Queimadas na Amazônia intensificam e agosto mantém padrão de devastação dos últimos anos

A alta dos focos de calor registrada confirma o 3° pior mês de agosto dos últimos 11 anos e comprova que a prioridade do governo atual nunca foi proteger o meio ambiente

unnamed (36)

São Paulo, 01 de Setembro de 2021 – Dados divulgados hoje pelo sistema de monitoramento do INPE mostram que, neste mês de agosto, o fogo na Amazônia registrou o número alarmante de 28.060 focos de calor. É o terceiro maior índice para o mês desde 2010, perdendo apenas para 2019 e 2020, sendo que todos esses anos foram marcados pelo governo Bolsonaro e sua política antiambiental. A alta segue, mesmo com o Decreto nº 10.735 em vigor desde 29 de junho, que proíbe o uso do fogo, portanto todas as queimadas registradas em agosto são ilegais.

“Desde 2019, a quantidade de focos de calor registrada em agosto tem atingido patamares absurdos. É como se o governo tivesse criado um “padrão Bolsonaro” de destruição, onde os focos de calor e desmatamento são bem superiores em comparação ao período anterior à gestão de Bolsonaro. Tamanha destruição é resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que não conversa ou beneficia a maioria dos brasileiros, além de seguir na direção contrária dos esforços para conter a emergência climática”, declara Cristiane Mazzetti, Gestora Ambiental do Greenpeace.

O estado do Amazonas, pela primeira vez no mês de agosto desde ao menos o ano 2000, concentrou o maior número de focos, foram 8.588, 30% do total, seguido do Pará (28%) e de Rondônia (15%). Os números refletem a preocupante escalada do desmatamento na região do sul do Amazonas, que já vinha sendo identificada pelos sistemas de monitoramento.

Veja aqui imagens registradas recentemente em sobrevoo ao sul do Amazonas e oeste do Pará.

“Estamos vivendo uma crise na saúde e uma crise climática, ambas agravadas com os recordes de queimadas e desmatamento. Mas ao invés de combater o crime ambiental e garantir o bem-estar dos mais impactados pelos incêndios florestais, o governo federal opta pelo enfraquecimento deliberado das políticas de proteção ambiental, enquanto o Congresso Nacional discute projetos que ameaçam as terras indígenas e que vão estimular mais grilagem, desmatamento e queimadas – PL 2633, PL 490 e outros – expondo ainda mais a saúde do povo brasileiro e contribuindo para novas crises hídricas que deixam a conta de luz dos brasileiros cada vez mais cara”, completa Cristiane.

A ameaça às nossas florestas e seus povos vêm de todos os lados, a tese do Marco Temporal, que propõe que povos indígenas só teriam direito ao território a partir de ocupação física deste no dia de promulgação da Constituição Federal, está em discussão essa semana no STF. O julgamento do caso será decisivo para o futuro dos povos e terras indígenas de todo o país, e portanto, a tese do Marco Temporal precisa ser rejeitada. A demarcação e proteção de territórios indígenas são fundamentais na proteção da Amazônia e no combate às mudanças climáticas.

Ambientalistas cobram NYT sobre fim dos anúncios de combustíveis fósseis

fossil

Uma coalizão de 13 organizações ambientais lançou uma campanha clamando ao New York Times que interrompa imediatamente a publicidade de combustíveis fósseis. A campanha vem em meio ao aumento da pressão sobre gigantes da mídia, como Facebook , para agir sobre a desinformação climática.

Apesar de ter uma seção inteira de seu jornal dedicada ao clima, o jornal promove os combustíveis fósseis que causam a crise. A coalizão diz que a política do Times é contraditória com sua ética jornalística, que frequentemente comunica sobre as mudanças climáticas e até patrocina eventos climáticos, como o Climate Hub na COP26 .

“O New York Times ostenta um dos melhores jornalismos climáticos do mundo, mas é como se os editores não acreditassem em seus próprios jornalistas”, diz Genevieve Gunther do End Climate Silence. “Sua política de anúncios de combustíveis fósseis é uma forma de negação do clima”, completa Gunther. Para ela, quando anúncios de combustíveis fósseis apareceram diretamente ao lado de artigos sobre soluções para a mudança climática, isso cria uma forte associação que é enganosa para o público geral.

O NYT tem uma política que impede que o jornal faça propaganda de substâncias ou produtos que causam danos ao corpo, o que a coalizão diz que deveria incluir os combustíveis fósseis. O argumento do grupo é que os combustíveis fósseis têm sido inextricavelmente ligados à mudança climática por meio dos impactos na saúde causados pela poluição do ar e pelos desastres naturais que resultaram em mortes, doenças crônicas e enfermidades e deslocamentos .

“O New York Times proibiu os anúncios de cigarros há mais de 20 anos. Já é hora de fazerem o mesmo com os combustíveis fósseis, que matam muito mais pessoas do que fumar e ameaçam a estabilidade de todo o nosso planeta”, disse Jamie Henn, diretor da Fossil Free Media. “O Times não pode dizer que leva a crise climática a sério se ainda está lucrando com a desinformação da indústria de combustíveis fósseis”, completa.

