Sobrevivendo como um jovem pesquisador no Brasil

“O investimento na formação de cientistas é fundamental para gerar ciência de ponta para o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade”, escrevem pesquisadores brasileiros* em artigo para a Science

cientistas-brasileiros

Nos últimos anos, a ciência brasileira tem sido alvo de repetidos cortes orçamentários (1-5). Em outubro de 2021 mais uma redução foi anunciada: um corte de 87% no financiamento voltado para propostas cientificas (4). Esses cortes ameaçam projetos científicos e tecnológicos que estão em andamento, como também projetos futuros, o que inclui o financiamento de bolsas de estudo para jovens pesquisadores que estão no início da carreira científica. Apesar do precário orçamento voltado para a pesquisa quando comparado a países desenvolvidos, em 2020, o Brasil ocupou o 11o lugar entre as nações que produziram conhecimento científico voltados para enfrentar a pandemia de COVID-19 (6). A contribuição significativa do Brasil é impulsionada principalmente por pesquisadores em início de carreira (5), e sem um investimento apropriado, esses jovens cientistas não terão outra opção senão abandonar a carreira científica ou deixar o país (5).

No Brasil, a maior parte dos programas de pós-graduação exigem dedicação exclusiva – a bolsa de estudos não pode ser acumulada com outras fontes de renda. Jovens pesquisadores em programas de mestrado e doutorado ganham, respectivamente, uma bolsa de estudos de R$ 1.500 e R$2.200 mensais (7), e esses valores não são ajustados desde 2013 (7,8). Enquanto isso, a alta dos preços de produtos e serviços diminuiu o poder de compra das bolsas em mais de 60% (9). A maioria dos estudantes depende exclusivamente dessa renda mensal para manter sua alimentação, saúde, moradia, vestimenta e transporte. Em muitos casos, ainda dão suporte no sustento da família.

O investimento na formação de cientistas é fundamental para gerar ciência de ponta para o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade (10). Portanto, como jovens pesquisadores brasileiros, nós exigimos suporte financeiro adequado dos tomadores de decisão do nosso país. Se o Brasil não reavaliar imediatamente seu orçamento para ciência e tecnologia, o país corre o risco de perder ou alienar toda uma geração de cientistas brasileiros.

Autores

  • Celso H. L. Silva Junior, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Universidade Estadual do Maranhão e do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • Yhasmin M. Moura, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, do Institute of Geography and Geoecology do Karlsruhe Institute of Technology (Alemanha) e do Centre for Landscape and Climate Research da University of Leicester (Reino Unido)
  • Ana C. M. Pessôa, pesquisadora do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
  • Diego P.Trevisan, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido) e do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos
  • Flávia S. Mendes, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • João B. C. Reis, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais
  • Michelle C. A. Picoli, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, Earth and Life Institute e do Georges Lemaître Centre for Earth and Climate Research da Université Catholique de Louvain (Bélgica)
  • Natalia C. Wiederkehr, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • Nathália S. Carvalho, pesquisadora do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory
  • Ricardo Dalagnol, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido)
  • Tahisa N. Kuck, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Instituto de Estudos Avançados de São José dos Campos
  • Thais M. Rosan, pesquisadora do College of Life and Environmental Sciences da University of Exeter (Reino Unido)
  • Thiago S. F. Silva, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Biological and Environmental Sciences da University of Stirling (Reino Unido)
  • Veraldo Liesenberg, pesquisador do Departamento de Gestão Ambiental Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
  • Polyanna C. Bispo, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido)

compass

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “Science” [Aqui!].

Mais de 120 mil famílias estão sob ameaça de despejo no Brasil

DespejoZero4-1024x683

Rio de Janeiro, 19 de novembro de 2021 – Dezembro será um mês de apreensão para as mais de 120 mil famílias sob ameaça de despejos no país. A análise é da Campanha Nacional Despejo Zero, que reúne mais de 100 organizações da sociedade civil.  O número é 554% maior do que o registrado no início da pandemia. São 123.153 famílias ameaçadas de remoção durante a pandemia no Brasil frente a 18.840 famílias ameaçadas em agosto de 2020. Desde o último levantamento, divulgado em agosto deste ano, o número de famílias ameaçadas aumentou 32%.

Os estados de São Paulo, Amazonas e Pernambuco seguem sendo os estados onde mais famílias estão ameaçadas de perder sua moradia: SP 39.295; AM 29.195; PE 14.818 famílias. Mas número de famílias ameaçadas na Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás e Ceará também chamam atenção com números preocupantes: PB 9.973; PR 3.571; RJ 3.527; RS 3.410; GO 2.975; CE 2.958 famílias.

Atualmente, essas famílias estão protegidas por determinação do Ministro do STF, Luís Roberto Barroso, no âmbito da ADPF 828. Pela decisão, ficam impossibilitadas, por seis meses, “medidas administrativas ou judiciais que resultem em despejos, desocupações, remoções forçadas ou reintegrações de posse de natureza coletiva em imóveis que sirvam de moradia ou que representem área produtiva pelo trabalho individual ou familiar de populações vulneráveis”. Outro dispositivo de proteção legal às famílias ameaçadas, a Lei Federal 14.216, cujo veto presidencial foi derrubado pelo Congresso, expira em 31 de dezembro. 

Segundo dados do IPEA, 88% das famílias que compõem o déficit habitacional brasileiro têm renda familiar de até três salários mínimos. Os trabalhadores de menor renda foram precisamente os mais atingidos com as consequências da Covid-19, sofrendo com o rebaixamento salarial e a perda de emprego, situação especialmente pior entre mulheres, negros e jovens.

