Novo recorde em alertas mostra que crime ditará taxa de desmate

Com Ibama desmontado, ICMBio ameaçado de extinção e ministro correndo da polícia, dados do Inpe mostram pior maio da série

Por Observatório do Clima

Os alertas de desmatamento na Amazônia em apenas 28 dias de maio atingiram a marca de 1.180 km2, um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020. É a maior área de alertas desde o início da série do sistema Deter-B, do Inpe, em 2016, e a primeira vez que o número ultrapassa 1.000 km2 para esse mês.

O dado é preocupante, porque o mês de maio marca o início da estação seca, quando a devastação se intensifica, em grande parte da região amazônica. A permanecer a tendência nos próximos dois meses, a taxa oficial de desmatamento de 2021 (medida de agosto a julho) poderá terminar com uma inédita quarta alta consecutiva. O comportamento da curva dependerá exclusivamente de quem hoje dá as cartas na região: o crime ambiental.

O regime Bolsonaro se dedica há dois anos e meio a desmontar as políticas de controle de desmatamento, enterrando o único plano que conseguiu reduzir a destruição, o PPCDAm (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia). A fiscalização do Ibama foi manietada; como mostraram neste ano documentos produzidos pelos próprios agentes, a gestão do antiministro Ricardo Salles virtualmente parou as operações do órgão — cuja cúpula acaba de ser afastada por suspeita de operar para madeireiros.

O Instituto Chico Mendes, que fiscaliza as unidades de conservação federais, está ameaçado de extinção. A fracassada Operação Verde Brasil 2, do general Hamilton Mourão, saiu de cena em abril e não deixou nada no lugar. O plano de Salles de criar uma espécie de milícia na floresta usando homens da Força Nacional foi interrompido pelo fato prosaico de que o ministro, com dois inquéritos contra si no STF, dedica seu tempo hoje a fugir da polícia.

No acumulado desde agosto, vem caindo rápido a diferença entre a área recorde de alertas do ano passado e a deste ano: em janeiro o desmatamento em 2021 era 21% menor que em 2020. Agora a diferença é de 8%, e ainda pode cair mais.

Nesse quadro de ausência completa do governo federal, os R$ 270 milhões que o Congresso conseguiu na semana passada para a fiscalização dificilmente produzirão resultado. “O grande problema da fiscalização e do combate ao desmatamento não é apenas falta de dinheiro; o que falta é governo”, afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O combate ao desmatamento está quase exclusivamente nas mãos dos Estados. O problema é que alguns governadores parecem estar do lado dos desmatadores. Em Rondônia, o Coronel Marcos Rocha (PSL), aliado de Jair Bolsonaro, deu em maio um presente aos grileiros ao reduzir duas unidades de conservação no Estado.

“O desmatamento neste ano será o que os madeireiros ilegais, garimpeiros criminosos e grileiros quiserem que seja. E, neste momento, eles não têm nenhum motivo para se controlar, já que o próprio governo federal, que deveria coibir a ilegalidade, os incentiva com atos e discursos”, conclui Astrini.

Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 68 organizações não governamentais e movimentos sociais. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: http://oc.eco.br.
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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

Em 20 anos, precipitação pode ter caído à metade em áreas que perderam 60% da vegetação nativa, com prejuízo anual estimado em R$ 5,7 bilhões

chuva desmatamentoÁrea desmatada de Rondonópolis, leste do estado de Mato Grosso, preparada para o plantio de soja: perda de vegetação nativa reduz a quantidade de chuva e a produtividade agrícol. James Martins/Wikimedia

Por Carlos Fioravanti para a Revista de Pesquisa da FAPESP

A quantidade anual de chuva caiu à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, de acordo com análises da equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 10 de maio na revista científica Nature Communications, esse trabalho indicou que as áreas mais atingidas pela redução da precipitação são grandes produtoras de soja.

“Financeiramente não compensa desmatar para produzir, porque em poucos anos a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada”, conclui o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, da UFMG, principal autor do trabalho. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte.”

Causada pelo aumento do albedo (capacidade de refletir a luz solar) e pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas, a redução de chuva pode causar uma perda de produtividade estimada em US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) por ano na produção de soja e carne na região amazônica, de acordo com esse estudo.

“Neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña [esfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico], mas em anos de El Niño [aquecimento do Pacífico equatorial] a diminuição da chuva pode intensificar a seca”, diz Leite-Filho.

As análises da equipe da UFMG, coordenadas pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, se apoiaram em informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019.

Os pesquisadores avaliaram a perda de vegetação nativa e a redução da precipitação em células de 28, 56, 112 e 224 quilômetros quadrados (km2) em uma área total de 1,9 milhão de km2, do sul da região amazônica, do Acre ao Tocantins (ver mapa). O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), Banco Mundial e Fundação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

“A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que não participou do estudo. Especialista na pesquisa sobre aerossóis e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele foi um dos autores do trabalho que em 2016 mostrou como partículas de aerossóis influenciam a formação e o desenvolvimento de nuvens na Amazônia.

