara. Os bairros mais arborizados e melhor equipados convivem com periferias densamente ocupadas, impermeabilizadas e praticamente desprovidas de cobertura vegetal. Quando chegam as ondas de calor, são justamente essas populações que recebem a maior carga térmica e possuem menos recursos para se proteger.  O mesmo raciocínio vale para secas, enchentes e crises alimentares. O Brasil possui capacidade científica, instituições públicas, sistemas de monitoramento meteorológico, um sistema público de saúde de dimensão continental e instrumentos de proteção social capazes de reduzir enormemente a mortalidade associada a eventos climáticos extremos. Portanto, se uma eventual sequência de ondas de calor, secas, enchentes ou crises de abastecimento produzir grande número de mortes evitáveis, dificilmente poderemos atribuí-las simplesmente ao El Niño.

É aqui que Late Victorian Holocausts deixa de ser apenas um extraordinário livro sobre o século XIX e se transforma em advertência para o século XXI. Davis nos ensina que devemos desconfiar da expressão “desastre natural”. A natureza produz secas, chuvas extremas e oscilações climáticas; sociedades produzem vulnerabilidades. E governos decidem, por ação ou omissão, quanto dessas vulnerabilidades será transformado em sofrimento e morte.

No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão adicional porque teremos de enfrentar a intensificação dos extremos climáticos sob limites fiscais que restringem a capacidade de expansão dos gastos públicos. Isso significa que, diante de uma emergência de grandes proporções, poderá surgir uma disputa bastante concreta sobre prioridades: flexibilizar regras fiscais para proteger vidas ou preservar metas econômicas enquanto municípios, estados, SUS, Defesa Civil e programas de assistência social enfrentam uma demanda extraordinária por recursos.

Se o El Niño de 2026–2027 realmente atingir a intensidade que os modelos atualmente sugerem, ele não será apenas um gigantesco experimento climático. Será também um experimento político. Mostrará quais sociedades construíram capacidade para proteger seus cidadãos e quais aceitaram que renda, classe social, território e capacidade individual de consumo determinem quem poderá se proteger.  Mais de um século depois das grandes fomes analisadas por Mike Davis, talvez a questão fundamental continue assustadoramente semelhante. O clima poderá produzir o choque inicial, mas quem sofrerá suas consequências mais severas — e quem morrerá — continuará sendo, em grande medida, uma decisão política.

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