Desmatamento Recorde e Enfraquecimento do Marco Legal no Brasil Destacam a Necessidade de Nova Lei de Importação da UE

desmatamento soja

Os dados recentemente divulgados do PRODES para 2021 mostram um desmatamento de 13.235 km 2 (1.323.500 hectares) na Amazônia Legal, o maior número desde 2008 e um aumento de 22 por cento em relação ao ano anterior (as taxas anuais cobrem um período de agosto do ano anterior a julho do ano em curso). Desde o início de 2019, quando o atual presidente, Jair Bolsonaro, assumiu o cargo, os dados mostram um aumento acumulado de 56,9% na taxa anual de desmatamento no bioma Amazônia. Para o bioma Cerrado, os números ainda não foram divulgados.

As taxas anuais de desmatamento do PRODES para a Amazônia Legal são normalmente divulgadas a cada ano no início de novembro. Em anos anteriores, os números do PRODES foram divulgados antes ou durante a conferência climática COP para fornecer transparência sobre as emissões de carbono do desmatamento no Brasil. Segundo o sindicato do INPE, a análise do PRODES para este ano foi concluída dentro do prazo, em meados de outubro. No entanto, a imprensa brasileira diz que o governo atrasou intencionalmente o lançamento para evitar que o Brasil recebesse críticas durante a COP26, que terminou em 12 de novembro. Durante a COP26, o sistema de rastreamento mensal do desmatamento do DETERrelataram 87.700 ha desmatados em outubro de 2021 no bioma Amazônia. Este número representa um aumento de 5% em relação a outubro de 2020, atingindo o nível mais alto de desmatamento para qualquer outubro desde 2016. Outubro geralmente tem taxas mais baixas em comparação com outros meses, já que o período de desmatamento na Amazônia se concentra principalmente entre março e julho.

Figura 1. Alertas de desmatamento do DETER no bioma Amazônia outubro

O aumento significativo do desmatamento na Amazônia brasileira reflete o enfraquecimento do arcabouço legal e os fracos esforços de monitoramento e controle promovidos pelo atual governo nos últimos anos. Mesmo com altos índices de desmatamento, as multas ambientais na Amazônia caíram 93% desde o início de 2019, quando o atual governo assumiu. O alto desmatamento detectado pelo PRODES também lança dúvidas sobre as duas recentes promessas assinadas pelo Brasil durante a COP26: o Global Methane Pledge , que visa reduzir as emissões globais de metano em 30 por cento até 2030, e a Declaração de Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra , que visa “deter e reverter a perda florestal e a degradação da terra até 2030”.

A menos que haja uma mudança radical em relação à tendência atual, o recente acordo global para deter e reverter a perda de floresta até 2030, assinado por 141 países, pode ter o mesmo destino de outros acordos relativos ao desmatamento na Amazônia Legal Brasileira:

  • A Declaração de Aichi de 1993 prometeu reduzir pela metade a taxa de perda de floresta até 2020. Na Amazônia Legal, a taxa média de desmatamento entre 1994 e 2020 foi de 13.517 km 2 – uma redução de apenas 9 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 1993. A perda total de vegetação nativa nesse período foi de 364.975 km 2 , incluindo o recorde histórico de 29.059 km 2 em 1995, seguido pelo segundo ano com maior taxa de desmatamento em 2004, com 27.772 km 2 .
  • A Declaração de Nova York sobre Florestas de 2014 se comprometeu a reverter o desmatamento até 2030. A taxa de desmatamento anual da Amazônia Legal entre 2015-2021 foi em média de 8.971 km 2 , um aumento de 79 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 2014. A perda de vegetação nativa na Amazônia Legal nesse período totalizou 54.575 km 2 .
  • Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de 2015 se comprometeram a deter o desmatamento até 2020. A taxa média de desmatamento entre 2016-2020 foi de 8.671 km 2 , um aumento de 40 por cento em comparação com a taxa de desmatamento de 2015. No mesmo período, a perda acumulada de vegetação nativa totalizou 49.563 km 2 .

Em 17 de novembro de 2021, o parlamento da UE publicou um projeto de regulamentação da devida diligência de desmatamento zero da UE. As empresas que compram soja, carne bovina, café, cacau, madeira e óleo de palma e produtos derivados como couro, chocolate e móveis precisarão provar que os produtos não vêm de áreas desmatadas após dezembro de 2020. A implementação de tal regulamento seria um desafio a falta de rastreabilidade e transparência nas cadeias de suprimentos de commodities e aumenta a pressão, especialmente sobre o Brasil, para tomar ações concretas para combater o desmatamento. A produção de commodities no Brasil aumentou recentemente o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado após um período de declínio entre 2005-2012. Atualmente,

Empresas e financiadores podem enfrentar riscos financeiros por não se alinharem com o ambiente regulatório fora do Brasil ou quando continuarem a “se beneficiar” e acomodar a erosão da regulação e supervisão da Amazônia e do Cerrado no Brasil. Os planos de devida diligência da cadeia de abastecimento da UE também incluem as atividades globais de atividades baseadas na UE, como o abastecimento local de carne bovina brasileira do Carrefour. O não cumprimento por parte das empresas pode resultar em processos judiciais, multas, risco de acesso ao mercado, risco de ativos perdidos, risco de financiamento e risco de reputação. Os financiadores (bancos e investidores) vinculados a essas empresas podem perder um valor significativo de suas participações e enfrentar problemas no reembolso de empréstimos e títulos.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Extração ilegal de ouro no Rio Paraíba do Sul chama a atenção

As ações da Polícia Federal, Corpo de Bombeiros e Guarda Ambiental para combater a prática na região

Por Orcinei Trindade para o “Terceira via”
Balsa apreendida pela Polícia Federal em São Fidélis no dia 10 de novembro (Foto: Divulgação)

A prática criminosa de extração de ouro no Rio Paraíba do Sul preocupa autoridades policiais e ambientais em cidades próximas a Campos dos Goytacazes. Na mais recente operação da Polícia Federal, entre os municípios de São Fidélis e Cambuci, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão. Quatro balsas foram localizadas, porém ninguém foi preso. A PF não revela detalhes, mas quem vive na região diz que há medo de denunciar, imposto pela “lei do silêncio”. A utilização do mercúrio feita por garimpeiros afeta a fauna. Pescadores dizem que o garimpo clandestino de ouro acontece há mais de 30 anos. Segundo eles, houve um período com até 200 balsas operando na região.