De imediato, em escala local, o desmatamento pode aumentar a quantidade de chuva, de acordo com um estudo publicado em junho de 2003 na Remote Sensing of Environment. “As áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”, diz um dos autores do trabalho, o meteorologista Luiz Augusto Machado, filiado ao Instituto Max Planck da Alemanha e ao IF-USP, após se aposentar no Inpe.

Esse efeito desaparece, porém, quando a área sem vegetação nativa se amplia. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, acrescenta Machado. Ele alerta: “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”.

Estação chuvosa mais curta

Leite-Filho observou outro efeito do desmatamento: o adiamento do início e o encurtamento em cerca de 30 dias da estação chuvosa no sul da Amazônia, de acordo com um trabalho que publicou em setembro de 2019 na International Journal of Climatology. As chuvas, que nessa região normalmente começam em setembro e seguem até abril, indicam o que e quando plantar.

Em dezembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21.

“O desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos veranicos”, diz o pesquisador. Veranicos são períodos secos em meio à estação chuvosa que prejudicam o desenvolvimento das culturas agrícolas.

Artaxo ressalta: “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”.

Artigos científicos
LEITE-FILHO, A. T. et al. Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon. Nature Communications. v. 12, 2591, p. 1-7. 10 mai. 2021.
DURIEX, L. et al. The impact of deforestation on cloud cover over the Amazon arc of deforestationRemote Sensing of Environment. v. 86, n. 1, p. 132-40. 30 jun. 2003.
LEITE-FILHO, A. T. et al. The southern Amazon rainy season: the role of deforestation and its interactions with large scale mechanismsInternational Journal of Climatology. v. 40, n. 4, p. 2320-41. 30 set. 2019.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista de Pesquisa da FAPESP [Aqui!].

Meu nome é Wladimir, mas pode me chamar de Rafael

wlad rafa

Se for feita uma retrospectiva dos primeiros cinco meses do governo Wladimir Garotinho (PSD) à frente do executivo municipal de Campos dos Goytacazes, a primeira sensação é de um tremendo “dejà vu” (literalmente o que já foi visto) em relação ao governo de Rafael Diniz. É que Wladimir vem repetindo a mesma fórmula que mistura derrama fiscal e ataques aos servidores públicos, além de uma estranha propensão a contratar empresas cujo CNPJ foi obtido fora dos limites municipais, o que configura uma sinistra tendência a desconstituir o que resta da economia municipal.

A verdade é que entre um aumento de imposto e outro, incluindo ainda uma estranhíssima lei que implica na expropriação de terras privadas, Wladimir Garotinho demonstra a mesma ojeriza demonstrada por Rafael Diniz em relação aos servidores públicos municipais. A diferença é que Wladimir está associando a cassação de direitos e  benefícios a um projeto explícito de privatização de setores essenciais, a começar pelos serviços municipais de saúde.

Há que se considerar ainda que Wladimir não possui um séquito de menudos neoliberais como o que seguiu Rafael Diniz até os últimos dias de seu infeliz governo. No lugar dos jovens bem barbeados e de cabelos tratados, Wladimir retornou parte da velha guarda que serviu seu pai e  sua mãe, o que, convenhamos, não muda a natureza neoliberal desse início de governo.

Em comum com o grupo de Rafael Diniz, e talvez em tons mais fortes, Wladimir volta a apresentar as mesmas certezas de destino manifesto que o coloque em um suposto padrão de alta moral que o habilita a desqualificar as críticas como se todos os seus críticos fossem piromaníacos institucionais que não querem o melhor para a cidade de Campos dos Goytacazes. Nós que já vivemos o governo dos pais sabemos que esse é um tipo de selo de qualidade do Garotismo, mas é desapontador ver que Wladimir continua com o mesmo tipo de pensamento, apesar de ser reconhecidamente um sujeito afável e com tintas de boa praça. O problema é que na hora de governar traços pessoais não são suficientes para imprimir uma marca própria na forma de governar.

Finalmente, na obra “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, Karl Marx disse que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”.  No caso envolvendo os governos de Rafael Diniz e Wladimir Garotinho, entretanto, fica difícil saber se estamos diante da farsa ou da tragédia, mas está claro que estamos diante, infelizmente, da repetição de uma forma de governar que não resolve nada, e piora tudo.

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

pesticide_viapixabay

Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Documento lançado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) aponta a relação dos agrotóxicos com o agravamento da COVID-19. Maior mercado consumidor mundial desses produtos, que tende a aumentar, o Brasil avança para chegar a meio milhão de mortos.

