Pesquisadores e profissionais da área de Ciência e Tecnologia lançam manifesto em favor da candidatura de Lula

ciencia lula

ciencia lula 1

Nós, cientistas, professores, pesquisadores, técnicos, empresários, trabalhadores, servidores, pós-graduandos e gestores, que atuam em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), nos manifestamos pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República Federativa do Brasil. Fazemos isto por termos certeza de que Lula fará um governo democrático, com avanços sociais e a recuperação econômica do País. Temos clareza que a eventual continuidade do péssimo governo do presidente Bolsonaro nos levará a um desastre maior do que o atual.

Ao longo dos 4 anos de governo, Bolsonaro se destacou pelo negacionismo em relação à ciência, atuando contra as vacinas e a proteção individual, além de incentivar remédios ineficazes. Tais ações foram corresponsáveis por uma parcela significativa das centenas de milhares de mortes na pandemia. Bolsonaro promoveu um processo de desmonte da CT&I no Brasil, reduzindo drasticamente os recursos para esta área, bem como para a educação, e desviando fundos legalmente destinados a ela para interesses eleitoreiros e orçamentos secretos. Presenciamos nos últimos anos, a evasão de muitos de nossos jovens que abandonaram o país em busca de melhores condições de estudo e trabalho. Seu governo atuou contra a liberdade de pesquisa e a transparência da gestão pública ao promover demissões e perseguições a pesquisadores que divulgavam dados importantes sobre o meio-ambiente, a saúde e a economia do país. A sua política deliberada de destruição do meio ambiente levou a um crescimento enorme no desmatamento, a ameaças às terras indígenas e conduziu o país a um triste recorde internacional. Em consequência das ações do governo, a imagem do Brasil no exterior foi profundamente afetada, prejudicando o comércio e as cooperações internacionais. As ameaças constantes à democracia e aos direitos individuais, o grande aumento do desemprego, o crescimento da fome, que atinge agora 33 milhões de pessoas, e a deterioração acentuada das condições de vida da população brasileira são o legado trágico de uma política de governo que o país deve, agora, derrotar democraticamente.

Como Presidente da República, Lula agiu sempre de forma democrática e o bom desempenho de seu governo foi reconhecido pela população: no final do seu mandato, tinha 87% de aprovação. O Brasil atingiu a posição de sexta economia do mundo (hoje caiu para o 12o lugar) e o PIB por pessoa foi o maior da nossa história. A dívida externa foi toda paga e o país acumulou reservas de centenas de bilhões de dólares. Havia pleno emprego e o Brasil foi retirado do Mapa da Fome. A CT&I teve um grande impulso, assim como a educação, com aumento substancial de recursos e planejamento adequado, alcançando patamares bem mais altos que os atuais. Houve a criação e expansão de muitas universidades e institutos federais e ampliou-se o acesso de milhões de jovens ao emprego e às escolas e universidades. As ações de inclusão social beneficiaram milhões de pessoas.

As propostas de Lula para o próximo governo recuperam e ampliam em muito o que seu governo anterior realizou. Pontos essenciais serão a recuperação econômica do país, a melhoria do sistema educacional e da saúde pública, a extinção da fome e a preocupação com o meio ambiente e com uma agricultura sustentável. Em seu programa, Lula planeja o aumento e a continuidade de recursos para CT&I e educação – vistos não como gastos, mas como investimentos – e o estímulo à pesquisa básica e à inovação tecnológica e social. Será dado destaque à valorização das bolsas de estudo e à criação de oportunidades de trabalho para os jovens que querem se dedicar à CT&I no País, oferecendo futuro a eles e à Nação.  

Por essas razões apoiamos a eleição de Lula para a Presidência do Brasil. Votar nele significa também se juntar a uma ampla aliança de democratas para salvar o País do autoritarismo. Como profissionais da CT&I, setor crucial para a inserção do Brasil no mundo contemporâneo, declaramos a nossa firme disposição de colaborar para a recuperação econômica e para um desenvolvimento sustentável e socialmente mais justo do país. Por um Brasil mais rico e menos desigual, no qual a educação, a ciência e a saúde sejam instrumentos essenciais para o desenvolvimento econômico do país e para a melhoria das condições de vida de todos os brasileiros e brasileiras, votamos Lula!

Já assinaram este manifesto:

Sergio Machado Rezende – Departamento de Física – UFPE
Soraya Smaili – UNIFESP
Ildeu de Castro Moreira – Instituto de Física – UFRJ
Luiz Antonio Elias – Pesquisador INPI
Helena Nader – UNFESP
Luiz Davidovich – Instituto de Física – UFRJ
Marco Lucchesi – UFRJ
Rubens Belfort Jr. – UNIFESP
Paulo Artaxo – USP
João Ramos Torres de Mello Neto – IF/UFRJ
Marilene Corrêa da Silva Freitas – UFAM
Celso Pansera – ICTIM
Luis Manuel Rebelo Fernandes – IRI/PUC-Rio e UFRJ
Ennio Candotti – Museu da Amazônia – MUSA
Renato Cordeiro – FIOCRUZ
Denise de Carvalho – UFRJ
Fernando Peregrino – UFRJ
Anderson S. L. Gomes – Departamento de Física – UFPE
Sidarta Ribeiro – UFRN
Manuela Carneiro da Cunha – USP
Reinaldo Guimarães – UFRJ
Para assinar também, basta clicar [Aqui!].

Comissão Arns e Rede Liberdade entregam relatório sobre violência no Vale do Javari (AM) a grupo de trabalho do Conselho Nacional de Justiça

  • Documento foi elaborado pelas duas organizações e encaminhado ao grupo de trabalho do CNJ criado pelo ministro Luiz Fux para elucidar as circunstâncias do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, na região do Javari, em 5 de junho deste ano
  • Entrega acontece pouco depois da Justiça Federal do Amazonas autorizar a soltura do suspeito de ser o mandante das mortes

Bruno-e-Dom-violencia-810x540

São Paulo, 13 de outubro de 2022 – A Comissão de Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns e a Rede Liberdade entregaram nesta quarta-feira  (12/10) ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) um relatório sobre a situação de segurança pública e de justiça na Terra Indígena do Vale do Javari, região amazônica onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados em 5 de junho deste ano. A entrega ocorre pouco depois da Justiça Federal do Amazonas autorizar a soltura de Rubens Villar Coelho, suspeito de ter ordenado as execuções de Bruno e Dom.