 

Agente federal durante operação no Paraíba do Sul

No dia 10 de novembro, a Polícia Federal realizou a operação “Paraíba Dourado”, nos trechos do rio entre os municípios de São Fidélis e Cambuci. Participaram Corpo de Bombeiros, Marinha do Brasil e Polícia Civil. O objetivo era localizar quatro balsas utilizadas na atividade ilegal de garimpo. Foram apreendidos nelas equipamentos típicos da atividade de garimpagem e documentos de possíveis pessoas envolvidas nos fatos.  No local não foram localizadas pessoas responsáveis pela atividade ilícita. Questionada sobre esta operação e sobre o combate ao garimpo ilegal, a Polícia Federal disse apenas que “não divulga informações sobre eventual investigação em andamento”.

O subsecretário de Meio Ambiente de Campos dos Goytacazes, Renê Justen, diz estar atento ao que acontece na região. “O garimpo de ouro nos rios do Estado do Rio de Janeiro, especialmente no Paraíba do Sul, em São Fidélis, havia sido erradicado em 1988. No final da década havia cerca de 200 balsas operando. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente proibiu o garimpo de ouro nos rios do Estado do Rio de Janeiro. Quando ocorrem pequenas ações, elas são coibidas”, comenta.

 

Balsa encontrada pela Polícia Ambiental, no distrito de Batatal, Itaocara (Divulgação)

O combate ao garimpo ilegal de ouro também é feito por policiais militares. A Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que equipes do Comando de Polícia Ambiental realizam ações recorrentes junto à 6° Delegacia de Polícia Judiciária Militar, em operações de inteligência para coibir a extração irregular de minerais no Rio Paraíba do Sul. Na última operação, em outubro, as equipes localizaram uma balsa na região do Batatal, distrito da cidade de Itaocara. “Na balsa não havia operadores e ela não estava em funcionamento. O caso foi registrado na 135ª DP”,  diz a nota. Todas as ocorrências são encaminhadas para a Polícia Federal, responsável por investigar esse tipo de crime.

 

Balsa de garimpeiros clandestinos no Paraíba do Sul

Por nota, o Instituto Estadual do Ambiente informa que “não é atribuição do órgão ambiental estadual o licenciamento e a fiscalização de extração de ouro, mas da União; cabendo à Polícia Federal a fiscalização”. A Prefeitura de São Fidélis diz que crimes ambientais que não são de esfera federal são fiscalizados pela Polícia Florestal e pelo INEA, com ocorrências feitas diretamente na Delegacia de Polícia Civil da cidade.

 

Extração de areia em São Fidélis é licenciada para três empresas (Fotos Silvana Rust)

São Fidélis conta com três areais licenciados em funcionamento. Eles operam desde o distrito de Ernesto a Machado ao distrito de Pureza, no limite com Cambuci. Uma fonte que não quis se identificar, diz que “muitos mineradores clandestinos usam a prática legalizada de extração de areia para camuflar a retirada ilegal de ouro do leito do Paraíba”.

 

Balsa de garimpo em afluente do Paraíba do Sul

 A secretária de Desenvolvimento Ambiental de São Fidélis, Jadária Raposo, diz que o município vê com tremenda preocupação o garimpo ilegal e suas consequências.  

 

Secretária de Desenvolvimento Ambiental, Jadária Raposo

“O mercúrio usado para separar ouro de argila tem um grau de contaminação muito grande. Compromete a vida humana e toda a fauna. É um impacto terrível. Qualquer pessoa pode fazer denúncia. Toda parte de investigação é da Polícia Federal. A gente espera que consigam chegar a quem realmente faz essas ações ilegais. É preciso saber quem são os donos dessas balsas e parar com isso. O que existe legalmente é apenas autorização para extração de areia. Extração de ouro não é legalizada, acontece na clandestinidade”, cita.

 

Jacy Pinho, 75 anos: medo de comentar

Medos e danos

A reportagem esteve em um dos locais onde aconteceu a operação “Paraíba Dourado” com apreensão de balsas no último dia 10, em São Fidélis. Nos distritos de Pureza e Colônia há um afluente do Paraíba do Sul, o Rio Dois Rios. O acesso é difícil por uma estrada estreita e esburacada. A navegação nas águas da região é complicada pela existência de muitas pedras. O aposentado Jacy Pinho, de 75 anos, diz que é muito difícil comentar sobre garimpo ilegal. “A gente vê balsa no rio de vez em quando, mas não sabe de quem é. Todo mundo tem medo de comentar”, resume.

 

Marino Rocha vive no distrito de Ernesto Machado

O aposentado Marino Rocha, 65 anos, morador do distrito de Ernesto Machado, conta que ouve falar de garimpeiros que atuam no Paraíba do Sul, “mas ninguém sabe de onde são”. Uma fonte que não quis se identificar comentou que “há pessoas que dizem fazer extração de areia para tentar despistar curiosos e a fiscalização. Quando há uma operação na região, informantes avisam sobre a presença de policiais. Os garimpeiros fogem e não conseguem ser capturados”, afirma.

 

Sirley Ornelas preside a Colônia de Pescadores de São Fidélis

O presidente da Colônia de Pescadores de São Fidélis, Sirley Ornelas, diz que 500 pescadores de nove municípios da região são cadastrados na instituição que presta assistência sobre direitos e benefícios aos trabalhadores. Ele se diz preocupado com o garimpo ilegal e como isto afeta a pesca:

 

RJ-158 à margem do Rio Paraíba do Su.l em São Fidélis

“Devido aos crimes ambientais, a pesca é prejudicada. Tem ano com boa reprodução e cardume melhor. Porém, tudo indica que só há piora com esgotos jogados in natura no rio. Ficamos sabendo da última operação contra o garimpo. Os órgãos ambientais sabem do problema. Nunca vi deixar de ter balsa de garimpo aqui. No Rio Paraíba, em qualquer município tem balsa de garimpo operando. O problema é que acontece uma apreensão hoje e na outra semana já tem outra balsa trabalhando de novo. O pescador de São Fidélis é muito prejudicado. A gente já teve um período com mais de 150 balsas de garimpo no Paraíba. Houve muitas operações da Polícia Federal. Isso amenizou, mas ainda há balsas de garimpo. A preocupação nossa é com o mercúrio e com o que a gente não está vendo na água. Aparentemente, os peixes não têm apresentado alterações. Visualmente apresentam boa qualidade”.

 

Policial federal inspeciona balsa clandestina no Rio Paraíba do Sul

 

 

Agressão ambiental
Desde 1978, o ambientalista e professor Aristides Sofiatti atua no Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza. Ele observa a mineração ilegal que acontece na Amazônia e em São Fidélis, e vê o mercúrio como uma das ameaças.