Trata-se do relatório Agronegócio e pandemia – uma sindemia está agravando a pandemia de covid-19?.

“Segundo os pesquisadores, os agrotóxicos têm efeitos no sistema imunológico e neurológico. E a covid-19 é uma doença sistêmica, o que pode agravar os quadros de infecção”, disse à repórter Girrana Rodrigues, da TVT, a médica Lia Giraldo, professora da pós-gradução em Saúde Pública no Instituto Aggeu Magalhães, em Pernambuco.

Sindemia dos agrotóxicos

Essa relação dos agrotóxicos com a covid-19, aliás, tem um nome ainda pouco conhecido: sindemia. É a interação sinérgica entre duas ou mais doenças que se desenvolvem simultaneamente em indivíduos de um dado grupo populacional marcado por condições socioeconômicas desfavoráveis, como populações indígenas, negras e de trabalhadores rurais pobres, afetando negativamente a evolução de cada uma dessas doenças.

“Quando relatórios nos mostram que a saúde da população está sendo prejudicada, que o sistema imunológico da população está sendo enfraquecido, que diversas dessas comorbidades agravam ainda mais os efeitos da covid-19 são causadas pelos agrotóxicos, a gente consegue reforçar e ter muito mais clareza de que a luta contra os agrotóxicos é necessária”, disse o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel.

 O estudo aponta ainda que o desflorestamento e a exploração de recursos naturais, acentuados nos dias atuais, podem causar outras pandemias tão graves como a COVID-19. “Desflorestar, que é o que o agronegócio faz, cria um ambiente propício a novos episódios dessas pandemias zoonóticas”, disse Lia Giraldo.

A saída é a agroecologia

Para reverter esse quadro, segundo os especialistas, a única saída é uma política pública que incentive a expansão da agroecologia.

“Nós temos por um lado o agronegócio, que desde os anos 1960 recebem incentivos estatais e até de fora do país para se estabelecer. E por outro lado o modelo da agroecologia, que vive lutando por parcos recursos aqui e ali. Quando a gente tiver, de fato, investimentos em política pública séria e focada na produção de alimentos agroecológicos, as barreiras técnicas deixam de existir”, disse Tygel.

Participaram do estudo do Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Abrasco a Rede Internacional para Eliminação dos Poluentes (International Pollutants Elimination Network – IPEN).

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Novo PL do licenciamento ambiental incentiva o crime e a degradação

unnamedPaola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA

 Por Paola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA
Com o pretexto de modernizar as regras do licenciamento ambiental no Brasil, o Projeto de Lei (PL) 3.729/2004, caso aprovado, vai estimular a insegurança jurídica e destruir o que foi construído ao longo dos últimos anos pela Política Nacional de Meio Ambiente.

 

O texto-base do substitutivo apresentado pelo deputado Neri Geller (PP-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foi aprovado por 300 votos contra 122 e encaminhado ao Senado em tempo recorde – apresentado no dia 10 de maio e aprovado já no dia 13 – sem a realização de audiências públicas.

 

Ao transferir a estados e municípios o poder de definir o processo de concessão de licenças, introduzir exceções à obrigatoriedade do licenciamento ou mesmo facilitar a sua obtenção, são muitas as chances de multiplicar os danos ambientais. Atividades industriais que desmatam e poluem, por exemplo, ficarão livres de interferência e regulação estatais.

 

Este é mais um indício de que o caminho escolhido pelo Governo Federal vai na contramão de países desenvolvidos, em que a preocupação em limitar os impactos das mudanças climáticas tem gerado medidas concretas e de forte teor regulatório em prol dos interesses coletivos e do compromisso com o meio ambiente e a humanidade.

 

Vale lembrar que se a proposta de legislação passar pelo Senado, acabará com o licenciamento em áreas indígenas ou territórios quilombolas, que ainda não tenham sido demarcados ou titulados. O problema aqui é que parte significativa das terras ocupadas por essas populações tradicionais ainda não passou por esse processo. Isso significa também que grandes projetos de infraestrutura terão aval para desmatar, poluir e exterminar comunidades que estejam nas suas rotas.

 

Aprovado na Câmara, o PL 3.729 representa o desmonte de um histórico de construção do arcabouço legal de proteção ambiental no Brasil e uma afronta à Constituição. Um dos itens mais contraditórios, para citar um exemplo, é a chamada Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), por meio do qual os responsáveis por empreendimentos de “baixo ou médio risco ambiental” declaram que cumprirão as leis ambientais. Essa modalidade autodeclarada, em que o poder público deixa de regular o impacto ambiental das atividades econômicas, notadamente, do agronegócio, responsável por 25% do total de emissão de gases de efeito estufa, impedirão que os gestores públicos organizem a ocupação do território sem riscos ambientais.