Liminar judicial e legislações impedem aumento no número de despejos realizados

Com os despejos suspensos por seis meses, o levantamento registrou um aumento de 6% em comparação com os números divulgados em agosto deste ano. Desde o início da pandemia, entretanto, o número de despejos aumentou 260%, chegando a um total de 23.500 em outubro deste ano.   Com o fim dos prazos dos dispositivos legais, a situação pode ficar catastrófica para as famílias em situação de vulnerabilidade que correm o risco de começar 2022 sem um lar.

Para saber mais, acesse: https://www.campanhadespejozero.org/

Espetáculo ‘O Monstro do Lixo’ visita escolas de BH e Região

Com organização da Cia. Candongas, a fábula infantil propõe uma reflexão sobre os cuidados com o meio ambiente. A obra circulará por escolas pública mineiras em dois turnos a partir da próxima segunda-feira (22)

unnamed (43)

Novembro de 2021 – A partir de segunda-feira (22), o espetáculo “O Monstro do Lixo”, organizado e produzido pela Cia. Candongas, circulará pela capital mineira e Região. Visitará 11 escolas públicas, municipais e estaduais, de Belo Horizonte, inclusive do bairro Venda Nova, além das cidades de Sabará, Caeté, Nova Lima, Contagem e Betim. Serão 22 apresentações ao todo.

Com o intuito de alcançar o maior número de crianças possível, a fábula infantojuvenil será apresentada duas vezes em cada instituição, contemplando os turnos da manhã e da tarde.

“‘O Monstro do Lixo’ foi inspirado em festas e folguedos populares de Minas Gerais e com linguagem poética, ludicidade e músicas animadas, o espetáculo propõe uma reflexão sobre a forma que cuidamos do nosso meio ambiente, tratamos o nosso lixo e nos preocupamos com a manutenção da vida em nosso planeta. O foco é o consumo e a produção desenfreada de rejeitos”, afirma a organização do espetáculo.

Na história, Guarda Mor e Bastião são marujos que narram o sofrimento da Mãe Terra quando as matas são devastadas, os bichos fogem e os rios morrem. A Mãe Terra alerta que todo o seu sofrimento vem dos rejeitos do Monstro do Lixo – grande serpente inspirada em dragões chineses e confeccionada com materiais reciclados. À medida que a narrativa se desenvolve, os marujos percebem que o Monstro não é o causador do sofrimento da Mãe Terra. Os grandes vilões da história são a compra e a produção desordenada, o desperdício e falta de reciclagem e reutilização do lixo.

“O Monstro do Lixo” tem direção e dramaturgia de Guilherme Théo e produção de Juliana Ribas. O elenco é composto por Cláudia Henrique, Guilherme Théo e Gustavo Bartolozzi. Ainda temos que todos os adereços e figurinos, bem como os instrumentos musicais, utilizados na peça são confeccionados com materiais reciclados e/ou reutilizados e são assinados pelo artista plástico, Adriano Borges da Cruz.

A ação será realizada no âmbito da Lei Federal de Incentivo à Cultura celebrado entre a Companhia Candongas e Outras Firulas e a União, por intermédio do Ministério do Turismo, Secretaria Especial da Cultura e Secretaria da Economia Criativa. Além disso, conta com o patrocínio do Governo Federal e da Copasa e o apoio do Governo de Minas Gerais, Pessoa Comunicação, Café Pingado e Lab Front.

Associação de docentes faz plenária virtual para lançar campanha em defesa da Uenf

CARD PLENARIA (2)

A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), fundada por Darcy Ribeiro sob o governo de Leonel Brizola, tem cumprido ao longo destes 27 anos um importante papel na região norte fluminense. Ao unir ensino, pesquisa e extensão na cidade de Campos dos Goytacazes, Macaé e polos espalhados pelo Rio de Janeiro, a UENF formou alunos em nível de graduação e pós-graduação com excelência reconhecida nacionalmente.

No entanto, desde 2016, nossa comunidade enfrenta dificuldades que comprometem este projeto. Não só as crises orçamentárias, mas as condições de trabalho docente são elementos centrais para a campanha que iniciamos neste mês de novembro.

A campanha “Em defesa da Uenf” é uma iniciativa da ADUENF e objetiva questionar a precariedade vivida em nossa Universidade, construir coletivamente saídas a curto prazo e chamar atenção para defesa dos direitos de docentes, técnicos e demais categorias na Uenf durante o período pandêmico e na transição para um possível retorno presencial. Além disso, evidenciar como os cortes na ciência e tecnologia afetam a Universidade realizando um debate aberto sobre democracia interna e isonomia entre as instituições de ensino superior.

Saídas deste porte devem ser construídas coletivamente e por esta razão convidamos todos associados e todas associadas para participarem de nossa Plenária Virtual em Defesa da Uenf a ser realizada no dia 23 de novembro às 16 horas.

 

The Lancet: 21 cientistas rejeitaram uma das maiores honrarias científicas do Brasil, depois que o presidente Bolsonaro vetar dois agraciados

ordem do mérito

Por Lise Alves de São Paulo

Um grupo de cientistas brasileiros agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico decidiu recusar a homenagem, depois que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, retirou dois de seus nomes da lista.

Um comunicado dos destinatários afirma: “Estamos extremamente honrados com a possibilidade de recebermos um dos maiores reconhecimentos que um cientista pode receber no nosso país. No entanto, a homenagem oferecida por um governo federal que não só ignora a ciência, mas boicota ativamente as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não condiz com nossa trajetória científica. Em solidariedade com os colegas que foram sumariamente excluídos da lista de destinatários, e em conformidade com a nossa postura ética, renunciamos coletivamente a esta nomeação. ”

O presidente Bolsonaro concedeu a 25 cientistas um dos maiores méritos científicos do país no dia 3 de novembro, apenas para excluir os nomes de Adele BenzakenSBP e Marcus Vinícius Lacerda da lista de homenageados 2 dias depois. Após o afastamento, 21 cientistas da lista divulgaram comunicado no qual renunciaram à homenagem. Eles também criticaram “a negação em geral, a perseguição a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para ciência e tecnologia”, que dizem ter prejudicado avanços importantes da comunidade científica brasileira.