O documento é oferecido como um subsídio para o grupo de trabalho do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criado em 22 de junho de 2022 por portaria do presidente do CNJ, ministro Luiz Fux, para acompanhar as circunstâncias e precedentes dos desaparecimentos das vítimas e formular sugestões. O texto foi encaminhado pela Comissão Arns à juíza auxiliar da Presidência do CNJ Dra. Livia Marques Peres, relatora do grupo de trabalho do CNJ, que também conta com a participação do ator Wagner Moura, do fotógrafo Sebastião Salgado, da juíza Dra. Carolina e da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha.

O relatório foi elaborado sob a coordenação geral da própria antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, membro fundadora da Comissão Arns, e da advogada Juliana Vieira dos Santos, coordenadora jurídica da Rede Liberdade e membro apoiadora da Comissão Arns. Nele, as entidades relatam o histórico de violações aos direitos humanos e do crime organizado no Vale do Javari, cuja mais recente manifestação foram os assassinatos de  Bruno e de Dom.

“A Terra Indígena Vale do Javari notabilizou-se por ser a região de maior concentração mundial de povos indígenas isolados. Também ficou conhecida por um histórico de violência e de roubo de recursos que são de usufruto exclusivo dos indígenas que a povoam”, afirma Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e membro fundadora da Comissão Arns.

O documento também apresenta recomendações “inadiáveis” ao grupo de trabalho do CNJ, à União e ao Conselho Nacional do Ministério Público para “tomarem medidas que permitam aumentar a presença do Estado na região, reduzir os crimes e assassinatos, garantir a proteção de indígenas e defensores de direitos indígenas e socioambientais, agilizar a responsabilização dos criminosos e criar ações efetivas para a promoção da proteção dos territórios e direitos indígenas e socioambientais na Amazônia legal”.

Confira o relatório na íntegra no site da Comissão Arns.

Sobre a Comissão Arns

Criada em fevereiro de 2019, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns busca dar visibilidade e acolhimento institucional a graves violações da integridade física, da liberdade e da dignidade humana, especialmente as cometidas por agentes do Estado contra pessoas e populações discriminadas – como negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+, mulheres, jovens, comunidades urbanas ou rurais em situação de extrema pobreza.  A Comissão Arns trabalha em rede com outras organizações sociais, para detectar casos, dar suporte à denúncia pública dos mesmos, encaminhá-los aos órgãos do Judiciário e organismos internacionais, promover ações específicas junto à classe política e mobilizar a sociedade.  

Em seu nome, a Comissão destaca a figua de Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), Arcebispo Emérito de São Paulo. Em 1972, Dom Paulo criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, porta aberta no acolhimento das vítimas da repressão política e policial no país. Ao homenageá-lo, a Comissão reconhece esse exemplo de resistência, resiliência e, sobretudo, de esperança para os brasileiros em tempos difíceis. 

Saiba mais em: Site | Facebook Instagram Twitter 

Sobre a Rede Liberdade

A Rede Liberdade é uma rede de articulação formada por advogadas e advogados e hoje mobiliza uma coalizão, composta por mais de 170 entidades da sociedade civil, para monitorar e identificar violações de direitos humanos e ativar a rede para promoção da defesa legal necessária.  A RL reconhece a importância da democratização do conhecimento jurídico e, portanto, tem um compromisso com formações de profissionais para atuação estratégica e em direitos humanos, sempre em parceria com escritórios de advocacia, organizações da sociedade civil e outros membros da rede.

Nunca se falou tanto sobre vacinas, nunca se vacinou tão pouco

vacinação

Dia D de mobilização da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite e Sarampo.

Antonio Condino-Neto*

Desde o surgimento da pandemia de Covid-19 no ano de 2020, as vacinas se tornaram um dos assuntos mais comentados no mundo. Isso se deve ao fato de que a vacinação era fundamental para controlar a doença, que matou milhares de pessoas durante vários dias. O objetivo era imunizar a população, para que assim os sintomas fossem mais leves caso contraíssem coronavírus, além de tentar criar uma cobertura vacinal e evitar contágio de um indivíduo para o outro.

Diante do cenário de lockdown e quarentena, laboratórios de vários países entraram em uma corrida para produzir vacinas que tivessem eficácia suficiente para aplicação. Foram meses de testes, mas em janeiro de 2021, a vacinação começou no Brasil. As vacinas que chegaram foram submetidas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que aprovou a Coranavac (Butantan), a Comirnaty (Pfizer/Wyeth), a Janssen Vaccine (Janssen-Cilag) e a Oxford/Covishield (Fiocruz e Astrazeneca).

Mesmo a campanha de vacinação sendo incentivada com bastante ênfase por veículos de imprensa, autoridades, celebridades e personalidades acadêmicas e científicas, muitos brasileiros se recusaram a tomar as vacinas aprovadas, alegando não confiar em sua eficácia e que poderiam ficar doentes. Essa onda de desconfiança em relação às vacinas não é de hoje, contudo houve um aumento significativo durante a pandemia, se estendendo também para vacinas contra outras doenças.

Segundo pesquisa do IBOPE Inteligência de agosto de 2020, três em cada dez crianças brasileiras não foram imunizadas contra doenças potencialmente fatais, sendo que desde 2015 ocorre uma queda da cobertura vacinal entre crianças menores de 5 anos. Como mencionei, a situação se agravou com a pandemia. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a imunização contra o sarampo, a caxumba e a rubéola era de 93,1% em 2019. Já em 2021, os números caíram para 71,5%. 

Recentemente, o Dr. Drauzio Varella demonstrou grande preocupação frente a este cenário e fez uma alerta para a população brasileira durante matéria veiculada no Fantástico, na qual mostrou a queda do número de vacinação. O principal exemplo citado na reportagem em questão foi a queda da taxa de crianças vacinadas contra a poliomielite, que vem diminuindo ano a ano. A última vez que o Brasil conseguiu ultrapassar a meta de 95% de vacinados, que é considerada ideal, foi em 2015. No ano passado (2021), a porcentagem foi de apenas 69%.