“Há duas décadas, o Times reforçou seu jornalismo de saúde pública ao decidir parar de veicular anúncios de tabaco”, lembra Kathy Mulvey, diretora da campanha de prestação de contas do Union of Concerned Scientists. “Agora o Times tem uma oportunidade – e responsabilidade – de evitar cumplicidade no engano e com o greenwash da indústria de combustíveis fósseis, recusando anúncios de poluidores como ExxonMobil, Chevron e Shell”.

“As empresas de combustíveis fósseis são a principal causa da mudança climática, assim como a principal causa da desinformação sobre as causas da mudança climática”, ressalta Duncan Meisel, Clean Creatives. “Os leitores do Times merecem a verdade, apresentada de forma honesta e clara.”

A coalizão de parceiros inclui Badvertising, Clean Creatives, Climate Hawks Vote, Climate Power Education Fund, End Climate Silence, Evergreen Action, Fossil Free Media, Green Faith, Oil Change International, Periodistas por el Planeta, Stop Funding Heat, The Years Project e Union of Concerned Scientists.

China limita uso de videogames por menores a três horas semanais

Norma se soma a outras iniciativas de Pequim que ampliam controle sobre a sociedade e afetam empresas de tecnologia atuantes em redes sociais, vendas online e educação remota

online games china

Companhias que oferecem jogos online terão que adotar sistema de verificação de identidade

A China proibiu nesta segunda-feira (30/08) os menores de 18 anos de jogarem videogames online por mais do que três horas por semana, em uma incisiva intervenção social para combater o que as autoridades chinesas já chamaram uma vez de “ópio do espírito”.

As novas regras entram em vigor nesta quarta-feira e se somam a outras iniciativas recentes de Pequim que aumentam o controle sobre a sociedade chinesa e setores-chave de sua economia, incluindo tecnologia, educação e imóveis, após anos de crescimento desimpedido.

As restrições valem inclusive para jogos de celular e terão forte impacto na indústria mundial de jogos eletrônicos, que atualmente oferece seus produtos a dezenas de milhões de jogadores na China, o mercado mais lucrativo do mundo.

Os menores de 18 anos poderão jogar uma hora por dia, das 20h às 21h, somente nas sextas, sábados e domingos, segundo a agência de notícias Xinhua, do governo chinês. Eles poderão jogar também por uma hora, no mesmo horário, em feriados.

As empresas do setor de jogos eletrônicos serão impedidas de oferecer qualquer tipo de serviço para os menores de 18 anos fora do horário estipulado e precisam utilizar sistemas de verificação de identidade, disse o governo.

Em 2019, a China já havia limitado o tempo que menores de 18 anos podem jogar videogames a uma hora e meia por dia, em qualquer dia, e a três horas por dia em feriados.

“Os adolescentes são o futuro de nossa pátria-mãe”, disse à Xinhua um porta-voz do governo, não identificado. “Proteger a saúde física e mental dos menores está relacionado aos interesses vitais do povo e à preparação da geração mais nova na era do rejuvenescimento nacional.”

online china

Repercussão da norma

As novas regras sobre o uso de jogos eletrônicos rapidamente se tornaram um dos temas mais discutidos no Weibo, uma rede social chinesa similar ao Twitter. Alguns usuários manifestaram apoio às medidas, e outros se disseram surpresos com o rigor das novas regras.

“Isso é tão cruel que estou completamente sem palavras”, disse um usuário, em uma mensagem que recebeu mais de 700 curtidas.

Outros expressaram dúvidas sobre como as restrições poderiam ser aplicadas na prática. “Eles apenas irão usar os logins de seus pais, como poderão controlar isso?”, questionou outro usuário.

Cerca de 62% das crianças e adolescentes chineses de até 18 anos jogam videogames online, e 13,2% jogam por mais de duas horas diárias em dias úteis, segundo o governo chinês.

As empresas que atuam no setor já estavam apreensivas nas últimas semanas, à medida em que a imprensa estatal chinesa havia criticado o vício em jogos entre os jovens e sinalizou para medidas regulatórias.

Um veículo de imprensa do governo chinês descreveu os jogos online como “ópio do espírito” neste mês, e citou o jogo Honor of Kings, da Tencent, em um artigo que pedia por mais limites ao setor, afetando as ações da empresa, que além de controlar diversos serviços online, como as redes sociais QQ e WeChat, é a maior vendedora de jogos eletrônicos no mundo.

Em seguida, a Tencent anunciou novas medidas para reduzir o tempo e o dinheiro que as crianças gastavam em jogos, começando pelo Honor of Kings. O presidente da empresa também afirmou que estava trabalhando com os reguladores para encontrar formas para que o tempo gasto por menores de 18 anos em jogos pudesse ser limitado.

O governo chinês afirmou que aumentará a frequência e a intensidade da fiscalização sobre companhias de jogos eletrônicos para garantir que elas estejam adotando os limites diários de uso e sistemas antivício.

Serviços de tecnologia na mira

As novas regras para os jogos eletrônicos foram estabelecidas pela Administração Geral de Imprensa e Publicações, órgão governamental sob a autoridade do Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês, e coincidem com outras medidas recentes tomadas por Pequim que ampliaram o controle sobre serviços na área de tecnologia e afetaram outras empresas gigantes como a Alibaba, atuante em comércio eletrônico, pagamentos online e computação em nuvem.