Um dos que renunciaram ao prêmio foi Cesar Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (RS). Victora disse ao The Lancet que escreveu uma carta ao Ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil renunciando à homenagem antes mesmo de tomar conhecimento da decisão do presidente de retirar o prêmio de Benzaken e Lacerda. “Como cientista e epidemiologista, tornei público por meio de palestras e artigos científicos minha completa oposição à forma como a pandemia de COVID-19 tem sido tratada por este governo”, disse Victora em sua carta.

Benzaken e Lacerda, ambos pesquisadores da Fiocruz-Amazônia, acham que sua retirada da lista se deve à divergência entre seu trabalho e a visão do governo Bolsonaro.

Benzaken, diretor da Fiocruz-Amazônia, se surpreendeu ao receber o prêmio em primeiro lugar. “Devo confessar que não pensei que o atual governo tivesse realmente me selecionado para esse prêmio”, disse Benzaken ao The Lancet . No entanto, ela criticou a remoção de seu nome. Benzaken foi demitido do Ministério da Saúde durante a primeira semana do governo Bolsonaro por publicar um panfleto que fornecia informações sobre saúde sexual para homens transexuais. Funcionários do Ministério da Saúde disseram que o panfleto continha linguagem vulgar e ofensiva. “Achei muito deselegante para o governo brasileiro. É como convidar alguém para uma festa e 2 dias depois não convidar ”, disse Benzaken, que passou a maior parte de sua vida profissional estudando, prevenindo e ajudando pessoas com HIV / AIDS.

Lacerda disse ao The Lancet que também ficou surpreso ao saber que estava na lista. “Causou um certo estranhamento porque o presidente e sua família já haviam falado coisas negativas sobre mim e espalhado notícias falsas sobre meu primeiro estudo com cloroquina e COVID-19 aqui em Manaus”, disse. Em março de 2021, Lacerda conduziu um estudo que concluiu que a cloroquina era ineficaz contra o COVID-19. O medicamento contra a malária foi promovido pela administração Bolsonaro como um medicamento milagroso para a COVID-19.

No momento em que se espalhou a notícia da retirada dos dois nomes da lista de premiados, a comunidade científica brasileira criticou a decisão. “Esse ato, inédito no país e típico de regimes autoritários, é mais um atentado à ciência, inovação e inteligência do país”, disse em nota Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “Ciência e inovação estão sendo fragilizadas por uma política econômica equivocada, que olha para o horizonte imediato, com medidas que prejudicam o futuro do Brasil. Atitudes de negação, com ataques irresponsáveis ​​às evidências científicas, prejudicam o desenvolvimento nacional e afetam diretamente a saúde da população ”.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) também divulgou nota: “É evidente que o governo federal procedeu ao cancelamento ao saber que os dois renomados cientistas faziam pesquisas cujos resultados contradiziam os interesses das políticas governamentais, atuando como um censor da pesquisa, sem o devido respeito à verdade científica e à diversidade ”.

De acordo com a SBPC, todos os nomes para a premiação foram apresentados por uma comissão técnica formada por membros da SBPC e do ABC. O gabinete do presidente não deu uma razão para remover os nomes e não respondeu aos pedidos de comentários do The Lancet.

compass

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela “The Lancet” [Aqui!].

COP 26 deixou de estabelecer soluções concretas para a descarbonização do setor energético global

Dois pontos deveriam ser considerados: livrar o Brasil do uso do carvão na geração termelétrica e garantir o acesso às cidades, indo além na discussão sobre a descarbonização dos veículos

unnamed (10)

Foram meses de dúvidas sobre a realização da 26ª Conferência das Partes (COP26), encontro anual promovido pela Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês), onde os países debatem e procuram firmar acordos para o enfrentamento às mudanças climáticas. A pandemia de Covid-19 seria um impeditivo para a concretização do encontro este ano, como ocorreu em 2020? Não foi, mas as incertas condições de planejamento e realização do evento acabaram por afetar a participação de países com menos recursos financeiros. Um compromisso mundial deixa de ter justa representatividade se os mais afetados têm dificuldades em comparecer aos debates e definições. Neste contexto, é louvável que a participação da sociedade civil brasileira na conferência tenha se mostrado sólida – o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) também esteve presente em Glasgow, Escócia. 

Desta vez, além de acompanhar as discussões – como propôs na edição anterior -, o IEMA se somou aos debates na Zona Azul da conferência, restrita a quem tem credencial, principalmente no Brazil Climate Action Hub (pavilhão coordenado por organizações da sociedade civil brasileira) e também fora da conferência, na Cúpula dos Povos pela Justiça Climática (People’s Summit For Climate Justice). Presente pela segunda vez na COP, o IEMA busca acompanhar as discussões e resoluções referentes à descarbonização do Setor de Energia, com foco na matriz elétrica e nos transportes. Ambas as áreas têm ligação direta com as condições de desenvolvimento social tocando no acesso à energia, no direito à cidade, no custo de vida e na quantidade e qualidade dos empregos. Questões, portanto, relacionadas à justiça climática.

A respeito da geração de energia elétrica, o texto final do Pacto Climático de Glasgow trocou a proposta inicial de “descontinuidade do uso do carvão até 2030”, que não teve consenso, por “reduzir o uso do carvão”. O combustível é empregado há cerca de 200 anos desde a Revolução Industrial e esta foi a primeira vez que a principal causa das mudanças climáticas induzidas pelo homem esteve presente no texto final. Índia e China pressionaram pelo enfraquecimento do documento. A velocidade dessa transição, deixada em aberto, será determinante ao alcance do desejado cenário de contenção do aquecimento em até 1,5o C previsto no Acordo de Paris. 

