Brasil perde 15% de superfície de água desde o começo dos anos 1990

Tendência de redução da superfície de água é observada em 8 das 12 regiões hidrográficas e em todos os biomas do Brasil. No Mato Grosso do Sul, a perda foi de 57% da superfície de água

O Brasil está secando: esta é a conclusão obtida pela análise de imagens de satélite de todo o território nacional entre 1985 e 2020 feita pela equipe do MapBiomas. Os dados, que ficam disponíveis a todos os interessados a partir desta segunda (23/08) no site https://agua.mapbiomas.org/, indicam uma clara tendência de perda de superfície de água em 8 das 12 regiões hidrográficas, em todos os biomas do País.

A superfície coberta por água do Brasil em 2020 era de 16,6 milhões de hectares, uma área equivalente ao estado do Acre ou quase 4 vezes o estado do Rio de Janeiro. Desde 1991, quando chegou a 19,7 milhões de hectares, houve uma redução de 15,7% da superfície de água no país. A perda de 3,1 milhões de hectares em 30 anos equivale a mais de uma vez e meia a superfície de água de toda região nordeste em 2020.

“Mudanças no uso e cobertura da terra, construção de barragens e de hidrelétricas, poluição e uso excessivo dos recursos hídricos para a produção de bens e serviços alteraram a qualidade e disponibilidade da água em todos os biomas brasileiros. Ao mesmo tempo, secas extremas e inundações associadas às mudanças climáticas aumentaram a pressão sobre os corpos hídricos e ecossistemas aquáticos”, explica Carlos Souza, coordenador do GT de Água do MapBiomas. “Se não implantarmos a gestão e uso sustentável dos recursos hídricos considerando as diferentes características regionais e os efeitos interconectados com o uso da terra e as mudanças climáticas, será impossível alcançar as metas de desenvolvimento sustentável”, alerta.

O estado com a maior perda absoluta e proporcional de superfície de água na série histórica de 35 anos analisada pela equipe do MapBiomas foi o Mato Grosso do Sul, com uma redução de 57%. Se em 1985 o estado tinha mais de 1,3 milhão de hectares cobertos por água, em 2020 eram apenas pouco mais de 589 mil hectares. Mais de 780 mil hectares de água foram perdidos no período. Essa redução se deu basicamente no Pantanal, mas toda a bacia do Paraguai é afetada pela redução da superfície de água. Em segundo lugar está o Mato Grosso, com uma perda de quase 530 mil hectares, seguido por Minas Gerais, com um saldo negativo, entre a água que entrou e a que se esvaiu, de mais de 118 mil hectares.

Vários pontos de maior redução da superfície da água encontram-se próximos a fronteiras agrícolas, o que sugere que o aumento do consumo, construção de pequenas represas em fazendas, que provoca assoreamento e fragmentação da rede de drenagem e que vem junto com o desmatamento e aumento de temperatura, são fatores que podem explicar as da diminuição da superfície da água no Brasil. Além disso, o aumento de temperatura global de 1,5 oC, com contribuição significativa pelas ações humanas, segundo o relatório recente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), pode estar contribuindo para esse processo de redução de superfície de água no Brasil.

Temos vários casos que indicam os efeitos combinados do uso da terra e das mudanças climáticas. Esse é o caso do Rio São Francisco, que corre por áreas de Cerrado e Caatinga. Os dados analisados mostram que há tendência de decréscimo na superfície de água, especialmente na margem esquerda, onde ficam as regiões de fronteiras agrícolas. A redução foi notada nos últimos 15 anos, que coincidem com o período de expansão agrícola no Matopiba. O maior consumo de água dessas atividades, combinado ao assoreamento da calha do rio devido a forte intervenções e períodos de seca típicos da região por onde o Velho Chico passa, resultou em uma redução de 10% em sua superfície de água nos últimos quinze anos. Em sua foz, as comunidades já sentem os efeitos, com a invasão do rio pelo mar.

Outro majestoso rio que está perdendo seu vigor é o Negro, na Amazônia. Há uma tendência de decréscimo de superfície de água generalizada em sua sub-bacia hidrográfica. Considerando o início e o final da série, ela perdeu mais de 360 mil hectares de superfície de água, uma diferença de 22%. O sinal de queda mais acentuado ocorreu entre 1999 e 2000 com redução de mais de 560 mil hectares, ou um pouco mais de 27% de diferença.

O município que mais pegou fogo entre 1985 e 2020, segundo o MapBiomas Fogo, e que mais perdeu água nesse período, pelo MapBiomas Água, foi Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Cáceres, o quinto que mais queimou no país, é o vice-líder em perda de superfície de água. “Os ciclos de fogo e água estão interligados e se retroalimentam. Menos água deixa a terra e a matéria orgânica que se depositam sobre ela mais vulneráveis ao fogo. Mais fogo suprime a vegetação, que tem papel crucial para perenizar nascentes e mananciais”, explica Tasso Azevedo, Coordenador do MapBiomas.

Superfícies naturais e antrópicas

Estruturas antrópicas, como barragens, açudes e reservatórios, contribuem na mudança dos padrões hidrológicos das regiões. No Pampa, há uma grande densidade de reservatórios artificiais para uso na irrigação do cultivo de arroz, construídos, em sua maioria, antes de 1985. No período de análise do MapBiomas Água, entre 1985 e 2020, houve continuidade na criação de novos reservatórios, com destaque para os municípios de Dom Pedrito e Uruguaiana, ambos no Rio Grande do Sul. Apesar de apresentar a menor tendência de redução de superfície de água, ela também ocorre no Pampa: redução de quase 2,3 mil hectares. No Cerrado, a água natural, de rios livres, está perdendo espaço para a água antrópica com reservatórios. Há uma combinação de regiões com redução e outras com aumento de superfície de água em barragens no Cerrado, levando a uma leve perda de superfície da água neste bioma.

No caso da Mata Atlântica, os dados mostram que o Bioma não conseguiu passar incólume às crises hídricas de 2001 e 2015, apresentando decréscimos significativos nesses anos, apesar da boa quantidade de estruturas artificiais para armazenamento de água que o bioma abriga. Na Caatinga, estruturas antrópicas também não impediram o revés. Com a construção de estruturas de captação de água, o bioma experimentou um aumento de 13% da superfície de água entre 2004 e 2009. A partir de então, no entanto, sofreu uma redução de 30% devido a períodos de seca prolongados.

A perda da superfície de água natural por causa da água armazenada em estruturas construídas pelo homem tem consequências preocupantes na alteração do regime hídrico, afetando a biodiversidade e a dinâmica dos rios. O Pantanal é um desses exemplos, com a construção de hidrelétricas nos rios que formam o bioma. Ainda, há dezenas de outras barragens projetadas para esta região, com pouca contribuição para o sistema elétrico e um grande potencial de impactos. “Elas se somam a um modelo de produção agropecuária que altera o regime de drenagem da água e intensifica a deposição de sedimentos, reduzindo a vazão da água. Se esse modelo de desenvolvimento não for revisto, o futuro Pantanal está comprometido”, explica Cássio Bernardino, coordenador de projetos do WWF-Brasil.

