Artigo inédito publicado na revista Nature, com colaboração do IPAM, apresenta estratégias duradouras para conter o alto desmatamento em terras públicas.
Florestas públicas não designadas (em laranja), unidades de conservação (em verde claro), terras indígenas (em verde escuro) e desmatamento até 2021 (pontos vermelhos).
Cerca de 50% do desmatamento da Amazônia brasileira ocorre em terras públicas, particularmente nas chamadas florestas públicas não destinadas (FPND) – terras sem título que não pertencem a nenhuma categoria de posse especificada por lei, tornando-as alvo fácil para grileiros e exploração ilegal de recursos naturais. As FPND cobrem uma área de 56 milhões de hectares (o tamanho da Espanha) e armazenam um estoque de sete bilhões de toneladas de carbono — quase 1 ano de emissões globais.
Um artigo publicado na revista cientifica Nature nesta quarta-feira (01/03), em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), apresenta propostas para conter o desmatamento na Amazônia brasileira – em especial aquele que ocorre em terras públicas – utilizando estratégias duradouras que priorizam a segurança fundiária, o aprimoramento tecnológico e a aplicação da lei.
Os autores Paulo Moutinho, diretor executivo interino do IPAM, e Claudia Azevedo-Ramos, membro do Centro de Estudos Avançados da Amazônia, da Universidade Federal do Pará, ressaltam no texto que a insegurança fundiária tem sido um desafio antigo para a conservação do bioma e raiz das dificuldades na adoção de modelos sustentáveis de uso da terra.
Segundo eles, uma ação prioritária é agilizar o processo de validação do CAR (Cadastro Ambiental Rural), eliminando registros ilegais do sistema e reduzindo fraudes. “A tarefa de validação seria muito mais simplificada se o governo federal e os governos estaduais tivessem um banco de dados e um sistema CAR integrados”, complementam.
De acordo com o artigo, a redução do desmatamento também está ligada à promoção do desenvolvimento sustentável com base na estabilidade socioeconômica, como manejo florestal comunitário, agregação de valor aos produtos florestais, valorização dos serviços ecossistêmicos, intensificação agrícola, dentre outros. “Práticas sustentáveis e comércio justo por produtores de grande escala também são fundamentais para a conservação e desenvolvimento da Amazônia devido ao seu impacto potencialmente grande”.
O texto conclui que é fundamental focar em estratégias que garantam a proteção duradoura das florestas existentes, especialmente considerando seu papel na mitigação do aquecimento global. “Uma oportunidade para aumentar a proteção florestal se apresenta após as recentes eleições presidenciais brasileiras (2022) e mudanças positivas anunciadas nas políticas ambientais. O que mais falta agora é uma demonstração prática da aparente vontade política da nova Administração Central em atender ao desejo da sociedade brasileira, assim como de muitas outras nações, de conservar a Amazônia, protegendo seu povo, sua biodiversidade e o clima global”.
Um dos principais feitos dos governos pós-golpe parlamentar de 2016 foi a precarização das regras de defesa dos direitos dos trabalhadores, o que foi convenientemente chamado de “flexibilização”. O fato é que tanto a contrarreforma trabalhistas imposta por Michel Temer em 2017. Acrescido às regras de proteção mais frouxas, o governo Bolsonaro agiu para desmantelar as equipes de fiscais que existiam para impedir a proliferação de casos de trabalho escravo ou degradante.
Ainda que o uso do trabalho escravo não seja novidade no país que manteve negros escravizados em todo o período que essa prática era legal, o fato é que a chamada Abolição da Escravatura de 1888 não eliminou essa prática, tanto que a Comissão Pastoral da Terra (CPT), organização ligada à Igreja Católica, mantém há décadas um esforço de combater as ocorrências de trabalho escravo em todo o Brasil.
Há ainda de se dizer que a prática de submeter trabalhadores às condições análogas à escravidão no Brasil não se reduzem às áreas rurais, pois existem incontáveis casos de trabalhadoras que são escravizadas por décadas inteiras por “famílias de bem” e ainda os casos de libertação em empresas que servem grandes cadeias da moda, como é o caso da espanhola Zara. Entretanto, é no campo que se concentram os casos de escravização de trabalhadores.
Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes na primeira década do século XXI tivemos que organizar um comitê de erradicação do trabalho e degradante por conta da atração de trabalhadores rurais de outras partes do Brasil (incluindo o Vale do Jequitinhonha) que eram atraídos por promessas fabulosas apenas para serem submetidos à condições terríveis de trabalho nos campos de cana de açúcar.
Entretanto, uma faceta relativamente nova são os casos de uso de mão de obra escrava na região Sul, incluindo o mais comentado caso dos trabalhadores baianos que foram libertados recentemente em Bento Gonçalves (RS), e que estão aparecendo com uma frequência relativamente alta, inclusive com o uso de indígenas oriundos do estado do Mato Grosso do Sulque estão sendo usados na colheita de maça no Rio de Grande do Sul e em Santa Catarina.