 

Outra ameaça é a desvalorização do papel dos órgãos responsáveis por Unidades de Conservação, como o ICMBio. Na nova lei rural, a manifestação desses órgãos passa a ser apenas consultiva, podendo ser ignorada pelo órgão licenciador.

 

Diante de tantos desastres ambientais vividos recentemente no país, como a quebra das barragens de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, a aprovação desse projeto irá representar novos episódios de acidentes socioambientais ao enfraquecer a segurança jurídica desse relevante instrumento de proteção ambiental.

 

Ao contrário do argumento de que o PL vai desburocratizar o processo e destravar a economia ao abrir mão desses controles, na realidade, vai prejudicar a atração de investimentos e deteriorar, ainda mais, a imagem do Brasil como pária ambiental.

 

Neste sentido, é preciso atentar para a falácia do negacionismo climático, que usa o argumento de que a preservação ambiental é inimiga do desenvolvimento econômico, ou mesmo a culpada pela escassez de empregos e alimentos, a fim de justificar que o licenciamento é uma burocracia desnecessária.

 

Será inevitável, e até esperada, a perda de postos de trabalho pela superação da indústria dos combustíveis fósseis. Mas ela pode ser compensada com a abertura de novos empregos ligados às fontes de energia limpa. E a transição para um modelo agrícola baseado na produção ecológica e orgânica, somada a medidas consistentes para evitar o desperdício de alimentos, podem minimizar os problemas decorrentes da insegurança alimentar no planeta.

 

Por fim, uma lei que não concilia os interesses de diferentes setores da sociedade e não atende ao primeiro objetivo da Lei da Política Nacional de Meio Ambiente, de 1981, que defende compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a preservação do meio ambiente e do equilíbrio ecológico, é inconstitucional e ultrajante.

Mega-fazendas de leite, poços secando e o agravamento da crise hídrica no Arizona

leite1O uso de água por mega-laticínios como este foi acusado de contribuir para a escassez de pequenos agricultores e residentes na bacia Willcox, no Arizona. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Por Anthony Davis para o “The Guardian”

Quando os poços secam na bacia Willcox, aqueles que podem simplesmente cavar mais fundo – deixando as casas altas e secas à medida que o aqüífero é drenado

A comunidade Sunizona, no estado do Arizona , no sudoeste dos Estados Unidos , é apenas uma partícula no mapa. Algumas centenas de casas pontuam a paisagem ao longo de estradas de terra e por alguns quilômetros ao longo de uma rodovia estadual que leva ao sopé das montanhas Chiricahua, perto da fronteira com o Novo México.

Cynthia Beltran mudou-se para Sunizona com seu filho de sete anos no outono passado, embora a área não tenha poços de água potável funcionais, porque era tudo o que ela podia pagar. Ela não pode arcar com os US $ 15.000  de custo de aprofundar seu poço, que secou no ano passado, e estava pagando para uma empresa local entregar água em um caminhão-tanque. Mas, a US$ 100 por semana, ficou muito caro, então agora ela vai contar com um amigo para ajudá-la a buscar água no poço de sua mãe.

“Não tenho para onde ir. Eu não tenho emprego. Não posso pagar o aluguel ”, diz ela.

Os problemas com a água de Beltran estão longe de ser únicos na bacia Willcox, uma área de cerca de 2.000 milhas quadradas (5.200 km2) no canto sudeste do Arizona. Quase 20 poços somente em Sunizona foram perfurados entre 2015 e 2019, depois que secaram. Setenta e cinco poços foram aprofundados nessa época em toda a bacia Willcox, mostram os registros do Departamento de Recursos Hídricos do Arizona (ADWR).

As estimativas apontam para o número de poços secos em mais de 100. Várias casas em Sunizona foram abandonadas por proprietários que não tinham condições de aprofundar os poços existentes ou cavar novos. Mas se você tem dinheiro para perfurar profundamente, não há limite para a quantidade de água que pode extrair.

Embora fixar o declínio de um poço em uma fonte seja virtualmente impossível, o afundamento do aqüífero da área acelerou depois que a Riverview LLP, com sede em Minnesota, comprou e expandiu um laticínio 16 km ao norte de Sunizona em janeiro de 2015. A Riverview já perfurou quase 80 novos poços, a maioria pelo menos 300 metros (1.000 pés) de profundidade e três perto de 800 metros de profundidade.

