Geosmina na cidade do Rio tem relação com esgoto?

geoesmina

Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

bori conteudo

Por Kamila Jessie Sammarro Silva para a Agência Bori

Em 2020 e 2021, a população do Rio de Janeiro recebeu água com forte cheiro e gosto, atribuídos a uma molécula chamada geosmina. Essa substância é produzida por microrganismos que têm seu crescimento favorecido quando há alta concentração de matéria orgânica na água, em geral associada à contaminação. No caso do Rio Guandu, que abastece a cidade, há relatos de despejo de esgoto doméstico e industrial, o que pode comprometer a qualidade de água dos mananciais de captação.

Essa situação elucida um problema que não se concentra apenas na eficiência do sistema de tratamento de água, mas no cenário de poluição dos mananciais abastecedores do Rio de Janeiro. O lançamento de esgoto – muitas vezes bruto, ou seja, sem tratamento -, sobrecarrega as estações de tratamento, a princípio concebidas para entregar uma água de uma qualidade supostamente melhor para a população.

Ainda que não envolva risco direto à saúde, a presença de geosmina pode causar cor e turbidez na água consumida pela população, incompatíveis com a qualidade de água preconizada pelo Ministério da Saúde. Nesta situação, há uma falha em atender os pré-requisitos de controle e vigilância da qualidade da água para o consumo humano estabelecido pelo MS na Portaria  nº 5/2017 (alterada pela Portaria GM/MS nº 888/2021).

De acordo com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE), em fevereiro de 2021, amostras de água coletadas em alguns pontos indicaram a chegada de água com qualidade para os consumidores, mas, como se trata de um sistema dinâmico, as condições encontradas podem variar em função do momento das análises. Por isso, do ponto de vista técnico, a vigilância deve ser mais incisiva, visando a evitar má qualidade na água distribuída. Além disso, a companhia abastecedora deve monitorar a qualidade da água na saída da estação de tratamento e em pontos estratégicos na rede.

A partir dessa coleta de dados, é igualmente fundamental que haja transparência e comunicação entre a companhia de saneamento, autoridades e consumidores.

Quanto ao tratamento, dentre as medidas que podem ser tomadas a curto prazo, é possível implementar tecnologias mais robustas como plano de contingenciamento, isto é, adicionar módulos de tratamento para emergências. Exemplo disso seria incorporar uma etapa opcional de tratamento por processo oxidativo avançado ao fim do sistema que a CEDAE utiliza atualmente. Tratamentos avançados são amplamente conhecidos pelo setor e poderiam ser implementados para corrigir problemas ocasionais.

A médio e longo prazo, deve haver investimento em outros setores do saneamento, em especial no que tange à coleta e tratamento de esgoto no município e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Belford Roxo e São João de Meriti, por exemplo, ocuparam as piores posições do Ranking do Saneamento realizado pelo Instituto Trata Brasil com dados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, que abarca o país todo.

Esse cenário revela a necessidade de investimento em infraestrutura de saneamento em várias frentes, em detrimento de soluções paliativas. Caso essas medidas não sejam tomadas, a perspectiva para os próximos anos é que casos de contaminação de água e defasagem no seu sistema de tratamento sejam recorrentes.

Sobre a autora

Kamila Jessie Sammarro Silva é engenheira ambiental e sanitarista e doutoranda em hidráulica e saneamento na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC)/USP.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Mentiras quebradas e negação da realidade: Afeganistão, o momento Saigon de Joe Biden

Joe Biden tem o azar de que sob ele as mentiras de 20 anos de guerra no Afeganistão estouraram. Mas ele mesmo tem uma parte no gatilho do desastre

helicoptero kabulHelicóptero militar sobrevoando a embaixada dos Estados Unidos em Cabul. Foto: dpa / AP / Rahmat Gul

Por Moritz Wichmann para o Neues Deutschland

Mesmo que, de acordo com pesquisas, cerca de 70% dos americanos sejam a favor da retirada das tropas do Afeganistão: as fotos de Cabul são um momento de Saigon para Joe Biden. Talvez ele não perca uma possível reeleição em 2024 por causa da rápida tomada de poder pelos Talibãs, mas na semana passada sua popularidade caiu abaixo da marca simbólica de 50 por cento, e o período de lua de mel para o novo presidente dos EUA acabou.

As imagens de helicópteros americanos evacuando às pressas os últimos funcionários da embaixada dos Estados Unidos – não totalmente diferentes daquelas dos dias finais da Guerra do Vietnã – são um símbolo poderoso e prejudicarão o país cansado da guerra, mas orgulhoso. O fato de Biden ter afirmado semanas atrás que não haveria evacuações de helicóptero como a de Saigon vai ficar com ele pessoalmente. Afinal, ele se retratou como um político estrangeiro experiente durante a campanha eleitoral e foi membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado por décadas.

Acima de tudo, entretanto, a última mentira do establishment da política externa em Washington agora estourou claramente – no cenário mundial e ao vivo nas redes sociais. A fachada de um “Afeganistão sob controle” deve ser mantida até o último momento. Mas agora está claro: o gatilho foi obviamente mal planejado e implementado.

Foi a última mentira em uma longa fila: por anos a corrupção do governo afegão foi minimizada, suas medidas de construção nacional, como a construção de escolas, foram enormemente exageradas e sua própria nação demonstrou controlar a situação de segurança no país com um investimento mínimo para poder. Mas a indignação dos republicanos, que usam as fotos de Cabul para atacar Biden, também é hipócrita porque Trump e o ex-chanceler Pompeo também prepararam a retirada das tropas.