Em comum os casos que estejam surgindo na região Sul misturam condições agudas de trabalho e o uso da violência contra os trabalhadores que ousam resistir às condições draconianas de existência que lhes são impostas. Essa incidência de trabalho escravo na região Sul aparece como diretamente relacionada ao forte alinhamento eleitoral que as lideranças empresariais do estados sulistas tiveram com o presidente Jair Bolsonaro. E isso, convenhamos, é bastante coerente porque Bolsonaro nunca escondeu sua ojeriza aos direitos dos trabalhistas e seu completo alinhamento com os interesses patronais.
O que me parece importante é que não será fácil conter o avanço das formas de escravidão que estão em expansão no Brasil sem que haja um retorno das regras trabalhistas que foram extintas por Michel Temer, bem como o reforço das equipes de fiscalização que hoje estão operando de forma para lá de precária. Mas para isso ocorrer um forte movimento de pressão terá que ser realizado sobre o governo Lula e o Congresso Nacional, pois muitas empresas que prometem “governança social e ambiental” são aquelas que estão sendo pegas com trabalho escravo em suas cadeias produtivas.
Estudo aumenta os temores de que a Amazônia esteja se aproximando do ponto de inflexão após o qual não será capaz de gerar sua própria chuva
Helicópteros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis participam de operação contra o desmatamento da Amazônia. Fotografia: Alan Chaves/AFP/Getty Images
Por Jonathan Watts para o The Guardian
Pela primeira vez, pesquisadores comprovaram uma clara correlação entre desmatamento e precipitação regional. Os cientistas esperam que isso encoraje empresas agrícolas e governos nas regiões da bacia amazônica e do Congo e no sudeste da Ásia a investir mais na proteção de árvores e outras vegetações.
O estudo constatou que quanto mais florestas tropicais forem desmatadas em países tropicais, menos os agricultores locais poderão depender da chuva para suas plantações e pastagens.
O artigo, publicado na revista Nature, aumenta os temores de que a degradação da Amazônia esteja chegando a um ponto crítico, após o qual a floresta tropical não será mais capaz de gerar sua própria chuva e a vegetação secará.
As pessoas que vivem em áreas desmatadas há muito fornecem evidências anedóticas de que seus microclimas se tornaram mais secos com menor cobertura de árvores. Os cientistas já sabiam que matar árvores reduz a evapotranspiração e, portanto, teorizaram que isso resultaria em menor precipitação local.
A equipe da Universidade de Leeds já provou isso usando registros de satélite e meteorológicos de 2003-17 em regiões pantropicais.
Mesmo em pequena escala, eles encontraram um impacto, mas o declínio tornou-se mais pronunciado quando a área afetada era maior que 50 quilômetros quadrados. Na maior escala medida de 200 quilômetros quadrados, o estudo descobriu que a precipitação era 0,25 pontos percentuais menor a cada mês para cada 1 ponto percentual de perda de floresta.
Isso pode entrar em um ciclo vicioso, pois as reduções nas chuvas levam a mais perda de floresta, aumento da vulnerabilidade ao fogo e diminuição do carbono.
Um dos autores, o professor Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, disse que 25% a 50% da chuva que caiu na Amazônia veio da reciclagem da precipitação pelas árvores. Embora a floresta às vezes seja descrita como o “pulmão do mundo”, ela funciona muito mais como um coração que bombeia água pela região.
Ele disse que o impacto local dessa redução na reciclagem de água era muito mais óbvio, imediato e persuasivo para governos e corporações no sul global do que argumentos sobre o sequestro de carbono, visto como tendo mais benefícios para os países industrializados do hemisfério norte.
“Demonstrar o benefício local de manter as florestas tropicais em pé para as pessoas que vivem nas proximidades tem importantes implicações políticas”, disse Spracklen. “Espero que nosso trabalho forneça um forte incentivo para que os formuladores de políticas e decisões nas nações tropicais conservem as florestas tropicais para ajudar a manter um clima local mais frio e úmido, com benefícios para a agricultura e as pessoas próximas”.
Os autores também analisaram os possíveis efeitos de mais desmatamento. Para a bacia do Congo, eles estimaram um declínio na precipitação de 16 mm por mês até o final do século, com base em projeções de perda de floresta.
Em todas as regiões, as consequências provavelmente serão sentidas em cidades e campos agrícolas a centenas ou milhares de quilômetros fora da floresta desmatada. O estudo observa que o rendimento das culturas pode diminuir em 1,25% para cada perda de 10 pontos percentuais da cobertura florestal.