A Riverview, porém, não é o único novo perfurador de poço invadindo a bacia. Os avisos de intenção protocolados com o estado do Arizona para perfurar novos poços ou modificar poços existentes na bacia aumentaram para 898 de 1º de janeiro de 2015 a meados de novembro de 2020, em comparação com 494 nos cinco anos anteriores. Mas a Riverview perfurou mais poços novos e aprofundou os existentes, de longe, do que qualquer outra organização na bacia.

leite 2Um mapa mostra o número de mega-fazendas ao norte de Sunizona, Arizona (marcadas por um ponto cinza na parte inferior), onde mais de 100 poços secaram. Fotografia: Departamento de Recursos Hídricos de AZ

Kevin Wulf, um porta-voz da Riverview, não contesta que os laticínios são um fator no declínio dos poços do Arizona, mas afirma que dificilmente é o único.

“Eu entendo – nós somos o grande alvo”, disse Wulf em um tour pela leiteria no ano passado. “O boato é: ‘você está aqui para sugar o vale e depois vai embora’. Não queremos fazer isso. ”

O que não se discute é que a Riverview transformou a aparência e a economia da bacia de Willcox em apenas alguns anos. A empresa se tornou a maior operadora da bacia, após a compra de cerca de 20 agricultores, tornando-a central para a economia da região.

Riverview chegou à bacia Willcox quando pagou a um proprietário local US $ 38 milhões (£ 27,5 milhões) pela leiteria Coronado e 2.600 hectares (6.400 acres) no assentamento Kansas ao norte de Sunizona. Desde então, a empresa comprou mais de 20.415 hectares por cerca de US $ 180 milhões (£ 127 milhões), mostram os registros de terras do condado de Cochise. Grande parte disso eram terras agrícolas que a empresa de laticínios comprou para cultivar ração para o gado.

O laticínio Coronado agora abriga 70.000 novilhas cruzadas Jersey (vacas jovens que ainda não amamentaram), criadas para serem enviadas para outras instalações de Riverview no meio-oeste. Dirigir pela estrada do Kansas Settlement é testemunhar uma milha inteira de gado passando como um flipbook: orelhas marrom-mel, grandes olhos de corça, cauda sacudindo. Em um celeiro afastado da estrada, outras 7.000 vacas leiteiras são ordenhadas duas vezes ao dia no carrossel de 90 vacas.

Além disso, cerca de 2.500 vacas leiteiras são ordenhadas na leiteria Turkey Creek. Cerca de 14.000 “cabanas” retangulares brancas são alinhadas em fileiras retas, contendo bezerros de dois a 90 dias de idade. Quando estiver cheio, Turkey Creek abrigará 9.000 vacas leiteiras e 120.000 novilhas.

leite 3A Riverview LLP perfurou quase 80 novos poços na bacia Willcox. No Arizona, não existem regulamentos sobre a quantidade de água que os agricultores podem bombear. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Os críticos da Riverview dizem que a corporação de Minnesota foi atraída para cá pelo mesmo clima político liberal que atraiu muitos agricultores de pistache e nozes da Califórnia e de outros estados para o vale. No Arizona, não existem regulamentos sobre a quantidade de água que os agricultores podem bombear em áreas rurais como esta.

Centros populacionais em outras partes do estado, incluindo Phoenix e Tucson, têm seu bombeamento de água subterrânea controlado pelo Arizona Groundwater Management Act , agora com 41 anos. Mas essa lei isentou as áreas rurais.

“A bacia Willcox é o oeste selvagem – sem regras, água livre”, diz Kristine Uhlman, hidróloga aposentada da Universidade do Arizona. “Você conseguiu o dinheiro para perfurar os poços, você conseguiu a água. Você não precisa planejar ou relatar a ninguém, exceto seus investidores. ”

Wulf diz que a falta de regulamentação do Arizona não teve nada a ver com a decisão da empresa de se mudar para a área de Willcox, dizendo que o principal fator foi o clima ameno da região e a longa temporada de cultivo.

Cercado por cinco cadeias de montanhas, o aquífero da bacia Willcox equivale a uma conta de poupança abundante. Antes do início do bombeamento agrícola em grande escala, por volta de 1940, havia o suficiente para servir Tucson, a cidade grande mais próxima, por até 970 anos, mostra um relatório da ADWR .

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Um revestimento de poço saliente no condado de Cochise foi deslocado em cerca de 0,9 m (3 pés), pois o declínio dos níveis de água subterrânea causou o afundamento da terra. A bacia de água subterrânea Willcox tem a maior taxa de subsidência de terra no Arizona. Fotografia: Departamento de Recursos Hídricos de AZ

Ao contrário da maioria das bacias de água subterrânea no sudoeste, o aquífero da bacia Willcox é salgado apenas a 30 metros de profundidade e é em grande parte fresco abaixo disso. Em algumas áreas da bacia, pode haver água subterrânea um quilômetro abaixo do solo, diz Uhlman, tornando-se uma grande atração para Riverview e outros agricultores famintos de água que desceram no vale na última década.