 

Aristides Sofiatti

“O problema é que o mercúrio é um metal pesado em forma líquida, para melhor entendimento. Ele é extremamente prejudicial à saúde animal. No ser humano, causa problemas neurológicos. Assim, o minerador aspira o mercúrio evaporado. Ele mesmo é vítima do mercúrio. No ambiente, ele contamina peixes e outros organismos aquáticos que, ingeridos pelo ser humano, causam contaminação. A mineração em rios revolve o fundo e causa turbidez da água, destruindo o ambiente. Do ponto de vista social, a mineração de ouro geralmente está associada à ilegalidade: falta de licença para minerar, contrabando, violência, prostituição, drogas”, destaca Sofiatti.

De acordo com o geógrafo e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Marcos Pedlowski, a intensificação do garimpo ilegal no Brasil traz os piores resultados ao meio ambiente.

 

Marcos Pedlowski

“O garimpo descontrolado e ilegal não apenas remove áreas inteiras das calhas dos rios e de seus afluentes para a execução das atividades de garimpo, com isso aumentando as taxas de material particulado que são liberados nas águas, causando toda sorte de alteração ambiental”.

O pesquisador pondera sobre as atividades de mineração legalizadas no país:

“Apesar de ser uma atividade historicamente importante no Brasil, para ser economicamente viável a mineração acaba impactando grandes espaços, seja pela extração de um dado minério, mas principalmente pelo uso intensivo de água e a construção de locais de armazenagem que acabam se tornando gigantescos reservatórios de lixo químico. O rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho são apenas casos mais recentes de uma longa trajetória de danos ambientais e sociais causados pela mineração no Brasil, concluiu.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo jornal “Terceira Via”   [Aqui!].

Agrotóxicos na Europa: maioria de estudos de herbicidas dados aos reguladores da UE não são cientificamente ‘confiáveis’

herbicidesGarrafas de Roundup são vistas em uma loja de jardinagem em Lille, França. Fotografia: Philippe Huguen / AFP / Getty Images

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Apenas dois de um grupo de 11 estudos da indústria dados aos reguladores europeus em apoio à reaprovação do ingrediente principal do herbicida Roundup são cientificamente “confiáveis”, de acordo com uma nova análise de estudos apoiados por corporações sobre o glifosato químico.

O glifosato é o herbicida mais amplamente usado no mundo e não é apenas o ingrediente principal do herbicida Roundup, mas também em centenas de outros produtos. É amplamente utilizado por agricultores no cultivo de culturas alimentares comuns.

Em um relatório divulgado na sexta-feira, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Câncer da Universidade Médica de Viena, na Áustria, disseram que a revisão de um conjunto de estudos de segurança submetidos aos reguladores da União Europeia (UE) pela Bayer AG e uma coalizão de outras empresas químicas mostrou que a grande maioria não atendem aos padrões internacionais atuais de validade científica.

Enquanto dois dos estudos corporativos foram considerados confiáveis, seis foram considerados parcialmente confiáveis ​​e três não eram confiáveis, de acordo com o relatório.

Os estudos “confiáveis” foram de 2016 e 2020 e ambos foram patrocinados pela Monsanto , o detentor da patente original do glifosato e fabricante do Roundup. Aqueles considerados não confiáveis ​​foram feitos há mais de uma década: dois foram patrocinados pela antiga DuPont Co e um pela empresa de biotecnologia vegetal Verdia Inc.

Os estudos corporativos analisados ​​no relatório dizem respeito às propriedades genotóxicas do glifosato. As empresas afirmam que o glifosato não é genotóxico, o que significa que não causa danos ao DNA, um fator bem conhecido no desenvolvimento do câncer.

Mas Siegfried Knasmueller, o principal autor do relatório, disse ao The Guardian que não apenas a maioria dos estudos carece de qualidade, mas que a pesquisa da indústria não inclui novos e “provavelmente melhores testes para a detecção de carcinógenos genotóxicos”. Ele disse que há evidências em pesquisas publicadas de que o glifosato pode causar danos ao DNA em células hepáticas de origem humana.

Afirmou que embora vários estudos do setor estivessem “corretos do ponto de vista metodológico no momento em que foram realizados”, “não estão de acordo com a estratégia atual”.

Em julho, Knasmueller escreveu um relatório semelhante analisando 53 estudos com glifosato submetidos aos reguladores.

O novo relatório alegando falhas nos estudos corporativos do glifosato chega em um momento crítico, pois a Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) estão avaliando se renovam ou não a licença do glifosato na UE quando a aprovação atual expirar 15 de dezembro de 2022.

Em agosto, autoridades da França, Hungria, Holanda e Suécia avaliaram a questão da renovação com um relatório preliminar concluindo que o glifosato não é cancerígeno.

A ECHA e a EFSA permitiram que outras “partes interessadas” consultassem sobre a questão da renovação até 22 de novembro. A análise de Knasmueller, solicitada pelo grupo de defesa sem fins lucrativos SumOfUs, foi apresentada como parte dessa consulta.

Um porta-voz da ECHA recusou-se a comentar o relatório Knasmueller. A agência disse que iria “desenvolver sua opinião” sobre a classificação do glifosato até junho. Um porta-voz da EFSA disse que o relatório Knasmueller seria considerado juntamente com todos os outros comentários enviados como parte da consulta.

A Bayer, o registrante principal para o pedido de renovação europeu, também não fez comentários sobre o relatório.

Dois cientistas independentes questionados sobre o relatório de Knasmuller disseram que não é surpreendente que estudos feitos anos atrás possam não atender às diretrizes atuais, mas isso seria verdade tanto para estudos independentes quanto para estudos corporativos. Eles também disseram que tais estudos não deveriam ser necessariamente ignorados.

Nos últimos anos, tem havido um acalorado debate global sobre se os herbicidas de glifosato, como o Roundup, devem ou não ser restritos ou proibidos, porque algumas pesquisas científicas mostram que a exposição ao herbicida causa problemas de saúde.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde apontou vários estudos de pesquisa independentes ao concluir que havia fortes evidências de genotoxicidade com o herbicida e que o glifosato deveria ser considerado um provável carcinógeno humano .

A Bayer, que comprou o fabricante do Roundup Monsanto em 2018, nega que haja qualquer evidência válida de que os herbicidas causem câncer. Mas a empresa concordou em pagar cerca de US $ 14 bilhões para resolver litígios nos EUA movidos por mais de 100.000 usuários do Roundup, alegando que a exposição ao herbicida os levou a desenvolver linfoma não-Hodgkin. A Bayer também concordou em interromper a venda de glifosato aos consumidores norte-americanos até 2023.