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Sindicato dos Servidores Públicos (Sinsej) encontrou condições degradantes entre os trabalhadores de uma empresa terceirizada
Por Leandro Schmitz, Editor e Repórter da Folha Metropolitana
Uma denúncia, liderada pelo Sindicato dos Servidores Públicos de Joinville (Sinsej), apontou condições de trabalho análogas à escravidão em uma unidade pública do município. Em um vídeo registrado na última segunda-feira, 27, é possível ver 13 trabalhadores chegando à unidade de Bem-estar e Proteção Animal de Joinville sendo transportados dentro de um caminhão baú fechado. No mesmo dia os trabalhadores foram filmados e fotografados almoçando dentro das estruturas reservadas aos cães e demais animais, em condições insalubres para refeições humanas.
Os homens que aparecem nas imagens são prestadores de serviço da empresa terceirizada Celso Kudla Empreiteiro Eireli, responsável pela obra de reestruturação do local. O contrato assinado em 2020 com a prefeitura de Joinville é de mais de R$ 1,3 milhão e prevê obras como ampliação, pavimentação de passeio e acessos. Inicialmente a vigência do contrato era de 12 meses, mas de acordo com um aditivo publicado em 2022 no Portal da Transparência do município, o prazo de execução foi esticado até o dia 05/03/2023.
Terceirização precariza tudo, diz Sinsej
A presidente do Sinsej, Jane Becker, considera que embora os trabalhadores em questão não sejam servidores públicos, estão trabalhando em uma obra gerida pela prefeitura. Ela conta que houve diversas denúncias de que os trabalhos estariam sendo feitos sem proteção, sem equipamento de segurança. “Durante a visita que fizemos, pudemos constatar a condição perigosa e insalubre destas pessoas”, justifica.
Durante conversa com os trabalhadores (cerca de 30 ao total), Jane conta que descobriu existir um desconto de R$ 800 no salário deles, valor usado para alimentação e transporte. “É desumano ter esta quantia enorme descontada e ser transportado dentro de caminhão baú e almoçando no chão do canil”, afirma. Ela mostra preocupação caso a mesma empresa possa atuar em outras licitações, como no Hospital Municipal São José, por exemplo. E completa: “Nenhuma terceirização é boa, tanto as condições de trabalho, quanto a dignidade destes trabalhadores ficam em xeque”.
Ainda nesta segunda-feira, o Sinsej protocolou uma denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho, dando conta do que foi visto, filmado e fotografado.
O que diz a prefeitura
Questionado pela reportagem, o secretário da Sama (Secretaria de Meio Ambiente), Fábio João Jovita, disse que não estava sabendo do ocorrido no Centro de Bem-estar Animal, mas afirmou que qualquer conduta que viole as condições contratuais, serão apuradas. “Nós não temos controle sobre a gestão de trabalho das empresas contratadas, apenas ao cumprimento de contratos”, frisa.
Ele explica também que esta obra é fiscalizada por servidores da Sama e da Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra) e que os mesmos já notificaram cerca de dez vezes a empresa executora por diversas irregularidades, entre elas, atraso nos serviços. O secretário não descartou a hipótese de, ao final deste contrato, juntar as notificações e lançar um processo administrativo contra a empresa. Caso isso ocorra, a mesma fica impedida de participar de outros processos licitatórios.
Empresa contratada tem dois nomes e um CNPJ
A placa que está em frente às obras do Centro de Bem-estar Animal de Joinville apresenta a empresa “Celso Kudla Empreiteiro Eireli”. Mas no Portal da Transparência do município, no aditivo nº 0012031043/2022, o mesmo CNPJ atende pelo nome “Construtora Azulmax LTDA”. Ainda segundo o documento assinado em fevereiro de 2022, houve um incremento financeiro de R$ 464,9 mil. De acordo com informações da prefeitura de Joinville, a empresa teve mudança de endereço e, consequentemente, razão social, por isso o novo nome foi inserido no aditivo do ano passado.
A Folha Metropolitana tentou entrar em contato com os responsáveis pela Celso Kudla Empreiteiro Eireli e Construtora Azulmax LTDA, mas até o fechamento desta reportagem ninguém atendeu as ligações ou respondeu as mensagens por aplicativo.
Caso o Ministério Público do Trabalho entenda que a conduta e tratamento dado aos trabalhadores desta empresa terceirizada faça parte do chamado “Trabalho Análogo à Escravidão”, os responsáveis responderão pelo artigo 149 do Código Penal Brasileiro, que leva em conta as condições degradantes do trabalho.
Confira as fotos
Os vídeos podem ser vistos no Instagram da Folha Metropolitana: @folhametropolitanaoficial
Trabalhadores comendo dentro dos canis em obra. Fotos: DivulgaçãoCaminhão baú fechado, chegando para deixar os trabalhadores na obraMesmo com refeitório à disposição, trabalhadores comem dentro do espaço destinado ao canil
Este texto foi originalmente publicado pela Folha Metropolitana [Aqui!].