“Círculos de serviço secreto” vazaram o plano de que o Talibã tomaria o poder um pouco mais rápido do que o esperado, mas isso “levaria mais alguns meses” – pelo menos foi o que a propaganda disse à mídia. Eles obviamente esperavam que tudo acabasse assim, e apenas “quieto”. Como a política externa não desempenha um papel na vida cotidiana de muitos americanos, Joe Biden, que está preocupado com sua reeleição e não mostra ambições políticas globais, na verdade quer se concentrar na política social popular e na adoção de seus pacotes de infraestrutura. Essa atitude chegou a ignorar a realidade da política externa.

Agora já o alcançou, porque os EUA têm responsabilidades no mundo, embora estejam cada vez menos dispostos a assumi-las. As imagens de Cabul também lembram os americanos diante das telas de televisão, mesmo que não façam parte do aparato de política externa da capital. E, claro, o abandono e abandono dos ajudantes das forças da coalizão e da sociedade civil afegã que ajudaram a construir mostra o tratamento oportunista e desumano impiedoso de seus próprios aliados.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Ultrapassar pontos de não retorno aumentaria impactos econômicos da mudança climática

Cambio

O risco de ultrapassagem de pontos de não retorno no sistema climático – os chamados tipping points – poderia aumentar em cerca de 25% o custo econômico dos danos causados pela mudança climática em comparação com projeções anteriores. A estimativa reflete o cenário principal de um estudo publicado hoje (16/08) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences .

Pontos de não retorno ocorrem quando o aquecimento global empurra as temperaturas para além de um limite crítico, levando a impactos acelerados e irreversíveis. Entre os pontos de ruptura mais investigados pelos cientistas está o tipping point da Amazônia, que pode ser atingido se a floresta perder mais de 25% de sua área de ocorrência. A concretização desta hipótese secaria o bioma e o transformaria em uma bomba de emissão de carbono, além de alterar o regime de chuvas na América do Sul.

O trabalho publicado hoje foi realizado por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Nova York, da Universidade de Delaware e da London School of Economics and Political Science. Os autores – Simon Dietz, James Rising, Thomas Stoerk e Gernot Wagner – destacam que o cenário principal do estudo pode ser muito conservador, e que os custos dessas rupturas podem ser significativamente maiores: há uma chance de 10% de os pontos de não retorno pelo menos dobrarem os custos dos impactos da mudança climática, e uma chance de 5% de que eles tripliquem.

“Os cientistas climáticos há muito tempo enfatizam a importância dos pontos de ruptura do clima, como o degelo permafrost, a desintegração da camada de gelo e as mudanças na circulação atmosférica. No entanto, exceto por alguns poucos estudos fragmentados, a economia climática ignorou esses dados ou os representou de forma altamente estilizada”, afirma Simon Dietz, autor principal do artigo e professor da London School of Economics and Political Science. “Fornecemos estimativas unificadas dos impactos econômicos de todos os oito pontos de ruptura climática cobertos pela literatura econômica até o momento.”

As perdas econômicas indicadas no estudo ocorreriam em quase todos os lugares do mundo, e as estimativas incluem danos climáticos pela elevação do nível do mar em 180 países. Os autores acreditam que o modelo pode ser atualizado à medida que mais informações sobre os pontos de ruptura forem descobertas.

Os oito pontos de ruptura considerados no estudo são:• Ponto de não retorno da floresta tropical amazônica (também chamado de dieback ou tipping point) liberando CO2, que flui de volta ao ciclo do dióxido de carbono;

• Colapso da circulação meridional de capotamento do Atlântico (AMOC), interferindo em uma série de sistemas climáticos e na regulação da temperatura do planeta;

• Desintegração da Folha de Gelo da Antártida Ocidental, aumentando a elevação do nível do mar;

• Desintegração da Folha de Gelo da Groenlândia, o que aumenta a elevação do nível do mar;

• Perda de gelo marinho ártico, resultando em mudanças na forçagem radiativa, que afeta diretamente o aquecimento.

• Descongelamento do permafrost, levando ao feedback de carbono, resultando em emissões adicionais de CO2 e metano, que fluem de volta para os ciclos dos dois gases;

• Dissociação dos hidratos de metano oceânicos resultando em emissões adicionais de metano, que fluem de volta para o ciclo do metano.

• Variabilidade da monção de verão indiana afetando diretamente o PIB per capita na Índia.

Governo Britânico e PNUMA promovem discussão sobre gestão e governança na mineração

No mês que o lançamento do Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos (GISTM) completa um ano, o Governo Britânico e o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) promovem a Terceira Mesa Redonda sobre o GISTM, focado em Gestão e Governança na Mineração, que acontece no dia 18 de agosto

fundaoA barragem de Fundão teve uma ruptura catastrófica em 2015, causando enchentes e pelo menos 17 mortes. Fotografia: Nicoló Lanfranchi

Agosto de 2021 –Em maio, o Governo Britânico no Brasil, em parceria com o o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), lançou o debate “Monitoramento de Barragens sob a ótica do Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos (GISTM)  – desafios e oportunidades no Brasil” com a proposta de seis mesas redondas que discutiriam diversos aspectos do Padrão. As duas primeiras mesas atraíram mais de 400 profissionais do setor, da academia, do setor privado e do setor público.

A Terceira Mesa Redonda acontece dia 18 de agosto e trará representantes da Agência Nacional de Mineração, da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração – ABPM, Sistema CONFEA, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e contará com moderação de Tiago Mattos, advogado do escritório William Freire. O tema será o Tópico IV do GISTM que trata especificamente de gestão e governança.

O tópico é dividido em 5 princípios que são de extrema importância para a construção de um setor mais seguro e responsável. São eles:

  • Princípio 8: Estabelecer políticas, sistemas e responsabilidades para apoiar a segurança e a integridade das estruturas de disposição de rejeitos.
  • Princípio 9: Designar e habilitar um engenheiro de registro
  • Princípio 10: Estabelecer e implementar níveis de revisão como parte de um sistema robusto de gestão da qualidade e de riscos para todas as fases do ciclo de vida das estruturas de disposição de rejeitos, inclusive na fase de fechamento.
  • Princípio 11: Desenvolver uma cultura organizacional que promova a aprendizagem, a comunicação e o reconhecimento precoce de problemas.
  • Principio 12: Estabelecer um processo para a apresentação de denúncias e resposta a preocupações e implementar medidas de proteção para denunciantes.