Em julho, o governo chinês também já havia proibido empresas que oferecem aulas online sobre temas que integram o currículo escolar de terem lucro, atingindo companhias como a TAL Education e a Gaotu Techedu.

Desde fevereiro, a Tencent já perdeu mais de 300 bilhões de dólares (R$ 1,5 trilhão) em valor de mercado, uma perda superior ao valor de mercado atual da Nike ou da Pfizer. A Tencent tem um valor de mercado agora de 573 bilhões de dólares (R$ 2,9 trilhões).

As novas regras sobre jogos online também tiveram impactos em empresas de outros países. Apenas no setor de videogame, a previsão do faturamento do mercado na China em 2021 era de 45,6 bilhões de dólares (R$ 237 bilhões), à frente dos Estados Unidos, segundo a empresa de análises Newzoo. Por isso, as novas restrições repercutiram em todo o mundo.

O valor de ações negociadas na bolsa de Amsterdã da empresa de investimentos em serviços de tecnologia Prosus, que detém 29% do grupo chinês Tencent, caiu 1,45%. As ações de empresas europeias de videogames Ubisoft e da Embracer Group caíram mais de 2%.

bl/ek (Reuters, AP)

compass

Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Argentina proíbe 2,4-D e já aplica sanções… Enquanto isso no Brasil, as liberações correm soltas

Quanto custaria retirar o herbicida do Brasil?

bayer-monsanto-1

Por Leonardo Gottems para a Agrolink

Em vigor desde o dia 24 de julho, a proibição da utilização e comercialização de 2,4-D em sua formulação “butil e isobutil éster” já está sendo alvo de fiscalização na Argentina. A medida foi implementada por decisão do  Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Alimentar (Senasa), e prevê sanções ainda para quem importar, elaborar e fracionar o herbicida.

“A aplicação e o uso dessas formulações podem causar prejuízos às culturas agrícolas, florestais ou outras, devido à sua alta volatilidade nas diferentes regiões do país”, justificou o Senasa argentino.

O engenheiro e diretor-geral de Inspeção e Controle da agência governamental na cidade de Córdoba (Norte da Argentina), Gustavo Balbi, afirmou: “Hoje existem tecnologias que ultrapassam em muito o uso deste tipo de ferramentas e devemos nos adaptar ao seu uso para um desenvolvimento produtivo cada vez mais sustentável”.

Em caso de não cumprimento, o Senasa estabelece o confisco, suspensão ou qualquer outra medida que seja aconselhável de acordo com as circunstâncias de risco para a saúde pública ou o meio ambiente.

E o Brasil?

Os produtores rurais brasileiros teriam um gasto adicional de R$ 1,6 bilhão por ano caso os herbicidas à base de 2,4-D sejam banidos, forçando sua substituição por outras moléculas. É o que aponta uma pesquisa que mapeia os aspectos biológicos e econômicos do uso desse agroquímico, realizada pelos engenheiros agrônomos e pesquisadores especializados no tema, Robinson Osipe e Jethro Barros Osipe.

De acordo com o estudo, o custo extra com a retirada do 2,4-D da agricultura do Brasil equivale a 417,76% a mais do montante utilizado com o defensivo para o manejo e controle de plantas daninhas. “A retirada do 2,4-D do mercado agrícola brasileiro provocaria, de maneira direta, um significativo aumento médio anual no custo de controle de plantas daninhas. O produto é usado em diversas culturas no País, mas se sobressai na de soja, que representa 65,4% da área cultivada”, ressalta Robinson Osipe.

compass

Este artigo foi inicialmente no site Agrolink [Aqui!].

Produtos químicos eternamente tóxicos contaminam o ar de interiores em níveis preocupantes, segundo estudo

Alimentos e água foram considerados as principais formas pelas quais os humanos são expostos ao PFAS, mas o estudo aponta para o risco de respirá-los

tapetes

Os especialistas acreditam que os produtos tratados com PFAS, como carpetes, são a fonte dos compostos de PFAS transportados pelo ar. Fotografia: Alamy Stock Photo

Por Tom Perkins para  o “The Guardian”

Compostos tóxicos de PFAS estão contaminando o ar dentro de casas, salas de aula e lojas em níveis alarmantes, descobriu um novo estudo.

Pesquisadores da Universidade de Rhode Island e do Green Science Policy Institute testaram o ar interno em 20 locais e detectaram os “produtos químicos eternos” em 17 locais. Acredita-se que os compostos transportados pelo ar se desprendam de produtos tratados com PFAS (substâncias per e polifluoroalquil), como carpetes e roupas, e se fixem na poeira ou flutuem livremente no ambiente interno.

Os especialistas consideravam anteriormente que comida e água eram as duas principais rotas pelas quais os humanos são expostos ao PFAS, mas os autores do estudo observaram que muitos humanos passam cerca de 90% de seu tempo dentro de casa, e as descobertas sugerem que respirar os produtos químicos provavelmente representa um terço rota de exposição significativa.

“É uma fonte subestimada e potencialmente importante de exposição ao PFAS”, disse Tom Bruton, coautor e cientista sênior da Green Science.

Ling Ling e Tom Perkins.Eu testei minha água da torneira, meus produtos domésticos e meu gato quanto a ‘produtos químicos para sempre’ tóxicos. 