Mas, diz Uhlman, o bombeamento de uma conta de poupança deve ser administrado. Entre 1940 e 2015, os níveis de água subterrânea diminuíram 60 a 90 metros em relação aos níveis de pré-desenvolvimento em algumas das principais áreas de bombeamento, de acordo com um estudo de modelagem de água subterrânea ADWR. Um oficial aposentado da ADWR diz que a taxa de declínio aumentou de 0,6 para 1,2 metros por ano antes de 2015 para 0,9-1,5 metros por ano entre 2015 e 2017.

A Riverview perfurou cerca de 21% dos 315 novos poços na bacia entre janeiro de 2015 e outubro de 2019 Ele diz que a água usada para o cultivo de rações caiu em um quarto em relação aos agricultores anteriores, em grande parte por causa dos métodos de irrigação mais eficientes, mas Wulf se recusa a divulgar o uso de água de Riverview.

“Nosso uso total de água é algo que observamos internamente com muito cuidado”, diz ele. Mas a empresa favorece a legislação estadual que exige a medição de todos os poços rurais. Essa proposição estagnou nos últimos anos, por causa da resistência de outros agricultores.

“Sentimos que é preciso haver alguns regulamentos. Não ao ponto da Califórnia, porque fica muito proibitivo lá, mas tem que haver algo. Simplesmente não sabemos o que é ”, diz Wulf.

A afirmação da Riverview de uma queda no uso de água atrai muito ceticismo. Dois fazendeiros locais veteranos, Joe Salvail e John Hart, dizem que embora muitas fazendas vendidas para Riverview tenham uma safra por ano, a empresa mudou para as safras de verão e inverno em algumas terras, aumentando o uso total de água.

“Eles vão plantar uma safra de trigo e segui-la com milho”, diz Hart, que possui 500 hectares de terras agrícolas na área desde 2005. Mas Hart diz que a Riverview não é o único produtor adicionando ciclos de safra; outros fazendeiros estão seguindo o exemplo, devido à queda nos preços das safras e à prática cada vez mais popular de plantar safras de inverno para melhorar a saúde do solo e prevenir a erosão.

Em 2015, um grupo de agricultores, pecuaristas, moradores e funcionários do governo propôs a instalação de medidores em poços e a revisão da maioria dos novos. Mas o plano criou profundas divisões na comunidade e a legislatura estadual o ignorou. Nada aconteceu desde então.

“Os caras que lideraram esse esforço em 2015 ficaram tão abatidos entre os colegas que ninguém quer mais falar sobre isso. Se alguma coisa vai acontecer na questão da água, tem que vir do estado ”, diz Hart.

Wulf concorda. “Apoiamos a regulamentação em nível estadual com base em fatos”, diz ele. “Vimos os problemas locais de água se tornarem realmente emocionais. E isso destrói comunidades quando você começa a falar sobre a avó de fulano e fulano bem. ”

leite 5Os planos de instalar medidores em poços na área criaram divisões profundas na comunidade e deram em nada. Fotografia: Greg Bedinger / LightHawk

Nesse ínterim, as perspectivas de longo prazo para a água na área são sombrias. Se os níveis de bombeamento continuarem na taxa atual, os níveis de água cairão até 280 metros (920 pés) no assentamento de Kansas em 2115 em comparação com os níveis de 1940, de acordo com o estudo da ADWR . Grande parte da água que permanece no aqüífero será tão profunda que pode não ser prático trazê-la para a superfície, diz o estudo.

Mas grandes fazendeiros como a Riverview conseguirão obter água por muito tempo porque têm dinheiro para ir mais fundo, diz Uhlman. Proprietários de casas e pequenos agricultores com bolsos mais rasos não têm tanta sorte.

“O fato de tirarem água do fundo é como tirar água com canudo de um balde”, diz Uhlman. “Se você for para o fundo, terá água até esvaziar. As pessoas que têm canudos mais curtos estão perdidas. ”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Uma tempestade perfeita para a Amazônia

perfect storm

Por Ima Vieira

A expressão “tempestade perfeita” (do inglês, perfect storm) se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado por uma combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre. Na Amazônia, o aumento descontrolado do desmatamento e das queimadas, a invasão de territórios indígenas e das comunidades tradicionais, a violação da legislação de proteção ambiental e a falta de fiscalização e de repressão adequada dos crimes ambientais, aliados ao agravamento das mudanças climáticas, aceleram a destruição da maior e mais diversa floresta tropical e a aproximam de um cenário fatídico. Com cerca de 800 mil km² de área desmatada (20% do bioma) e mais de 400 mil km2 de florestas degradadas, estamos nos aproximando de um ponto de inflexão a partir do qual, especialmente os ecossistemas na Amazônia oriental, sul e central, podem deixar de ser floresta, passando para um tipo de vegetação aberta, em um processo denominado de “savanização”.  