“É muito gratificante ver o pioneirismo do Governo Britânico como primeiro governo estrangeiro nas reuniões do CTBMin. A nossa participação visa buscar formas de colaboração entre o Reino Unido e o Brasil para as melhores práticas de gestão de barragens de mineração, um tema cada vez mais relevante no estabelecimento de diretrizes de segurança para as barragens brasileiras”, explica Nathalia Gomide, Gerente de Desenvolvimento de Negócios do Governo Britânico do Reino Unido e especialista em mineração.

As mesas anteriores foram gravadas e estão disponíveis no Youtube do UK in Brazil e no canal do PNUMA (youtube.com/PNUMABrasil). Para quem quiser acompanhar esta e os futuros debates, acesse o site das mesas redondas aqui.

O que significa um novo padrão para barragens

Global Industry Standard on Tailings Management (GISTM) ou Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos foi criado em 2020 e estabelece um novo marco para a segurança das barragens como o primeiro modelo global do setor. O projeto saiu por meio de uma parceria do PNUMA, International Council for Mining and Metals (ICMM), e Principle for Responsible Investment (PRI), grupo de investidores que inclui o Fundo de Pensão da Igreja Anglicana do Reino Unido (Church of England), depois do deslizamento da barragem de Brumadinho em 2019.

Um dos principais objetivos é reforçar a fiscalização e aumentar a transparência, com auditorias e inspeções realizadas de forma independente. O novo padrão global está em sintonia com os esforços do Governo Britânico que, junto da Igreja Anglicana do Reino Unido, busca soluções para uma mineração mais segura e responsável em todo o mundo

Sobre o Governo Britânico no Brasil

O Ministério de Comércio Internacional (Department of International Trade – DIT) tem como missão o apoio à exportação, o fomento ao investimento interno e estrangeiro, a promoção do acesso a mercados e de acordos comerciais e a defesa do livre comércio.

Atuamos na área econômica internacional e somos responsáveis por:

  •  apoiar e incentivar empresas do Reino Unido a buscar o crescimento internacional sustentável
  • manter o posicionamento do Reino Unido como um dos principais destinos de investimento estrangeiro e sua liderança em investimentos internacionais no mercado de capitais europeu
  • abrir novos mercados e promover o comércio livre e justo com parceiros novos e existentes
  • por meio do comércio e do investimento, concretizar a visão do governo para uma Grã-Bretanha Global e suas ambições de prosperidade, estabilidade e segurança em âmbito mundial.

Sobre o PNUMA

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal autoridade ambiental global que determina a agenda internacional sobre o meio ambiente, promove a implementação coerente da dimensão ambiental do desenvolvimento sustentável no Sistema das Nações Unidas e serve como autoridade defensora do meio ambiente no mundo. Sua missão é prover liderança e encorajar parcerias na proteção do meio ambiente, inspirando, informando e permitindo que países e pessoas melhorem sua qualidade de vida sem comprometer as gerações futuras.

Nova série do MapBiomas revela que quase 20% do território brasileiro pegou fogo ao menos uma vez entre 1985 e 2020

Iniciativa pioneira de mapeamento histórico das cicatrizes do fogo no Brasil gera o mais abrangente banco de dados sobre áreas queimadas e incêndios florestais do País, com dados inéditos – e preocupantes
mt fogo
Incêndio queima cerca de mil hectares no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães | Mato Grosso
Uma casa que pega fogo todos os anos: esse é o retrato do Brasil obtido pelo MapBiomas após analisar imagens de satélite entre 1985 e 2020 para entender o impacto do fogo sobre o território nacional. Na média, em cada um desses 36 anos, o Brasil queimou uma área maior que a Inglaterra: foram 150.957 km² por ano, ou 1,8% do país. O acumulado do período chega a praticamente um quinto do território nacional: 1.672.142 km², ou 19,6% do Brasil.

“Analisar as cicatrizes do fogo ao longo do tempo permite entender as mudanças no regime de fogo e seu avanço sobre o território brasileiro”, destaca Ane Alencar, Coordenadora do MapBiomas Fogo.

Quase dois terços (65%) do fogo ocorreram em áreas de vegetação nativa, sendo que os biomas Cerrado e Amazônia concentram 85% de toda a área queimada pelo menos uma vez no país. No caso do Cerrado, a área queimada por ano desde 1985 equivale a 45 vezes a área do município de São Paulo.

“Um dado preocupante é que cerca de 61% das áreas afetadas pelo fogo entre 1985 e 2020 foram queimadas duas vezes ou mais, ou seja, não estamos falando de eventos isolados. No caso da Amazônia, 69% do bioma queimou mais de uma vez no período, sendo que 48% queimou mais de três vezes”, ressalta.

Os estados com maior ocorrência de fogo foram Mato Grosso, Pará e Tocantins. Formações savânicas foram o tipo de vegetação nativa com mais ocorrência de fogo; pastagens foram o tipo de uso antrópico com mais ocorrência de fogo.

Embora os grandes picos de área queimada no Brasil tenham ocorrido principalmente em anos impactados por eventos de seca extrema (1987, 1988, 1993, 1998, 1999, 2007, 2010, 2017), altas taxas de desmatamento principalmente na Amazônia e antes de 2005 e depois de 2019 tiveram um grande impacto no aumento da área queimada nesses períodos. A estação seca, entre julho e outubro, concentra 83% da ocorrência de queimadas e incêndios florestais.