O relatório de Knasmueller e seu colega Armen Nersesyan ressalta as crescentes preocupações sobre uma história de dependência regulatória das corporações para fornecer estudos de segurança sobre os produtos químicos que estão fabricando e vendendo. Um novo sistema deve ser desenvolvido para eliminar o preconceito corporativo que poderia influenciar os resultados, dizem muitos cientistas.

“O governo não deve depender de estudos do setor”, disse Peter Infante, ex-epidemiologista sênior e diretor do escritório de identificação e classificação de carcinógenos da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos. “Se a indústria quiser fazer estudos, ela deve colocar o dinheiro em um pool e distribuí-lo a cientistas independentes que não tenham conflito de interesses. É assim que deve ser. ”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Repressão parcial e tardia ao garimpo ilegal no Rio Madeira é o retrato mais fiel do governo Bolsonaro

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Força tarefa conjunta está queimando balsas e dragas usadas no garimpo ilegal de ouro no Rio Madeira

Ao longo da semana passada o Brasil e o mundo assistiram à formação de uma monumental formação de de dragas e balsas que reviravam o leito do Rio Madeira (um dos mais importantes tributários do Rio Amazonas) em busca de ouro, usando técnicas totalmente nocivas ao ambiente e à saúde humana. A mídia corporativa brasileira, mais uma vez, foi superada na cobertura desse episódio pelas redes sociais e por veículos da mídia internacional (especialmente o jornal inglês “The Guardian”). Se não fosse por essa ampla cobertura dos fatos que ocorriam no Madeira é bem provável que a “fofoca” formada por centenas de garimpeiros ainda estivesse lá usando técnicas rudimentais e altamente poluentes (ver vídeo abaixo).

Mas depois que a “fofoca” se tornou conhecida mundialmente, o governo federal (cujo presidente é abertamente pró-garimpeiros) está realizando uma tardia e parcial repressão aos garimpeiros ilegais, e as informações já circulando dão conta que ao menos 30 dragas e 69 balsas já foram destruídas por uma combinação de forças da Polícia Federal e do Ibama (ver vídeo abaixo).

A repressão tardia e parcial é uma marca registrada de diferentes administrações federais, mas ganhou marcas mais explícitas no governo Bolsonaro, na medida em que seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que vem a ser o coordenador do chamado Conselho da Amazônia Legal, ficou claramente postergando o início do processo repressivo, permitindo a fuga da maioria dos garimpeiros que agiam ao arrepio da lei no interior do Rio Madeira.

É importante que fique clara que a ação dos garimpeiros de ouro não é fruto apenas de um grupo de trabalhadores pobres que decidem partir para ações ilegais em busca de sustento financeiro para si e para suas famílias. A garimpagem ilegal de ouro na Amazônia é parte de uma ampla indústria clandestina que é capaz de movimentar maquinários, toneladas de mercúrio (um metal pesado que causa graves danos ambientais e à saúde humana). Essa indústria é controlada pelos mesmos atores que se beneficiam do desmatamento ilegal em terras públicas e que movimentam grandes volumes de recursos financeiros, sendo ainda um elo clandestino entre a exploração insustentável da Amazônia e grandes agentes da economia globalizada.

Por isso, não há como cair no conto da pirita (o ouro dos tolos) de que a repressão parcial e tardia que se faz momentaneamente vá dar conta do grave problema que o garimpo ilegal representa para a Amazônia.

Carga perigosa: o degelo de solos permafrost na região do Himalaia intensifica os processos de erosão

himalaiaÁgua derretida e remanescentes da geleira Gangjiaquba aterrissam no Yangtze. Foto: Yinjun Zhou

Por Thomas Berger para o Neues Deutschland 

O sistema duplo de rios do Ganges e Brahmaputra, que serpenteia pelo Nepal e norte da Índia até Bangladesh, o poderoso Mekong com seus inúmeros países que fazem fronteira com a China no sudeste da Ásia ao sul do Vietnã, dentro da China o rio Amarelo (Huang He) e o Yangtze e o Tarim é o maior rio da Ásia Central, mais o Indo, no oeste – há vários cursos de água poderosos que se originam do extenso Himalaia. Por centenas, até milhares de anos, as pessoas se adaptaram à quantidade de água que esses rios transportam, muitas vezes com estações diferentes. Mas não se trata apenas de água pura: sedimentos dos mais variados tipos também seguem seu caminho – alguns deles apenas do tamanho de partículas de poeira (a chamada carga suspensa) até pequenos seixos, outros podem ser descritos como escombros. Às vezes, eles cobrem vários milhares de quilômetros: a Baía de Bengala, para a qual fluem os deltas do Ganges e do Brahmaputra, é considerada o maior depósito de sedimentos do mundo. Este material tem como ponto de partida o “teto do mundo”. E embora a carga original nas terras altas do Tibete seja relativamente idêntica em tamanho de grão,

Um estudo que foi publicado na revista científica “Science” (DOI: 10.1126 / science.abi9649) tem como alvo o aumento notável do escoamento de sedimentos. Estes já estão aumentando consideravelmente na meta de 1,5 grau, que também está sendo definida como o nível mais alto na conferência climática mundial COP-26 que ocorreu em Glasgow, Escócia. Pode ser ainda mais perigoso se o aumento da temperatura no final do século estiver próximo de 3 graus. Os cientistas da Universidade Nacional de Cingapura, da Universidade de Colorado Boulder, da Universidade de Potsdam e do Instituto de Pesquisa Científica do Rio Changjiang estão soando o alarme com as descobertas coletadas.  

Atualmente, de acordo com os dados do estudo, são transportados cerca de 1,94 gigatoneladas de sedimentos por ano para jusante. A faixa de flutuação relativamente alta deste valor (± 0,8 gigatoneladas) ilustra como é difícil resumir o fenômeno em números razoavelmente sólidos. No entanto, a tendência ameaçadora é clara: no cenário de 3 graus, as previsões chegam a um aumento para 5,18 gigatoneladas por ano, ou seja, mais de duas vezes e meia. Mesmo os leigos podem entender que isso não pode ficar sem consequências graves.