Onde está a água no Brasil

O Brasil possui 12% das reservas de água doce do planeta, constituindo 53% dos recursos hídricos da América do Sul. Existem 83 rios fronteiriços e transfronteiriços, assim como bacias hidrográficas e aquíferos. As bacias hidrográficas transfronteiriças ocupam 60% do território brasileiro.

O bioma com a maior área coberta por água no Brasil é a Amazônia, com mais de 10,6 milhões de hectares de área média, seguida pela Mata Atlântica (mais de 2,1 milhões de hectares) e pelo Pampa (1,8 milhão de hectares). O Pantanal ocupa a quinta posição, com pouco mais de 1 milhão de hectares de área média, atrás do Cerrado (1,4 milhão de hectares).


Sobre MapBiomas Água

Trata-se de uma iniciativa inédita de mapeamento territorial da dinâmica da água superficial e de corpos hídricos para todo o território nacional desde 1985. A exemplo do MapBiomas Fogo, a série Água processou mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2020. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área coberta por água em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos 36 anos entre 1985 e 2020, distinguindo os corpos hídricos naturais e antrópicos. Ao todo, foram 108 terabytes de imagens processadas, revelando áreas, anos e meses de maior e menor cobertura de água. O método também permite identificar a área com água em cada mês em todo o período, bem como as transições e tendências. Os dados podem ser encontrados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2020 na plataforma https://agua.mapbiomas.org/, aberta a todos.

Sobre MapBiomas
 
Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org
 

Reportagem da Pública revela a íntima relação entre narcotráfico e extração ilegal de madeira na Amazônia

Pesquisadores e policiais apontam uso crescente de cargas de origem florestal na exportação de drogas — madeira de crime ambiental é hoje uma das principais “maquiagens”

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Por Ciro Barros para a Agência Pública

Os produtos florestais, frequentemente oriundos de crimes ambientais, vêm servindo cada vez mais de maquiagem para o envio de drogas ao exterior. O destaque vai para as cargas de madeira, campeãs de apreensões nos contêineres enviados do Brasil à Europa.

Pesquisas recentes já apontam o volume significativo de exploração ilegal no mercado madeireiro nacional e sua relação com o desmatamento na Amazônia. Segundo um estudo da ONG Imazon publicado em 2020, cerca de 70% da madeira explorada no Pará entre agosto de 2017 e julho de 2018 tinha origem ilícita — a exploração ocorreu em áreas onde não havia autorização do Estado. 

Além de apontar a grilagem e a extração ilegal de madeira como duas das principais causas do desmatamento, o relatório Máfias do Ipê”, produzido pela ONG Human Rights Watch em 2019, mostrou a relação dessa atividade com a violência. A pesquisa analisou 28 casos de assassinatos, 4 tentativas de assassinato e outros 40 casos de ameaças relacionadas à extração ilegal de madeira entre 2015 e 2019.

A novidade apontada pelos entrevistados é a sobreposição cada vez maior das rotas entre as facções criminosas do narcotráfico e os grupos ligados aos crimes ambientais. Pesquisadores dizem que o crime ambiental pode estar servindo como uma nova forma de capitalização para os narcotraficantes, com indícios do uso de cargas de origem florestal para maquiar o envio de drogas ao exterior.

A situação é apontada por fontes ligadas à Polícia Federal (PF) e por pesquisadores da área de segurança pública ouvidos pela Pública. “O principal produto florestal usado para a exportação de drogas para a Europa é a madeira”, afirma Aiala Couto, geógrafo da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e pesquisador associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ao Instituto Clima e Sociedade. Couto desenvolve uma pesquisa a ser publicada neste ano que trata da territorialização do crime organizado na Amazônia e a relação deste com os crimes ambientais. Segundo ele, os produtos minerais, com destaque para o manganês, ocupam o segundo lugar na lista de apreensões.

Um levantamento da Pública feito com base em notícias das apreensões nos sites oficiais do governo e na imprensa identificou ao menos 16 grandes apreensões de cocaína em cargas de madeira destinadas à exportação por via marítima entre 2017 e 2021.  Ao todo, as apreensões somaram cerca de 9 toneladas da droga e tinham como destino países europeus como Espanha, Bélgica, França, Alemanha, Portugal, Itália e Eslovênia. Elas ocorreram com mais frequência em portos do Sul e Sudeste do Brasil em cargas de madeira em toras, vigas, pallets e laminados.

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Fotos de apreensões de cocaína acondicionada em cargas de madeira nos portos de Itaguaí (RJ), Itapoá (SC) e Paranaguá (PR) entre 2019 e 2021. Ascom/Receita Federal/Polícia Federal

A pesquisa de Couto mostra que cerca de 9 toneladas de drogas foram apreendidas na Amazônia Legal — principalmente cocaína e maconha —, vindas do Suriname, Colômbia, Bolívia, Venezuela e Peru entre 2017 e 2020. As drogas vieram principalmente por via fluvial e terrestre. Os dados foram compilados também em notícias a respeito das apreensões. A informação colhida pelo pesquisador aponta para uma sobreposição entre áreas onde há apreensão de madeira ilegal e contrabando de minério e áreas de apreensão de drogas.

De acordo com informações da Receita Federal repassadas à Pública, mais de 2 toneladas de narcóticos acondicionados em produtos de origem extrativista foram apreendidas somente no porto de Santos (SP) entre 2019 e 2021. As drogas foram encontradas em pallets de madeira, fibras de amianto, cargas de grafite, microssílica e corindo (mineral à base de óxido de alumínio).

Segundo o delegado titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF no Amazonas, Victor Mota, já se constatou que a madeira é a carga mais usada pelo narcotráfico na exportação de drogas. “A gente já fez um levantamento das exportações do tráfico de drogas para a Europa e a primeira carga disparada [onde as drogas são escondidas] é a madeira. Seja na forma de móveis, seja na forma de vigas, seja em outras formas. A principal forma que eles escondem a droga para o envio para a Europa é a madeira”, diz o delegado, em entrevista à Pública. Segundo Mota, essa informação consta em um levantamento interno já produzido pela PF, mas a instituição negou o acesso ao documento após um pedido da reportagem.

Facções veem crimes ambientais como oportunidade de acumular capital

“As rotas que são utilizadas para o tráfico de drogas também são utilizadas para o contrabando de madeira, e algumas estão próximas em áreas de contrabando de minério, sobretudo na exploração ilegal de ouro”, afirma o pesquisador Aiala Couto. “Há uma mistura nessas relações [entre o narcotráfico e os crimes ambientais]. E isso faz com que a gente consiga associar o discurso do governo em relação à questão ambiental com esse fortalecimento das ações dessas atividades criminosas que dizem respeito ao meio ambiente. Isso possibilitou que grupos criminosos organizados enxergassem esses crimes como uma possibilidade dentro do seu campo de ação para acumulação de capital”, argumenta.