A análise por bioma mostra que o Pantanal é o que mais queimou nos últimos 36 anos: 57% de seu território foi queimado pelo menos uma vez no período, ou 86.403 km². Ele é seguido pelo Cerrado (733.851 km², 36%) e pela Amazônia (690.028 km², 16,4%). “O caso da Amazônia é preocupante. Os dados do MapBiomas Fogo revelam que as florestas do bioma têm queimado em grandes proporções e alta frequência, o que não é esperado em um bioma que não é naturalmente adaptado ao fogo”, explica Ane Alencar.

Na média anual, o bioma Cerrado assume a liderança, com 67.833 km²/ano – mais que a Amazônia, cuja média ficou em 64.955 km²/ano. ” O Cerrado é um bioma com vegetação o nativa onde o fogo faz parte de sua ecologia”, explica Vera Arruda, da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento do Cerrado. “Entretanto a extensão e frequência da área queimada no bioma nas últimas quase quatro décadas revela que algo está errado com o regime de fogo no bioma”, ressalta.

No bioma Pantanal é possível identificar os anos de 1999 e 2020 com os recordes de áreas queimadas. Foram anos secos e de grande acúmulo de biomassa. “O Pantanal tem uma vegetação adaptada ao fogo, mas em regime de frequência muito grande, ele torna-se prejudicial à biodiversidade de flora e fauna. O combate ao fogo no Pantanal é especialmente desafiador, portanto, ações de manejo integrado e preventivo do fogo, devem ser discutidas para proteção do bioma”, explica Eduardo Rosa, do MapBiomas.

No caso da Mata Atlântica, os meses de agosto, setembro e outubro constituem o período em que mais ocorrem queimadas, sendo que mais de 80% das queimadas ocorreram em áreas agropecuárias ou campestres, “É possível observar uma queda após 2004, quando começam a entrar em vigor leis para regulamentar a queimada em lavouras”, explica Marcos Rosa, Coordenador da equipe do MapBiomas Fogo responsável pelo mapeamento da Mata Atlântica.

Para chegar a esses números, inéditos, a equipe do MapBiomas processou mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2020. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área queimada em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos 36 anos entre 1985 e 2020, em todos os tipos de uso e cobertura da terra. Ao todo, foram 108 terabytes de imagens processadas, revelando áreas, anos e meses de maior e menor incidência do fogo. O método também permite identificar a área queimada em cada mês em todo o período, bem como o tipo de uso e cobertura do solo que queimou.

Os dados de áreas queimadas e incêndios florestais estão disponibilizados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2020 na plataforma https://mapbiomas.org/, aberta a todos. Ela também inclui dados de frequência de fogo, indicando as áreas mais afetadas nos últimos 36 anos. A resolução é de 30 m, com indicação do tipo de cobertura e uso do solo que queimou, permitindo recortes territoriais e fundiários por bioma, estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, assentamentos e áreas com CAR.

Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org

Na Amazônia, área destinada para a agropecuária cresce enquanto número de empregos cai

Novo estudo mostra descolamento entre o crescimento da atividade na região e a geração de empregos. Desde 2012, agricultores não qualificados foram os que mais perderam espaço.
gado
Na Amazônia legal, a agropecuária demite trabalhadores ao mesmo tempo em que aumenta a área destinada a pastagens e cultivos. É o que revela um novo estudo, conduzido por pesquisadores do projeto Amazônia 2030. O trabalho mostra que entre 2012 e 2019, a agropecuária na região perdeu cerca de 322 mil postos de trabalho: uma queda de 16%. O desempenho contrasta com o cenário geral da região onde, no mesmo período, foram criados mais de 500 mil empregos (um crescimento de 5% em sete anos.)

As conclusões foram sintetizadas no relatório “Dinamismo Recente do Emprego na Amazônia Legal – Agropecuária”. O documento é o primeiro de uma série, ainda em preparação, destinada a examinar como se comportaram os empregos e os salários na Amazônia – quais ocupações empregaram mais, e quais mais demitiram – durante o período analisado. A pesquisa é liderada pelo economista Gustavo Gonzaga, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio)

Para avaliar o dinamismo do mercado de trabalho na Amazônia, os pesquisadores analisaram dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD contínua). Os números se referem a um cenário econômico que precede a crise deflagrada pelo novo coronavírus.

Nos sete anos examinados pela equipe, enquanto os postos de trabalho na agropecuária minguavam, a área ocupada pela atividade cresceu: um aumento de 8,4%, de acordo com dados do MapBiomas. No mesmo período, a região registrou recordes de desmatamento: nos anos analisados, a área desmatada aumentou significativamente de 4.571 km2 para 10.129 km2.

Menos empregos e alta informalidade

A agropecuária envolve um conjunto de atividades que incluem agricultores com diferentes níveis de qualificação, pecuaristas e extrativistas florestais.

Hoje, o setor está entre os que mais ocupam pessoas na Amazônia: 1,7 milhão de trabalhadores, ou 15,9% das pessoas ocupadas. Mas faz uma curva descendente.

Segundo o relatório, a maioria dos ocupados – 81% – é de trabalhadores informais. Além disso, os salários são baixos. Em 2019, o trabalhador do setor recebeu, em média, R﹩829,00 mensais. Menos da metade da média para a Amazônia Legal, de R﹩1692,00.

Os números mostram ainda que, nos sete anos analisados:

– Caiu o número de agricultores não qualificados ocupados na região. Agricultores não qualificados são aqueles cujas atividades não exigem qualificações específicas. Essa foi a categoria que mais perdeu postos de trabalho: uma perda de 59%. Sua diminuição é reflexo da crescente mecanização das lavouras.

– Agricultores qualificados também perderam espaço: uma queda de 6,7% no número de trabalhadores ocupados.

– O número de extrativistas florestais em atividade seguiu trajetória semelhante: decréscimo de 28%.