Descongelamentos mais frequentes devido às mudanças climáticas causa o aumento de distúrbios no solo permafrost e aumento da erosão. Resultado: as massas de água lavam cada vez mais sedimentos das regiões montanhosas. Depois de avaliar os dados dos últimos 60 anos, a equipe chegou à conclusão de que um aquecimento de 1 grau Celsius resulta em um escoamento de sedimentos 32 % maior (± 10%). Por outro lado, porém, quanto mais intacta a cobertura glaciar de uma área de origem, menor será sua suscetibilidade aos processos de erosão. Além disso, não é de forma alguma apenas material inofensivo que está cada vez mais sendo lavado da área central das altas montanhas: Fósforo e metais pesados ​​como cromo, arsênico ou chumbo podem colocar em risco a qualidade da água mais a jusante – um risco para humanos, bem como a agricultura e os ecossistemas aquáticos, é avisado.

Embora dependa da composição específica, em outros casos, o principal problema é  o aumento da massa dos sedimentos. Eles são depositados em reservatórios, por exemplo, reduzindo sua capacidade de armazenamento. Como o fundo devido aos depósitos sobe muito mais rápido do que o normal e planejado durante a construção, a quantidade de água armazenada diminui ao contrário. “O potencial hidrelétrico no Nepal e no Butão atualmente excede seu consumo de eletricidade”, diz o estudo – que pode mudar rapidamente com os depósitos. Isso já pode ser observado com mais clareza do que no sul do Himalaia, no rio Yangtze, a região mais importante da China para o uso de energia hidrelétrica. »O aumento do escoamento de sedimentos terá um efeito negativo nos projetos hidrelétricos existentes e planejados,

Até agora pouco explorado e, portanto, um tópico importante para pesquisas futuras, é o aumento da liberação de carbono orgânico dos solos permafrost nas altas montanhas. Supondo uma parcela de um a três por cento carregada na água, essa quantidade de material poderia somar 50 a 150 megatons por ano em 2050 abaixo do aquecimento máximo observado. E com a deposição de cada vez mais sedimentos nos vales dos rios, havia a ameaça de mais quebra de margens e, mais a jusante, inundações muito mais incalculáveis, segundo outro sinal de alarme.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Fundação Amazônia Sustentável repudia garimpo no Rio Madeira

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A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é contra quaisquer ações ilegais e que promovam degradação ambiental, má gestão dos recursos naturais ou impactos sociais negativos. As atividades de garimpo ocorridas no Rio Madeira, que se intensificaram após a chegada de balsas e dragas para extração de ouro, geram danos à saúde e ameaçam os territórios e modos de vida das populações ribeirinhas e indígenas. Além disso, são criminosas e devem ser devidamente combatidas pelo governo federal.

É notório que toda atividade extrativista gera impactos potencialmente negativos. Mais de 10 milhões de pessoas vivem e dependem diretamente da floresta e, por vezes, também são cooptadas a trabalhar em atividades ilegais por falta de alternativas viáveis. A FAS, portanto, defende que é preciso investir em ciência e tecnologia para avaliar objetivamente a aplicação de alternativas econômicas de desenvolvimento sustentável. É necessário oferecer incentivos positivos para que as populações amazônicas prosperem dignamente, mantendo a floresta em pé e os rios limpos.

Até 2021, a FAS investiu R$ 500 milhões em ações voltadas para projetos relacionados à bioeconomia, empreendedorismo, inclusão social, educação relevante, monitoramento ambiental e outros temas alinhados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Como resultado, o desmatamento nas áreas atendidas pela FAS apresentou queda de 53% durante o período de 2009 a 2020, ao mesmo tempo em que a renda média familiar ribeirinha aumentou em 202% (2008-2019).

Balsas de garimpo ilegal se deslocam em retirada no rio Madeira

Anúncio de operação liderada pela Polícia Federal, Exército e Força Nacional alerta e dispersa balsas garimpeiras na região de Autazes (AM)

balsas madeira 1Balsas de garimpo ilegal se dispersando no rio Madeira, no Amazonas

São Paulo, 26 de novembro de 2021 – Na última terça-feira, um sobrevoo do Greenpeace Brasil flagrou centenas de balsas de garimpo ilegal alocadas no rio Madeira, em Autazes (AM). Após intensa repercussão, o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, anunciaram a preparação de uma ação contra a atividade dentro dos próximos dias, envolvendo a Polícia Federal, o Exército e a Força Nacional. Imagens captadas durante novo sobrevoo realizado pelo Greenpeace Brasil nesta sexta-feira (26) mostram que ao menos metade da flotilha se dividiu em pequenos grupos entre os municípios de Autazes e Borba. A dispersão tem o claro objetivo de dificultar a operação do governo que, todavia, ainda não foi iniciada.

Veja aqui as imagens capturadas no sobrevoo em 26/11/2021.

O anúncio da operação por parte do governo aconteceu sem que houvesse uma ação organizada, dando aos infratores tempo suficiente para evitar o flagrante do evidente crime ambiental. A fuga desfez as flotilhas de balsas que estavam alojadas a cerca de duas semanas no trecho do rio Madeira localizado a 110 quilômetros de Manaus.

Ao que tudo indica, as balsas deverão seguir seu destino sem serem incomodadas pelas autoridades e continuarão a degradar um dos rios mais importantes da bacia amazônica, tal como vinham fazendo há pelo menos duas semanas”, declara Danicley Aguiar, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

O crescente aumento do garimpo na região amazônica escancara ainda mais a urgência do fortalecimento de ações de fiscalização e de inteligência, ambas necessárias para que a rede de financiamento dessa atividade predatória tenha um fim.

Resta agora saber se o governo Bolsonaro irá replanejar sua operação de modo a flagrar as balsas em seu destino final, ou se suspenderá a execução prometida. “Se deixar o dito pelo não dito, Bolsonaro mais uma vez enviará ao mundo a mensagem de que a ‘economia da destruição’ seguirá no centro de sua estratégia de desenvolvimento, aprofundando o isolamento do Brasil na comunidade internacional”, finaliza Danicley.