Couto aponta que já há registros de facções criminosas comprando ilegalmente áreas de floresta para lucrar com a exploração ilegal de madeira e até mesmo para montar áreas de produção de maconha, como tem ocorrido no chamado “polígono da maconha” ou “polígono do capim”, situado no nordeste do Pará, nos municípios de São Domingos do Capim, Concórdia do Pará, Bujaru, Tomé-Açu, Cachoeira do Piriá, Nova Esperança do Piriá, Garrafão do Norte, Moju e Tailândia.

A pesquisa de Couto registra a apreensão de mais de 2 milhões de pés de maconha na Amazônia Legal entre 2015 e 2020, 55% do total apreendido no estado do Pará, com grande destaque para os municípios do polígono. Em agosto de 2020, a Operação Colheita Maldita, deflagrada em conjunto pela PF e pela Polícia Civil do Pará, apreendeu cerca de 200 toneladas de maconha no nordeste paraense (mais de 400 mil pés). Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), já há registros de conflito entre traficantes e comunidades tradicionais, como um caso de ataque de piratas à comunidade ribeirinha de Itamimbuca, no município de Igarapé-Miri, ocorrido em janeiro deste ano. 

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Deflagrada em agosto de 2020, a Operação Colheita Maldita destruiu milhares de pés de maconha no nordeste do Pará, em área chamada de “polígono da maconha”. Leandro Santana/Polícia Civil do Pará

“Há relatos de pessoas envolvidas em conflitos agrários com essa questão [das organizações criminosas]”, afirma a coordenadora do Núcleo de Questões Agrárias e Fundiárias do Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA), Ione Nakamura. A promotora, porém, diz que o tema ainda é incipiente no MP e que nunca foi alvo de investigação da promotoria agrária.

Há associação de grupos criminosos com grupos econômicos que já exploram ativamente o garimpo ilegal na Amazônia, como revelado pela Amazônia Real no caso dos garimpos clandestinos situados em áreas Yanomami, em Roraima. 

Mais do que o mero compartilhamento de rotas, Couto vê um entrelaçamento crescente entre o narcotráfico e o crime ambiental que acelerou acompanhando a disputa dos grupos criminosos pelas principais rotas da Amazônia, que frequentemente coincidem com as dos crimes ambientais. Apesar disso, o combate ao crime na Amazônia por vezes desconsidera essa ligação e isso acaba por fortalecer as facções. “Há várias áreas da Amazônia onde existe esta sobreposição entre estas atividades criminosas como o garimpo ilegal, a exploração ilegal de madeira, o narcotráfico”, argumenta Aiala. “Nós temos um governo que se elegeu com a bandeira da segurança pública, mas que não consegue enxergar que existe essa relação entre segurança pública e o meio ambiente. E toda a narrativa, o discurso e a ação [do governo] potencializou o crescimento do crime organizado na Amazônia hoje. Os números se intensificaram do governo Bolsonaro para cá. O crime organizado tem que ser entendido para além da sigla PCC e Comando Vermelho, por exemplo, há grupos que se envolvem no garimpo ilegal, na grilagem de terras, na extração ilegal de madeira, no contrabando de ouro, na invasão de terras indígenas. Esses grupos criam empresas, lavam dinheiro, participam do contrabando, do tráfico de drogas e armas. A relação é ampla e complexa”, alerta.

Para o ex-superintendente da PF no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva, as punições leves para os crimes ambientais na legislação e a possibilidade de lucros atraem cada vez mais as organizações criminosas para o crime ambiental. “Há uma simples análise de risco por parte do criminoso. Ele olha lá na legislação ambiental e vê que, se for aplicada apenas a legislação ambiental, ela é extremamente limitada. Ele não precisa pensar muito. É possível ver pessoas ligadas às organizações criminosas atuando no comércio ilegal de madeira”, diz Saraiva, que comandou uma das maiores operações de combate à madeira ilegal da história do país, a Operação Arquimedes. 

Barcarena ganha importância na saída de drogas da Amazônia ao exterior

O porto de Vila do Conde, em Barcarena, vem se consolidando como uma das principais rotas de saída de entorpecentes da Amazônia para a Europa. É comum que cargas de entorpecentes saiam de lá e passem por portos do Sul e Sudeste do país, como os de Santos e Paranaguá (PR), antes de ir ao exterior, mas é cada vez mais frequente o envio direto. “Quanto à remessa da cocaína para outros países, o que se tem notado é a utilização de outros portos para despachar a droga, na espécie, pode-se citar o porto de Vila do Conde no estado do Pará”, afirmou em entrevista ao Valor Econômico, o delegado Elvis Secco, ex-coordenador-geral de Polícia de Repressão a Drogas e Facções Criminosas (CGPRE) da PF.

Barcarena já é uma região fértil em conflitos agrários, segundo os dados da CPT. A organização registra mais de 12 mil famílias envolvidas em conflitos de água e terra no município entre 2011 e 2021 e mais de 22 casos de violência contra pessoas no campo no mesmo período (incluindo dois assassinatos). A crescente importância do local como rota do narcotráfico pode agravar o quadro de violência geral nas áreas urbanas e rurais da cidade.

Operações recentes da PF e da Polícia Civil do Pará vêm focando as exportações por Barcarena e a violência em municípios próximos nos últimos anos. É o caso, por exemplo, da Operação Flashback, que, deflagrada pela PF em 2017, desarticulou uma organização criminosa que tinha dois portos como polos principais de suas operações. O porto de Paranaguá e o porto de Vila do Conde, em Barcarena. Este era comandado, segundo as investigações, por Antônio Salazar Nuez, chamado de “Tony Filipino”. Nascido nas Filipinas e baseado em Belém (PA), Tony foi descrito pelo Ministério Público Federal (MPF) como “idealizador do esquema de tráfico de drogas para a Europa, a partir do Porto de Vila do Conde no Pará”. 

Segundo o MPF, Tony aliciava tripulantes, normalmente conterrâneos filipinos, de embarcações que iam a países do exterior. Ainda em 2015, diálogos interceptados pela PF mostraram que ele articulou o envio de cocaína em uma carga de madeira destinada à Turquia. Tony foi condenado a 24 anos de prisão por enviar outros  22 kg de cocaína para a Bélgica e atualmente cumpre pena em regime fechado.

Operações mais recentes vêm confirmando a importância da região portuária de Barcarena na rota do narcotráfico na Amazônia. Em março deste ano, a Polícia Civil do Pará apreendeu 120 kg de cocaína, que, distribuídos em 117 tabletes, seriam exportadas à Europa em vigas de madeira. Quatro pessoas foram presas e uma quantia de aproximadamente R$ 200 mil em espécie foi apreendida pelos policiais. A polícia informou, segundo decisões judiciais, que a operação é resultado de mais de um ano de investigações sobre um suposto esquema de envio de drogas ao exterior que já movimentou “milhões de dólares, euros e reais em um complexo sistema de remessa de cocaína para destinos variados”. 

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Operação Mandarim, deflagrada pela Polícia Civil do Pará em março deste ano, apreendeu 120 kg de cocaína de um grupo criminoso voltado ao tráfico internacional em Barcarena. Reprodução/Polícia Civil do Pará

Um dos suspeitos apontados como líder do esquema possui uma empresa regularizada na Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa) do Pará para exportação de madeira pelo porto de Vila dos Cabanos, outro distrito de Barcarena. Segundo a polícia, a droga era acondicionada nas toras de madeira e posteriormente vendida a clientes no exterior. O processo segue em sigilo de justiça. Nem a Polícia Civil nem o MP-PA quiseram dar entrevista à Pública. 