Crise alimentar faz com que os lucros do Grupo Bayer quadrupliquem, o glifosato mais vendido também é o principal assassino do clima
Desenvolvimento de negócios extraordinariamente forte: Drone faz aspersão de glifosato sobre plantação de soja no Brasil
Por Jan Pehrke para o JungeWelt
“O ano de 2022 foi um ano de muito sucesso para a Bayer, apesar das condições adversas”, afirmou na terça-feira o CEO cessante Werner Baumann na conferência de imprensa de contas da multinacional baseada em Leverkusen. As vendas aumentaram 8,7% para 50,7 mil milhões de euros e o resultado consolidado ainda passou de mil milhões para 4,15 bilhões de euros. Em grande medida, estes números surgiram precisamente devido às “condições de enquadramento adversas”, uma vez que todo o setor agrícola se beneficia da escassez de alimentos como consequência da guerra na Ucrânia. Isso leva a uma demanda maior e, consequentemente, a preços mais altos. Portanto, há mais dinheiro envolvido, o que beneficia comerciantes globais de commodities agrícolas, como a Cargill, e também fabricantes de maquinário agrícola, como John Deere e Bayer, porque os agricultores estão comprando mais agrotóxicos e sementes.
Enquanto as vendas na divisão farmacêutica “apenas” cresceram 1,12% para 19,2 bilhões de euros, as da divisão agrícola aumentaram 15,6%, para 25,2 bilhões de euros. Um “desenvolvimento de negócios extraordinariamente forte na ‘Crop Science'”, relatou o player global: “Aumentos de preços em todas as regiões mais do que compensaram a menor área plantada na América do Norte e a menor receita de licenças”. Mercado”.
“Numa época em que a população da Alemanha geme sob uma inflação imensa, o Sul Global sofre com uma crise alimentar e cada vez mais países enfrentam a insolvência, o Grupo Bayer quer aumentar o dividendo em 20% porque fez enormes lucros. Isso fede aos céus”, disse a coordenação contra os perigos do Bayer (CBG). Como consequência, a rede crítica do grupo exige um imposto sobre o lucro excedente.
Por melhor que seja o equilíbrio comercial, o equilíbrio ecológico é ruim, e há uma conexão entre eles: o glifosato, o mais vendido, é, entre muitas outras coisas, um dos principais assassinos do clima. Todo o processo de fabricação consome muita energia e, dessa forma, garante altas emissões de CO2. A fornalha da unidade norte-americana de Soda Springs, por exemplo, precisa atingir uma temperatura operacional de 1.500 graus Celsius para extrair o fósforo, precursor do glifosato, da fosforita. Como resultado, o herbicida é responsável por uma parcela significativa das emissões de carbono da Bayer de 3,03 milhões de toneladas métricas no ano passado. “Nossa extração de matéria-prima, incluindo preparação e processamento adicional para a produção de precursores de produtos de proteção de cultivos da ‘Crop Science’, é particularmente intensiva em energia”,
E estes 3,03 milhões de toneladas provavelmente não é tudo, porque há grandes dúvidas sobre as 450 mil toneladas de CO2 que a empresa pública afirma ter neutralizado com o financiamento de projetos de reflorestação e proteção florestal. Para algumas dessas transações de compensação, adquiriu certificados da empresa Verra, que, segundo pesquisa do Die Zeit e outros meios de comunicação, não foram cobertos pela economia de dióxido de carbono, mas eram “um monte de lixo”.
Outros parâmetros ambientais não são melhores. A gigante do agro lançou mais substâncias destruidoras de ozônio, compostos orgânicos voláteis e poeira no ar. Ele introduziu mais fósforo e mais metais pesados na água. E os resíduos perigosos também foram produzidos em maiores quantidades. Por tudo isso e muito mais, o CBG quer enfrentar o grupo na Assembleia Geral Ordinária no próximo dia 28 de abril, conforme anunciado em nota.
Este texto originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].
Uma unidade de elite tem a missão de expulsar os garimpeiros que devastaram o território Yanomami durante a presidência de Bolsonaro
Por Tom Phillips na Terra Indígena Yanomami para o “The Guardian”
Durante os últimos quatro anos as florestas tropicais do Brasil sangraram. “Eles sangraram como nunca antes”, disse Felipe Finger enquanto se preparava para se aventurar na selva com seu rifle de assalto para estancar a carnificina ambiental infligida na Amazônia pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro .
Momentos depois, Finger, um corajoso comandante das forças especiais do Ibama, estava no ar em um helicóptero monomotor, voando sobre o dossel da floresta em direção à linha de frente de uma guerra feroz contra a natureza e os povos indígenas que viveram aqui muito antes dos portugueses . exploradores chegaram há mais de 500 anos.