PFAS são uma classe de cerca de 9.000 compostos usados ​​para tornar os produtos resistentes à água, manchas ou calor. Por serem tão eficazes, os produtos químicos são usados ​​em dezenas de indústrias e em milhares de produtos de consumo diário, como protetores contra manchas, carpetes e sapatos. Os fabricantes de tecidos os usam para produzir roupas à prova d’água e são usados ​​em ceras para pisos, utensílios de cozinha antiaderentes, embalagens de alimentos, cosméticos, espuma de combate a incêndios e muito mais.

PFAS são apelidados de “produtos químicos para sempre” porque eles não se decompõem naturalmente. Eles se acumulam em animais, incluindo humanos, e estão ligados ao câncer, defeitos congênitos, doenças do fígado, doenças da tireóide, diminuição da imunidade, distúrbios hormonais e uma série de outros problemas graves de saúde.

Uma análise do Guardian de fevereiro de produtos domésticos encontrou flúor , um indicador de PFAS, presente em 15 itens. Os produtos químicos são tão amplamente usados ​​que é difícil dizer com precisão de onde vêm todos os PFAS transportados pelo ar, embora o novo estudo também tenha detectado sua presença em tapetes e roupas em alguns locais.

O estudo, publicado na terça-feira na Environmental Science & Technology , usou uma nova técnica de medição PFAS para verificar o ar. Ele encontrou níveis particularmente altos em várias salas de aula do jardim de infância e também verificou o estoque de uma loja de roupas ao ar livre, escritórios, várias salas de aula da universidade, laboratórios da universidade e um elevador.

ez1c00481_0003

Um estudo de 2017 encontrou uma correlação entre altos níveis de PFAS no ar e no soro do sangue humano, e o novo estudo usou um modelo que descobriu que os alunos do jardim de infância provavelmente foram expostos a mais PFAS respirando-os do que ingerindo os compostos.

“Isso reforça que enquanto houver PFAS nos produtos que temos ao nosso redor em nossas casas e em nossas vidas, vai haver uma quantidade que vai acabar no ar, vai acabar em pó, e vamos acabar respirando ”, disse Bruton.

Também são notáveis ​​os tipos de PFAS que o estudo detectou. Entre os mais prevalentes estava o FTOH 6: 2, um composto usado em ceras para pisos, protetores contra manchas e embalagens de alimentos. A indústria alegou anteriormente que o FTOH 6: 2 era seguro, mas em maio o Guardian revelou que dois grandes produtores de PFAS ocultaram estudos que sugeriam que os compostos são altamente tóxicos em baixas doses em animais de laboratório e permanecem nos corpos dos animais por muito mais tempo do que antes conhecido anteriormente.

A ciência da indústria, agências federais e pesquisadores independentes agora liga 6: 2 FTOH a doenças renais, câncer, danos neurológicos, problemas de desenvolvimento, dentes manchados e doenças autoimunes, enquanto os pesquisadores também encontraram taxas de mortalidade mais altas entre animais jovens e mães humanas expostas aos produtos químicos .

O novo estudo também encontrou altos níveis de 8:2 FTOH, um tipo de composto que os principais fabricantes de PFAS nos EUA alegaram ter retirado de produção por ser muito perigoso. Sua presença sugere que nem todas as empresas o eliminaram ou que ele está em produtos feitos em países onde o produto químico não foi eliminado.

“Para mim, este é mais um motivo para fechar a torneira da produção e do uso do PFAS”, disse Bruton.

compass

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!  ].

Guilherme Boulos, um cavalo de Tróia do Lulismo dentro do PSOL

boulos psol

Guilherme Boulos nunca escondeu sua admiração pela pessoa e pelos métodos de ação do ex-presidente Lula

Acabo de ler a informação de que a corrente de Guilherme Boulos acaba de vencer as eleições internas do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) com o claro aceno de abrir de candidatura própria para as eleições presidenciais que deverão acontecer em 2022. 

Apesar de Boulos não ser sozinho responsável por essa decisão, que eu considero equivocada sob vários aspectos, ele é a face mais expressiva dessa conjunção adesista da maioria da direção nacional do PSOL ao que parece estar se conformando enquanto uma frente popular pela direita que deverá ser encabeçada pelo ex-presidente Lula em nome de um suposto combate ao extremismo de direita que deverá coalescer em torno do nome do presidente Jair Bolsonaro.

A questão mais óbvia é que ninguém que conhece minimamente a trajetória de Guilherme Boulos pode se declarar surpreso com sua defesa de adesão ao PT, visto que sua recente adesão ao PSOL (filiou-se apenas em maio de 2018, quase 14 anos após a fundação do partido). É que Boulos, em que pesem diferenças pontuais com o PT, é um “lulista”, seja no tom de voz ou no conteúdo das suas formas de ação.

O problema é que ao envolver o PSOL nas tratativas do ex-presidente Lula até com aqueles que planejaram e executaram o golpe de estado de 2016, Boulos mostra-se mais claramente pelo que é, um cavalo de Troia do Lulismo dentro do PSOL.

Afora esse desvelamento que surpreende a poucos, Guilherme Boulos e aqueles que gravitam em torno dele estão colocando um partido que nasceu para combater o que seus fundadores viam como a degeneração política do PT de volta nos braços de um dos líderes desse processo, o ex-presidente Lula.