Para o delegado Victor Mota, uma legislação ambiental frágil pode acabar colaborando para que outros crimes, como a exportação de drogas, cresçam. Um exemplo é o despacho 7036900, de fevereiro de 2020, publicado pelo ex-presidente do Ibama Eduardo Bim, que foi afastado do cargo por determinação judicial. O despacho motivou as investigações que culminaram na Operação Akuanduba, que tem o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e Bim como investigados. 

O documento dispensava a autorização do Ibama para as exportações de madeira, mas foi suspenso por decisão do ministro Alexandre de Moraes em maio deste ano. “Isso facilita [o envio de drogas ao exterior]. É uma coisa que acaba puxando a outra. Se você não tem uma fiscalização de que tipo de madeira está ali, o quanto de madeira está sendo transportado, se essa madeira pode ser exportada, de onde ela foi retirada. Se você não tem essa primeira desconfiança quanto ao material, como a gente vai desconfiar que lá dentro tem ou não entorpecente? Se você começa a criar uma vista grossa com esse material, os caras vão cada vez mais usar aquilo como esconderijo”, avalia.

O delegado Victor Mota foi responsável por uma das operações mais recentes a relacionar crimes ambientais e pessoas ligadas ao narcotráfico. Deflagrada em julho de 2020, a Operação Schelde investigou quem estava por trás do envio de 250 kg de cocaína para a Bélgica em uma carga de vigas de madeira de origem ilícita em 2019. A investigação foi recém-concluída pela PF e mostra a participação de pessoas com passado vinculado a facções criminosas no esquema.

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Deflagrada em julho de 2020, Operação Schelde apreendeu cerca de 250 kg de cocaína em vigas de madeira enviadas à Bélgica.  Ascom/PF

Do Brasil à Bélgica: a cocaína escondida num contêiner de madeira

Em seis de junho de 2019, uma carga de madeira oriunda do Brasil foi interceptada no porto de Antuérpia, na Bélgica. Os policiais belgas se surpreenderam quando fiscalizavam um contêiner de madeira em vigas enviado pela empresa brasileira J. S. Comércio Varejista de Ferragens e Ferramentas, sediada em Manaus (AM). O motivo da surpresa: as autoridades belgas encontraram 250 kg de cocaína refinada na carga de madeira, que tinha como destino a Holanda.

A polícia belga imediatamente alertou a PF no Brasil. Foi ali o início de uma investigação de dois anos, conduzida pela PF no Amazonas e recentemente encaminhada para análise do MPF. Para a PF, a J. S. era uma empresa de fachada usada por pessoas com passado ligado ao tráfico de drogas e a facções criminosas para maquiar o envio de drogas ao exterior. A madeira tinha origem ilegal segundo o inquérito policial.

A J. S. tem como único sócio Gil Vicente Valle Miraval. No decorrer das investigações, os policiais o classificaram como o protagonista da empreitada que levou os 250 kg de Manaus à Bélgica. Com a quebra de seus sigilos bancário e telemático, a PF descobriu que ele se encontrava na Europa no período em que estava prevista a chegada da carga de cocaína, transitando entre a Holanda e a Bélgica. “As investigações apontam que ele faria o recebimento da droga na Europa, receberia o valor do comprador e voltaria ao Brasil com esse valor em espécie, coisa que ele já tentou fazer em uma outra ocasião”, afirma em entrevista à Pública o delegado Victor Mota, responsável pela investigação. 

Descobriu-se também, em conversas obtidas com as quebras de sigilo, que Gil Vicente estava negociando carregamentos de maconha com outros contatos.

Dívida com suposto fornecedor da Família do Norte

Na quebra de sigilo telemático de Gil Vicente, apareceram comunicações com Osmerino Muca de Souza. Osmerino é um velho conhecido da PF amazonense. Em 2015, ele foi preso na Operação La Muralla, a primeira grande operação da PF que atingiu em cheio a facção criminosa Família do Norte (FDN).

publica 5Principal suspeito do envio de 250 kg de cocaína para o exterior, Gil Vicente Valle Miraval já havia sido preso em 2017 por uso de documento falso. Ascom/Polícia Civil do Pará

No relatório final da Operação La Muralla, Osmerino é descrito como um dos principais comparsas do colombiano Juan Angel Ocampo Cruz, vulgo “Chinês”, apontado com um dos grandes fornecedores de drogas do líder da FDN, José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”,  que cumpre pena de 130 anos de prisão na Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande (MS).

Em setembro de 2015, Osmerino foi preso junto com Chinês em um sítio de sua propriedade, no município de Manacapuru (AM), na região metropolitana de Manaus. Na ocasião, a PF apreendeu 27 kg de cocaína e outros 217 kg de maconha, além de armas de grosso calibre. 

Na investigação contra Gil Vicente, a PF encontrou registros de contatos telefônicos entre ele e Osmerino. “Essas ligações por vezes falavam de dívidas e de uma antecipação de uma certa quantidade de dinheiro. Se a gente analisar os antecedentes do Osmerino, ele já foi preso e nós temos informações que ele, depois de solto, continuava praticando o crime de tráfico de drogas”, explica o delegado Victor Mota. “Para mim ficou claro que ele [Osmerino] servia como um fornecedor de entorpecentes”, explica, referindo-se ao envio de drogas para a Bélgica. 

Em julho do ano passado, houve a fase ostensiva das investigações. Batizada de Operação Schelde, em referência ao rio que banha o porto de Antuérpia, a PF cumpriu sete mandados de busca e apreensão e dois de prisão contra Gil Vicente e Osmerino.

Concluído pela PF, o caso está em análise pelo MPF no Amazonas. O procurador responsável, Filipe Pessoa de Lucena, do 11o Ofício da Procuradoria da República no Amazonas, não quis dar entrevista à Pública. Gil Vicente foi solto e está em liberdade condicional desde dezembro de 2020, aguardando a manifestação do MPF. Osmerino não teve o pedido de liberdade condicional aceito pela Justiça e segue em prisão temporária.

A Pública buscou contato com o advogado de Gil Vicente, Euthiciano Mendes Muniz, em um número de telefone informado em um pedido de liberdade provisória, e enviou a ele quatro perguntas sobre os fatos imputados pela PF, mas não houve resposta até o fechamento. A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Osmerino.

fecho

Esta reportagem foi originalmente produzida e publicada pela Agência Pública [Aqui! ].

Quem estiver surpreso com o “Agro é Golpe” precisa ler o livro de Caio Pompeia

galvanO presidente da Aprosoja, o latifundiário sojeiro Antonio Galvan, sofreu busca e apreensão em investigação contra manifestações golpistas em 7 de setembro

O envolvimento de entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador na organização dos atos anti-democráticos programados para o dia 7 de setembro tem surpreendido muita gente.  Pessoalmente não compartilho dessa surpresa, pois estou concluindo a leitura do livro “Formação Política do Agro-Negócio” de autoria do antropólogo Caio Pompeia Ribeiro Neto, que foi publicado pela Editora Elefante em fevereiro de 2021.