Felipe Finger, comandante das forças especiais do Ibama, órgão de proteção ambiental do Brasil, lidera suas tropas em uma missão para destruir minas ilegais no território indígena Yanomami. Fotografia: The Guardian
Felipe Finger incendeia um motor usado por garimpeiros ilegais. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
O objetivo do grupo era o Xitei, um dos recantos mais isolados do território indígena Yanomami, na fronteira norte do Brasil com a Venezuela. Dezenas de milhares de garimpeiros ilegais devastaram a região durante a presidência ambientalmente calamitosa de Bolsonaro em 2019-2023, sequestrando aldeias indígenas, banindo trabalhadores da saúde, envenenando rios com mercúrio e provocando o que seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, chamou de genocídio premeditado.
Enquanto a aeronave de Finger mergulhava em uma clareira lamacenta ao lado de uma aldeia Yanomami, um punhado desses garimpeiros correu para a floresta em suas galochas na tentativa de evitar a captura.
Os motores que alimentavam sua operação clandestina de mineração de cassiterita ainda estavam roncando quando membros de sua unidade de seis homens saltaram de seus helicópteros e se espalharam por uma paisagem apocalíptica de crateras encharcadas e árvores caídas.
“A mineração ilegal nas terras Yanomami acabou”, declarou Finger, um engenheiro florestal camuflado que se tornou guerreiro da floresta tropical, cuja equipe lidera os esforços para expulsar os garimpeiros desde o início de fevereiro.
Forças especiais ambientais incendeiam acampamento de garimpo na Terra Indígena Yanomami. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
A incursão em Xitei fez parte do que foi saudado pelo governo como uma campanha histórica para expulsar garimpeiros das terras Yanomami e resgatar a Amazônia após quatro anos de caos, criminalidade e derramamento de sanguecomo o que viu o jornalista britânico Dom Phillips e os indígenas o especialista Bruno Pereira assassinado em junho passado.
O The Guardian foi uma das primeiras organizações de mídia a ter acesso a esses esforços, viajando profundamente no território Yanomami para acompanhar o esquadrão de elite de Finger, o Grupo Especial de Fiscalização (GEF).
Agentes do grupo se reuniram na madrugada da última sexta-feira em um acampamento no rio Uraricoera – uma das principais artérias utilizadas pelos garimpeiros para invadir o território, que tem o tamanho de Portugal e onde vivem cerca de 30 mil Yanomami em mais de 300 aldeias.
Vinte e quatro horas antes, um bando de garimpeiros ilegais – que o governo ordenou que deixassem o território até 6 de abril – havia trocado tiros com tropas que bloquearam a hidrovia para cortar o abastecimento. Um mineiro foi baleado no rosto.
Pouco antes das 11h, os agentes decolaram em dois helicópteros Squirrel e dirigiram-se para sudoeste em direção a Xitei, onde haviam avistado uma série de minas durante um voo de vigilância no dia anterior.
“Esta região foi absolutamente devastada… existem aldeias que agora estão completamente cercadas pelas minas”, disse Finger, 43.
Vista aérea de garimpos no território Yanomami. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Trinta minutos depois, seu primeiro alvo apareceu. Os helicópteros desceram em espiral de um céu cheio de nuvens para um corte castanho-amarelado na floresta onde os garimpeiros pilhavam o ouro das terras protegidas dos Yanomami.
Os mineiros haviam fugido, abandonando seu equipamento em um poço lamacento onde outrora corria um pequeno riacho. “Eles partiram com pressa – apenas alguns dias atrás”, disse Finger enquanto sua tripulação se arrastava pelo acampamento deserto.
Roupas, maços vazios de cigarros e analgésicos e cartuchos de espingarda calibre 12 usados espalhados pelo chão perto de uma comporta de madeira usada para separar o ouro do cascalho e da sujeira.
Tropas de Finger invadem garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Depois de incendiar a eclusa e os motores que acionavam as mangueiras usadas para remover o solo, o grupo de Finger voltou a embarcar em seus helicópteros e correu em direção ao segundo alvo: um aglomerado maior de minas perto da fronteira venezuelana.
Quando o The Guardian visitou a região de Xitei pela última vezem 2007, era um mar de floresta tropical em grande parte intocada pontilhada com cabanas comunais tradicionais e pistas de pouso clandestinas desativadas que foram dinamitadas durante a última grande operação para expulsar mineiros, no início dos anos 1990.
Quinze anos depois, a selva ao redor de Xitei foi destruída. Imensas lacerações cor de areia substituíram florestas verde-escuras. Acampamentos de mineração em ruínas ficam onde antes antas e veados vagavam. Quantidades desconhecidas de mercúrio poluíram os rios, envenenando os peixes dos quais os Yanomami dependem.
Aldeões Yanomami levam suprimentos de um garimpo ilegal invadido por tropas ambientais perto da aldeia de Xitei. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Dário Kopenawa, um proeminente líder Yanomami, comparou a profanação ambiental à leishmaniose, uma doença transmitida por flebotomíneos que causa lesões e úlceras horríveis na pele.
