Campos dos Goytacazes: a riqueza do petróleo, a pobreza persistente e as contradições reveladas pelas urnas

Com mais de 200 mil moradores inscritos no Cadastro Único, Campos deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial. A aproximação da família Garotinho com o bolsonarismo ajuda a compreender esse resultado, mas também levanta uma pergunta incômoda: quem assumiria a responsabilidade por eventuais cortes nas políticas sociais?

A riqueza petrolífera e a persistência da pobreza

Os números do Cadastro Único (CadÚnico) revelam uma das contradições mais marcantes de Campos dos Goytacazes. Em um município historicamente beneficiado pelas receitas da exploração petrolífera, aproximadamente 212 mil moradores estão inscritos no cadastro federal, representando mais de 40% da população. Embora a inscrição no CadÚnico não signifique necessariamente o recebimento do Bolsa Família, esses números evidenciam a dimensão da vulnerabilidade socioeconômica em uma cidade onde a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais continua apresentando uma distribuição profundamente desigual.

A questão central não é a existência de políticas de transferência de renda, que representam instrumentos indispensáveis de proteção social, mas a dificuldade histórica de transformar a riqueza petrolífera em condições dignas de vida para a maioria da população. Enquanto os sinais da concentração de riqueza se multiplicam na paisagem urbana campista, milhares de famílias continuam dependendo de políticas públicas para assegurar suas necessidades básicas. Afinal, de que adianta uma cidade ostentar riqueza se uma parcela tão expressiva de seus habitantes permanece economicamente vulnerável?

O que revelam os resultados eleitorais?

Essa realidade ganha contornos particularmente interessantes quando confrontada com os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Campos, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 160.859 votos (59,10% dos válidos), enquanto Lula (PT) obteve 91.105 votos (33,47%). Dos 370.466 eleitores aptos, 80.008 não compareceram às urnas, enquanto 7.954 votaram em branco e 10.340 anularam seus votos. Somadas, as abstenções e os votos brancos e nulos alcançaram 98.302 eleitores, aproximadamente 26,5% do eleitorado municipal.

Esses números revelam uma combinação que merece investigação: uma cidade com elevada vulnerabilidade social, uma vitória expressiva de um candidato identificado com propostas econômicas liberais e um contingente considerável de eleitores que não registraram votos válidos. Evidentemente, não se pode concluir que os beneficiários de programas sociais tenham votado majoritariamente em qualquer candidato. Entretanto, cabe perguntar quais fatores políticos, culturais e econômicos ajudam a explicar essa configuração eleitoral.

A família Garotinho como correia auxiliar do bolsonarismo

Uma parte da resposta pode estar na atuação da família Garotinho, cuja influência política em Campos atravessa décadas. A aproximação de Wladimir Garotinho com Flávio Bolsonaro não foi apenas circunstancial: o ex-prefeito filiou-se ao PL e assumiu papel na coordenação regional da campanha presidencial, colocando sua experiência política e sua inserção territorial a serviço do projeto eleitoral bolsonarista. Anthony Garotinho, apesar de suas divergências com integrantes do PL fluminense, também declarou que votaria em Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula.

Nesse sentido, é possível interpretar a atuação de integrantes da família Garotinho como uma espécie de correia auxiliar eleitoral do bolsonarismo em Campos dos Goytacazes. Essa aproximação é especialmente relevante porque a família construiu grande parte de sua trajetória política associando sua imagem ao atendimento das necessidades das camadas populares e à implementação de políticas sociais. A hipótese é que essa transferência de capital político tenha ajudado a aproximar o bolsonarismo de segmentos populares historicamente vinculados aos Garotinho, embora não existam dados suficientes para quantificar esse efeito.

Assim, a aparente contradição entre vulnerabilidade social e preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro torna-se menos surpreendente. Afinal, as escolhas eleitorais não decorrem exclusivamente da condição econômica, sendo também mediadas por lideranças locais, relações de confiança e identificações políticas construídas ao longo de muitos anos. A aliança de ocasião entre setores do garotismo e o bolsonarismo oferece, portanto, uma hipótese explicativa relevante para o resultado eleitoral campista.

O Bolsa Família e os riscos para a proteção social

Há, entretanto, uma questão que não deveria ficar ausente desse debate. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto como programa específico e substituído pelo Auxílio Brasil, mantendo-se as transferências federais de renda sob outras regras. Em 2023, o governo Lula restabeleceu o Bolsa Família. Essa trajetória demonstra que mudanças de governo podem alterar substancialmente o desenho, os critérios e o financiamento das políticas de proteção social.

Embora Flávio Bolsonaro tenha declarado que pretende manter o Bolsa Família, permanecem questões sobre a compatibilidade entre a preservação dos benefícios e propostas de contenção de despesas públicas. Não seria correto afirmar que sua eleição significaria necessariamente o fim do programa, mas é legítimo exigir esclarecimentos sobre as garantias orçamentárias e institucionais de sua continuidade. Afinal, preservar o nome de uma política pública não significa necessariamente preservar seus valores, sua cobertura e suas condições de acesso.