Pós-Graduação brasileira sob ataque: parlamentares e entidades divulgam carta aberta em defesa da avaliação da qualidade da pós-graduação da Capes

“Os signatários e signatárias desta carta vêm expressar a defesa das condições necessárias à continuidade qualificada da oferta da pós-graduação no Brasil, ao tempo em que se coloca em consonância com esforços para sua consolidação”, afirmam em documento

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Em carta aberta divulgada nesta sexta-feira (26), parlamentares, na sua maioria da Comissão de Educação, e entidades acadêmicas e científicas, entre elas a SBPC, se manifestam em defesa da avaliação da qualidade da pós-graduação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Essa manifestação acontece após audiência pública e reunião com a presidente da Capes. Para subscrever a carta, seja como associação ou como pesquisador/a, acesse o formulário de adesão em https://forms.gle/UQGa2Hf98zFc6hGY9

Veja o documento abaixo:

CARTA ABERTA EM DEFESA DA AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA PÓS-GRADUAÇÃO PELA COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (CAPES)

A comunidade científica brasileira acompanha atônita a situação na qual se encontram as políticas de educação, ciência e tecnologia. Não bastasse o cumulativo processo de desfinanciamento com redução de recursos de toda ordem, notadamente o fomento à pesquisa científica, chega-se em tempos recentes ao desmonte do conjunto de políticas, instâncias e agências que mobilizam e executam a própria política pública nacional, como no caso do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)

A política de indução da pós-graduação historicamente tem amparado o financiamento e, portanto, a sua existência nos processos avaliativos internacionalmente reconhecidos, operados pela Capes. Ao longo dos últimos 70 anos, a avaliação realizada pela Capes impulsionou os cursos de pós-graduação do país aos elevados patamares atuais, representando uma forte Política de Estado comprometida com a consolidação de bases institucionais adequadas para a formação de pesquisadores e pesquisadoras no Brasil. Recentemente, essa política vinha inclusive enfrentando fortes desigualdades regionais historicamente presentes em diferentes áreas do conhecimento, fortalecendo o direito mais equânime ao acesso ao ensino pós-graduado de qualidade de maneira republicana.

A ação indutora da Capes por meio da avaliação permite manter credenciados aqueles cursos que atingem os altos critérios de qualidade definidos a partir de um mecanismo que incorpora grande parcela da comunidade científica em dinâmica/metodologia que inclui consulta, elaboração e constante alimentação dos processos e instrumentos pelos sujeitos que vivenciam a formação de mestres e doutores nas diferentes áreas existentes.

Neste ano de 2021, em que a Capes realiza essa avaliação, questões externas e resultantes de contextos políticos e históricos anteriores acabaram por subsidiar ações do Ministério Público Federal e da Justiça Federal que vieram a judicializar a avaliação, sem antes ouvir as partes mais sensíveis ao processo de avaliação, em especial aqueles que compõem os Programas de Pós-graduação no país. Uma estranha situação, já que essas ações pretendem defender os direitos desses mesmos Programas.

A avaliação da pós-graduação pela Capes se veste de importância singular para os PPG na medida em que a avaliação por pares, realizada pelos pareceristas Ad Hoc e os Conselho Técnico Científico (CTC), resulta num relatório externo e complementar à autoavaliação realizada no âmbito de cada PPG, em suas instituições. Com isso, os PPG redefinem seus planejamentos estratégicos e promovem as melhorias que são necessárias para atender ainda mais às demandas da sociedade por formação pós-graduada. Assim, os PPG estão à espera da divulgação dos resultados da avaliação para tomarem decisões internas de extrema relevância.

Obstar abruptamente a avaliação da pós-graduação neste ponto do processo não serve para seu aprimoramento, afetando especialmente os PPG menos consolidados e apoiados. A ciência de ponta no Brasil se faz em instituições sérias e comprometidas, onde estão os pesquisadores e pesquisadoras de grande dedicação à atividade acadêmica e científica, respeitados em suas áreas. A Capes, neste momento, está sendo impedida de refletir a própria qualidade da pós-graduação no Brasil e devolver aos pesquisadores e instituições o resultado da avaliação por pares. Isso não interessa à comunidade científica, muito menos aos brasileiros e brasileiras.

É salutar destacar que a Coordenação de cada Área na Capes e o CTC realizaram, durante o quadriênio de 2017-2020 e também em 2021, quando do fechamento dos relatórios finais, vários eventos de formação (seminários, webinários, palestras, reuniões) presenciais e remotas, ocasiões em que foram explicitados todos os critérios que compõem a ficha de avaliação, conforme respectivo Documento de Área. Especialmente foram realizadas na sede da Capes os chamados Seminário de Meio Termo, quando foram apresentadas as avaliações parciais, as quais cumpriram importante função de revelar a situação de cada PPG referente à primeira metade do quadriênio e, ao mesmo tempo, indicar potenciais mudanças que cada PPG precisaria proceder ao longo do restante do tempo do período de avaliação em tela (2017-2020). Nesse sentido, há que se registrar que o processo, apesar de extenuante, também foi muito formativo. Os coordenadores de PPG de todas as Áreas tiveram muitas oportunidades para conhecer o processo, tirar dúvidas relativas à concepção dos indicadores, quesitos e itens.

Os signatários e signatárias desta carta vêm expressar a defesa das condições necessárias à continuidade qualificada da oferta da pós-graduação no Brasil, ao tempo em que se coloca em consonância com esforços para sua consolidação. Além disso, defendemos a continuidade da avaliação referente ao quadriênio 2017-2020, cujos relatórios foram duramente produzidos pelos PPG e entregues à Capes, por meio da Plataforma Sucupira, nos prazos definidos em cronograma amplamente divulgado. Defendemos a necessidade de prorrogação dos mandatos dos coordenadores eleitos para condução da avaliação quadrienal de 2017-2020, pois é essencial que aqueles que estiveram à frente do processo ao longo dos quatro anos, conduzam sua conclusão. Defendemos, ainda, a definição do Plano Nacional de Pós-Graduação para 2021-2030 bem como a organização do quadriênio atual, com a construção e publicação das regras/normas para o tempo presente e não para o tempo passado.

Estamos certos de que a comunidade científica, toda a sociedade brasileira, bem como seus representantes não permitirão tamanho retrocesso à pesquisa e ciência no Brasil. Contamos com vocês. Ninguém solta a mão da Ciência! Ninguém solta a mão da Educação!