“Nossa terra está tão doente. Nossos rios estão doentes. A floresta está doente… o ar que respiramos está doente”, disse ele, usando uma palavra Yanomami para descrever a catástrofe que se desenrolou sob Bolsonaro, cuja retórica antiambiental e paralisação de agências de proteção como o Ibama fizeram o desmatamento disparar.
“Eu chamaria de onokãe ”, disse Kopenawa. “Significa um genocídio que mata pessoas, derrama sangue e acaba com vidas.”
Quando a equipe do Ibama desembarcou na jazida de cassiterita, seus operadores se dispersaram. Dezenas de aldeões Yanomami emergiram da selva, curiosos com a chegada do esquadrão voador de Finger.
As mulheres usavam tangas vermelhas tradicionais e tinham contas amarelas e brancas sobre o peito nu. Os homens usavam colares de dentes de onça e empunhavam flechas enfeitadas com penas negras de mutuns semelhantes a faisões. As crianças usavam chinelos e camisas de futebol, presenteadas pelos garimpeiros.
Aldeões Yanomami observam a chegada das tropas de Finger. Fotografia: The Guardian
Os homens balançaram a cabeça quando solicitados a nomear os atuais e ex-presidentes do Brasil. Mas as consequências da incitação de Bolsonaro ao crime ambiental eram visíveis por toda parte: a floresta destruída, os sacos cheios de minerais extraídos ilegalmente e o acampamento imundo onde latas de cerveja e latas de sardinha estavam espalhadas pelo chão.
Aldeões Yanomami observam o desembarque de tropas ambientais em uma mina ilegal perto de sua comunidade. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Perto dali, a equipe de Finger perseguiu um garimpeiro fugitivo, um ex-açougueiro chamado Edmilson Dias, do estado de Goiás, no centro-oeste.
Dias, um homem de 39 anos castigado pelo tempo, cujos oito anos trabalhando nas minas lhe deram a aparência de um homem muito mais velho, votou em Lula nas eleições decisivas de outubro passado. Mas a mineradora criticou a repressão do novo presidente e insistiu que ela fracassaria.
“A mineração é uma febre”, disse o mineiro abatido enquanto se sentava em um tronco de árvore flanqueado pelas tropas fortemente armadas de Finger. “Se você me expulsar desta mina… eu irei para outro lugar porque a mineração ilegal nunca vai acabar.”
Desafiação semelhante pôde ser ouvida em volta da piscina do melhor hotel de Boa Vista, a cidade mais próxima do enclave Yanomami. Em uma tarde recente, um corpulento chefe de mineração estava sentado lá, bebendo cerveja e se gabando de como sua equipe havia enterrado seu equipamento na selva para evitar que as tropas o destruíssem. Os mineiros jogaram gasolina na terra sobre os objetos escondidos para ajudá-los a realocar seus equipamentos, impedindo que a floresta voltasse a crescer.
Agentes ambientais revistam supostos garimpeiros em um bloqueio ao longo do rio Uraricoera. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
O chefe previu que a repressão de Lula desapareceria depois de seis meses, permitindo que os mineradores retomassem suas atividades multimilionárias em mais de 200 poços. Mas os aliados de Lula insistem que vieram para o território Yanomami para ficar.
“Esta é a promessa de Lula e estamos todos trabalhando… para que essa promessa se torne realidade. Estamos determinados a fazer isso dar certo”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que promete defender outros territórios indígenas devastados pelo garimpo ilegal, como os dos povos Munduruku e Kayapó.
Um homem Yanomami senta-se ao lado de uma operação ilegal de mineração de cassiterita nas profundezas do território indígena. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Para os Yanomami, tais promessas são uma questão de vida ou morte. Pelo menos 570 crianças Yanomami morreram de doenças curáveis durante o governo de Bolsonaro, em parte porque gangues desenfreadas de garimpeiros causaram uma explosão de malária e impossibilitaram a operação dos profissionais de saúde.
“Isso é um crime. Não há outro nome para isso – uma tentativa de genocídio”, disse Silva, denunciando as condições “ética, política, moral e espiritualmente degradantes” que ela acreditava que os Yanomami foram deliberadamente submetidos sob Bolsonaro.
André Siqueira, um especialista em malária que visitou recentemente o território Yanomami para avaliar a emergência de saúde, descreveu cenas horríveis de desnutrição e abandono. “Vi crianças de cinco anos que pesavam menos que meu filho de dois anos. Mesmo em viagens à África, nunca tinha visto tais níveis de desnutrição. Eu só tinha visto isso em livros”, disse ele.
Bruce Albert, um antropólogo que trabalha com os Yanomami desde os anos 70, quando os garimpeiros invadiram seu território pela primeira vez, acusou Bolsonaro de tentar “aniquilar totalmente” os Yanomami sabotando os esforços para proteger as terras que se acredita terem habitado por milhares de anos .