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Apesar das normais oscilações que marcam o conteúdo de obras sobre assuntos complexos, o livro de Caio Pompeia faz uma excelente radiografia não apenas do nascimento do conceito de “agronegócio” na Universidade de Harvard, e seu posterior entranhamento na realidade brasileira a partir dos esforços corporativos e de docentes da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, mas também da diligente ação dos líderes de corporações ligadas aos esforço de implantar uma agricultura “a la Revolução Verde” no Brasil e, nada de surpresa, entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador.

O livro mostra ainda que, apesar de fricções internas, os membros ligados ao designado “agro-negócio”  têm atuado desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1988 para regredir direitos sociais e a proteção ao meio ambiente, mas também para impedir que a chamada agricultura familiar tenha acesso aos mesmos benefícios que os grandes proprietários rurais usufruem.

A partir dessa de capacidade de superar divergências localizadas a partir de interesses pontualmente opostos, os membros das entidades ruralistas vem agindo de forma coordenada e eficiente para impor no Congresso Nacional uma série de derrotas aos camponeses, quilombolas e povos indígenas.  Caio Pompeu oferece como exemplo a questão do Código Florestal onde a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) conseguiu sistematizar uma frente unificada para impor no congresso sua agenda anti-social e anti-ambiental e, principalmente, anti-povos indígenas. Aliás, interessante notar que alguns dos aliados da Aprosoja no Congresso Nacional são figuras conhecidas por suas pautas regressivas, incluindo o hoje senador Luiz Carlos Heinze (PP/RS) que tanta vergonha tem passado na CPI da Pandemia.

Desta forma, o envolvimento direta da mesma Aprosoja nos esforços de realizar atos massivos contra o Supremo Tribunal Federal e contra o Congresso Nacional representa uma linha de continuidade de esforços que ocorrem há muito tempo, ainda que a entidade tenha se fortalecido após o “boom” de commodities que ocorreu nos governos do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Aliás, este fortalecimento do agronegócio (i.e., latifundio agroexportador rebatizado) é mais um dos resultados das políticas dúbias que marcaram os anos em que o PT esteve à frente do governo federal brasileiro.

Assim, o envolvimento da Aprosoja no financiamento das ações antidemocráticas que visam criar o caos no sistema político brasileiro não é apenas coerente com sua história, mas também bastante alinhado com a visão de país em que seus dirigentes desejam que vivamos todos.

Desmatamento anual na Amazônia brasileira atinge o maior nível em uma década

A floresta tropical perdeu 10.476 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021, diz o relatório, apesar do aumento da preocupação global

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‘O desmatamento ainda está fora de controle’, disse Carlos Souza, pesquisador do Imazon. Fotografia: Mayke Toscano / Comunicação do Estado de Mato Grosso / AFP / Getty Images

Por Flávia Milhorance, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu o maior nível anual em uma década, mostrou um novo relatório, apesar da crescente preocupação global com a devastação cada vez maior desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019.

Entre agosto de 2020 e julho de 2021, a floresta tropical perdeu 10.476 km2 – uma área quase sete vezes maior que a grande Londres e 13 vezes o tamanho da cidade de Nova York, segundo dados divulgados pelo Imazon, instituto de pesquisas brasileiro que acompanha a Amazônia desmatamento desde 2008. O número é 57% maior que no ano anterior e é o pior desde 2012.

“O desmatamento ainda está fora de controle”, disse Carlos Souza, pesquisador do Imazon. “O Brasil está indo contra a agenda climática global que busca reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa.”

Souza pediu a retomada urgente das ações do governo para impedir a destruição, incluindo a fiscalização do desmatamento ilegal liderado pela agricultura na região, que foi prejudicado por cortes no orçamento do Ministério do Meio Ambiente e agências de proteção ambiental.

Mesmo enquanto enfrenta acusações de desmantelar sistematicamente as proteções ambientais, Bolsonaro enviou milhares de soldados para combater o desmatamento ilegal e incêndios.

“Os dados mostram que não funcionou”, disse Astrini. “Nenhuma operação do exército será capaz de mascarar ou reverter os ataques do governo federal contra a floresta.”

Astrini disse que as taxas de desmatamento em 2021 devem ser quase 50% maiores do que em 2018, antes da posse de Bolsonaro.

Em junho, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, renunciou em meio a uma investigação criminal sobre alegações de que uma investigação policial sobre a extração ilegal de madeira na Amazônia foi bloqueada.

Mas a liderança do ministério “não mostrou nenhum progresso”, disse Astrini.

“As medidas que beneficiam a exportação de madeira ilegal – o motivo pelo qual Salles teve de deixar o cargo – ainda estão em vigor”, disse ele.

Os novos números foram divulgados enquanto os legisladores realizavam uma audiência pública para pressionar por mudanças nas políticas ambientais do Brasil.

“Estamos passando por um momento muito difícil na história do Brasil. Há muita negação e muitas tentativas de enfraquecer nossa política ambiental ”, disse a senadora Eliziane Gama na audiência.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Tribunal de apelações rejeita oferta da Bayer para anular a perda do julgamento Roundup

Tribunal citou o “desrespeito imprudente” da Bayer/Monsanto pela segurança do consumidor

bayer monsanto

Por Carey Gillam para o USRTK

A proprietária da Monsanto, a Bayer AG, perdeu outra decisão do tribunal de apelações no amplo litígio do US Roundup, continuando a lutar para encontrar uma saída sob o esmagamento de dezenas de milhares de reivindicações alegando que os herbicidas à base de glifosato da Monsanto causam câncer.

Em uma decisão proferida na segunda-feira, o 1º Distrito de Apelação no Tribunal de Apelação da Califórnia rejeitou a oferta da Monsanto para anular a perda do julgamento em um caso apresentado pelos demandantes marido e mulher, Alva e Alberta Pilliod.

“Descobrimos que evidências substanciais apóiam os veredictos do júri”, afirmou o tribunal. “A conduta da Monsanto evidenciou um desrespeito irresponsável pela saúde e segurança da multidão de consumidores desavisados ​​que manteve no escuro. Este não foi um incidente isolado; A conduta da Monsanto envolveu ações repetidas ao longo de um período de muitos anos motivadas pelo desejo de vendas e lucro. ”

O tribunal rejeitou especificamente o argumento de que a lei federal antecipa tais reivindicações, um argumento que a Bayer disse aos investidores que oferece um caminho potencial para sair do litígio. A Bayer disse que espera conseguir que a Suprema Corte dos EUA concorde com seu argumento de preempção.

Em maio de 2019, um júri concedeu aos Pilliods mais de US $ 2 bilhões em danos punitivos e compensatórios depois que os advogados do casal argumentaram que ambos desenvolveram linfoma não-Hodgkin causado por muitos anos de uso de produtos Roundup.

O juiz reduziu o valor da sentença para US$ 87 milhões.