– O contraste fica à cargo da pecuária. Aumentou o número de pessoas ocupadas pela atividade: um acréscimo de 2%. Tímido, comparado à queda geral no número de pessoas ocupadas.

– Para entender a dinâmica da ocupação da agropecuária na região, é importante olhar para dois estados em especial: Mato Grosso e Pará. Juntos, eles reúnem 48% do número total de pessoas ocupadas na Amazônia Legal. Têm realidades muito díspares: em 2019, no Mato Grosso, o rendimento médio do trabalhador da agropecuária era de R﹩1.790, 142% maior do que o rendimento médio no Pará (R﹩ 739), o que provavelmente reflete um grau de mecanização e de qualificação da mão-de-obra superior neste setor no Mato Grosso.

Sobre o Amazônia 2030

O projeto Amazônia 2030 é uma iniciativa conduzida por pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia. Seu objetivo é apontar caminhos para que a região dê um salto de desenvolvimento econômico e humano, mantendo a floresta em pé, nos próximos dez anos.

O projeto é uma iniciativa do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro.

Começando em 2020, e seguindo até meados de 2022, os cientistas do projeto vão publicar relatórios e estudos baseados na melhor evidência sobre a Amazônia brasileira. Conhecimento produzido na academia e aliado às experiências dos povos da floresta, empresários, empreendedores e agentes públicos. Esses documentos reunirão recomendações práticas, que poderão ser aplicadas por agentes privados e públicos.

Leia o estudo completo [Aqui!].

Talibãs voltam ao poder no Afeganistão, em uma derrota histórica dos EUA

talibãs

Líderes do Talibã ocupam Palácio Presidencial em Cabul neste domingo (15 de agosto de 2021)

O grupo Talibã precisou de meros 20 dias para desconstruir o que os EUA e seus aliados militares levaram 20 anos tentando impor no Afeganistão. Como assisti pela TV a fuga improvisada das tropas americanas de Saigon (hoje Ho Chi Min City), não tenho como deixar de enxergar paralelos quando vejo cenas semelhantes ocorrendo em Cabul.

As perspectivas para o povo afegão são da volta imediata de um governo que adota os preceitos mais radicais do Islamismo, impondo retrocessos profundos nos direitos das mulheres afegãs que novamente deverão proibidas de se escolarizarem, apenas para começo de conversa.

A questão aqui não é tanto pela rápida vitória militar dos Talibãs. Me parece mais importante questionar como os EUA e seus aliados passaram duas décadas impondo uma guerra continua a todo o povo afegão à guisa de impedir novos episódios de terrorismo em suas próprias fronteiras, enquanto foram incapazes não apenas de selarem a destruição da resistência, mas principalmente de deixarem qualquer melhoria objetiva na vida da maioria da população.

Como os Talibãs não chegaram à vitória apenas por suas próprias forças, apesar de todo o apoio popular que possuem, o fundamental é ver como os financiadores da empreitada que terminou hoje com a entrada da sua liderança política no palácio de governo em Cabul vão se comportar. É que se ficarem apenas na imposição da mesma lógica aplicada pelos EUA,  há uma grande possibilidade de que o Afeganistão ficará envolto em uma inevitável guerra civil.

Se o quadro da guerra civil se confirmar, o que teremos naquela parte da Ásia será um clima de instabilidade que poderá gerar graves consequências para todos os países envolvidos.  E basta ver o mapa do Afeganistão para notar que entre os seus vizinhos já existe pólvora suficiente para começar várias guerras localizadas.

mapa-afeganistao

Como geógrafo não posso deixar de notar que a saída dos EUA do Vietnã acabou gerando não apenas a reunificação do sul com o norte, mas também um processo de estabilização de toda a região que também tinha sido duramente atingida pela guerra. No caso do Afeganistão, o que poderá ocorrer é justamente o contrário, dependendo do que fizerem os apoiadores dos Talibãs.  Há quem diga que este seja a jogada estratégica feita pelos comandantes militares estadunidenses no Pentágono.

Ah sim, que ninguém se surpreenda se Sylvester Stallone reaparecer rapidamente nas telas de TV (via algum inédito da Netflix) na pele de John Rambo para salvar a honra militar dos EUA. É que essa é uma das receitas mais manjadas para livrar a cara em derrotas militares infringidas por soldados pés descalço contra a maior máquina de guerra que a civilização humana já produziu.

Campos dos Goytacazes: estudo na UENF revela que formas tradicionais de governar geram despreparo para enfrentar mudanças climáticas

campos dos goytacazes

Uma das principais razões que me trouxeram para ocupar o cargo de professor associado na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) no início de 1998 foi participar da formação de quadros intelectuais que pudessem contribuir para novas formas de pensar os problemas e soluções para os problemas existente na região Norte Fluminense, em especial no município de Campos dos Goytacazes. 

A recente conclusão de uma dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PGPS/UENF) intitulada “O Desafio da Gestão Urbana em Campos Dos Goytacazes no Contexto das Mudanças Climáticas: Entre a Construção da Resiliência e a Persistência de Fórmulas Tradicionais de Governar” me traz a sensação de que essa razão inicial está mais do que justificada. É que a dissertação realizada pelo meu orientando André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos representa um esforço intelectualmente qualificado de pensar qual seria o peso das formas tradicionais de governar sobre a capacidade da sociedade local de refletir e agir sobre os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

É importante notar que o estudo em questão foi realizado em meio à pandemia da COVID-19 que criou enormes dificuldades para a sua realização, mas nem isso impediu a realização de um esforço laborioso para analisar a situação de despreparo completo para iniciar o necessário esforço de preparar o município de Campos dos Goytacazes para responder aos desafios que já estão sendo gerados por mudanças radicais nos eventos climáticos.  Também noto que a banca examinadora incluiu um pesquisador finlandês da University of Helsinki, o professor Markus Kroger, o que representou uma situação inédita, criada aliás pela própria pandemia, visto que se tornou corrente a realização de bancas examinadoras via plataformas online.