“O plano de Bolsonaro foi uma espécie de genocídio por meio de negligência intencional”, disse Albert sobre o político, que ele acreditava estar obcecado com as teorias da conspiração da época da ditadura militar de que potências estrangeiras hostis queriam anexar a região de fronteira incitando um movimento separatista indígena. “E se Bolsonaro tivesse mais quatro anos [no poder], seu plano teria dado certo.”
O ex-presidente do Brasil chamou tais acusações de “farsa” esquerdista. Dias também rejeitou as alegações de que os garimpeiros estavam destruindo os Yanomami.
“Quando nossas máquinas estão todas funcionando, eles comem bem e vivem bem”, disse ele, citando os nomes de três supostos colaboradores Yanomami. “Os mineradores não são bandidos e o que eles estão fazendo conosco é uma desgraça total.”
Dias também negou que os garimpeiros estivessem coletando ouro com o uso de mercúrio, que pode causar defeitos congênitos, danos aos rins e até a morte. Momentos depois, porém, Finger saiu do barraco de Dias brandindo um frasco de plástico cheio do metal pesado tóxico. “Não é apenas perigoso, é letal – para eles [os garimpeiros] e para os indígenas”, ele se irritou.
O agente do Ibama Rafael Sant’Ana desmonta uma comporta de madeira usada para separar o ouro da terra. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian
Dias confessou ter pago cerca de cinco gramas de ouro (£ 240) pela substância prateada. “Vem de máquinas de raios-X, hospitais, esse tipo de coisa”, ele murmurou.
Depois que os suprimentos de Dias foram distribuídos aos moradores Yanomami, seu casebre foi incendiado. Ele foi multado e deixado na floresta para encontrar o caminho de casa.
As tropas de Finger voltaram à base para limpar suas armas e se preparar para a missão do dia seguinte na vanguarda da campanha de Lula para escrever um novo capítulo para o meio ambiente, os Yanomami e a luta global contra a mudança climática.
“Estamos travando uma guerra de fato”, disse Finger enquanto agentes do Ibama revistavam um grupo de garimpeiros que fugiam ao longo do rio atrás dele. “É uma guerra silenciosa que a sociedade não vê – mas aqueles de nós que lutam sabem que ela existe.”
Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Molavin – Ópera Bufa, de Tato Villanueva, já passou por diversos países e conta história de um vendedor de fumaça cansado de mentir
O ator-palhaço argentino Tato Villanueva se apresenta no Sesc Copacabana com o espetáculo solo Molavin – Ópera Bufa, que já foi apresentado nos mais importantes festivais do Brasil e da América Latina. A estreia será nesta quinta-feira, 2, às 20h. Os ingressos estão à venda na bilheteria do Sesc ou no site, com valores a partir de R$7,50 (para associados do Sesc) e R$15 (meia-entrada).
Criado e encenado por Tato, que é diretor artístico, clown e professor, a apresentação mescla teatro de rua com técnicas circenses e conta com a participação do público. O espetáculo conta a história de Molavin, um vendedor de fumaça que, cansado de mentir, procura recuperar sua dignidade, ainda que tenha que arriscar sua vida por isso. Molavin – Ópera-bufa é cômico e satírico, um espetáculo divertido para toda a família.
O espetáculo ficará pela primeira vez em temporada no Rio de Janeiro, durante todo o mês de março de 2023. Serão 16 apresentações, do dia 2 ao 26, de quinta à domingo, sempre às 20h, no Arena do Sesc Copacabana, localizado no 2º subsolo da unidade.
Tato Villanueva é co-fundador da companhia argentina Proyecto Migra, uma cooperativa cultural de circo contemporâneo com uma forte impressão teatral que modificou a forma de produzir e compreender o circo em Buenos Aires. Formada por reconhecidos artistas, tornou-se uma referência na América Latina pela qualidade e singularidade de suas propostas.
Serviço Espetáculo Molavin – Ópera Bufa Com Tato Villanueva Data: de 2 a 26 de março Dias da semana: de quinta a domingo Horário: 20h Local: Arena do Sesc Copacabana Ingressos: R$ 7,50 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada), R$ 30 (inteira) Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ Informações: (21) 2547-0156 Bilheteria – Horário de funcionamento:Terça a sexta – de 9h às 20h; sábados, domingos e feriados – das 13h30 às 20h. Classificação indicativa: Livre Duração: 55 minutos Lotação: Sujeito à lotação Gênero: Clown / Circo
Livro aborda os impactos da crise climática e traz dados atualizados sobre os efeitos da pandemia da covid-19 no meio ambiente em todo o mundo
Queimadas e desmatamentos, poluição de rios e mares, invasão de áreas florestais, aumento contínuo da temperatura global ao mesmo tempo em que catástrofes naturais provocam tragédias como a que vemos agora no litoral norte de São Paulo e em outras regiões do planeta. As mudanças climáticas são o foco do novo livro de Sergio Tulio Caldas, que esteve presente no evento climático extremo ocorrido na costa paulista, durante o carnaval. A obra “Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global”, publicada pela editora Moderna, será lançada em 2 de março, na Livraria da Vila, em Pinheiros, São Paulo.