A matriz elétrica brasileira tem apenas cerca de 2% de carvão na composição de sua capacidade instalada. O esforço de uma transição energética justa com a eliminação dessa fonte no Brasil seria, portanto, muito menor do que nos países altamente dependentes dela. No entanto, o Governo Federal caminha na contramão dessa discussão, com um plano de expansão do carvão mineral até 2050. Vale lembrar que o Brasil tem um enorme potencial ainda pouco explorado de fontes renováveis, principalmente a geração solar e eólica. Graças à posição geográfica do país, os níveis de radiação solar nos locais menos favoráveis ao uso de sistemas fotovoltaicos ainda são melhores do que em países europeus com, atualmente, as maiores capacidades instaladas de energia solar. Em resumo, o desafio da transição no setor elétrico não é técnico. Mas, sim, político.

No temático Dia do Transporte da COP26, ocorrido em 10 de novembro, uma aliança formada por uma centena de signatários, entre eles países e empresas, estabeleceu o trabalho para que apenas caminhonetes e automóveis novos de zero emissão sejam produzidos a partir de 2035. Trata-se de uma clara sinalização de avanço, mas insuficiente para endereçar a urgência climática e os perversos padrões de mobilidade urbana, especialmente nos países em desenvolvimento. A eletrificação do transporte é necessária para o atingimento das metas climáticas, no entanto, focar exclusivamente nela mostra a falta de um impulso por uma mobilidade verdadeiramente sustentável. Esta deveria considerar todos os pilares: social, ambiental e econômico. Assim, é temerário deixar em segundo plano o (re)planejamento urbano e os modos ativos e coletivos de transporte.

A pandemia demonstrou mundo afora que é possível reduzir drasticamente e abruptamente as emissões do transporte ao evitar o deslocamento por meio de automóveis. Além de direcionar esforços para uma mudança tecnológica que levará anos a ser introduzida e décadas para ser plenamente adotada, para isso deveríamos estar vertendo mais energia a fim de viabilizar as opções prontamente disponíveis e que trarão benefícios imediatos na qualidade de vida nas cidades. Enquanto esperamos anos para os prometidos novos “hardwares” do transporte, livres de combustíveis fósseis, podemos imediatamente mudar o “software”, promovendo uma lógica de mobilidade urbana de baixo carbono e a redução da poluição do ar. Celebramos a aceleração do passo da transição energética nos transportes, mas esperamos que seja evidente uma maior preocupação com o bem-viver nas cidades na próxima conferência. O tema dos transportes, de maneira específica, sequer figurou no texto final de Glasgow.

Diante de tamanho desafio, a atuação da sociedade civil brasileira se destaca como ponto positivo. Representantes de comunidades indígenas, quilombolas, ambientalistas, organizações, governos estaduais e municipais estiveram presentes expondo os problemas locais e debatendo formas de se conectar com as soluções globais e, também, mostrando o potencial que têm para mitigar e capturar emissões. É essencial que sejam trazidas à tona as particularidades do Brasil para que se possa planejar e implementar ações climáticas com o maior nível de ambição possível e de maneira convergente com o progresso social. O Brasil entrou e saiu da COP26 com uma imagem de vilão do clima. Os desafios nacionais são claros para que o país retome a rota de descarbonização e faça melhor papel na próxima edição da conferência.

Brasil é principal destino de agrotóxico banido na Europa e ligado à morte de abelhas

  • Agrotóxico produzido pela Syngenta e que seria exportado pela Bélgica costuma ser aplicado em plantações de soja
  • MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides no Brasil
  • Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides
bees 1
Por Rute Pina, Agência Pública/Repórter Brasil

O Brasil é o destino de mais da metade dos registros de exportações da União Europeia de agrotóxicos proibidos na Europa e associados à morte de abelhas. São inseticidas à base de três neonicotinóides: tiametoxam, imidacloprido e clotianidina. Entre setembro e dezembro de 2020, mais de 3,8 mil toneladas dessas substâncias foram registradas para serem exportadas na Agência Europeia das Substâncias Químicas (ECHA) —  o Brasil era o destino de 2,2 mil toneladas, 58% do total.

Os dados inéditos, obtidos com exclusividade pela Agência Pública e a Repórter Brasil, são resultado de um levantamento da Public Eye, organização suíça, em parceria com a Unearthed, braço de jornalismo investigativo do Greenpeace. É a primeira vez que são revelados números sobre a quantidade dos pesticidas neonicotinoides enviados ao exterior por países europeus. As substâncias imidacloprido, clotianidina e tiametoxam foram banidas na União Europeia em 2018. Desde setembro de 2020, empresas de lá são obrigadas a notificar exportações de produtos com esses princípios ativos. As notificações são estimativas emitidas antes de o produto ser despachado. 

Os produtos registrados para serem enviados ao Brasil foram produzidos por duas empresas: Syngenta e Bayer. Ao todo, eles continham 318 toneladas das substâncias ativas proibidas. 

O principal deles foi o Engeo Pleno S, produzido pela Syngenta na Bélgica — a empresa registrou mais de 2,2 milhões de litros do produto para ser enviado para o Brasil. Ele é o mais vendido pela Syngenta no país e costuma ser utilizado principalmente por produtores de soja. O Engeo contém uma mistura do neonicotinóide tiametoxam e do inseticida lambda-cialotrina, também altamente tóxico para as abelhas.