Por essa razão, o Ministério da Saúde realizou uma campanha de vacinação, que teve como principal objetivo regularizar o calendário vacinal dos pequenos que não tomaram a dose contra a poliomielite no prazo. No entanto, a campanha não teve a adesão esperada, alcançando apenas metade das crianças. Essa situação exemplifica o grande desafio que temos enfrentado, já que diversos países da Europa e da África estão registrando surtos do vírus da pólio, que provoca a doença conhecida como paralisia infantil.

A poliomielite foi erradicada no Brasil no ano de 1994, sendo concedida certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Por outro lado, a baixa cobertura vacinal entre as crianças pode ser responsável por reintroduzir a paralisia infantil em nosso país. Esse cenário se estende para outras doenças praticamente eliminadas, mas que possuem grande chance de voltar em um futuro bem próximo, caso a situação não mude. São elas: tétano, difteria e tuberculose.

Visto isso, é fundamental que ocorra uma conscientização da sociedade sobre a grande importância das vacinas fornecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que conseguem salvar vidas e evitam que crianças desenvolvam doenças graves. Para além deste mês de outubro, no qual celebramos o Dia Nacional da Vacinação, busquemos nos conscientizar quanto à importância das vacinas para a erradicação e diminuição de doenças que tanto mal causaram não só a nós brasileiros, mas ao mundo todo.

Os pais e responsáveis precisam voltar a levar seus filhos para se vacinarem, cumprindo o calendário de vacinação estipulado pelo Ministério da Saúde, incluindo as doses de reforço. Afinal, se vacinar não é uma questão individual. É preciso de uma repercussão coletiva, levando ao estado de imunidade de rebanho, protegendo toda a comunidade, inclusive aqueles imunocomprometidos, nos quais as vacinas podem não resultar na eficácia esperada. Esse é o único jeito de garantir uma cobertura vacinal eficiente e aumentar o nosso leque de doenças erradicadas.


*Antonio Condino-Neto, médico e pesquisador, é sócio-fundador da Immunogenic, primeiro laboratório especializado em triagem neonatal dos Erros Inatos da Imunidade por meio do teste do pezinho. Condino-Neto fez pós-doutorado em Medicina molecular na Universidade de Massachusetts, é PhD em Farmacologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), no qual foi Professor Titular e coordenador do Laboratório de Imunologia Humana. O especialista é livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Com mais de 35 anos de experiência, Condino-Neto atua, ainda, como Diretor na Fundação Jeffrey Modell São Paulo, instituição americana voltada para o conhecimento das Imunodeficiências Primárias, e é membro do Comitê de Erros Inatos da Imunidade (EII) da Academia Americana de Asma Alergia e Imunologia.

Aparecida: O Falso Messias e os falsos cristãos

BOLSO APARECIDA

Apoiadores de Jair Bolsonaro hostilzaram a imprensa e vaiaram o arcebispo de Aparecida do Norte durante as celebrações da Padroeira do Brasil

Por João Batistiolle*

A religião é uma forma da consciência, a mais antiga, a mais bela, e a mais equivocada.

O que quer a religião cristã? Amor ao próximo, justiça social, paz na comunidade como fruto da justiça. O filósofo alemão Feuerbach, século XIX, viu no cristianismo a expressão (Entäusserung) dos desejos mais secretos e mais sublimes do coração humano: o cristianismo é a mais profunda declaração de amor ao ser humano. Esta é a essência verdadeira do cristianismo, segundo o filósofo. Declaração de um filósofo insuspeito: Feuerbach era conhecido pelo seu ateismo, titulo que ele achava equivocado. 

Mas há também a essência falsa. A religião pode ser também uma coisa dos demônios. Uma coisa tão boa pode também ser pervertida e se transformar no seu contrário. Um dito filosófico antigo dizia: “A corrupção das melhores coisas produz as piores coisas”. É o que acontece com a religião.

Foi o que vimos em Aparecida, dia 12, e antes disso em Belém, no Cirio de Nazaré: Um candidato a presidente, cuja vida é o contrário de tudo o que prega o cristianismo, tentando corromper as mais legitimas manifestações religiosas populares para vender uma imagem de cristão e ganhar votos. Nada mais mesquinho, nada mais ridículo, nada mais nojento. Felizmente, os bispos souberam ser firmes e deram um “chega prá lá” no falso messias. O bispo de Aparecida chamou tais práticas de “dragões do ódio e da mentira” que devem ser vencidos com a ajuda da Mãe Aparecida. Que assim seja! Mãe que é mãe não haverá de negar um pedido desses. Toda ajuda é bem-vinda neste momento trágico.

Não menos falsos são aqueles que se dizem cristãos, sejam católicos ou evangélicos. Como podem se deixar enganar e apoiar um candidato que semeia mentiras e falsidades, que odeia os pobres, os negros, os indígenas, as mulheres; que serve aos ricos e ao grande capital como uma prostituta de luxo, prega a violência e as armas, nega remédio e oxigênio às vitimas da pandemia, debocha sobre os cadáveres, tripudia sobre a morte evitável de 700 mil pessoas; apropria-se (Deus sabe como!) de 107 imóveis, 51 deles pagos com dinheiro em espécie!

Como podem ser tão cegos?

Lula, ao contrário, vive sua religiosidade em silêncio, como convém a um bom cristão; vai às missas com a família, comunga; participa desde os anos 80 da pastoral operária no ABC; é amado pelos bispos e teólogos da Teologia da Libertação, recebido de braços abertos como um irmão pelo Papa Francisco e por líderes do mundo inteiro.

Entre nós, todavia, é alvo de vergonhosa humilhação de muitos “dragões” e falsos cristãos: suportou acusações indevidas e uma condenação sem provas que mais tarde foi anulada; viveu o Calvário de 580 dias preso injustamente, a perda da mulher, do irmão e do netinho de 4 anos, aos quais foi impedido de velar dignamente. 

Reconheçamos: é preciso ter muita fé e dignidade para suportar isso. A maiora de nós não tem. Certo?

Como presidente por 8 anos mostrou a coerência da sua fé e da sua política: sua opção preferencial pelos pobres, pelo meio ambiente, pelas novas gerações foi e é a pedra fundamental de seu projeto político traduzido em centenas de políticas públicas.

Como podem pessoas que se dizem cristãs enxergar esses dois candidatos de modo invertido, onde o que é bom aparece a eles como mau, e o que mau aparece como bom?