Ao apelar da perda, a Monsanto argumentou não apenas que as alegações de Pilliod foram antecipadas pela lei federal, mas também que as conclusões do júri sobre causalidade eram falhas, o tribunal não deveria ter admitido certas evidências e que “o veredicto é produto de má conduta do advogado . ” A Monsanto também queria que as indenizações por danos fossem reduzidas ainda mais.

Tribunal bate dura na Bayer/Monsanto

Na decisão do tribunal de apelações, o tribunal não alterou a sentença e disse que a Monsanto não havia demonstrado que a lei federal previa reivindicações como as feitas pelos Pilliods. O tribunal também disse que havia evidências substanciais de que a Monsanto agiu com “desrespeito deliberado e consciente pela segurança dos outros”, apoiando a concessão de indenizações punitivas.

A evidência mostrou que a Monsanto “falhou em conduzir estudos adequados sobre o glifosato e o Roundup, impedindo assim, ou distorcendo a investigação científica sobre o glifosato e o Roundup”, disse o tribunal.

O tribunal também castigou a Monsanto por não apresentar com precisão “todas as evidências registradas” ao fazer seu recurso: “Mas, em vez de declarar de forma justa todas as evidências relevantes, a Monsanto fez uma apresentação desequilibrada que se baseia principalmente nas evidências a seu favor. Este tipo de apresentação pode funcionar para um júri, mas não funcionará para o Tribunal de Recurso. ”

O tribunal acrescentou: “O julgamento descrito no relatório de abertura da Monsanto tem pouca semelhança com o julgamento refletido no registro.”

“Resumindo, as evidências mostram a intransigente relutância da Monsanto em informar o público sobre os perigos cancerígenos de um produto que disponibilizou abundantemente em lojas de ferragens e jardinagem em todo o país”, disse o tribunal.

Outro julgamento está em andamento 

O julgamento de Pilliod foi o terceiro contra a Monsanto. No primeiro julgamento, um júri unânime concedeu ao demandante Dewayne Johnson US $ 289 milhões o autor do  segundo julgamento recebeu US $ 80 milhões.

O quarto julgamento começou na semana passada. Um júri de sete homens e cinco mulheres na segunda-feira estava ouvindo depoimentos no caso Donnetta Stephens v. Monsanto no Tribunal Superior do Condado de San Bernardino, na Califórnia. O cientista aposentado do governo dos Estados Unidos, Christopher Portier, que foi perito dos demandantes em julgamentos anteriores do Roundup, testemunhou longamente na segunda-feira, reiterando o testemunho anterior de que há evidências científicas claras mostrando que o glifosato e as formulações à base de glifosato, como o Roundup, podem causar câncer.

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, resolveu vários outros casos que estavam programados para ir a julgamento nos últimos dois anos. E em 2020, a empresa disse que pagaria cerca de US $ 11 bilhões para resolver cerca de 100.000 reivindicações de câncer Roundup existentes. No final do mês passado, a Bayer disse que reservaria outros US $ 4,5 bilhões para a responsabilidade de litígios do Roundup.

A Bayer também anunciou recentemente que deixará de vender o Roundup e outros herbicidas feitos com o ingrediente ativo glifosato para consumidores residenciais norte-americanos até 2023. Mas a empresa continua a vender os produtos para uso por agricultores e aplicadores comerciais.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela US Right to Know (USRTK) [Aqui!  ].

CONTAG denuncia extinção do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e exigência de contrapartida em “programa substituto”

paa-16-10A Medida Provisória 1061/2021, encaminhada pelo governo federal ao Congresso Nacional no último dia 9, vai extinguir o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). É o que afirma a Contag em nota divulgada nesta sexta-feira (20). No comunicado, a Contag informa que está propondo emendas a parlamentares para alterar o texto da MP.

Após analisar com calma a Medida Provisória 1061/2021, que institui o Programa Auxílio Brasil e o Programa Alimenta Brasil, e propor emendas a parlamentares para alterar o seu conteúdo, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG) vem denunciar a proposta.

Duas coisas iniciais são fundamentais: a primeira é que o governo apresentou uma MP que não tem clara a fonte de recursos nem a estimativa orçamentária e financeira, um argumento utilizado por ele, inclusive, para vetar quase todos os projetos aprovados pelo Congresso Nacional; a segunda é que não tem nenhum parâmetro claro sobre questões centrais como a linha de base para a definição de situação de pobreza e extrema pobreza, além dos valores para os demais programas, como o Auxílio de Inclusão Produtiva.

Estas e outras definições serão feitas somente posteriores à aprovação da referida MP, o que a CONTAG vê como um grande risco para os beneficiários e beneficiárias do Programa Bolsa Família e do PAA, atualmente, pois muitas pessoas que estão hoje poderão ficar de fora.

Com esta MP, o que está em jogo é a extinção do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), um dos principais programas de geração de renda no campo brasileiro, de formação de estoques e de fortalecimento da Agricultura Familiar. Outro retrocesso é a exigência de pagamento por parte dos(as) beneficiários(as) da ação “Inclusão Produtiva Rural” do Programa Auxílio Brasil e é omisso quanto às regras da entrega da contrapartida exigida.

Conforme o texto da MP, o programa visa beneficiar famílias que se enquadrem nas condições de pobreza extrema, ou pobreza, mas não traz os critérios de enquadramento no seu conteúdo. Ao mesmo tempo, faz duras exigências de contrapartidas a quem acessar a linha de Inclusão Produtiva Rural que se constitui como um benefício provisório: já no primeiro ano, após três meses, o pagamento do auxílio inclusão produtiva só será mantido mediante a efetivação da doação de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade social, em valor correspondente a 30% do valor anual do auxílio recebido. Ou seja, se a família mantém microestrutura para resolver a sua segurança alimentar e nutricional, enfrentará o maior sufoco para começar a pagar o auxílio no curtíssimo prazo, e criará um cenário de inadimplência por não atender a tal exigência, ampliando o endividamento e o consequente bloqueio ao acesso a outras políticas em decorrência da pandemia.

Diante de tais riscos para a agricultura familiar brasileira, que depende de políticas que realmente a incentive a produzir mais e com qualidade, inclusive estimulando a sua permanência no campo, a CONTAG afirma que é contrária a essa Medida Provisória, que já está dialogando com as bancadas para evitar mais um retrocesso para os agricultores e agricultoras familiares.

Somos contra qualquer tipo de contrapartida, principalmente envolvendo agricultores(as) familiares em situação de pobreza e extrema pobreza. Se o Congresso Nacional entender que há a necessidade de contrapartida, ao menos que seja uma única vez, num volume aceitável para quem está em situação de pobreza e que seja no final do ciclo de 36 meses. Também somos contra a extinção do PAA sem qualquer justificativa, sendo substituído por um programa sem vínculo institucional definido por esta MP e sem um valor claro por linha; bem como esta Medida deixa claro que boa parte do público da agricultura familiar estará excluída do programa e que também fica extinta a modalidade de aquisição de sementes.

Continuaremos na luta para evitar mais retrocessos para a agricultura familiar, setor estratégico para o país e responsável pela produção de alimentos saudáveis que chegam diariamente às nossas mesas.