SÃO SIGNITÁRIOS DESTA CARTA

Associação Acadêmica de Propriedade Intelectual – API

Associação Brasileira da Rede Unida

Associação Brasileira de Alfabetização – Abalf

Associação Brasileira de Antropologia – ABA

Associação Brasileira de Cerâmicas – ABCeram

Associação Brasileira de Ciência política – ABCP

Associação Brasileira de Enfermagem – ABEn

Associação Brasileira de Engenharia Química – ABEQ

Associação Brasileira de Ensino de Biologia – SBEnBio

Associação Brasileira de Estatística – ABE

Associação Brasileira de Linguística – ABRALIN

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências – ABRAPEC

Associação Brasileira de Polímeros – ABPol

Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO

Associação Nacional de História – ANPUH

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia – ANPEPP

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação – ANCIB

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação- ANPEd

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação Interdisciplinar em Sociais e

Humanidades – Aninter SH

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade – ANPPAS

Associação Nacional de Pós-Graduandas/os – ANPG

Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação – COMPOS

Deputada Federal Alice Portugal

Deputada Federal Érika Kokay

Deputada Federal Lídice da Mata

Deputada Federal Maria do Rosário

Deputada Federal Natália Bonavides

Deputada Federal Professora Dorinha Seabra

Deputada Federal Professora Rosa Neide

Deputada Federal Waldenor Pereira

Deputado Federal Alencar Santana

Deputado Federal Alexandre Padilha

Deputado Federal Célio Moura

Deputado Federal Helder Salomão

Deputado Federal Idilvan Alencar

Deputado Federal Ivan Valente

Deputado Federal Maria do Rosário

Deputado Federal Pedro Uczai

Deputado Federal Reginaldo Lopes

Deputado Federal Rogério Correia

Fórum das Instituições Públicas de Ensino Superior de Minas Gerais – FORIPES

Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do PARFOR – FORPARFOR Nacional

Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do PIBID e do Residência Pedagógica – FORPIBID-RP

Fórum Nacional de Pró-reitores de Pesquisa e Pós-graduação das Instituições de Ensino Superior Brasileiras – FOPROP

Instituto Cultiva

Observatório do Conhecimento

Senador Humberto Costa

Sociedade Brasileira de Automática – SBA

Sociedade Brasileira de Computação – SBC

Sociedade Brasileira de Educação Matemática – SBEM

Sociedade Brasileira de Ensino de Química SBEnQ

Sociedade Brasileira de Eletromagnetismo – SBMag

Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional – SBMAC

Sociedade Brasileira de Microeletrônica – SBMICRO

Sociedade Brasileira de Micro-ondas e Optoeletronica – SBMO

Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais – SBPMat

Sociedade Brasileira de Química – SBQ

Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS

Sociedade Brasileira de Telecomunicações – SBrT

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

União Nacional dos Estudantes – UNE

Veja a nota em PDF.

blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da Ciência da SBPC [Aqui!].

Oitenta artigos científicos de instituição indiana são identificados como potencialmente fraudulentos

Os artigos foram identificados por um comentarista anônimo na plataforma online PubPeer, onde os cientistas podem levantar questões sobre artigos de pesquisa que já foram revisados ​​por pares e publicados.

Imagem representativa |  Sede DRDO em Delhi |  Commons

Imagem representativa | Sede DRDO em Delhi | Commons

Por Mohana Basu para o “The Print”

Nova Delhi: Pelo menos 80 artigos científicos de laboratórios afiliados ou trabalhando em colaboração com a instituição indiana Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa (DRDO) foram sinalizados por indivíduos não identificados por supostamente transportarem imagens alteradas ou manipuladas digitalmente, levantando questões sobre a integridade da pesquisa entre cientistas do governo.

Os artigos foram identificados na plataforma online PubPeer, onde os cientistas podem levantar questões sobre artigos de pesquisa que já foram revisados ​​por pares e publicados.

Enquanto os cientistas do DRDO confirmaram que as preocupações serão analisadas, outro cientista cujo trabalho foi sinalizado por problemas semelhantes relacionados à imagem, disse que ele e sua equipe estavam enfrentando desafios técnicos para acessar arquivos de dados brutos usados ​​no artigo, uma vez que datam de vários anos, e desde então o software usado no computador utilizado na pesquisa foi atualizado.

Embora tenha confirmado que as alegações serão investigadas assim que conseguirem acessar a imagem bruta, o referido cientista insistiu que o erro, se houver, foi mínimo e não alteraria a conclusão do artigo.

Ao longo dos anos, houve numerosos casos de avaliação por pares que não conseguiram detectar casos de má conduta de pesquisa. O incidente maisrecenteveio à tona no Centro Nacional de Ciências Biológicas de Bengaluru no ano passado, onde um artigo de pesquisa revisado por pares revelou ter imagens alteradas digitalmente, levando a uma conclusão falsa. O papel foi então recolhido.

Alegações de duplicação de imagens, alterações digitais

Nas últimas duas semanas, pelo menos 80 artigos de pesquisa, alguns datando de 2007, foram sinalizados por um comentarista anônimo “Actinopolyspora Biskrensis” no PubPeer por questões relacionadas a imagens.

O comentarista, que também atende pelo nome de ‘Cheshire’ no Twitter, tem trabalhado ativamente para sinalizar tais questões em jornais publicados em todo o mundo.

Por exemplo, um trabalho de pesquisa publicadoem abril deste ano pelo Instituto de Medicina Nuclear e Ciências Aliadas do DRDO tem três conjuntos de imagens que, de acordo com o comentador referido acima, parecemestar duplicados ou parcialmente duplicados, com uma alteração na ampliação.

Uma vez que todas as imagens pertencem a experimentos diferentes, não deve haver imagem que se repita.

As imagens duplicadas.  |  Por arranjo especial
As imagens duplicadas. | Por arranjo especial

O The Print chegou a Amit Tyagi, autor correspondente do artigo de pesquisa, por e-mail em 15 de novembro, mas não recebeu resposta até a publicação deste relatório.

Da mesma forma, em umartigo de 2015 , a imagem a seguir foi sinalizada porque parece ter seções com características idênticas e repetidas, que não deveriam aparecer em uma imagem que mostre células.

Imagem com características idênticas.  |  Por arranjo especial
Imagem com características idênticas. | Por arranjo especial

O The Print se comunicou como o autor correspondente do estudo, Gurudutta Gangenahalli, também pesquisador do Instituto de Medicina Nuclear e Ciências Aliadas, por e-mail em 16 de novembro, mas não recebeu resposta até o momento da publicação deste relatório.

Até cinco artigos em que Gangenahalli é coautor foram identificados por problemas relacionados a imagens.

Gangenahalli não é o único pesquisador, no entanto, que tem vários artigos sinalizados. Pelo menos 20 artigos em co-autoria do Dr. Shashi Bala Singh, atualmente diretor do Instituto Nacional de Educação e Pesquisa Farmacêutica (NIPER) em Hyderabad, foramsinalizados no site. The Print  entrou em contato com Singh por e-mail em 12 de novembro, mas não obteve resposta. Em 17 de novembro, ela respondeu a uma ligação do The Print para comentar e disse que voltaria, mas não o fez. Os e-mails e ligações subsequentes para ela ficaram sem resposta até o momento da publicação deste relatório.