Conclusão: Este é o mal da religião, a sua falsidade: o de representar uma consciência invertida da realidade! Invertida pela contaminação pelo ódio e pelas mentiras, fake-news produzidas de dentro do palácio do planalto pelo gabinete do ódio do falso messias.

Este é o “dragão” do ódio e da mentira que nos desafia a todos, dramaticamente, e que deve ser combatido. Dia 30. 

Hoje é 13. 13.10.2022


João Batistiolle é professor universitário, com Graduação e Mestrado em Filosofia e Doutorado em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva. 

Relatório do WWF aponta crise global de biodiversidade e botos amazônicos são um dos destaques

Nova edição do Relatório Planeta Vivo revela uma queda média de 69% nas populações
de animais selvagens em todo o mundo, em 4 décadas. Regiões tropicais são as mais afetadas.
No Brasil, animais icônicos, como o boto, estão ameaçados

lpr 2022

Um dos mais completos relatórios globais sobre a biodiversidade mostra que espécies icônicas da biodiversidade brasileira estão ameaçadas. Entre 32 mil populações de 5230 espécies de todo o planeta, analisadas pelo WWF na 14ª edição do Relatório Planeta Vivo (em inglês, Living Planet Report- LPR), o boto amazônico (Inia geoffrensis) destacou-se como uma das que mais diminuíram nas últimas décadas. Além da contaminação por mercúrio, estes animais estão sofrendo com a captura não intencional em redes, com ataques em represália pela danificação de equipamentos de pesca e pela captura para o uso como isca na pesca da Piracatinga. Essa situação gerou uma queda de 65%, entre 1994 e 2016, na população de botos cor-de-rosa na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no estado do Amazonas – um dos dados utilizados no relatório.

unnamed (5)

Boto cor-de-rosa (Inia Geoffrensis), Rio Tapajós PA, 2022 – Crédito Adriano Gambarini WWF-Brasil

Outro caso bem documentado é a redução das populações no trapézio amazônico, região que inclui o Vale do Javari, onde o ambientalista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados por pescadores ilegais.

“Os botos têm grande capacidade de se aproximar e interagir com humanos, o que acaba gerando situações de conflito com a atividade pesqueira que, frequentemente, terminam com a morte de indivíduos da espécie. Como se trata de mamíferos, assim como nós, eles também são particularmente afetados pela poluição do mercúrio despejado nos rios pelo garimpo. Os altos níveis de mercúrio levam ao desenvolvimento de vários problemas de saúde e esta é uma condição compartilhada por botos e populações ribeirinhas”, explica Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil.

Proporção da queda da população de golfinhos de água doce boto (Inia geoffrensis) e tucuxi (Sotalia fluviatilis) em uma área monitorada na Amazônia. Fonte: adaptado de F. da Silva, Vera M., et al. “Both cetaceans in the Brazilian Amazon show sustained, profound population declines over two decades.” PloS one 13.5 (2018): e0191304.

Ao lado das mais de mil espécies brasileiras que compõem o relatório, figuram populações do gorila da planície oriental, que tiveram um declínio estimado de 80% no Parque Nacional Kahuzi-Biega da República Democrática do Congo entre 1994 e 2019. No caso das populações do leão-marinho australiano, a queda foi de 64% entre 1977 e 2019.

“Estamos enfrentando uma dupla emergência global provocada pelas ações humanas: a das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade, ameaçando o bem-estar das gerações atuais e futuras”, disse Marco Lambertini, Diretor Geral do WWF Internacional. “O WWF está extremamente preocupado com esses novos dados que mostram uma queda devastadora nas populações de animais selvagens, em particular nas regiões tropicais que abrigam algumas das paisagens mais biodiversas do mundo”.

Segundo a nova edição Relatório Planeta Vivo populações monitoradas* de vertebrados – mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes – tiveram uma queda de 69% em média desde 1970. Entre 1970 e 2018, as populações monitoradas na região da América Latina e do Caribe encolheram 94% em média.

Segundo o estudo, é nas regiões tropicais que as populações de vertebrados monitorados estão despencando em um ritmo particularmente impressionante. No caso das populações de água doce, em menos de uma geração houve uma queda média de 83%, o maior declínio entre os grupos de espécies avaliadas. A perda de habitat e as barreiras às rotas de migração são responsáveis ​​por cerca de metade das ameaças às espécies de peixes migratórios monitorados.

O relatório indica que os principais fatores do declínio das populações de vertebrados em todo o mundo são a degradação e perda de habitat, exploração, introdução de espécies invasoras, poluição, mudanças climáticas e doenças. Vários desses fatores desempenharam um papel na redução média de 66% das populações da África, bem como na queda de 55% das populações da Ásia e região do Pacífico.

O relatório argumenta que aumentar os esforços de conservação e restauração, produzir e consumir alimentos de forma mais sustentável e descarbonizar rápida e profundamente todos os setores podem mitigar a dupla crise global. Os autores pedem aos formuladores de políticas e ao setor privado que acelerem a transição econômica para que os recursos naturais sejam devidamente valorizados.

O Relatório Planeta Vivo deixa claro ainda que entregar um futuro positivo para a natureza não será possível sem reconhecer e respeitar os direitos, governança e liderança de conservação dos Povos Indígenas e comunidades locais em todo o mundo.

COP da Biodiversidade: oportunidade única para reverter o cenário atual

Em dezembro deste ano, líderes mundiais devem se reunir na 15ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (CBD COP15) – uma oportunidade única de mudar as curvas atuais de perda de espécies e emissões em prol das pessoas e do planeta. O WWF defende que os líderes se comprometam com um acordo “ao estilo de Paris” capaz de reverter essas curvas e garantir um mundo positivo para a natureza até 2030.

“Na Conferência de Biodiversidade (COP15) em dezembro, os líderes têm a oportunidade de redefinir nosso relacionamento com o mundo natural, e garantir um futuro mais saudável e sustentável para todos com um acordo de biodiversidade global ambicioso e positivo para a natureza”, disse Lambertini. “Diante de nossa crescente crise da natureza, é essencial que este acordo forneça ações imediatas na prática, inclusive por meio de uma transformação dos setores que impulsionam a degradação da natureza e apoio financeiro aos países em desenvolvimento.”