Como não sou filiado do PSOL, penso que caberá aos setores do partido que se opõe a esse processo de adesão a Lula trabalharem para impedir que isso tenha êxito. É que se essa aliança se confirmar, o PSOL que tem evoluído lentamente para ser um partido com capacidade de mobilização de massas vai acabar preso no campo gravitacional do PT e dos partidos de direita com os quais o ex-presidente Lula pretende formar seu governo de “salvação nacional”.  E essa prisão gravitacional significará, seja em curto ou médio prazo, o desaparecimento do PSOL. É que tem se há algo que a direção do PT não tolerará jamais, é outro partido que possa cumprir um papel verdadeiramente de esquerda e que coloca em xeque a hegemonia lulista em questão.

Finalmente, há que se frisar que a atual conjuntura histórica de crise sistêmica do Capitalismo requer a construção de um partido que possa dialogar amplamente com a classe trabalhadora e apontar saídas para a crise que vivemos, seja no plano nacional ou no global. Desta forma, longe de desejar que o PSOL seja um projeto vencido, a minha expectativa que o campo que hoje se opõe à adesão ao Lulismo possa estabelecer barricadas e defender a existência de um partido que até agora só ensaiou ser o instrumento que os trabalhadores brasileiros necessitam, mas que já demonstrou ter potencial para ser isso.

O impulso para o acesso aberto está tornando a ciência menos inclusiva

Pesquisadores em países em desenvolvimento poderão ser paralisados ​​por altas taxas de artigos, a menos que uma reforma editorial mais ampla seja realizada, afirmam quatro pesquisadores brasileiros

wall_4
Fonte: Getty (editado)
Por Alicia Kowaltowski , Marcus Oliveira , Ariel Silber Hernan Chaimovich para a “Times of Higher Education”

É difícil argumentar contra a visão de que a pesquisa desenvolvida predominantemente por meio de financiamento público deve ser abertamente acessível a todos.

Claro, sempre era possível solicitar uma cópia de um artigo aos autores, mas enquanto isso facilitava o contato entre leitores e autores, era inconveniente. Nem são os preprints um substituto adequado. Sua qualidade é altamente variável, e sua quantidade absoluta é tal que mesmo um trabalho sólido normalmente atrai a atenção somente depois de ser revisado por pares e publicado em um periódico reconhecido.

Mas a remoção de paywalls tem um custo para cientistas e instituições – e, em países em desenvolvimento, esse custo ameaça ser proibitivo. À medida que os mandatos de acesso aberto proliferam, fica cada vez mais claro que nós, cientistas do mundo em desenvolvimento, provavelmente seremos cada vez mais excluídos da publicação em um grande subconjunto de periódicos.

Os custos de processamento de artigos (APCs) têm subido bem acima da inflação e bem acima dos custos estimados de serviços de acesso aberto – que variam entre US$ 200 (R$ 1.034,03) e US$ 1.000 (R$ 5.170,18) por artigo. Existem provedores de acesso aberto que operam nessa faixa de preço, como o SciELO: Scientific Electronic Library Online, biblioteca digital latino-americana com mais de 1.000 periódicos. No entanto, as revistas disciplinares nas quais pretendemos publicar cobram pelo menos US$ 2.500 (R$ 12.931,96), enquanto APCs de US$ 4.000 (R$ 20.689,79) são considerados dentro da faixa normal. A Springer Nature anunciou recentemente que cobrará U$11.390  (R$ 58.914,20) por mais de 30 de seus prestigiosos periódicos Nature .

No Brasil, as bolsas federais de dois anos para apoio à pesquisa são limitadas entre US$ 5.640 (R$ 29.163,22) e US$ 22.560 (R$ 116.682,61) , dependendo da experiência do pesquisador. Até mesmo nossa agência de fomento à pesquisa mais generosa, a FAPESP do Estado de São Paulo, limita suas bolsas regulares de pesquisa em pouco menos de US$ 30.000 (R$ 155.163,04 ) por ano. Esta soma é usada para cobrir todos os equipamentos, consumíveis e serviços, incluindo APCs.

Quando mencionamos essas barreiras econômicas para colegas internacionais, muitas vezes ouvimos que a solução é um sistema de isenção para economias em dificuldades. Na verdade, Plano S, que lidera a pressão pelo acesso aberto, estipula que “o periódico / plataforma deve fornecer isenções de APC para autores de economias de baixa renda e descontos para autores de economias de renda média-baixa”. Mas a maioria dos países latino-americanos com produção científica significativa, como Brasil, Argentina e México, bem como países grandes como China e Federação Russa, são classificados pelo Banco Mundial como economias de renda média-alta. Cientistas nessas nações devem, portanto, pedir isenções individuais (com base, como diz o Plano S, em “necessidades demonstráveis”) após a aceitação do manuscrito. Se a dispensa for negada ou o desconto for insuficiente, o único direito do autor é levar o manuscrito para outro lugar, reiniciando o já demorado processo de revisão.

