Presidiário ou presidente? Essas são as duas opções que Flávio Bolsonaro tem diante de si

O senador Flávio Bolsonaro vive uma daquelas situações muito bem definidas pela expressão inglesa “Catch-22”, que descreve uma situação ilógica, paradoxal ou sem saída, da qual não se pode escapar porque a solução depende de condições mutuamente contraditórias. O fato é que o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro saiu do primeiro turno das eleições presidenciais como franco favorito para ser o próximo presidente brasileiro.

O problema é que, nas últimas três semanas, emergiram tantos casos nebulosos que agora colocam Flávio Bolsonaro em uma situação que considero inédita na turbulenta história da República brasileira. Atualmente, seu nome aparece associado a suspeitas de irregularidades financeiras, tráfico de influência, relações políticas controversas e episódios que levantam sérios questionamentos sobre sua conduta pública e suas relações privadas.

Um dos episódios mais constrangedores foi revelado pela revista piauí, que apurou a participação de Flávio Bolsonaro em uma festa realizada em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, durante a pandemia de COVID-19. Segundo a reportagem, o encontro reuniu lobistas, empresários interessados em negociar vacinas com o governo de Jair Bolsonaro e prostitutas levadas de São Paulo. A revelação ganha contornos ainda mais graves quando se considera que, naquele momento, milhares de brasileiros morriam em decorrência da pandemia, enquanto empresários buscavam aproximação com integrantes da família presidencial para realizar negócios com o governo federal.

Outro episódio foi detalhado pelo UOL e envolve a disputa por uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. O jogador Richarlison acusa Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz de participação em uma manobra que teria resultado na perda de um imóvel no qual afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões. Flávio nega envolvimento na disputa, da qual não foi parte processual, enquanto a empresa de Willer Tomaz detém atualmente a posse do imóvel. Ainda assim, o episódio acrescenta mais uma controvérsia à trajetória do candidato presidencial.

Como se isso não bastasse, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que a Polícia Federal encontrou um compartimento oculto em um hangar utilizado por empresas de aviação de Willer Tomaz, advogado e amigo próximo de Flávio Bolsonaro. No local, os investigadores localizaram uma máquina de contar dinheiro e estruturas destinadas à guarda de valores. Outra máquina já havia sido apreendida no escritório do advogado. Embora não tenha sido encontrado dinheiro no compartimento e Tomaz sustente que a estrutura atendia a atividades legais de transporte de valores, a descoberta ganha relevância diante das investigações sobre movimentações financeiras envolvendo o advogado e suas conexões com Flávio Bolsonaro.

A situação se torna ainda mais delicada porque a própria revista piauí revelou indícios de vínculos financeiros entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, inclusive em operações relacionadas à empresa de apostas Best Bet. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e a possível existência de uma sociedade oculta, hipóteses que ainda precisam ser esclarecidas. O que parece cada vez mais difícil é sustentar que a relação entre os dois seja politicamente irrelevante.

Com isso, Flávio Bolsonaro vai chegar ao segundo turno não apenas com uma margem mínima de vantagem nas pesquisas eleitorais, mas também espremido pela possibilidade de que, caso não seja vencedor, tenha de enfrentar as consequências jurídicas das investigações que cercam seu nome. Evidentemente, uma eventual prisão dependeria de provas, fundamentos legais e decisões judiciais, mas o acúmulo de suspeitas já representa um problema político de grandes proporções.

Tivesse a mídia corporativa brasileira atuado com um mínimo de imparcialidade, é muito provável que Flávio Bolsonaro nem tivesse chegado ao segundo turno nas condições em que chegou. Mas o que se viu foi que o primogênito de Jair Bolsonaro parece ter sido coberto por uma espessa camada de teflon pelos barões da mídia brasileira. O problema é que a quantidade de informações que circulam pela mídia alternativa e, agora, também por veículos importantes da própria mídia corporativa torna sua situação bastante incerta.

E aí é que está o drama para Flávio Bolsonaro: qual dos dois destinos já vividos por seu pai ele seguirá primeiro — presidiário ou  presidente?

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