“O Relatório Planeta Vivo contém números chocantes diretamente relacionados às crises climáticas e de biodiversidade e, em resposta, devemos ver sistemas transformadores mudarem se quisermos deter e reverter a perda das espécies e garantir um futuro próspero para as pessoas e a natureza”, disse Lambertini. “Os líderes do governo devem avançar na COP15. O mundo está assistindo.”

Sobre o relatório

Produzido a cada dois anos pelo WWF desde 1998, o Relatório Planeta Vivo (em inglês, Living Planet Report) visa oferecer uma visão abrangente do estado da conservação da biodiversidade em todo o mundo. A edição deste ano inclui o maior conjunto de dados até agora, com uma forte contribuição de espécies brasileiras: no total, foram adicionadas 838 novas espécies (575 das quais são do Brasil) e pouco mais de 11.000 novas populações em relação ao relatório anterior, de 2020. Para o Relatório Planeta Vivo deste ano, colaboradores do WWF-Brasil e da Universidade de São Paulo pesquisaram em periódicos e relatórios de impacto ambiental em português. Graças aos seus esforços, agora temos 3.269 populações para 1.002 espécies brasileiras contribuindo para o IPV.

O relatório destaca a dura realidade do estado da natureza atualmente e alerta urgentemente os governos, empresas e o público para tomarem ações transformadoras para reverter a destruição da biodiversidade.

Índice Planeta Vivo

O total de quase 32 mil populações de 5.230 espécies mapeadas compõem o Living Planet Index- LPI (Índice Planeta Vivo), calculado pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL, na sigle em inglês Zoological Society of London). Ele mostra um declínio médio de 69% entre 1970 e 2020 nas populações de vertebrados monitorados. A mudança percentual no índice reflete a mudança proporcional média no tamanho das populações animais monitoradas pelo menos em dois momentos ao longo de 48 anos – não o número de animais individuais perdidos nem o número de populações perdidas. As iterações sucessivas do LPI não são diretamente comparáveis, pois contêm diferentes conjuntos de espécies.

Segundo o Dr. Andrew Terry, Diretor de Conservação e Política da ZSL, “O Índice Planeta Vivo destaca como abalamos a própria fundação da vida e a situação continua a piorar. Metade da economia global e bilhões de pessoas dependem diretamente da natureza. Prevenir mais perdas de biodiversidade e restaurar ecossistemas vitais devem estar no topo das agendas globais para enfrentar as crescentes crises climáticas, ambientais e de saúde pública”.

Índice de Integridade da Biodiversidade

O Índice de Integridade da Biodiversidade do relatório mostra que a Europa é uma das regiões com as pontuações mais baixas para a integridade da biodiversidade. Por outro lado, as regiões tropicais teriam começado em uma linha de base mais intacta em 1970, mas desde então experimentaram mudanças mais rápidas em seus ecossistemas. Isso explica porque os declínios na Europa e na América do Norte não sejam tão acentuados: as pressões que afetaram espécies e habitats se deram por muitas décadas antes de 1970, linha de base dos relatórios.

Sobre o WWF

O WWF é uma organização ambiental independente, com mais de 30 milhões de seguidores e uma rede global ativa em quase 100 países. Nossa missão é frear a degradação do meio ambiente e construir um futuro em que as pessoas vivam em harmonia com a natureza. Visite para obter as últimas notícias e recursos de mídia; siga-nos no Twitter

Sobre a ZSL

Sociedade Zoológica de Londres ZSL (Zoological Society of London) é uma instituição conservacionista internacional que trabalha para criar um mundo no qual a vida selvagem prospere. Desde investigar as ameaças à saúde dos animais até ajudar as pessoas e a vida selvagem a viver lado a lado, a ZSL está comprometida em recuperar a vida selvagem. A atuação da ZSL é realizada por meio de uma ciência inovadora, conservação de campo em todo o mundo e o engajamento da sociedade.

Apoiadores de Jair Bolsonaro vaiaram arcebispo de Aparecida por homília contra o ódio e a fome no Brasil

wp-1665613672275

Em sua homília no dia de Nossa Aparecida, o arcebispo Dom Orland Brandes falou contra o ódio e a fome. Por causa disso foi vaiado pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro presentes no lado externo da antiga basílica

No dia de um das maiores celebrações dos católicos brasileiros que é o dia de Nossa Aparecida, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro foram até a cidade de Aparecida (SP) para apoiá-lo, mas acabaram se envolvendo em uma série de confusões, promovendo cenas lamentáveis que incluíram ameaças à profissionais da imprensa, incluindo membros de uma equipe da própria TV Aparecida.

Mas um dos episódios mais lamentáveis ocorreu durante o pronunciamento do Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, que durante sua homília se pronunciou contra o ódio e a fome no Brasil. Foi o que bastou para que os apoiadores de Jair Bolsonaro reunidos na antiga basílica começassem uma vaia estrepitosa contra Dom Orlando (ver vídeo abaixo).

A situação que ocorreu hoje em Aparecida certamente terá consequências eleitorais, na medida em que apesar dos católicos serem menos monolíticos do que os evangélicos, o comportamento dos bolsonaristas certamente trará reações dentro do catolicismo brasileiro, dado o dia e o local em que estes fatos lamentáveis ocorreram.

Finalmente, considero particularmente curioso que a homília de Dom Orlando Brandes tenha gerado tanta irritação, na medida em que ele apenas dirigiu sua fala a tópicos que deveriam ser de aceitação geral, mas não foi o que se viu entre os bolsonaristas presentes que, aparentemente, associaram a fala a um apoiado velado à candidatura do ex-presidente Lula.

Os péssimos resultados de Campos dos Goytacazes no IDEB são apenas a ponta de um imenso iceberg de destruição da educação municipal

educacao-brasileira

Os péssimos resultados  obtidos, mais uma vez,  por Campos dos Goytacazes na edição de 2022 do chamado Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) são apenas a ponta de um gigante iceberg, e revela que há uma persistente crise estrutural na rede municipal de educação. 

Mas relatos que tenho recebido de pais e profissionais da educação municipal revelam fatos gravíssimos que estão ocorrendo em muitas escolas municipais, onde turmas inteiras estão sem professores e, pior, em edifícios escolares em que inexistem até portas nas salas de aula.

Uma colega que atua na rede estadual de ensino na Baixada Campista me relatou que a capacidade de aprendizagem dos alunos que chegam da rede municipal é tão precária que, em sua escola, um primeiro esforço é realizar um nivelamento para que os jovens estudantes possam ter um mínimo de chance para que possam evoluir dentro do sistema estadual.