Às organizações, a Syngenta respondeu que “seus produtos são seguros e efetivos quando usados dentro das recomendações” e que “a empresa atua sempre de acordo com a legislação e regulamentação local”. A Syngenta ainda afirmou que “atesta a segurança e a eficácia do tiametoxam” e que, “sem pesticidas, as perdas [na produção agrícola] seriam catastróficas”.

Já a Bayer respondeu que “apesar de aceitar a decisão da União Europeia de cessar a aprovação aos neonicotinoides, a empresa destaca que agências reguladoras por todo o mundo confirmaram o uso seguro desses produtos após revisões cuidadosas.”. A empresa, contudo, confirmou que “a pulverização deve ser estritamente evitada em plantações que atraiam abelhas durante a floração para evitar exposição desses insetos”.

Além do Brasil, outros 59 países estão na lista de destinos dos produtos proibidos na União Europeia. Os principais são a Rússia, Ucrânia, Argentina, Irã, África do Sul, Indonésia, Gana, Mali e Cingapura. Já a lista dos maiores exportadores é encabeçada pela Bélgica, França e Alemanha, seguidos por Espanha, Grécia, Reino Unido, Dinamarca, Áustria e Hungria.

bees 2

Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides. Imagem meramente ilustrativa/Instituto Biológico

Os neonicotinóides são quimicamente semelhantes à nicotina e matam insetos atacando seu sistema nervoso central. Eles foram introduzidos na década de 1990 e são os inseticidas mais usados ​​no mundo. Altamente solúveis em água, eles podem ser facilmente transportados para lagos, rios e lençóis freáticos, além de se acumularem no solo.

No Brasil, MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides

Os dados obtidos pela Unearthed e Public Eye foram publicados no momento em que a Comissão Europeia avalia pôr fim à fabricação dos produtos para exportação, um passo adiante após a proibição do uso das substâncias na Europa. 

Em resposta às organizações que realizaram a investigação, a Hungria e o Reino Unido afirmaram que o sistema atual é baseado no consentimento prévio dos países importadores. Bélgica, Dinamarca e França afirmaram apoiar uma proibição local de exportação. Na França, a proibição de exportação de pesticidas proibidos na União Europeia já foi imposta e entrará em vigor em 2022. Esta medida “deve ser adotada e implementada” na região, diz o governo francês, porque “não é aceitável expor o meio ambiente e a saúde em outros países” a estas substâncias. A Espanha também sinalizou proposta nesta direção. Já a Alemanha diz estar “ansiosa” por propostas concretas da Comissão Europeia sobre o tema. 

A Comissão Europeia assumiu o compromisso de acabar com esta prática em outubro de 2020, após um primeiro levantamento da Unearthed e Public Eye revelarem que fabricantes da UE despachavam milhares de toneladas de pesticidas proibidos para países pobres.

No Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, em agosto deste ano, uma ação civil pública contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que o órgão ambiental proíba a pulverização aérea de agrotóxicos com as três substâncias neonicotinóides exportadas pela Europa (imidacloprido, clotianidina e tiametoxam), além do pirazol.

O Ibama já havia proibido a pulverização aérea dessas substâncias em 2012. O órgão, no entanto, liberou provisoriamente a aplicação dos pesticidas em lavouras de algodão, arroz, cana-de-açúcar, soja e trigo até que fossem encerrados os processos de reavaliação dos efeitos sobre o meio ambiente — o que até hoje não ocorreu. 

O procurador da República Matheus Baraldi Magnani, autor da ação civil pública, considera o número de mortes de abelhas um caso “extremamente grave, subdimensionado e silencioso” e analisa que a omissão do Ibama consolidou, na prática, a autorização para o uso dos pesticidas. “Tal problema é diariamente agravado pela inconstitucional escolha do Poder Público em priorizar fortes setores econômicos em detrimento do meio ambiente”, argumentou Magnani no documento. “A pulverização aérea de neonicotinóides e pirazol é, numa analogia, uma assassina silenciosa para as abelhas, assim como o monóxido de carbono é para os humanos”, disse. 

Os pedidos do MPF restringem-se à aplicação dos produtos com uso de aviões. Caso a Justiça Federal acolha os requerimentos, ainda será permitida a pulverização terrestre. 

Meio bilhão de abelhas mortas em três meses

Em 2019, um levantamento da Pública e Repórter Brasil mostrou que mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros em apenas três meses, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.

Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro de 2019. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz).

O principal causador das mortes das abelhas é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinóides e de pirazol, proibido na Europa há mais de uma década. Um estudo de 2018 da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstrou que 67% das mortes em coletas de abelhas analisadas em São Paulo — estado que representa 10% da produção nacional de mel — ocorreram devido ao uso incorreto dos inseticidas. 

As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

bees 3

Sem abelhas, sem alimentos; insetos são responsáveis pela polinização e reprodução de diversas espécies de plantas. Imagem meramente ilustrativa/George Campos/USP

Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos. O resultado é que, se as abelhas fossem extintas, deixaríamos de consumir frutas como a mangaba. Ou elas ficariam mais caras, já que o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano.

A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar.”

No Brasil, há mais de 300 espécies de abelhas nativas — entre elas Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula. Em todo país, contando com as estrangeiras, há cerca de 1,6 mil espécies do inseto, segundo relatório do Ibama. Histórias como essa precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade. A gente investiga para que elas não fiquem escondidas por trás de interesses escusos. Se você acredita que o jornalismo de qualidade é necessário para um mundo mais justo, nos ajude nessa missão. Seja nosso Aliado

compass

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto, e foi inicialmente publicada [Aqui!].