É claro que, uma vez que todas as publicações estão em formato de acesso aberto, os investimentos atualmente feitos em assinaturas de periódicos podem ser transferidos para cobrir APCs. Mas, no Brasil, as assinaturas de periódicos são negociadas pelo consórcio de bibliotecas da CAPES Periódicos, que fornece acesso a livros, periódicos e bases de dados científicas para instituições de pesquisa de todo o país. Seu orçamento para 2021 é de cerca de US $ 75 milhões, dos quais cerca de 70%  provavelmente serão gastos no acesso de texto completo – ou seja, cerca de US$ 50 milhões. O Brasil publica cerca de 56.000 artigos de periódicos acadêmicos anualmente, portanto, mesmo que todo esse valor fosse destinado a artigos científicos (em detrimento de outros acessos de texto completo que o portal oferece atualmente, como livros), o valor médio disponível por artigo seria menor do que U$ 1.000 (R$ 5.170,18).

Para evitar que a publicação se torne economicamente proibitiva, a pressão pelo acesso aberto acima de todas as outras prioridades de publicação deve ser substituída por uma pressão pela verdadeira inclusão. As medidas necessárias incluem, no mínimo, a extensão de isenções totais para países de renda média-baixa e a extensão de descontos automáticos substanciais para países de renda média-alta como o nosso.

A comunidade científica também deve garantir práticas justas e preços na publicação acadêmica. Consórcios de agências de financiamento nacionais poderiam coletar e analisar os orçamentos dos editores, comparando-os com os custos de publicação estimados e decidindo sobre um preço justo máximo que estão dispostos a pagar.

Em um nível individual, os cientistas devem priorizar periódicos apoiados por sociedades científicas e cientistas ativos em suas áreas, garantindo que pelo menos parte dos lucros dos periódicos retorne à comunidade científica. Idealmente, coletivos de pesquisadores deveriam criar seus próprios periódicos não comerciais “diamantes”, que são gratuitos para autores e leitores, como um grupo de pesquisadores em nossa área, a bioenergética, fez recentemente. Mas os pesquisadores precisarão apoiá-lo; para esse fim, elogiamos o plano francês de apoiar especificamente as lojas de diamantes, em uma tentativa de quebrar o superfaturado “glamour” das revistas.

Como professores bem estabelecidos na América Latina, somos resilientes e capazes de produzir ciência de qualidade em condições desafiadoras. No entanto, se a tendência atual continuar, seremos limitados em nossas opções de publicação pelo preço que podemos pagar. Tememos, em particular, que esse estado de coisas faça com que os resultados de nossos alunos sejam avaliados desfavoravelmente, diminuindo suas chances de obter posições competitivas em todo o mundo, nas quais possam se destacar.

O impulso para o acesso aberto primeiro, sem uma reforma mais abrangente na publicação acadêmica, tornará a ciência um pouco mais acessível. Mas também será muito menos inclusivo.

Alicia Kowaltowski é professora de bioquímica da Universidade de São Paulo . Marcus Oliveira é professor associado de bioquímica médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro . Ariel Silber é professor titular de parasitologia e Hernan Chaimovich é professor emérito de química da Universidade de São Paulo .

compass

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pela Times of Higher Education [Aqui!  ].

Organizada por Jarid Arraes, antologia mergulha na pluriversalidade poética de mulheres negras

Poetas Negras Brasileiras — uma antologia”, livro lançado com o selo Ferina, pela Editora de Cultura, reúne mais de 70 vozes contemporâneas. Entre elas, nomes reconhecidos como Cristiane Sobral, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro e Mel Duarte

jarid arraes

O selo literário Ferina, com curadoria, organização, coordenação de Jarid Arraes, lança, pela da Editora de Cultura, a obra “Poetas Negras Brasileiras — uma antologia”, reunindo mais de 70 poetas, dos 18 aos 70 anos e de diferentes regiões brasileiras. Em 128 páginas, a obra panorâmica apresenta vozes contemporâneas e convida a um mergulho em um pluriverso de possibilidades de apreensões da mulheridade negra e suas escritas. 

Disponível em pré-venda, a antologia reúne poetas de diferentes faixas etárias, localizações, espiritualidades e compreensões de suas humanidades.

poetas negras

De acordo Aza Njeri, professora e doutora pela UFRJ, que assina a orelha, a obra traduz em “metáforas dissonantes, plasticidades e sonoridades, as experiências éticas e estéticas que atravessam o Viver”. Ao mesmo tempo, pondera, a antologia aponta tanto para os dramas coletivos do existir, quanto para uma profunda camada da subjetividade.  

“Os poemas trazem temas como identidade, linhagem, ancestralidade, sexualidade, cabelo e fenótipo, violência, racismo, equidade, maternidade, amor, paixão… Se tivesse, entretanto, que resumir esta antologia em apenas uma palavra seria força: não aquela romantizada que limita em lugares estanques a potência das mulheres negras, mas a força daquelas mulheres que fazem do verbo as suas armas de guerra e as suas fortalezas”, reforça.

Nomes reconhecidos como Cristiane Sobral, Esmeralda Ribeiro, Jarid Arraes e Mel Duarte nos brindam com suas poesias e, em nada ofuscam as outras vozes, menos conhecidas, mas de igual potência. “Pelo contrário, são sons que dialogam e se empoderam, nos mostrando que Viver é um Ato Poético e as percepções humanas da Vida podem ter multiperspectivas”, evidencia Aza. A edição ainda conta com ilustrações e projeto gráfico de Carolina Reis.  