A situação, segundo essa mesma colega, chega a ser bizarra, pois na escola municipal que fica ao lado da sua, na maioria do tempo as crianças ficam sem qualquer atividade escolar, na medida em que inexistem professores para dar aula. Com isso, o ambiente da escola serve apenas para que as crianças se alimentem, já que não efetivamente não existe um processo de aprendizagem ocorrendo.

O problema não é falta de dinheiro, mas de projeto de escola

Alguém mais desavisado que o fato de Campos dos Goytacazes estar na rabeira do IDEB no estado do Rio de Janeiro se deve à falta de recursos financeiros por parte da Prefeitura Municipal.  Acontece que Campos dos Goytacazes ainda possui um dos maiores orçamentos municipais do Brasil e, por extensão, de toda a América Latina. Aliás, se olharmos o montante gasto com a educação municipal, veremos que um dos maiores orçamentos de secretarias municipais é o da Educação.

Desta forma, a situação catastrófica em que a educação municipal me faz lembrar da frase lapidar que do  fundador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o professor Darcy Ribeiro, caracteriza a crise da educação brasileira. Darcy dizia que  “a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto“.  

Parece óbvio que o projeto identificado  por Darcy Ribeiro visa manter os filhos da classe trabalhadora em condição de completa desigualdade de oportunidades, não me que lhes é negada a possibilidade de uma educação que efetivamente os habilite a se inserir no mercado de trabalho com alguma chance de sucesso.

Ao se negar um ensino minimamente de qualidade às crianças campistas, o que se faz é mantê-las em um ciclo vicioso de pobreza e violência, esta é a mais pura verdade.

O curioso é que vimos em plena pandemia da COVID-19 o Ministério Público Estadual pressionando a Prefeitura de Campos dos Goytacazes a fazer o retorno das aulas, ainda que se colocasse em risco as crianças e suas famílias pela possibilidade de aumento de transmissão do coronavírus.  Mas não vejo movimento semelhante para cobrar que as crianças tenham professores e ambientes escolares que lhes ofereça mais do que o pouco sendo oferecido neste momento.

Chove veneno: estudo mostra que agrotóxicos cancerígenos são lançados por avião nas regiões canavieiras de São Paulo

Químicos associados ao câncer foram lançados de avião sobre os pólos da cana-de-açúcar no estado de São Paulo.  Substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos. Em Barretos, câncer aumentou 63% em homens e 28% em mulheres 

apublica 0

Por Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Estudo inédito revela que 30% dos agrotóxicos aplicados de avião em plantações de cana-de-açúcar de São Paulo têm associação ao desenvolvimento de câncer. Para os pesquisadores, essa pode ser uma das explicações para o alto índice da doença nesses locais. Com uma área plantada superior ao estado da Paraíba, a cana paulista abastece os mercados nacional e internacional de açúcar e biodiesel.

Embora cruciais para a saúde da população, as informações sobre quais agrotóxicos são aplicados de avião não são abertas ao público e foram obtidas, pela primeira vez, pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Eles serviram de base para pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a relação entre as doenças que esses agrotóxicos podem causar e as enfermidades que ocorrem nas regiões onde foram aplicados. Chamou a atenção dos pesquisadores a prevalência de casos de câncer e a grande quantidade de pesticidas associados a essa doença.

Foram analisadas as aplicações feitas em 2019 em 63 cidades, todas nas regiões de Barretos, Batatais, Presidente Prudente, Ribeirão Preto e São Joaquim da Barra.

publica 1
Sete substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos pulverizados nos canaviais. Em grande parte dos casos, o câncer só aparece depois de anos de exposição aos venenos, sendo difícil fazer a correlação direta entre a aplicação e a intoxicação. “Não posso afirmar que a pulverização está causando câncer nessas regiões, mas o que a nossa análise mostra é que esse é um fator de risco e que existe câncer acima da média nessas regiões”, afirma a engenheira química e professora aposentada da UFSC Sônia Hess, uma das responsáveis pela pesquisa.

A Basf é a fabricante do agrotóxico associado ao desenvolvimento de câncer mais aplicado sobre a área em questão. Com nome comercial de Opera, o epoxiconazol é proibido na União Europeia devido a evidências de que pode provocar câncer no fígado, problemas para o sistema reprodutivo e no desenvolvimento do feto. Desde 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavalia a permissão para uso desse agrotóxico no país devido aos seus riscos para a saúde. 

A empresa, entretanto, garante que seus produtos são seguros e que realiza testes e avaliações, além disso afirma que são aprovados pelas autoridades competentes. “Seguindo estas premissas, o epoxiconazol continua sendo usado com segurança desde 1993 em mais de 60 países e contribui com sucesso para manter o potencial produtivo dos cultivos recomendados”, destacou a Basf. Veja a resposta.

Outros agrotóxicos, como o glifosato e o 2,4-D, também aparecem na lista de químicos potencialmente carcinogênicos pulverizados no céu paulista. Classificados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como “provavelmente” e “possivelmente” cancerígenos, respectivamente, foram os agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2020, segundo o Ibama.

apublica 2

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que 10% das substâncias vendidas no Brasil são utilizadas na cana-de-açúcar, estando esse cultivo atrás somente da soja e do milho. A aplicação desses agrotóxicos acontece, prioritariamente, por meio aéreo.

 Alternativas mais seguras, como uso de tratores vedados, são descartadas pelo grupo que representa o setor da cana. “Seria absolutamente inviável a aplicação de defensivos agrícolas por meio manual, com equipamentos costais, ou mesmo por tratores com braços extensores, uma vez que o canavial é um extenso e denso maciço vegetativo, o que impede o acesso de pessoas e equipamentos agrícolas”, afirma a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) por meio de sua assessoria de imprensa. Confira aqui a resposta.

Aumento de câncer

Os casos de câncer nas cinco microrregiões têm crescido ao longo dos anos. Barretos é a que mais registrou mortes por câncer. De 2010 para 2019, houve um aumento de 63% dos casos entre os homens e de 28% entre as mulheres. Além disso, enquanto 120 homens a cada 100 mil habitantes morreram por câncer no Brasil em 2019, o número de óbitos salta para 214 nessa microrregião.

apublica 3
O estudo aponta três fabricantes que detêm 41% dos produtos utilizados na pulverização aérea de cana nas regiões: Syngenta, Bayer e FMC, multinacionais europeias e norte-americana que têm o Brasil como um dos maiores compradores de pesticidas proibidos em seus países de origem.