Prodes 2021 registra a maior taxa de Desmatamento na Amazônia desde 2006

Representantes do governo brasileiro já chegaram à COP 26 sabendo da má notícia, mas insistiram em vender uma imagem sustentável

unnamed (42)

São Paulo, 18 de novembro de 2021 – A estimativa da taxa oficial de desmatamento na Amazônia Legal divulgada hoje por meio do Programa Prodes, aponta que 13.235 km² foram desmatados entre agosto de 2020 e julho de 2021. O anúncio chega na semana seguinte ao encerramento da COP 26, onde o governo brasileiro tentou limpar sua imagem, mesmo sabendo que mais um recorde de desmatamento já havia sido batido, uma vez que o documento divulgado hoje tem data de 27 de Outubro de 2021, ou seja, antes da COP 26. O anúncio também ocorre ao mesmo tempo que o cerco para o desmatamento começa a se fechar: a comissão da União Europeia publicou ontem (17) o projeto da nova legislação do bloco que veda a compra de produtos ligados ao desmatamento.

“Apesar das tentativas recentes do governo em limpar sua imagem, a realidade se impõe mais uma vez. Os mais de 13 mil km² não surpreendem quem acompanhou os últimos três anos de desmonte na gestão ambiental brasileira e as tentativas de enfraquecer o arcabouço legal para a proteção do meio ambiente. Fica evidente que as ações necessárias por parte do Brasil para conter o desmatamento e as mudanças climáticas não virão deste governo que está estacionado no tempo e, ainda vê a floresta e seus povos como empecilho ao desenvolvimento”, declara Cristiane Mazzetti, porta-voz da campanha da Amazônia do Greenpeace

Veja aqui imagens de desmatamento na Amazônia, registradas em sobrevoo em Set/2021.

Os dados divulgados pelo Inpe representam um aumento de 21,97% na taxa de desmatamento em relação ao ano anterior. Esta é a maior taxa de desflorestamento já registrada, desde 2006. Na média, houve um aumento de 52,9% na área desmatada nos três anos de governo Bolsonaro (média de 11.405 km² entre 2019 e 2021) em relação à média dos três anos anteriores (média de 7.458 km² entre 2016 e 2018). “O governo atual, com sua política antiambiental, elevou drasticamente o patamar de desmatamento na maior floresta tropical do planeta. Estes são níveis inaceitáveis perante à emergência climática que vivemos no Brasil e no mundo, com extremos climáticos e seus impactos cada vez mais devastadores e frequentes”, comenta Cristiane. “E essa situação só vai piorar, se o Senado aprovar o PL da Grilagem, que beneficia invasores de terras públicas e incentiva ainda mais desmatamento”, completa.

No período em que a taxa foi medida, 32% dos alertas de desmatamento se concentraram nas Florestas Públicas Não Destinadas, alvo frequente de grilagem de terras. A última audiência pública do Senado para discutir o PL 2633/2020, já aprovado na Câmara dos Deputados deve acontecer na próxima semana, com isso a matéria pode ser votada em Plenário logo na sequência.

COP-26: O Brasil no contexto das mudanças climáticas

cop-26 queimadas
Por Ivan Carneiro Castanheiro*
Combater as mudanças climáticas constitui-se em um dos principais desafios da humanidade neste século. Há reconhecida relevância da comunidade política e científica internacional quanto à importância em se efetuar o planejamento e a gestão ambiental em nível global, continental, por países, estados, municípios, bem como pelas empresas privadas, em especial as corporações de grande porte e as multinacionais (Políticas de ESG). Deve-se buscar a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias e serviços, com vistas a redução e adequação das várias atividades antrópicas, as quais vêm degradando a qualidade do ar, elevando temperatura e ameaça à biodiversidade e à vida e saúde humana no planeta.

Essas atividades intensificaram-se após a segunda guerra mundial, com a revolução industrial e a explosão demográfica, sendo urgente buscar um equilíbrio entre crescimento econômico desordenado, que difere de desenvolvimento econômico sustentável, e a necessidade de expansão de renda, emprego e alimentação, visando atender às necessidades humanas e da economia.

As atividades econômicas e as ações diárias das pessoas, de forma direta ou indireta, geram emissão de gases do efeito estufa (GEE), devendo elas serem adaptadas segundo a melhor tecnologia disponível e em alguns casos reduzidas, visando diminuir a concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. Este aquecimento global tem impactos profundos no planeta, contribuindo para o fenômeno da inversão térmica (camadas da atmosfera sofre inversão, ficando as mais frias próximas ao solo, com elevação das camadas mais quentes, gerando dificuldades na circulação do ar e maior concentração de poluentes).

Neste diapasão, de se consignar que a variação climática experimentada não é natural, extrapolando os parâmetros históricos. Segundo anotado pelos autores da cartilha produzida pela ABRAMPA (Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público), com base em informações do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): “as consequências do aumento de temperatura são graves para todos os seres vivos, incluindo o homem. Vale elencar alguns efeitos do aquecimento global: extinção de espécies animais e vegetais, alteração na frequência e intensidade de chuvas (interferindo, por exemplo, na agricultura e na saúde), elevação do nível do mar e intensificação de fenômenos meteorológicos (por exemplo: tempestades severas, inundações, vendavais, ondas de calor, secas prolongadas), entre outros.”

Para tentar evitar este cenário catastrófico que se avizinha, por meio das ações da COP-26 (Conferência do Clima), instância máxima da Organização das Nações Unidas (ONU), vinham sendo negociadas ações efetivas de combate à elevação da temperatura da terra em no máximo 1,5 °C. Entendem muitos cientistas que este é o último momento que temos para agir, de forma eficaz, visando evitar os eventos climáticos extremos e seus devastadores efeitos sobre o planeta ou porções dele.

Entretanto, a COP-26, realizada em Glasgow, na Escócia, encerrada no último dia 13 de novembro, ainda que tenha reconhecido a importância de combater as causas das mudanças climáticas, obtido o consenso científico em torno da necessidade de redução dos gases de efeito estufa, bem como a redução ilegal dos desmatamento e as queimadas florestais, o que ocorre especialmente em função das atividades agropecuárias em extensas áreas florestais, como no Bioma Amazônico, deixou muito a desejar quanto aos acordos formalmente assumidos pelas nações desenvolvidas.