“Mulheres negras escritoras existem, insistem e resistem”

Jarid Arraes foi quem organizou e coordenou a antologia. Nascida em Juazeiro do Norte, na Região Metropolitana do Cariri (CE), Jarid é escritora, poeta e cordelista, autora do premiado “Redemoinho em dia quente” (2019), vencedor dos prêmios APCA, Biblioteca Nacional e finalista do Jabuti. Também é autora de “As lendas de Dandara” (2016), “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis” (2017) e “Um buraco com meu nome” (2018). Criadora do Clube de Escrita para Mulheres, é autora de mais de 70 títulos em literatura de cordel.

Em 2019, Jarid Arraes abriu uma chamada pública para que escritoras negras brasileiras enviassem contos e poemas para fazerem parte de uma antologia. “Não esperava, no entanto, receber apenas dois contos entre centenas de poemas”, conta. “A mudança de abordagem foi feita com alegria e todas as mulheres negras que enviaram seus poemas dentro do prazo foram selecionadas.”

A intenção foi mostrar a diversidade estética e temática das mulheres negras na literatura. “A grande variedade é a prova que mulheres escrevem e não cabem em apenas uma categoria temática. É a prova de que curadores que não incluem mulheres negras em seus eventos literários precisam ampliar seus repertórios. Mulheres negras escritoras existem, insistem e resistem”, crava a escritora.

Conheça a lista de poetas da antologia

Participam da “Poetas Negras Brasileiras — uma antologia”: Conceição Evaristo (poema de abertura), Aline Cardoso, Ana Fátima, Andrea Cristina Garcia, Andrezza Xavier, Benedita Lopes, Bianca Gonçalves, Bianca Chioma, Bruna Barros, Camila Santana, Carina Castro, Cassiane Nascimento, Catita, Cecília Floresta, Cristiane Sobral, Dandara Kuntê, Dayane Tosta, Débora Gil Pantaleão, Eliza Araújo, Esmeralda Ribeiro, Evinha Eugênia, Fabíola Cunha, Fernanda Rodrigues, Georgia Ianka, Gessica Borges, Giovanna Pina, Hilda França, Isabela Alves, Ivy de Lima, Jaisy Cardoso, Jarid Arraes, Jéssica Ferreira, Jéssica Regina, Jhen Fontinelli, Jovina Souza, Juliana Berlim, Juliana Gonçalves Tolentino, Karla Alves, Kiusam de Oliveira, Laís Santos, Lara de Paula Passos, Laura Oliveura, Lorena Ribeiro, Lubi Prates, Luna Vitrolira, Ma Njanu, Maggie Paiva, Magna Oliveira, Maíra Luciana, Mari Vieira, Maria Vitória, Mariana Madelinn, Marília Casaro, Marina Farias, Marli Aguiar, Mayara Ísis, Mel Duarte, Mika Andrade, Natalia Amoreira, Nicole de Antunes, Nina Maria, Nina Rizzi, Orleide Ferreira, Pétala Souza, Priscilla Rosa, Rebeca Victória Rocha, Samantha Machado, Silvia Barros, Stella Almeida, Tainah Cerqueira, Tatiana Nascimento, Thais Andrade, Thamires P. e Zainne Lima da Silva.

Poetas negras cariocas da lista

Conceição Evaristo (Maricá/RJ)

Eliza Araújo (Campos dos Goytacazes/RJ)

Georgia Ianka (Rio de Janeiro/RJ)

Jéssica Regina (Volta Redonda/RJ)

Jhen Fontinelli (Cabo Frio/RJ)

Juliana Berlim (Rio de Janeiro/RJ)

Marina Farias (Nilópolis/RJ)

Silvia Barros (Niterói/RJ)

Stella Almeida (Macaé/RJ)

Thamires P. (Belford Roxo/RJ)

Para além da cordialidade política: o desafio para construção da luta por moradia em Campos dos Goytacazes

novo horizonte
Por Luciane Soares da Silva

Observar uma cidade cujo passado escravocrata teria se reproduzido na centralidade das relações familiares no comando da política local, nos possibilita pensar nas formas de mudança social e principalmente, nas formas de mobilidade social em Campos dos Goytacazes. Durante a pandemia, pesquisadores do Núcleo Cidade, Cultura e Conflito (NUC/UENF), foram até a comunidade da Portelinha para compreender as formas de cuidado no combate a COVID 19. Dois resultados chamam atenção: o número de contaminados naquele momento era baixo, mas o número de pessoas em situação de insegurança alimentar era alto. Nossas entrevistadas, em sua maioria desempregadas naquele momento, eram filhas de empregadas domésticas e netas de lavradoras. Ao longo de um século, estas mulheres não experimentaram nenhuma parte do quinhão prometido pela inclusão, pela universalização do acesso à educação, saúde, renda. E seus filhos seguem no mesmo caminho em uma das cidades que mais se beneficiou dos royalties do petróleo no Brasil. Esta é a mesma realidade de uma localidade na Tapera, construída dentro de um programa da Prefeita Rosinha Garotinho. O Morar Feliz em Ururaí/Tapera pode ser classificado como um gueto urbano. Seus moradores não recebem cartas, todos os serviços públicos são precários, o transporte é irregular, não há posto de saúde e parte de sua população vive com renda advinda de benefícios sociais. A gestão Diniz piorou em muito a vida destas pessoas e alguns trabalhadores voltaram para cana de açúcar. Longe demais dos bairros de classe média, as mulheres sequer ocupam postos no trabalho informal ou de limpeza. A remoção (para alguns, forçada)  destas famílias, significou a perda de renda e de espaço digno para viver.  Onde antes havia quintal, galinhas, árvores, plantas medicinais, hoje existe um muro. 