Parceria entre Geocycle e Alpargatas contribui para ambição de Aterro Zero

Empresa da LafargeHolcim transforma em combustível rejeitos de borracha provenientes do processo de fabricação de calçados e materiais esportivos

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Alinhada às melhores práticas de desenvolvimento sustentável, a Geocycle, empresa da LafargeHolcim, apoiou a Alpargatas, por meio de uma parceria para destinação de seus resíduos utilizando a técnica de coprocessamento, a conquistar a meta Aterro Zero. Desde 2019, quando começou a parceria, 8 mil toneladas de rejeitos de borrachas e resíduos industriais foram transformadas em combustível. O volume coprocessado é equivalente a cerca de 22 milhões de pares de sandálias Havaianas, o suficiente para calçar toda a população de Portugal e Bélgica.

Com a parceria, os rejeitos de borracha e resíduos industriais da Alpargatas são pré-processados em trituradores e posteriormente utilizados como combustível alternativo nos fornos de cimento da LafargeHolcim, por meio da tecnologia do coprocessamento. O processo segue altos padrões de controles operacionais e ambientais. Além de eliminar definitivamente os resíduos que seriam destinados a aterros sanitários, essa ação contribui para economia circular, redução na utilização de combustíveis fósseis e redução de emissão de CO2. “Temos muito orgulho dessa parceria, pois conciliamos nossos princípios e valores de desenvolvimento sustentável com a realização de uma ambição, um sonho, do cliente”, ressalta Juliano Menezes de Melo, gerente geral da Geocycle.

“A parceria com a LafargeHolcim nos permite destinar corretamente os resíduos de borracha, que não são possíveis reaproveitar no processo de produção ou reciclar para transformar em outro produto. Já foram coprocessados mais de 8 mil toneladas e nossa intenção é aumentar cada vez mais a parceria, que é excelente para o meio ambiente e contribui para o projeto de zero aterro industrial da empresa”, diz Flávio Amorim, diretor de segurança, saúde e meio ambiente na Alpargatas.

Como a COVID-19 afeta pessoas vacinadas e não vacinadas

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Por Katharina Buchholz para a Statista

Embora o CDC tenha parado de relatar infecções  que não terminam em hospitalização, o Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin começou recentemente a publicar a análise de novas infecções por COVID-19 entre pessoas vacinadas e não vacinadas. Embora os números sejam apenas um instantâneo de um estado e um mês, neste caso julho, eles dão uma impressão de como as taxas de infecções, hospitalização e mortalidade diferem entre vacinados e não vacinados.

Em julho de 2021, cerca de 125 infecções emergentes aconteceram por 100.000 habitantes de Wisconsin vacinados, em comparação com cerca de 369 casos por 100.000 habitantes do estado que não haviam sido totalmente vacinados. Em uma taxa de vacinação de cerca de 50 por cento no estado em julho, isso significa que cerca de 3 em 4 novos casos ocorreram em pessoas não vacinadas. Isso teria tornado as vacinas COVID-19 no estado 66 por cento eficazes na prevenção da infecção em condições do mundo real opostas a pessoas não vacinadas, pois para cada três habitantes de Wisconsin não vacinados que foram infectados com COVID-19, duas pessoas vacinadas foram poupadas de uma infecção, assumindo que ambos os grupos tiveram, em média, a mesma exposição ao vírus.

Quando se trata de hospitalizações e mortes, as diferenças nos resultados para pessoas vacinadas e não vacinadas foram ainda maiores. Cerca de quatro em cada cinco hospitalizações por COVID-19 ocorreram em pessoas não vacinadas em Wisconsin, traduzindo-se em uma eficácia da vacina de 73 por cento na prevenção de hospitalizações. Para prevenir a morte, as vacinas provaram ser 91 por cento eficazes, pois apenas um em cada doze habitantes de Wisconsin que sucumbiram ao COVID-19 foi vacinado.

A eficácia das vacinas COVID-19 varia de estudo para estudo, visto que não são realizadas em um laboratório, mas no mundo real, onde as condições variam. A eficácia também difere dependendo da população à qual a vacina é administrada, além do fato de que se espera que a eficácia das vacinas COVID-19 diminua com o tempo e quando confrontada com uma mutação de coronavírus de alta carga viral como a variante Delta. Uma lista de diferentes estudos de eficácia, a maioria deles realizada logo após a vacinação completa, pode ser encontrada no site do CDC.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site Statista [Aqui!].

Luz vermelha para o pulmão verde da Terra

florestasFlorestas em todo o mundo estão ameaçadas de extinção hoje, mas quando os oceanos do mundo virarem desertos, será o fim tudo. Foto. imago images / annamoskvina

Por Norbert Suchanek para o Junge Welt

Não se sabe quem trouxe a metáfora dos “pulmões verdes” da terra ao mundo. No entanto, ela inexoravelmente se estabeleceu como sinônimo de floresta amazônica em nível mundial. Mas é baseado em um erro. A imagem é baseada na suposição de que a Amazônia libera grande parte de nosso oxigênio na atmosfera. Por ocasião dos dramáticos incêndios florestais no Brasil em 2019, o secretário-geral da ONU, António Guterres, espalhou a alegação de que a área era “a principal fonte de oxigênio”. O presidente francês Emmanuel Macron especificou: “Nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio em nosso planeta – está em chamas. “

É verdade que a floresta tropical libera grandes quantidades de oxigênio durante o dia por meio da fotossíntese. Mas isso é apenas meia verdade. Porque à noite e sem luz, esse processo se inverte e as árvores voltam a usar o gás. Além disso, não apenas as plantas vivem na Amazônia, mas também animais e microorganismos conversores de oxigênio. Yadvinder Malhi, professor de ciência do ecossistema da Universidade de Oxford, explica como Macron conseguiu esses 20%: “A produção total de oxigênio por meio da fotossíntese em terra é de cerca de 330 gigatoneladas de oxigênio por ano. A Amazônia responde por cerca de 16% disso, cerca de 54 gigatoneladas de oxigênio por ano. ”Esses números são arredondados para os 20% mencionados.

Mas o fitoplâncton dos oceanos também realiza a fotossíntese e gera cerca de 240 gigatoneladas de oxigênio por ano, reduzindo a contribuição da região amazônica para cerca de 9%. Além disso, a Amazônia como ecossistema usa quase tanto oxigênio quanto produz. A contribuição líquida da Amazônia para o oxigênio mundial é praticamente zero. O mesmo vale para os oceanos. A maior parte do oxigênio produzido pela fotossíntese é consumido diretamente pelos micróbios e animais que nela vivem, bem como por processos de decomposição.

O oxigênio que respiramos hoje é um legado dos tempos antigos, assim como o petróleo ou o carvão. Nos primeiros dois bilhões de anos da história da Terra, o conteúdo de O2 da atmosfera do nosso planeta era virtualmente zero. Devemos o aumento da concentração de oxigênio no ar que respiramos ao surgimento do fitoplâncton e, posteriormente, de plantas maiores na terra. Num processo lento ao longo de milhões de anos, eles enriqueceram a atmosfera primordial mínima, mas continuamente, com O2, até atingir seu nível de oxigênio de 21%, que ainda é estável hoje, por cerca de 500 milhões de anos.