Além disso, Cheshire apontou em um tópico do Twitter que uma imagem experimental foi reutilizada em trabalhos de pesquisa ao longo de vários anos. Isso é incomum porque cada artigo de pesquisa deve, idealmente, ter conjuntos completamente diferentes de imagens experimentais. Se um grupo está reutilizando uma imagem antiga em seu novo trabalho de pesquisa, a equipe precisa mencionar isso.

Embora todos os artigos sinalizados incluam pesquisadores do DRDO como autores, há vários em que o trabalho experimental foi realizado por instituições colaboradoras.

Por exemplo, um artigo publicadoem outubro de 2020 tem a seguinte imagem, que dá sinais claros de ter sido editado digitalmente.

Imagem contendo sinais de edição digital.  |  Por arranjo especial
Imagem contendo sinais de edição digital. | Por arranjo especial

VR Panse, um professor assistente no Late Bhaskarrao Shingane Arts, Prof. Narayanrao Gawande Science e Ashalata Gawande Commerce College em Maharashtra, que foi um dos autores deste artigo, disse ao ThePrint que a equipe solicitou que a revista retirasse este artigo após preocupações foram levantadas no PubPeer.

Panse acrescentou que o trabalho experimental foi feito em seu laboratório por um aluno.

“Assim que fui informado disso, repreendi o aluno e escrevi à revista para retirar o artigo. Também foi meu erro não verificar as imagens pessoalmente ”, disse ele.

“O autor do DRDO não teve contribuição neste artigo. Melhoramos nossas chances de conseguir fundos de organizações governamentais se mostrarmos algum trabalho colaborativo (com instituições governamentais), por isso a pessoa foi incluída no jornal ”, disse ele ao The Print.

Má conduta científica ou erro humano?

Nem todos os problemas sinalizados podem ser evidências de má conduta científica. Alguns podem ter resultado de um erro humano honesto de ter carregado a mesma imagem duas vezes, disse Cheshire.

No entanto, Elizabeth Bik, uma microbiologista holandesa conhecida por seu trabalho na detecção de manipulação de imagens em trabalhos de pesquisa, disse ao The Print que muito do que foi sinalizado no PubPeer não pode ser explicado como um erro honesto.

Em uma postagem no blog de 2019 , Bik explicou que existem três tipos de duplicações de imagens que podem ser detectadas em trabalhos de pesquisa.

A primeira categoria, onde duas imagens parecem idênticas, pode ser o resultado de um erro honesto, onde a mesma foto foi inserida duas vezes por acidente.

A segunda categoria é quando as imagens são giradas, invertidas, deslocadas, etc. “Isso tem menos probabilidade de ocorrer como resultado de um erro honesto e mais probabilidade de ser feito intencionalmente do que a Categoria I”, escreveu ela em sua postagem.

Bik descreve as duplicações da Categoria III como aquelas em que elementos, como células, faixas ou grupos de pontos, aparecem várias vezes na mesma foto ou em uma foto diferente.

“A maioria deles é muito difícil de explicar por erro honesto e é mais provável que seja o resultado de uma alteração intencional de uma foto do que duplicações da categoria I ou II”, disse ela.

Cientistas do DRDO disseram ao The Print que as preocupações sinalizadas no PubPeer serão analisadas.

“O DRDO segue procedimentos rígidos de revisão interna para publicação de dados. No entanto, as preocupações levantadas serão analisadas com a devida diligência ”, disse um porta-voz da sede da DRDO em Delhi ao ThePrint.

Enquanto isso, outro cientista sênior do DRDO disse que essas preocupações estão sendo investigadas.

“O processo pode levar algum tempo, pois alguns autores (envolvidos nos trabalhos) se aposentaram”, acrescentou.

Golime RamaRao, um cientista do Estabelecimento de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa em Gwalior e autor de um dos artigos sinalizados por possível manipulação de imagem, disse que a equipe estava enfrentando problemas para abrir arquivos de dados brutos de 2012-2013, pois o software do computador foi atualizado desde então.

“Achamos que o erro sinalizado é apenas um pequeno erro e não afeta substancialmente os resultados do estudo”, acrescentou.

“Assim que conseguirmos abrir nossas imagens brutas sem falhas, responderemos a você e trataremos dessa questão com a redação para tomar outras providências, caso uma micrografia errada tenha sido usada devido a erro humano honesto”, acrescentou.

(Editado por Poulomi Banerjee)

blue compass

Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Print”   [Aqui!].

Atlas da Questão Agrária do Paraná mostra a resistência camponesa em meio ao avanço das monoculturas de exportação

Como paranaense vindo da região dos “Campos Gerais” tive contato já na minha infância com a dura realidade agrária que tem historicamente marcado a disputa entre grandes latifundiários com agricultores familiares, quilombolas e povos indígenas.  Aliás, sou originário de uma região onde a perseguição aos povos indígenas, principalmente os da etnia Kaingang, é parte de uma história que naturalizou o extermínio como forma de controle do território em prol da implantação da economia capitalista. Por conhecer parte desta história altamente conflituosa que marca a evolução histórica do Paraná, acho sempre curioso que quem não conhece o meu estado, possa se deixar levar tão facilmente pela imagem comercial de Curitiba como exemplo de modernidade e compromisso ecológico com seus citadinos.

atlas agrário pr

Por essa razão é que vejo com entusiasmo o lançamento do “Atlas da Questão Agrária do Paraná”, produto de um trabalho coletivo realizado pelo “Observatório da Questão Agrária no Paraná“, cuja composição editorial traz uma série de capítulos que revelam as disputas que marcam a realidade agrária paranaense. Por ter um conteúdo que passa ao largo do endeusamento das monoculturas que transformaram a realidade paranaense para pior, penso ser obrigatória a leitura desse atlas por todos os que se interessam por estudar a persistência da questão agrária no Brasil. É que, de certa forma, o Paraná é uma espécie de ponto de encontro de todos os aspectos que marcam a existência de um dos sistemas mais desiguais de propriedade da terra no planeta, trazendo consigo todos os elementos nocivos que decorrem disso.

Além disso, a leitura do “Atlas da Questão Agrária do Paraná” revelará aos leitores a existência de um vigoroso grupo de pesquisadores que está se debruçando para estudar criticamente a realidade agrária paranaense, a ponto de nos oferecer um documento tão bem acabado, e que certamente servirá de ferramenta de aprendizagem para todos os que se interessam por entender como o latifundio agro-exportador se apodera das terras para transformá-las em meras plataformas de acumulação de riqueza e não de produção de alimentos como sua propaganda tanto apregoa.

Quem desejar baixar o “Atlas da Questão Agrária do Paraná” na íntegra, basta clicar [Aqui! ].