Os aportes financeiros anuais que se destinariam a combater os efeitos deletérios nos ecossistemas ainda preservados ou que necessitem de recuperação, nos 134 países do denominado G-77, não viera como era esperado. Assim, é de se concluir que as promessas e declarações favoráveis dos grandes líderes mundiais na defesa do Meio Ambiente ficaram mais nas intenções do que nas ações, nada obstante os positivos efeitos de manifestações da sociedade civil, incluindo os jovens.

Fazia-se necessário um efetivo comprometimento com a redução dos gases do efeito estufa, decorrentes do uso de combustíveis fósseis (carvão e petróleo). É bem verdade que a precificação do carbono, via crédito de carbono, alivia um pouco o balanço das emissões, mas por outro lado acaba se constituindo em uma espécie de salvaguarda para justificar as atividades poluentes, distorcendo o princípio do poluidor-pagador.

Países altamente poluentes, como a China (emissão de 5 bilhões de toneladas de carvão por ano), Índia e Estados Unidos (onde estão as grandes companhias de petróleo), os três principais emissores de combustíveis fósseis em ordem decrescente, pouco se comprometeram, até porque a China nem mesmo compareceu à conferência.

Por outro lado os conhecimentos científicos acabaram sendo relegados, adiando-se os compromissos com os direitos fundamentais e com a democracia participativa na área ambiental, promovendo-se uma injustiça climática contra a humanidade, que não foi ouvida nas tomadas de decisões, em nome de uma disputa pela hegemonia econômica entre China e EUA.

Perde-se, assim, a oportunidade de mitigar e adaptar as atividades econômicas aos efeitos das mudanças climáticas, bem como se estabelecer um modelo de governanças internacional quanto às políticas públicas ambientais. Entretanto, a poluição ambiental e seus efeitos deletérios à humanidade e à biodiversidade não respeita fronteiras geopolíticas e nem fica na dependência de posicionamentos ideológicos de governos, devendo ser política de cada um dos países.

No tocante ao Brasil, seu chefe maior nem mesmo compareceu pessoalmente à COP-26, preferindo outras agendas internacionais, perdendo uma oportunidade de demonstrar que o Brasil quer se habilitar a receber recursos financeiros de outros países e da atividade privada. Perde-se a oportunidade de se dar efetivo passo rumo à economia verde e mudar os paradigmas do agronegócio, em especial aos olhos do mundo. Prejudica-se, o mercado para exportação. Não se pode perder de vista que o Brasil é exportador de commodities e altamente vulnerável a boicotes internacionais, decorrente de sua política antiambiental praticada nos últimos tempos.

Em resumo, observamos que os resultados da COP-26 constituíram-se em pequenos avanços, como por exemplo a substituição da eliminação dos combustíveis fósseis por mera menção à redução dos níveis de sua emissão, o que não atende às necessidades do estado de emergências climáticas em que já entramos, segundo renomados cientistas.

Urgente que alteremos as matrizes energéticas do país, substituindo a energia hidrelétricas por energia solar e energia eólica, com incentivos fiscais e financiamentos subsidiado por órgãos governamentais. Importante a implantação de equipamentos veiculares redutores de emissão de gás carbônico, bem como de veículos elétricos, hoje 10% da frota europeia.

Apesar da conjuntura geopolítica não favorável, bem como dos prejuízos decorrentes da retomada econômica no pós-COVID, este ainda não encerrado e que continua a ameaçar a economia mundial, urge que as medidas ambientais sejam retomadas em prol da garantia do futuro da humidade e dos ecossistemas, pois a natureza não pode esperar e a Terra não é resiliente o suficiente, já estando no limite de sua capacidade ecológica.

Passa do momento de substituirmos as palavras por ações, com as adaptações nas atividades econômicas, visando minimizar os efeitos deletérios das emissões de GEE no aquecimento global, adaptando-se as atividades econômicas poluentes, com absorção das externalidades negativas ao preço dos produtos e serviços oferecidos no mercado.

Deve-se construir um consenso internacional para apoio financeiro dos países desenvolvidos aos países pobres e em desenvolvimento, e não apenas haver transferência de tecnologia.

Necessário que o governo brasileiro efetivamente aja para demonstrar à comunidade internacional que mudou seus parâmetros de política ambiental. Do contrário, não haverá disposição de líderes mundiais das grandes potências e nem dos conglomerados internacionais, em investirem em um país que não zela pela proteção de seus bens naturais, considerados o celeiro do mundo, constituindo-se em um risco ao planeta e para a economia, graças ao passivo ambiental que vem gerando ao longo do tempo, inclusive com riscos às instituições financeiras.

O Brasil é reconhecido como um país-chave no equilíbrio climático do planeta, mas precisa se comportar como tal na mesa de negociações, construindo, de maneira madura, consensos e não produzindo dissensos. Antes de fazermos exigências por investimentos a fundo perdido no país, precisamos transformar promessas vagas em planos detalhados de ações, com cronogramas factíveis e cumpri-los. Só assim poderemos passar a gozar de credibilidade internacional e termos condições de impor nossos legítimos anseios e objetivos de contarmos com ajuda internacional para nos auxiliar na proteção ambiental do planeta, sem sacrificarmos a população e nosso produto interno bruto.