A Anvisa questiona o critério usado pelos pesquisadores para classificar agrotóxicos associados ao câncer. A agência afirma que tanto o glifosato quanto o 2,4-D foram reavaliados recentemente e não foram encontradas evidências suficientes que associam essas substâncias ao desenvolvimento de câncer. Confira a resposta na íntegra.

O Ministério da Agricultura diz que “se forem atendidas as normas e recomendações constantes nas bulas dos produtos, as atividades aeroagrícolas são seguras para a população”.

apublica 4
As empresas e sua principal representante, a CropLife, seguem a linha de argumentação da Anvisa e do Ministério da Agricultura. Segundo elas, seus produtos são seguros para a população e meio ambiente, caso a bula seja respeitada. Confira as respostas na íntegra,

Regras desrespeitadas

A pulverização aérea de agrotóxicos pode ser um risco para as pessoas e para o meio ambiente. Por isso o Ministério da Agricultura define regras que proíbem o uso de avião na aplicação de agrotóxicos em áreas a menos de 500 metros de distância de cidades, povoados e mananciais utilizados pela população, ou de 250 metros de moradias isoladas. Caso não seja possível respeitar essas distâncias, o aplicador é obrigado a comunicar previamente aos moradores da área e não pode passar por cima das casas.

Mas há diversas denúncias de descumprimento, afirma Diógenes Rabello, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e morador de assentamento na região de Presidente Prudente. Ele relata que as pessoas sentem o cheiro forte dos agrotóxicos e depois têm dores de cabeça e coceiras pelo corpo.

Estudo conduzido pela Unesp registrou ainda os impactos nas plantações dos assentamentos próximos. Dias após a pulverização aérea, é possível perceber o apodrecimento das frutas ainda no pé, um dos primeiros sinais de contaminação, segundo os pesquisadores. “É um trabalho de meses perdido”, afirma Rabello.

A mortandade de abelhas é outro sinal da contaminação. 17 produtos utilizados na cana possuem ingredientes tóxicos para esses insetos, de acordo com a análise da Defensoria Pública e UFSC. 

O Altacor foi o mais usado pelos produtores. Esse inseticida da FMC Química do Brasil é feito à base de clorantraniliprole, ingrediente classificado como “muito perigoso ao meio ambiente”. Estudos apontam efeitos de longa duração sobre a capacidade locomotora de abelhas, danos ao sistema imunológico e efeitos nocivos sobre o desenvolvimento de larvas. Questionada, a empresa afirmou que “este produto foi considerado apto para uso nos cultivos registrados, seguindo as recomendações da bula”, entretanto, não respondeu sobre a relação do agrotóxico produzido por ela com a mortandade de insetos.

Segundo a Unica, as empresas buscam constantemente atualizar sua base cartográfica para definição das zonas em que serão aplicados os agrotóxicos. A entidade afirma que a falta de formalização da apicultura impossibilita que “as usinas tenham conhecimento de sua existência e localização, portanto, impedindo que sejam determinadas como zonas de restrição no momento da aplicação”.  

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Academia Brasileira de Ciências apresenta propostas para reduzir contaminação por mercúrio, desafio nacional

Academia defende que garimpo ilegal seja banido no Brasil

garimpo mercurio

Garimpo ilegal faz subir a níveis perigosos os índices de mercúrio em peixes da Amazônia

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) define a contaminação por mercúrio como um desafio nacional que deve mobilizar todos os níveis governamentais, o setor privado e as organizações sociais, em documento publicado nesta terça-feira (11). O estudo faz um diagnóstico das emissões do metal no país e lista oito recomendações para lidar com esse desafio, iniciando um debate sobre a gestão do metal no Brasil.

“A contaminação por Mercúrio representa uma grave ameaça a todo o ecossistema do nosso País, de Norte a Sul e de Leste a Oeste”, alerta o professor Jailson Bittencourt de Andrade, vice-presidente da ABC e coordenador do estudo.

O documento Contaminação por mercúrio – Por que precisamos de um plano de ação? explica que o mercúrio é tóxico por conta de sua alta afinidade com compostos de enxofre presentes em proteínas e em muitas enzimas essenciais para o metabolismo das células humanas. Quando o metal se liga a enzimas e outras proteínas, elas são inativadas de forma irreversível, o que pode gerar graves complicações clínicas, como vertigens, tremores e danos aos pulmões e ao cérebro.

Extração de ouro é atividade que mais contribui para emissões de mercúrio no Brasil

O Grupo de Trabalho que realizou o estudo aponta que, apesar de várias localidades brasileiras serem afetadas pela contaminação, o mercúrio está fortemente associado ao garimpo ilegal e ao uso do metal para extração do ouro. É a atividade que mais contribui para as emissões de mercúrio no país. A técnica usada particularmente na extração ilegal faz com que o ouro e o mercúrio se fundam em um amálgama, para que o metal precioso possa ser extraído de rochas e areia. Depois, o amálgama é aquecido, fazendo o mercúrio evaporar e passar a circular na atmosfera.

A ABC expressa, no documento, sua preocupação com o garimpo realizado em terras indígenas, o que é proibido pela Constituição. Entretanto, a invasão a esses territórios segue acontecendo de maneira sistemática. Isso impacta diretamente as populações indígenas, inviabilizando a continuidade de seus modos de vida e de suas culturas. A entidade aponta a necessidade da proibição irrestrita do garimpo ilegal no país.

“O mercúrio é um legado da irresponsabilidade no trato do meio ambiente que vai ainda assombrar a humanidade por gerações”, ressalta Luiz Drude de Lacerda, Membro Titular da ABC e integrante do Grupo de Trabalho.

Exposição humana se dá principalmente por pescado contaminado

O grupo observa, no entanto, que muitos problemas de contaminação ambiental por mercúrio são devidos não apenas ao aumento das emissões, mas também à tendência de maior concentração do metal em peixes, humanos e outros organismos, observada ao longo dos últimos 20 anos. O fenômeno é atribuído à alteração do uso do solo, particularmente na conversão de florestas para extração de madeira e para a agropecuária.