Mais recentemente, precisamente desde abril de 2021, a construção de luta por moradia na ocupação Novo Horizonte possibilitou a vocalização do problema habitacional em Campos. Temos ocupado com coletivos e quase 2000 pessoas, uma área próxima ao aeroporto de Campos. Durante todo este tempo, o prefeito e seus secretários, optaram por eximir-se das responsabilidades públicas, permitindo que mais de 600 famílias seguissem vivendo sem água, sem luz e em meio a grades que mais lembram um campo de concentração urbano em pleno século XXI. A luta pela manutenção destas famílias tem sido árdua. E feita exclusivamente pela sociedade civil organizada que vem mantendo diariamente esta Ocupação com doações diárias que já ultrapassaram os 40 mil reais. Além disto, é a sociedade civil organizada que tem organizado embates públicos, protestos, pautas na mídia e com isto, forçado o poder público a negociar.

A ida de dois ônibus com moradores da Novo Horizonte para a Câmara de Dirigentes Lojistas de Campos, foi um dos vários capítulos desta luta. Visivelmente o governador Cláudio Castro não queria lidar com as repercussões públicas de um ato desfavorável naquele momento. A celeridade com que recebeu as reivindicações da população comprovou seu medo de que aquela manhã fosse “tumultuada” pelo povo. 

Aberta a mesa de negociação na Secretaria de Obras e Infraestrutura no Rio de Janeiro, assistimos o secretário Max Lemos ligar para o prefeito Wladimir Garotinho no dia 19 de agosto. Naquele telefonema o prefeito demonstrou uma boa vontade inédita e uma reunião ocorreu no dia 22, entre ambos na capital.

A luta pela moradia exigiu (e exige) a superação de muitos desafios. Em primeiro lugar a cidade não conta com um movimento de luta urbana pela moradia. Tudo foi aprendido desde o primeiro dia na base de muita vontade, certo improviso e construção de instrumentos de mapeamento do terreno. Nosso banco de dados é muito superior ao feito pela Prefeitura. É mais completo e reflete o perfil de mulheres negras, mães sem renda, com pouca escolaridade e passado rural. Esta população quer casa e não aluguel social. 

Em segundo lugar, as disputas internas enfraquecem a luta coletiva. É preciso superar certa tendência do culto a personalidade e as relações pessoais. A cordialidade da qual nos fala Sérgio Buarque de Holanda, a doçura das relações próximas, é o avesso da universalização de direitos que faz avançar a luta coletiva. É neste momento que passado e presente entram em choque exigindo novas práticas de construção política. Talvez haja em Campos, como em muitas cidades de porte médio, um domínio das relações de amizade e familiares sobre o que deveria ser impessoal.  Neste momento, estamos assistindo o desfecho da luta da maior ocupação urbana do Rio de Janeiro fora dos centros metropolitanos. 

Quando pensamos a ação dos movimento sociais, coletivos e partidos progressistas dentro da Novo Horizonte, estamos mirando algo muito mais profundo na cidade de Campos. Miramos a potência de organização fora dos moldes já conhecidos de cooptação pelas famílias locais que dominam a política. E devemos colocar na agenda principal da cidade, o acesso à moradia como um direito humano de descendentes dos trabalhadores de usina. É preciso que este objetivo esteja fixado e seja reforçado. Sabemos como intrigas, disputas por terra e trações levaram líderes à morte em um passado recente. Assassinados sem que a justiça seja feita. 

Em memória a lutadores como Cícero Guedes e Regina dos Santos Pinho, devemos evitar qualquer ato que divida a luta. Sabemos como a difamação é arma corriqueira na mão saudosa dos donos do poder. E ainda temos de lidar com a urgência da construção de uma consciência de classe para além do imediatismo. 

Vamos em frente, vida longa à Novo Horizonte !

compass

 Luciane Soares da Silva é docente do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Para celebrar seus 22 anos, Programa de Políticas Sociais da Uenf realiza jornada de debates

Em meio a uma crescente crise social e econômico, com consequências desastrosas para a maioria da população brasileira, o Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) irá celebrar seus 22 anos com a realização de sua 8a. jornada nos dias 20 e 21 de setembro (ver cartaz abaixo).

wp-1630327732493.jpg

A existência de um programa cujas linhas de pesquisa estão centradas no objetivo de analisar o papel das políticas sociais enquanto ações de governo que, em tese, visam amenizar as consequências de uma profunda desigualdade na distribuição das riquezas que marca a formação da sociedade brasileira. 

Em consonância com o papel regional da Uenf, os professores e discentes do PGPS têm realizado uma série de estudos importantes sobre a situação das políticas sociais na região Norte Fluminense, em especial no município de Campos dos Goytacazes.

No entanto, a presente edição da já tradicional “Jornada em Políticas Sociais” procura analisar a situação das políticas sociais sob a égide dos últimos governos ultraneoliberais, em especial do governo Bolsonaro. 

O acesso ao evento será gratuito e o link para acompanhar o evento será divulgado em breve pela coordenação do PGPS na página do programa.