O Brasil, alheio aos anseios mundiais por um meio ambiente provedor de dignidade humana, e na contramão da história, perde mais uma oportunidade de compatibilizar economia e desenvolvimento econômico sustentável, tal qual previsto no artigo 170, inciso VI e art. 225 da Constituição Federal. A defesa do meio ambiente na legislação brasileira está na Carta Magna, não se tratando de ideologia de ambientalista, como alguns querem fazer parecer. Até porque meio ambiente faz parte do sistema de direitos humanos, por se tratar de direito fundamental, com proteção garantida em tratados internacionais, dos quais o país é signatário.

Ivan Carneiro Castanheiro é promotor de Justiça (GAEMA – MPSP), mestre em Direito pela PUC-SP, membro do MPD, Prof. da ESMP-SP e da UNIP e vice-diretor ABRAMPA – Região Sudeste.
compass
Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo” [Aqui!].

Ao lado de gigantes do agronegócio, Harvard está em esquema ilegal de aquisição de terras no Piauí

fronteira ilegalidade

A SLC Agrícola e Radar S/A, que figuram como uma das maiores empresas do agronegócio no país, e o Fundo Patrimonial dos Professores Norte-americanos da Harvard Management Company (HMC) são um dos principais responsáveis pela crescente do desmatamento no cerrado piauiense nos últimos 20 anos.

É o que aponta o estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba“, publicado na última quinta (11/11) pela Associação dos Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais da Bahia (AATR) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença/BA). A pesquisa faz a análise de quatro casos da fronteira agrícola do Matopiba, composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que ilustram a relação entre desmatamento e grilagem (apropriação ilegal de terras) e violações contra povos e comunidades tradicionais.

Segundo as informações apresentadas, essas empresas passaram a vislumbrar na região, com terras outrora desvalorizadas, a oportunidade de ganhos com “abertura” e instalação de fazendas para produção de soja. Com a especulação imobiliária, uma intensa onda de grilagem foi fomentada próxima às nascentes do Rio Parnaíba, na divisa entre o Maranhão e o Piauí.

Nesta região, no limite entre os municípios de Bom Jesus, Santa Filomena, Gilbués, Baixa Grande do Ribeiro e Monte Alegre do Piauí, estão localizadas as comunidades do território de Melancias (22.583 hectares) que enfrentam graves conflitos na luta pela demarcação e titulação do seu território tradicionalmente ocupado, que formalmente consistem em terras devolutas estaduais. Em depoimento ao Ministério Público, em 2019, o morador Juraci Selestino afirma que esses empreendimentos estão encurralando as comunidades.

“Os fazendeiros pegaram os baixões e nós ficamos encurralados na beira do rio. E mesmo nessas áreas que a gente tá, hoje tem gente que diz que é dono. É muita fazenda. É muito dono! Tem as fazendas de Passaginha, Roda de Ferrovia, Riachão, Serra Alta, Santo Isidório, Alvorada, Galileia, Celeiro, São Pedro e Cosmo, que está arrendando para o Grupo Produzir. O Riachão, que é afluente do Rio Uruçuí Preto, foi cercado pela Alvorada. Outros afluentes, como Riacho dos Cavalos, que a Alvorada diz que é a dona, já cercaram também”, explica.

Encurraladas nos vales ou “baixões”, as famílias brejeiras e ribeirinhas sofrem com os danos causados pela apropriação ilegal das chapadas do entorno, com o desmatamento acelerado, contaminação das águas por agrotóxicos e a grilagem verde. Segundo moradores, houve a diminuição de 50% do fluxo do Rio Uruçuí-Preto, fato que atribuem ao desmatamento, que resultou em erosão e assoreamento do leito do rio e seus tributários – a exemplo do Riacho dos Cavalos e Riachão.

“As empresas instalam as lavouras no alto das chapadas e, com as chuvas ou demais processos antrópicos, as águas escorrem para os baixões, chegando aos rios. Nas épocas das chuvas, o uso do rio provoca alergia nas pessoas. O uso excessivo de agrotóxicos nas fazendas também trouxe pragas para a lavoura das comunidades, bem como a extinção de aves que ao comer a soja, morrem por envenenamento”, diz trecho do estudo.

Nas chapadas, no entorno do território atualmente reivindicado, foram concedidos títulos para empresas de forma irregular pelo órgão estadual de terras. Há sobreposição ao território reivindicado de 11 imóveis cadastrados no SNCI, entre 2009 e 2013, totalizando 9.978 ha; e 23 sobreposições de imóveis cadastrados no sistema Sigef entre 2014 e 2020, totalizando uma área de 9.945 ha. Considerando os dois cadastros, são 19.923 hectares sobrepostos, correspondendo a 87% do território reivindicado.

As áreas sobrepostas ao território reivindicado de Melancias são em sua maioria tentativas de grilagem verde, especialmente pelo grupo Bom Jardim (família Golin), Cosmos Agropecuária (Ricardo Tombini e Eduardo Dall’Magro) e conjunto Riachão (irmãos Fritzen). As áreas de Reserva legal sobrepostas (CAR) alcançam 17.989 hectares e correspondem a 80% do território reivindicado.

Contexto

Historicamente, o principal operador da apropriação ilegal das chapadas e vales da região do alto Uruçuí-Preto é o próprio Estado do Piauí, especialmente por meio do Poder Executivo e Judiciário. O processo de entrega do valioso patrimônio constituído pelas terras públicas tem início no começo dos anos 70, e visou a transferência massiva de terras devolutas tradicionalmente ocupadas por comunidades para indivíduos e empresas privadas, especialmente do Sul do país, a preços irrisórios e com critérios pouco transparentes. Outra forma comum foi a demarcação fraudulenta de “datas” (concessões) antigas de terras, que foram posteriormente apropriadas com uso de titulos inválidos de ações de inventário, seguidas de desmatamento ilegal.

Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba” aponta recomendações de enfrentamento deste cenário , que serão enviadas para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.

A pesquisa está disponível na íntegra Aqui!