Os principais resultados do estudo apontaram para a inexistência de uma agenda socioambiental vazia de pautas climáticas, o que reflete uma postura de pouca preocupação com a criação resiliências frente a desastres. Além disso, o estudo verificou que existe uma clara desconexão entre o discurso e as crenças dos atores sociais estudados (incluindo aí o programa de governo do prefeito Wladimir Garotinho) em relação às práticas efetivas de política urbana no município.  Um fato especialmente importante foi a verificação que inexiste no Plano Diretor Municipal recentemente aprovado pela Câmara Municipal qualquer menção a esforços para mitigar os efeitos que deverão advir de eventos climáticos extremos que marcam as mudanças climáticas.  Finalmente, um estudo de caso no Centro Histórico de Campos, identificou a formação de um processo de crise socioambiental e do aumento gradativo de riscos à eventos extremos, aos quais os campistas já se tornaram acostumados em dias de chuva.

Entre suas principais conclusões, o estudo aponta para a necessidade uma maior atenção em torno da construção de uma agenda de adaptação climática em Campos, pois seu autor considera que o processo de preparação para se fazer frente às mudanças climáticas não apenas é urgente e necessário para garantir a qualidade de vida e segurança das gerações futuras, mas como também abre precedente para se pensar um novo paradigma de economia para Campos dos Goytacazes em um contexto para além do petróleo.

Quem desejar ler o estudo em sua íntegra, basta clicar [Aqui!].

É agora ou nunca: os cientistas alertam que chegou a hora do acerto de contas para o planeta

mudanças climáticas

Voluntários apoiam bombeiros que combatem um incêndio florestal próximo ao vilarejo de Kamatriades, na ilha grega de Evia. Fotografia: Angelos Tzortzinis / AFP / Getty Images

Por Robin McKie, do Observatório das Mudanças Climáticas, publicado pelo The Guardian”

O IPCC é inequívoco: devemos tomar medidas urgentes para conter o aquecimento global e prevenir uma catástrofe. Nossos formuladores de políticas e a conferência Cop26 estarão à altura da tarefa?

O final do clássico da ficção científica dos anos 60, The Day the Earth Caught Fire , a câmera faz uma panorâmica da sala do Daily Express para uma prova de primeira página pendurada na parede. “Terra salva”, grita a manchete. A câmera gira. “Earth Doomed”, anuncia a prova ao lado.

A impressora principal parece perplexa. Qual página ele deverá selecionar? Nunca descobrimos, pois o filme termina sem revelar o destino de nosso planeta, cuja rotação foi enviada para uma espiral fora de controle por testes simultâneos de bombas atômicas soviéticas e americanas. Tudo o que sabemos é que o destino da Terra está em jogo graças à estupidez humana.

Tal visão pode ser matéria de entretenimento popular, mas chega desconfortavelmente perto de nosso próprio futuro incerto, conforme destacado na semana passada por um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que efetivamente anunciou um alerta de “código vermelho” para nossa espécie. Evidências inequívocas mostram que as emissões de gases de efeito estufa estão nos impulsionando para um futuro de fogo calamitoso desencadeado por mudanças climáticas extremas , anunciou. Apenas reduções urgentes das emissões de combustíveis fósseis podem esperar nos salvar.

Foi uma visão vividamente endossada por cientistas, normalmente os mais circunspectos dos comentaristas sobre eventos mundiais. “Nosso clima futuro pode muito bem se tornar uma espécie de inferno na Terra”, disse o professor Tim Palmer, da Universidade de Oxford. Ou, como disse o professor Dave Reay, diretor executivo do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade de Edimburgo: “Este não é apenas mais um relatório científico. Este é o inferno e as águas altas em grande escala. ”

Certamente, os números delineados no relatório foram nítidos e impressionantemente enfáticos em comparação com as ofertas anteriores, muito mais cautelosas, do IPCC. Como fica claro, os humanos injetaram cerca de 2.400 bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera desde 1850, criando concentrações do gás que não eram vistas na Terra nos últimos 2 milhões de anos.

Uma mangueira de água está vazia para um voluntário que luta contra incêndios florestais perto do vilarejo de Pefki, na ilha grega de Evia.

Uma mangueira fica sem água nas mãos de um voluntário que lutava contra incêndios florestais perto do vilarejo de Pefki, na ilha grega de Evia. Fotografia: Angelos Tzortzinis / AFP / Getty Images

As ondas de calor e as fortes chuvas que causam inundações se tornaram mais intensas e frequentes desde a década de 1950 na maior parte do mundo, e as mudanças climáticas estão afetando todas as regiões habitadas do planeta. A seca está aumentando em muitos lugares e é mais de 66% provável que o número de grandes furacões e tufões tenha aumentado desde a década de 1970. “Se ainda havia a necessidade de uma prova de que as mudanças climáticas são causadas por atividades humanas, então este é o relatório que a fornece”, disse a professora Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia.

E as consequências do ato massivo de interferência atmosférica da humanidade agora são claras: o que está quente hoje ficará mais quente amanhã; inundações extremas se tornarão mais frequentes, os incêndios florestais mais perigosos e as secas mortais mais generalizadas. Resumindo, as coisas só podem piorar.

Na verdade, no final do século, eles podem se tornar uma ameaça à civilização se as emissões continuarem no ritmo atual. “Isso pode parecer muito distante, mas há milhões de crianças já nascidas que deveriam estar vivas até o século 22”, acrescentou o professor Jonathan Bamber, da Universidade de Bristol, outro autor do relatório.