A floresta amazônica existe há pelo menos 55 milhões de anos e é habitada por comunidades humanas há pelo menos 10.000 mil anos. O manejo da biodiversidade praticado pelas populações tradicionais ao longo dos séculos levou à domesticação de pelo menos 85 espécies de plantas, dentre elas, a seringueira, a castanha-do-Pará e o açaí, e pouco alterou a cobertura florestal. Reconhece-se, no entanto, que desde a década de 1960, passamos de um conjunto de ecossistemas relativamente intocados a um mosaico complexo de diferentes usos da terra, com vários elementos de pressão e de impacto humano sobre a floresta, de tal magnitude que o chamado arco do desmatamento se transformou nos últimos cinco anos em um tridente do desmatamento, atacando o coração da floresta. A expansão econômica na Amazônia foi também um epistemicídio: invisibilizaram e silenciaram as contribuições das populações tradicionais à manutenção da floresta como base de sustentação da vida e à conservação ecológica da região. 

O papel fundamental da Amazônia na ecologia e na economia é bem conhecido. A floresta atua na regulação do clima e da temperatura do planeta e é responsável pelo sistema de chuvas que abastece diversas partes Brasil e da América do Sul. A floresta desempenha função importante na mitigação do aquecimento global, absorvendo e armazenando dióxido de carbono, por meio da fotossíntese. Sem ela, não teremos água e o seu fim trará enorme prejuízo para agricultura e produção de energia e contribuirá para um processo de extinção em massa da biodiversidade.  

O cenário atual de destruição é agravado por uma agenda de desconstrução de importantes marcos institucionais ambientais, que se estabeleceram a partir da Constituição do Brasil de 1988. Sob pressão de invasores politicamente apoiados, de tempos em tempos aparece uma tentativa de mudança de legislação, como a de regularização de terras (PL 2633/2020 e PL 510/2021), de licenciamento ambiental (PL 3729/2004) e de permissão de mineração e atividades agropecuárias em áreas indígenas (PL 191/2020), que contribuem para aumentar a ousadia desses agentes, potencializar os crimes ambientais e acelerar o processo de destruição da floresta. Os principais crimes ambientais praticados na Amazônia são grilagem de terras públicas, desmatamento, queimadas, extração clandestina de madeira e mineração ilegal.  

O resultado desta equação envolvendo eventos não favoráveis e agravamento drástico das ameaças à floresta amazônica tende a ser desastroso e está em jogo a destruição de um imenso patrimônio biológico e cultural. Vamos continuar a permitir que isso aconteça? 

* Ima Célia Guimarães Vieira é agrônoma, Doutora em Ecologia pela Universidade de Stirling, na Escócia, docente em programas de pós-graduação no Pará e pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, do qual foi diretora-geral. É membro do Conselho da Cidadania da Prefeitura de Belém, do Conselho Científico da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistemicos e do Global Landscapes Forum – Amazon.
 
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Este artigo foi inicialmente publicado no site Uruá Tapera [Aqui! ].

 

A farsa da cloroquina é desmontada na CPI da Covid-19

yamaguchi

Afora os eventuais excessos de retórica que se comete pela presença das câmeras de TV, a passagem da médica Nise Yamaguchi pela CPI da COVID-19 no Senador foi reveladora dos métodos pseudo-científicos que têm sido usados para desinformar a população brasileira acerca dos possíveis tratamentos e da própria natureza do agente causado da doença.

Abaixo posto um vídeo com parte da arguição realizada pelo senador Otto Alencar (PSD/BA) que demonstra que Nise Yamaguchi tem dificuldade de explicar as diferenças básicas entre a estrutura de um vírus e de um protozoário, quanto mais apontar medidas básicas para a indicação de remédios que possam curar doenças causadas por um e outro.

Toda a gritaria que está sendo feita hoje nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro sobre o tratamento recebido por Nise Yamaguchi na sua arguição apenas é uma tática para esconder que a defesa do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina que ela fez não possui qualquer base científica.  Aliás, é preciso dizer que se a arguição de ontem fosse de uma banca acadêmica, Nise Yamaguchi teria sido reprovada, tal a falta de conhecimento que ela demonstrou sobre a matéria que estava sendo examinada.

Finalmente, há que se lembrar que Nise Yamaguchi não está sozinha na defesa de remédios ineficazes contra a COVID-19, pois o Conselho Federal de Medicina (CFM) tem sido um dos fiadores do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no susposto e inviável tratamento precoce da COVID-19.

Uma eulogia para Maurício Tuffani

Faleceu ontem  aos 63 anos, o jornalista e editor do site “Direto da Ciência, Maurício Tuffani, que atualmente também era o editor chefe do jornal da Unesp. Tuffani iniciou sua carreira jornalística em 1978 e atuou em veículos da mídia corporativa como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e pelas revistas Scientific American Brasil, Galileu e Unesp Ciência. Tuffani também foi editor-executivo dos portais do PNUD Brasil e Nações Unidas Brasil e foi responsável pela comunicação institucional de diversos órgãos públicos como Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Florestal do Meio Ambiente.