Mesmo se toda a fotossíntese nos oceanos e no continente parasse e nenhum oxigênio fosse produzido, poderíamos continuar a respirar por milênios. Mesmo nos piores cenários, com queima completa de combustíveis fósseis e desmatamento total, a redução prevista no oxigênio atmosférico seria muito pequena em relação ao enorme reservatório de O2 atmosférico.

A situação é diferente, porém, no que diz respeito ao conteúdo de oxigênio nos oceanos. Os oceanos contêm menos de 1% do oxigênio armazenado na atmosfera. Devido ao aquecimento global, a temperatura do mar também está aumentando e, com isso, o conteúdo de oxigênio da água diminui. Portanto, as chamadas zonas de mínimo de oxigênio estão se espalhando, o que leva ao declínio ou ao desaparecimento completo de organismos respiratórios, como peixes, nos oceanos.

Voltando a este quadro, um pulmão não produz nenhum oxigênio, mas, em vez disso, retira-o do ar e, em troca, libera dióxido de carbono. Os pulmões são, portanto, produtores de gases de efeito estufa e não  de oxigênio. Já que, de acordo com um estudo recente, a Amazônia é produtora líquida de CO2 da ordem de uma nação industrial de médio porte desde 2010, a metáfora está pelo menos um pouco correta agora.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Junge Welt [Aqui!].

BHP, a maior empresa de mineração do mundo está ficando mais verde – por que isso não é uma boa notícia, afinal

O Grupo BHP está se desfazendo de seus negócios de petróleo e gás. Qualquer pessoa que considere isso uma vitória de etapa importante para o clima provavelmente estará enganada

bhp 0Na Austrália, ainda existe uma forte dependência de combustíveis fósseis – na foto, o projeto de gás North West Shelf na península de Burrup, no qual a BHP e a Woodside estão envolvidas. Daniel Munoz / Reuters

Por Michael Schäfer para o Neue Zürcher Zeitung

O relatório recentemente publicado pelo Conselho do Clima da ONU mais uma vez ressaltou a urgência de intensificar os esforços para combater as mudanças climáticas. Entre outras coisas, uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa é imperativa. Quanto mais cedo a queima de óleo, gás e carvão terminar, melhor. A manchete a ser lida no início da semana de que a maior mineradora do mundo, a australiana BHP, sairia do negócio de petróleo e gás, foi saudada em muitos lugares como um passo na direção certa.

Um efeito positivo é mais fácil de prometer do que de ser percebido

O jornal “Environmental Finance”, por exemplo, suspeitou por correspondência de que a classificação de sustentabilidade da BHP iria melhorar. Ao contrário de alguns anos atrás, isso é tudo menos uma observação lateral, porque cada vez mais gestores de fundos e gestores de ativos estão prestando atenção a figuras-chave ESG (ESG significa meio ambiente, assuntos sociais e boa governança corporativa). As ações da BHP inicialmente reagiram com ganhos de preço em Londres, para os quais essas considerações provavelmente também contribuíram.

A euforia inicial já evaporou

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Fonte: Bloomberg. NZZ / msf.

O ajuste estratégico na mineradora australiana terá ajudado aqueles que acreditam que os investidores precisam apenas exercer pressão suficiente sobre as empresas “sujas” para dar sua contribuição na luta contra as mudanças climáticas. Empresas de fundos e bancos estão cada vez mais inspirados por essa ideia. As chamadas estratégias de impacto, que, para simplificar, deveriam contribuir para um mundo melhor, estão surgindo como cogumelos.

Provavelmente, um ou outro gestor de ativos já escreveu uma história de sucesso para o relatório anual em que dá conta de suas atividades de engajamento. Essas atividades são entendidas como esforços para estimular as empresas a se comportarem melhor do ponto de vista ecológico ou social por meio do diálogo.

Nenhuma perspectiva de menos emissões de CO2

Alguns gestores de ativos também esfregaram as mãos em antecipação, porque previram que a intensidade de CO2 das carteiras em que as ações da BHP estão representadas diminuirá no futuro . Este número é frequentemente usado como um indicador dos danos climáticos das empresas nas quais se investiu. Ao mesmo tempo, serve como um parâmetro para o risco financeiro que as empresas assumem se as emissões de CO2 receberem um preço significativo ou se tornarem mais caras. Mas isso pode realmente ser um grande sucesso?

A realidade parece diferente e deve ser avaliada de forma diferente dependendo da perspectiva. Do ponto de vista climático e ambiental, a euforia se justificaria se a BHP se abstivesse de explorar suas reservas de óleo e gás para fins de geração de energia e declarasse as áreas como reservas naturais. Nesse caso, a BHP teria que dar baixa dos depósitos caros da contabilidade, e o preço da ação teria reagido de forma diferente.

Mas é claro que não é o caso: a BHP quer se despedir das atividades mencionadas, mas elas serão trazidas para a empresa australiana de energia Woodside Petroleum. De acordo com o chefe da BHP, Mike Henry, isso criará uma organização com tamanho, habilidades e expertise que podem atender melhor à demanda global por petróleo e gás natural. Isso não parece um grande passo em direção a um mundo livre de CO2.

Os investidores podem gerenciar melhor os riscos climáticos em seu portfólio

Embora isso torne a BHP uma empresa mais verde por enquanto, isso significa que não menos petróleo e gás natural serão extraídos e queimados no futuro. Para os acionistas da BHP, o risco climático também não diminuiu no início. Você receberá ações recém-emitidas da Woodside e, a partir daí, deterá um total de 48% na empresa de energia.

Enquanto o preço das ações da BHP sofrerá menos com qualquer aumento no preço do CO2 no futuro , as da Woodside serão ainda mais afetadas. Se certos depósitos de petróleo e gás ameaçarem perder valor drasticamente e se tornarem ativos perdidos porque não podem mais ser explorados com lucro, isso teria um impacto mais forte.

Afinal, os acionistas da BHP terão no futuro a opção de aceitar conscientemente esses riscos e permanecer investidos na Woodside ou vender suas ações em favor de ações “mais verdes” da BHP ou papéis de outras empresas. O resultado final é que você pode gerenciar melhor o risco climático em seu portfólio.

Um jogo de soma zero na melhor das hipóteses

Por outro lado, a situação provavelmente não melhorou em nada para as empresas de fundos e gestores de ativos que desejam usar os fundos que lhes foram confiados para ajudar a garantir que a transição para um mundo neutro em CO2 ocorra mais rapidamente. As chances de obter um efeito perceptível aqui diminuíram para eles.

Embora a BHP tenha se livrado do problema com elegância, há muito mais em jogo para a Woodside no futuro. Os investidores de impacto precisam se preparar para um caminho mais longo e rochoso. Do ponto de vista do clima, pode-se, na melhor das hipóteses, falar de um jogo de soma zero a partir de hoje.

E dois dias após o anúncio da transação, os acionistas também estão em pior situação: tanto as ações da BHP quanto as da Woodside estão claramente abaixo do nível de segunda-feira.

Perdas na taxa de câmbio na futura maior empresa de petróleo e gás

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