Na verdade, eles podem se tornar totalmente catastróficos com a ocorrência de eventos que mudam o mundo – como a extinção de florestas em todo o continente ou o colapso das camadas de gelo da Antártica, diz o professor Andrew Watson, da Universidade de Edimburgo. “O relatório do IPCC oferece uma atualização abrangente sobre o que se sabe sobre as mudanças climáticas, e isso é uma leitura sombria. Mas também aponta que os modelos climáticos não incluem eventos de ‘baixa probabilidade-alto impacto’, como mudanças drásticas na circulação do oceano , que também se tornam mais prováveis ​​quanto mais o clima muda. Esses ‘desconhecidos conhecidos’ são ainda mais assustadores. ”

O novo relatório do IPCC é certamente um documento muito diferente e intransigente em comparação com as versões anteriores, como apontou o meteorologista Keith Shine, da Reading University. “Eu estava fortemente envolvido no primeiro relatório de avaliação do IPCC em 1990. Não tínhamos certeza então de que a mudança climática observada era devido à atividade humana. O IPCC agora diz que as evidências são “inequívocas”. Isso significa que não há esconderijo para os formuladores de políticas ”.

O ponto crucial é que este relatório foi aprovado não apenas por cientistas, mas também por representantes do governo no comitê, homens e mulheres que deixaram claro que também estão convencidos da urgência da situação. “Eles também veem a ligação direta entre as emissões de gases de efeito estufa e os incêndios florestais, inundações e outros eventos climáticos extremos recentes, e isso torna essencial a ação de seus próprios governos”, disse Lord Deben, presidente do Comitê de Mudança Climática do Reino Unido .

Na reunião climática de Paris em 2015, esses governos se comprometeram a tentar manter os aumentos de temperatura bem abaixo de 2C, e não mais de 1,5C, se possível, desde os dias pré-industriais. O problema agora é que o mundo já aqueceu quase 1,1ºC, o que significa que apenas cortes drásticos nas emissões conseguirão evitar um aquecimento global muito mais sério e intenso. Vai ser difícil. O mais ambicioso dos cenários de emissões descritos pelo IPCC oferece menos de 50% de chance de se manter abaixo desse limite de 1,5 ° C.

As perspectivas de limitar o aquecimento global a 2C são melhores, mas ainda exigirão reduções muito superiores às prometidas pelas nações na corrida até a Cop26, a cúpula do clima da ONU que será realizada em Glasgow em novembro. “Está claro que qualquer esperança de que a mudança climática possa vir a ser ‘não tão ruim quanto o esperado’ foi perdida”, disse Rowan Sutton, do Centro Nacional de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading. “Está acontecendo agora e muito rápido. Lidar com esta crise significa tomar medidas urgentes. ”

Essa não será uma tarefa fácil, entretanto. Como Nick Starkey, diretor de políticas da Royal Academy of Engineering, apontou na semana passada. “O Reino Unido não está a caminho de cumprir as metas de carbono existentes e nossa meta de redução de emissões de 78% até 2035 não será alcançada sem medidas profundas de eficiência energética”, disse ele.

O que é necessário é “uma visão ampla da sociedade”, um plano nacional que seria instigado para garantir a implementação de todas as diferentes políticas – do transporte à geração de energia e do aquecimento doméstico à agricultura – que serão necessárias para garantir que as emissões sejam reduzidas conforme o mais rápido possível. “Precisamos implementar políticas em toda a sociedade, caso contrário nossos alvos se tornarão apenas promessas vazias”, disse Joeri Rogelj, diretor de pesquisa do Grantham Institute, Imperial College London.

É uma sugestão apoiada por Lord Deben. “No Reino Unido, precisamos de uma nova lei de planejamento que garanta que todas as autoridades locais tenham que levar as mudanças climáticas em consideração sempre que tomarem uma decisão de planejamento. No momento, eles não recebem absolutamente nenhum conselho sobre como fazer esse negócio. ” Tais processos garantiriam que os detalhes finos de garantir as emissões de carbono sejam controlados e os erros – como a recente concessão de permissão de planejamento para uma nova mina de carvão em Cumbria– não se repitam, acrescentou.

O céu de São Francisco fica laranja com a fumaça do incêndio florestal em setembro de 2020.O céu de São Francisco fica laranja com a fumaça do incêndio florestal em setembro de 2020. Fotografia: John G Mabanglo / EPA

No entanto, será necessário um esforço considerável e sustentado para que a nação mantenha esses esforços. Na terça-feira, as primeiras páginas nacionais foram preenchidas com imagens de aldeias gregas incendiadas e manchetes lúgubres. “PM: acorde com o alerta vermelho para a crise climática”, alertou o Daily Express ; “Como o relatório do juízo final avisa sobre a mudança climática apocalíptica: o Reino Unido pode tirar o mundo da beira do precipício”, perguntou o Mail ; enquanto o Telegraph anunciava “ONU alerta para ‘verificação da realidade’ do clima”. Dado que muitos desses artigos fizeram longos esforços no passado para denegrir a ciência do clima e questionar a realidade do aquecimento global, esses foram anúncios radicais. Resta saber quanto tempo cada publicação permanece comprometida com a ciência.