Desde 2016, Maurício Tuffani também impulsionava o site especializado em jornalismo científico, o Direto da Ciência que se notabilizou por oferecer espaços para notícias e artigos de opinião relevantes para o debate científico, especialmente em um momento de negacionismo científico que aborda o mundo, e especialmente o mundo.

Mas acima de um jornalista com a maior nível de capacidade dentro do campo profissional que abraçou, Tuffani era um pessoa preocupada com o destino da ciência brasileira. Em 2017, quando os professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) atravessavam um duro momento pela falta de pagamentos de salários, Tuffani gentilmente aceitou participar de um debate organizado pela Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) cujo mote foi debater o futuro da ciência no Brasil (ver vídeo abaixo)

 

Naquele evento, Maurício Tuffani instou os presentes a se posicionarem claramente em defesa da ciência brasileira e das instituições responsáveis pela sua produção. Segundo ele, uma das coisas que o deixavam mais perplexo era a letargia que estava presenciando ao processo de desmanche da ciência brasileira, coisa que considerava inaceitável dada a importância, especialmente dentro da própria comunidade científica. Naquele dia ele disse que reagir ao desmanche em curso era uma tarefa primária dos pesquisadores brasileiras. 

Mas além de ser um jornalista altamente preparado e de um cidadão preocupado com a ciência com a qual ele se ocupou durante toda a sua vida profissional, Tuffani era o que podemos chamar de “boa praça”, pois sempre manteve relações pautadas pelo respeito e por uma atitude carinhosa.  Para compensar sua firmeza no trato das pautas que considerava importantes, Maurício Tuffani sempre tinha uma dica para dar e um contato para compartilhar. Aliás, lembro que nos conhecemos quando escrevi para cumprimentá-lo por uma matéria que escrevera sobre publicações em revistas predatórias, e ele me perguntou se eu toparia falar abertamente sobre o assunto, já que poucos pesquisadores aceitavam tocar em um assunto tabu como era a da publicação do que eu chamo de “trash science”. A partir dali nos tornamos amigos por telefone já que ele morava em São Paulo e eu em Campos dos Goytacazes.

Por essas coisas todas é que a morte repentina de Maurício Tuffani é uma perda não apenas para sua família e amigos, mas para todos os que labutam na ciência brasileira. Com sua partida, perdemos um profissional e um cidadão que colocava boa parte de sua energia em defender a ciência.

Mídia corporativa oculta sucesso das manifestações e mostra que segue o projeto ultraneoliberal de Bolsonaro e Guedes

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Pelo que pude acompanhar nas redes sociais, o sucesso das manifestações políticas contra o governo Bolsonaro ocorridas no dia de ontem surpreendeu até os seus organizadores. É que, convenhamos, sem um comando unificado e com pedidos de dentro da dita oposição institucional para que as pessoas ficassem em casa,  a presença nas manifestações foi acima daquelas que colocaram pessoas nas ruas para apoiar o presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

antes depois

Mas se não fosse pelo jornal inglês “The Guardian“, o mundo acharia que tudo foi dentro do normal aqui no Brasil, visto que a imensa maioria dos veículos da mídia corporativa (local, regional e nacional) decidiu ignorar os atos que ocorreram em cerca de 200 cidades brasileiras e no mundo. É como se as cenas de ruas e avenidas lotadas por oposicionistas nunca tivessem ocorrido.

A razão para esta omissão de reportar os fatos é muito simples: os proprietários da mídia corporativa brasileira podem até fingir que são oposição ao governo Bolsonaro, muito em parte por causa de seus supostos arroubos discursivos, mas estão firmemente comprometidos com a agenda ultraneoliberal desenhada por Paulo Guedes e aplicada de forma integral por Jair Bolsonaro.  Na prática, o que os barões da mídia corporativa gostariam de ter um Jair Bolsonaro “de punhos de renda”,  de modo a permitir que Paulo Guedes sua agenda de extermínio do Estado brasileiro na penumbra e sem ser notado. Essa é a verdade inescapável diante da clara omissão de informar aos seus leitores o que ocorreu ontem nas ruas brasileiras e de várias capitais europeias. 

Por isso é que eu digo, com todos os seus defeitos e exageros, a melhor informação que podemos ter não vem mais dos jornalões da mídia corporativa, mas das redes sociais.  É essa capilaridade que, inclusive, deixa a mídia corporativa cada vez menos atraente para quem quer ter informação, explicando também a decadência da maioria dos veículos que vivem cada vez mais a proximidade do fechamento.