A exposição humana ao mercúrio se dá principalmente pela ingestão de pescados. Assim, os riscos à saúde são ainda maiores em populações ribeirinhas da Amazônia e em pescadores artesanais do litoral brasileiro. O Grupo de Trabalho da ABC recomenda que sejam subsidiadas medidas para melhorar a segurança alimentar dessas populações, com um esforço continuado de monitoramento da contaminação de peixes e outros produtos da aquicultura.

O grupo defende que o Brasil volte a ser participante ativo na Convenção de Minamata, que traz uma série de medidas de controle sobre o uso do mercúrio em todo o mundo. O tratado internacional foi firmado em 2013 e tem por objetivo proteger o meio ambiente dos efeitos adversos do metal. O texto ressalta que o Brasil chegou a sediar a Conferência sobre Mercúrio como Contaminante Global, em 1999, mas que as iniciativas do país no âmbito multilateral vêm se reduzindo drasticamente nos últimos anos.

Outras sugestões presentes no documento são a atualização dos inventários de emissões de mercúrio, a substituição de produtos que contêm o metal por alternativas e ainda o desenvolvimento e a implementação de tecnologias voltadas à redução de emissões de fontes incidentais de mercúrio. Por fim, a ABC se compromete a realizar reuniões regionais, nacionais e internacionais, identificando gargalos e propondo mais soluções.

México encontra agrotóxicos em sangue de crianças após décadas de desastre ambiental

pesticidas-Salamanca-996x567Desde o fechamento da unidade industrial, o governo federal investiu mais de 21 milhões de pesos mexicanos (pouco mais de US$ 1 milhão hoje) no Plano Salamanca para remediar os danos. No entanto, seus objetivos permaneceram inacabados. Crédito da imagem: Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais do México.

Embora na maioria das amostras (solo e sangue) analisadas no estudo , os níveis de agrotóxicos foram observados abaixo do limite de detecção e a dose estimada de exposição diária (calculada de acordo com a concentração de diclorodifeniltricloroetano no solo) não ultrapassou o nocivo, alertam pesquisadores que décadas depois os contaminantes persistem no meio ambiente e nas pessoas, mesmo aquelas que não foram diretamente expostas.

A fonte, segundo o estudo publicado na revista Environmental Geochemistry and Health, seria a unidade industrial da empresa Tekchem SAB de CV que fechou em 2007 por pressão de ativistas ambientais que exigiam a reparação dos danos causados ​​por um vazamento químico que ocorreu em 11 de setembro de 2000.

Os efeitos dessas toxinas no neurodesenvolvimento infantil é um problema que afeta vários países da América Latina e Caribe. Diana Olivia Rocha, pesquisadora da Universidade de Guanajuato e uma das autoras do estudo, disse ao SciDev.Net que em outras regiões do México onde foi registrada a presença de agrotóxicos organoclorados, “o DDT foi usado mais para o controle de vetores como a malária”, mas na realidade na zona de Salamanca esta doença “não está presente”.

Por esse motivo, os autores estimam que a fonte mais provável dos contaminantes são os restos que permaneceram após o fechamento da planta industrial da Tekchem. O toxicologista José Dórea, que não participou da investigação, explicou ao SciDev.Net que a exposição de menores a esse tipo de substância pode afetar seu neurodesenvolvimento e causar atrasos no aprendizado. “Meninos e meninas são a população mais afetada”, destaca.

“O DDT foi usado mais para o controle de vetores como a malária, [mas na realidade na área de Salamanca esta doença] não está presente”

Diana Olivia Rocha, pesquisadora da Universidade de Guanajuato

Agrotóxicos como o DDT são de especial relevância por terem a característica de aderir ao tecido adiposo dos seres vivos. Além disso, esses tipos de substâncias são considerados Poluentes Orgânicos Persistentes, ou seja, possuem uma vida útil muito longa.

Devido a isso, mesmo em países como México e Brasil onde seu uso já foi proibido, esse contaminante pode continuar sua distribuição pela cadeia alimentar.

Além disso, se uma mulher que foi exposta a esses tipos de contaminantes engravidar, seu bebê também poderá receber esses agrotóxicos através do leite materno.

De acordo com uma compilação publicada por Dórea, essa vulnerabilidade para bebês foi documentada no México, Brasil, Nicarágua, Equador e Guatemala. “Por isso falamos de um legado de agrotóxicos organoclorados”, destaca o especialista.

Sobre o desastre ambiental ocorrido em Salamanca, a professora e ativista ambiental Maura Alicia Vázquez Figueroa disse ao SciDev.Net que “a vida mudou para muitas pessoas como resultado dessa contingência ambiental”. Ela estava em Salamanca quando ocorreu o vazamento e lembra que a primeira coisa que notou foi um aroma penetrante.

“O cheiro é semelhante ao alho, mas podre e bastante concentrado.” A professora foi uma das primeiras a documentar o ocorrido a pedido da Frente Zapatista de Libertação Nacional, da qual ela era integrante. Junto com o marido, ela foi aos bairros adjacentes à unidade industrial para coletar seus depoimentos em vídeo.

À frente da associação civil “Humanos por Amor à Mãe Terra”, Vázquez e seus colegas começaram a organizar os Toxitours e o Toxifest, onde fizeram um tour pela área afetada como forma de protesto.

Suas ações chamaram a atenção da imprensa e ela acredita que foi uma das principais razões pelas quais a Tekchem foi fechada. A professora destaca a reportagem publicada pela jornalista Marcela Turati no jornal Excelsior, onde caracteriza Salamanca como a “cidade do veneno”.

Após o fechamento da unidade industrial, o governo do ex-presidente Enrique Peña Nieto investiu mais de 21 milhões de pesos mexicanos (pouco mais de US$ 1 milhão hoje) no Plano Salamanca para remediar os danos. No entanto, seus objetivos permaneceram inacabados.

Em 22 de novembro de 2021, por decreto presidencial do presidente Andrés Manuel López Obrador, a remediação continuou. De acordo com os pedidos de informação consultados, como resultado do decreto, mais de 31 milhões de pesos mexicanos (cerca de US$ 1,5 milhão) foram alocados para esse fim.

Este artigo originalmente escrito em espanhol foi produzido pela edição da América Latina do  SciDev.Net e publicado [Aqui!].