“A história do clima estava nas primeiras páginas na terça-feira, mas na sexta-feira, três dias depois, quase não foi mencionada”, acrescentou o professor Martin Siegert, do Imperial College de Londres. “No entanto, esta é a coisa mais importante que a humanidade precisa fazer nos próximos 30 anos. Isso vai mudar nossas vidas, vai mudar a maneira como nos vemos no planeta. E se não o fizermos, criaremos enormes problemas para nossos filhos. Mas depois de três dias parecíamos ter sido esquecidos, apesar do fato de que isso é algo que precisa de décadas de trabalho consistente e persistente. ”

Siegert acrescentou que foi estimado que são necessários níveis de investimento equivalentes a 1% do PIB para garantir a transição do país para o status líquido zero. “No entanto, atualmente estamos gastando cerca de 0,01%… um centésimo desse preço estimado. E isso também está bem abaixo do que o governo está gastando em coisas que realmente aumentarão nossas emissões, como planos de expansão de aeroportos e as dezenas de bilhões que prometeu em novos esquemas rodoviários, o que só tornará mais fácil dirigir e queimar. mais combustível fóssil. ”

Todas essas são questões para o Reino Unido resolver, com urgência, nos próximos meses, embora a abertura da conferência Cop26 em Glasgow seja um evento ainda mais premente. Na reunião, que começa em 1º de novembro, delegados de mais de 190 países se reunirão para fechar um acordo que determinará o quão quente a vida ficará na Terra. Em Paris, em 2015, as nações prometeram cortes de emissões que agora precisam ser atualizados com urgência ou as temperaturas globais vão subir para bem mais de 2ºC. Da mesma forma, acordos terão que ser alcançados sobre como eliminar gradualmente as usinas de carvão o mais rápido possível, para proteger as florestas que absorvem dióxido de carbono e para chegar a um acordo de ajuda para as nações em desenvolvimento para ajudá-las a sobreviver aos impactos do aquecimento global.

Será um bom resultado e é muito provável que não saberemos se os negociadores terão êxito até os últimos minutos da conferência de Glasgow. Desta forma, aprenderemos o destino do planeta em novembro, exatamente 60 anos após o lançamento cinematográfico de O Dia em que a Terra Pegou o Fogo . Podemos, então, ter uma ideia melhor se “Terra salva” ou “Terra condenada” era o título correto da primeira página.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Crise climática, pandemias: nossa dieta tem que mudar

Problemas globais como pandemias e crise climática só podem ser resolvidos se os produtos de origem animal forem retirados do cardápio, exige Kurt Schmidinger

farmSem mais fábricas de animais! Foto: dpa / Stefan Sauer

Por Kurt Schmidinger para o Neues Deutschland

Secas e inundações ao mesmo tempo na Europa: também aqui sentimos há muito os arautos da catástrofe climática. Nas medidas para enfrentar a crise climática, porém, quase sempre falta um ponto essencial: temos que reduzir drasticamente o consumo de produtos de origem animal. Globalmente, a organização agrícola das Nações Unidas (FAO) estima a participação da pecuária nas mudanças climáticas entre 14,5 e 18%, o que é pelo menos igual à participação no tráfego global total. Os comitês agrícolas nacionais, por outro lado, têm o prazer de servir-nos de estudos embelezados nos quais, por exemplo, alimentos importados da floresta tropical e muitas outras coisas não estão incluídos – lembre-se também que mais de 90 por cento da soja consumida neste país é alimentação do gado.

Mas mesmo a FAO está apresentando apenas metade da história – as emissões de gases de efeito estufa. O que ainda falta no balanço são os chamados »custos de oportunidade«: a produção de carne ocupa enormes terras aráveis ​​porque os animais só produzem uma caloria de carne, leite e ovos de cinco a sete calorias de ração, o resto se torna líquido estrume e resíduos de matadouro. Em muitas outras áreas problemáticas, o pasto puro de gado ou ovelhas é melhor do que a pecuária industrial, mas não quando se trata de requisitos de terra. Apenas a mudança de alimentos de origem animal para vegetais reduz enormemente a necessidade de espaço. O crescimento da vegetação natural nas áreas vazias seria nosso trunfo contra a crise climática: como com uma esponja, poderíamos reter muito CO2 da atmosfera como biomassa e aliviar enormemente o clima.

Nosso outro grande problema global são as pandemias. Também poderíamos reduzir sua transferência para nós, humanos, mudando nossos hábitos alimentares e abolindo a pecuária industrial: por um lado, porque precisaríamos de menos espaço e, portanto, menos florestas tropicais e biodiversidade teriam que ser destruídas, o que significa que somos menos probabilidade de entrar em contato com vírus estranhos em tais áreas viria.

Por outro lado, porque as próprias fábricas de animais industriais são sempre uma fonte de epidemias. Sabemos que a distância física nos protege em tempos de pandemia. Na pecuária industrial apenas na Alemanha, mais de 200 milhões de animais estão sendo forçados a praticar exatamente o oposto: eles ficam em massa, corpo a corpo com um sistema imunológico enfraquecido, em sua própria sujeira. Surtos de gripe aviária, gripe suína, incluindo mutações de Covid-19 nas gigantescas fazendas de visons dinamarquesas que foram fechadas em novembro de 2020 – há tantas evidências de que a pecuária industrial tem um efeito acelerador de fogo aqui!

Outro fiasco de saúde para o qual estamos caminhando é o fim dos antibióticos eficazes. Devemos usá-los com moderação para evitar o desenvolvimento de resistência. Mas como usamos três quartos dos antibióticos em todo o mundo? Com o propósito puramente de trazer o gado para o matadouro ainda de alguma forma vivo, apesar de ser mantido no menor dos espaços em condições na maioria das vezes terríveis.

Precisamos explicar isso não apenas para os animais. Se a pneumonia pode ter se tornado um perigo mortal novamente em 2060, como explicamos às gerações posteriores que o schnitzel barato da fábrica de animais era mais importante para nós?

Sem uma mudança radical nos hábitos alimentares, nós, como humanidade, falharemos ética e ecologicamente. Os principais políticos que comem schnitzel de porco em público, infelizmente, demonstram uma total falta de competência para resolver urgências globais.

Temos muitas opções: nutrição completa à base de plantas ou pratos fartos preparados com alternativas à base de plantas para carne, leite e ovos , ou o uso de inovações técnicas, como a carne produzida a partir de células animais. Haverá e deverá haver todos esses caminhos em paralelo, e podemos escolher qual caminho gostamos pessoalmente aqui. Há apenas uma opção que um homo sapiens capaz de aprender certamente não tem: continuar com a pecuária industrial.

fecho

Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!].