Da escapada para os Estados Unidos às sucessivas versões de sua carta de exílio, o candidato derrotado deixa para trás perguntas sobre a origem dos recursos que sustentarão sua nova vida
Se alguém tivesse perguntado, antes da apuração dos votos da eleição presidencial, o que poderia acontecer no Brasil depois de conhecido o resultado das urnas, dificilmente alguém teria previsto que o país acabaria assistindo a uma espécie de versão política do filme de animação Fuga das Galinhas, protagonizada pela espetaculosa escapada do candidato derrotado rumo aos Estados Unidos.
Mas a comparação com Fuga das Galinhas se torna ainda mais apropriada quando observamos o roteiro seguido por Flávio Bolsonaro. Não me refiro apenas à saída do território nacional pela fronteira com a Argentina, seguida de uma passagem pelo Equador antes da chegada aos Estados Unidos. Refiro-me, sobretudo, ao roteiro político que o primogênito de Jair Bolsonaro resolveu encenar, com a divulgação de quatro versões de sua suposta carta de exílio. Trata-se de uma tentativa de apropriação de uma condição que muitos brasileiros conheceram de maneira dolorosa, especialmente durante a ditadura militar instaurada em 1964. No caso de Flávio, entretanto, não estamos diante de alguém obrigado a abandonar o país por viver sob um regime ditatorial. Minha interpretação é que estamos diante de um autoexílio motivado por interesses financeiros e pela tentativa de escapar de explicações sobre negócios nebulosos. Por trás do fino verniz de denúncia de uma suposta perseguição política, permanecem questões que merecem esclarecimento, a começar pela alegada participação de Daniel Vorcaro no financiamento do filme Dark Horse.
Já relatei em outras oportunidades minha experiência de ter vivido nos Estados Unidos por mais de sete anos. Durante esse período, morei em diferentes estados e conheci de perto aquilo que se costuma chamar de Estados Unidos profundos, inclusive o coração dos Apalaches, uma região cuja extraordinária beleza natural contrasta com a pobreza que marca a vida de parte significativa de sua população. Dessa experiência nasceu um profundo respeito pela tenacidade e pela capacidade de resistência dos trabalhadores estadunidenses. Afinal, por trás do chamado sonho americano existe uma realidade muito menos rósea do que aquela vendida pela propaganda, mesmo em uma sociedade marcada pela abundância de bens de consumo e pelas possibilidades materiais oferecidas pela maior economia do planeta.
Flávio Bolsonaro certamente não terá de experimentar as dificuldades que conheci durante minha permanência naquele país. Sua chegada aos Estados Unidos ocorre em um contexto de proximidade política com o governo de Donald Trump e, ao que tudo indica, em condições financeiras que lhe permitirão viver em uma bolha social acessível a uma parcela diminuta da população estadunidense. E aqui surge uma questão que deveria incomodar todos os brasileiros, inclusive aqueles que votaram nele: de onde virão os recursos necessários para sustentar a vida confortável que Flávio e sua família poderão desfrutar em território estadunidense? A remuneração de um senador brasileiro, por si só, não parece suficiente para explicar um padrão elevado de despesas no exterior. E tampouco a famosa lojinha de chocolates na Barra da Tijuca oferece uma resposta evidente para essa pergunta.
O curioso é que, pelo que tenho lido e ouvido desde que a saída de Flávio Bolsonaro se consumou, muitos daqueles que se beneficiaram eleitoralmente da franquia Bolsonaro parecem agora empenhados em se distanciar de seu antigo candidato presidencial. Ainda que alguns continuem encenando lealdade por mais algum tempo, a possibilidade de um progressivo isolamento político parece bastante concreta. Nesse cenário, Flávio poderá acabar experimentando um destino semelhante ao de Juan Guaidó, que chegou a se autoproclamar presidente interino da Venezuela e contou, durante algum tempo, com expressivo reconhecimento internacional, mas acabou perdendo protagonismo político. A comparação é especialmente irônica quando lembramos que Guaidó chegou a desfrutar de uma projeção internacional que Flávio Bolsonaro nunca alcançou.
Enquanto isso, para nós que permanecemos no Brasil, a realidade continuará sendo bem menos cinematográfica. Teremos de seguir fazendo aquilo que sustenta a vida da imensa maioria dos brasileiros e que Flávio Bolsonaro jamais precisou experimentar nas mesmas condições: vender nossa força de trabalho para garantir o próprio sustento.
No fim das contas, talvez essa seja a maior ironia de toda essa história. Enquanto o protagonista de nossa versão tropical de Fuga das Galinhas procura construir uma narrativa de perseguição e exílio, milhões de brasileiros continuarão acordando cedo, enfrentando jornadas exaustivas e tentando sobreviver com o resultado de seu trabalho. Para esses brasileiros, não existe carta de exílio, proteção de governos estrangeiros ou a possibilidade de uma vida confortável longe dos problemas nacionais. Existe apenas a obrigação cotidiana de trabalhar para viver.