Nesse contexto, cabe formular uma hipótese: como se comportaria o eleitorado campista se houvesse maior conhecimento sobre os possíveis efeitos das diferentes propostas econômicas para o financiamento das políticas sociais? A resposta não pode ser presumida, mas a pergunta ganha importância diante da quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente dessas políticas.

Quem vai levantar a lebre sobre o futuro do Bolsa Família?

A pergunta ganha especial importância em Campos, onde a vulnerabilidade social convive com uma estrutura política marcada pela influência de lideranças tradicionais. A aproximação de integrantes da família Garotinho com o bolsonarismo acrescenta uma dimensão ao problema: como essas lideranças conciliam sua trajetória de identificação com políticas sociais com o apoio a um candidato cujas propostas de ajuste das despesas públicas precisam ser examinadas quanto aos seus possíveis efeitos sobre a proteção social?

Quem pode levantar essa discussão? A imprensa local, os pesquisadores das universidades públicas, as organizações comunitárias, os movimentos sociais e as próprias famílias beneficiárias têm condições de cobrar respostas verificáveis. A responsabilidade também recai sobre os candidatos e suas lideranças locais, que devem explicar como pretendem conciliar seus compromissos sociais com suas propostas fiscais.

A questão já entrou na disputa nacional. Flávio Bolsonaro reafirmou que pretende manter o Bolsa Família e o Farmácia Popular. Ao mesmo tempo, notícias sobre possíveis mudanças nas despesas obrigatórias suscitaram questionamentos sobre o alcance do ajuste fiscal defendido por sua candidatura. A campanha nega que algumas dessas medidas estejam em seu programa. Por isso, o debate precisa ultrapassar tanto as promessas genéricas quanto as acusações sem comprovação.

E se a conta chegar? Quem vai embalar Mateus?

O caso de Campos dos Goytacazes expõe três questões interligadas: por que décadas de exploração petrolífera não foram suficientes para reduzir de maneira mais expressiva a vulnerabilidade social; como essa realidade se relaciona com as escolhas políticas dos habitantes; e em que medida a influência de lideranças tradicionais, como os Garotinho, contribui para organizar e transferir apoios eleitorais.

Mas há uma última questão, que merece uma pitada de ironia. Imaginemos, por hipótese, que Flávio Bolsonaro seja eleito e, contrariando suas declarações atuais, resolva restringir significativamente ou mesmo extinguir o Bolsa Família. Como se comportariam seus aliados nos governos estadual e municipal? Defenderiam a preservação dos benefícios, buscariam recursos próprios para compensar as perdas ou procurariam justificar as decisões tomadas em Brasília?

A questão não seria apenas política. Uma redução expressiva das transferências federais atingiria diretamente a renda das famílias mais pobres e poderia diminuir a circulação de dinheiro nos bairros populares, afetando pequenos mercados, farmácias, padarias e outros estabelecimentos comerciais. Em uma cidade onde a vulnerabilidade social alcança uma parcela tão significativa da população, os efeitos econômicos e sociais poderiam ultrapassar amplamente o universo dos beneficiários diretos.

E quem assumiria a responsabilidade por essas consequências? É nesse ponto que a sabedoria popular oferece duas expressões particularmente apropriadas: “filho feio não tem pai” e “quem pariu Mateus que o embale”. Em um cenário de redução dos benefícios, seria interessante observar se os três níveis de governo assumiriam suas respectivas responsabilidades ou se começaria uma interminável disputa para descobrir quem deveria embalar Mateus.

Afinal, não seria surpreendente que, diante de uma eventual deterioração das condições sociais, cada esfera de governo apontasse para outra, enquanto as famílias afetadas continuariam esperando por soluções. O governo federal poderia invocar a necessidade de ajuste fiscal; o estadual, suas limitações orçamentárias; e o municipal, a falta de recursos para compensar as perdas. Tudo isso, evidentemente, em nome da responsabilidade administrativa.

No fim das contas, a ironia seria esta: na hora de celebrar a vitória eleitoral, Mateus teria muitos pais; na hora de enfrentar as consequências sociais de eventuais cortes, talvez ninguém quisesse assumir a tarefa de embalá-lo. E há um detalhe particularmente saboroso nessa história: Anthony Garotinho também é Mateus, ao menos no nome. Resta saber se, diante de uma eventual redução do Bolsa Família, o experiente político campista estaria disposto a embalar o Mateus que ajudou a colocar no colo dos eleitores ou se preferiria recorrer à velha máxima de que filho feio não tem pai. Afinal, quando se trata de repartir os dividendos eleitorais, sempre aparecem muitos parentes; quando chega a conta da pobreza, corre-se o risco de descobrir que Mateus ficou órfão nos três níveis de governo.

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