O autor, que também é jornalista e roteirista, tem especialidade em escrever sobre temáticas de ciências ambientais. Em seu novo livro, o terceiro pela Moderna (pela editora é de sua autoria “Água – Precisamos falar sobre isso” e “Com os pés na África”, ganhador do Prêmio Jabuti), Sergio Tulio utiliza linguagem descomplicada e textos informativos para alertar sobre o avanço do aquecimento global em todo o mundo. Destaca que as mudanças têm adoecido o planeta e podem comprometer, em pouco tempo, a sobrevivência humana e de outras espécies. O livro também relata o drama dos índios Yanomami pressionados pelo garimpo ilegal, já denunciado pelo líder indígena Davi Kopenawa muito antes da grave situação desse povo vir à tona em 2023.
A obra, produzida durante a pandemia, traz dados atualizados e um importante olhar sobre os impactos do isolamento social na natureza. Por quase dois anos, diversos países restringiram o contato social e a circulação de suas populações como método de barreira para a propagação da covid-19. Durante esse período, o planeta deu respostas otimistas, como a queda da emissão de poluentes no ar em todo o mundo.
Com ilustrações e fotos atuais dos problemas climáticos, Sergio Tulio busca alertar o leitor para a urgência de medidas de proteção ao meio ambiente e povos originários. Mas o autor também traz esperança na obra, ao apontar caminhos possíveis para mudanças reais. A ideia é que o leitor, munido de informações atualizadas, possa também se tornar um agente de proteção ao ambiente e de mudança no mundo.
Sobre o autor
Sergio Tulio Caldas é jornalista, escritor, roteirista e diretor de TV. Vencedor do Prêmio Jabuti, principal premiação da literatura brasileira, com o livro Com os pés na África (Moderna, 2017), Sergio Tulio tem como principal fonte de trabalho suas observações mundo afora. Seu interesse pela diversidade cultural e meio ambiente resultam em livros, reportagens e documentários. Para o canal National Geographic, entre outros, escreveu e dirigiu séries como Nos caminhos de Che e Parques de São Paulo. Trabalhou para importantes veículos de comunicação do País, como o jornal O Estado de S.Paulo, revistas Veja e Os Caminhos da Terra, TVs Gazeta, SBT e Record. Na África, onde morou, dirigiu um programa jornalístico exibido na TV Pública de Angola (TPA).
Serviço:
Lançamento “Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global”
Data: 2 de março de 2023, quinta-feira, às 19h
Local: Livraria da Vila – R. Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros – São Paulo/SP
Ficha técnica:
Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global
Um dos trechos do Rio Doce afetados pelos rejeitos da barragem. Crédito da imagem: Felipe Werneck, Ibama, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)
Por Renata Fontanetto para a SciDev
[RIO DE JANEIRO] As regiões costeiras ao norte e as áreas ao sul da desembocadura do Rio Doce no estado de Minas Gerais, ao sul do Brasil, devem seguir sendo monitoradas permanentemente para avaliar suas condições ambientais e biológicas por causa do desastre ambiental ocorrido no dia 5 de novembro de 2015pelo colapso da represa de rejeitos do Fundão.
A ruptura liberou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que deslocou centenas de famílias e afetou 41 cidades e rios, incluindo o rio Doce. A represa pertence à mineradora Samarco, controlada pelas mineradoras Vale e BHP Billiton.
Agora um novo estudoque será publicado na edição de março do Marine Science Bulletin que mapeou as rotas dos metais quatro anos depois (novembro de 2019) de ter ocorrido o delito ambiental, mostra que o rio continua sendo uma fonte de dispersão de metais para o Oceano Atlântico.
Os resultados corroboram com o outro de 2019 que havia sinalizado a tendência de dispersão para o norte.
O equipamento recolheu amostras de água e sedimentos do solo na região do estuário do rio Doce e em estuários e praias de três estados: Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. No geral, os pesquisadores determinaram a presença de metais em diferentes materiais, como partículas grossas e finas de areia, e a composição de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio
Esta metodologia combinada permite quantificar metais e rastrear as fontes e dispersão de matéria orgânica para avaliar o impacto da ação humana (antrópica) em ambientes marinhos. Como o ambiente tem firmas isotópicas, é possível diferenciar um elemento do continente de um elemento marinho.
Os metais tendem a aderir a outros materiais, como a matéria orgânica e as partículas finas de sedimentos, especialmente aquelas menores de 63 micrômetros, com alto grau de retenção de metais. Ao longo dos anos, os materiais se instalaram no fundo do rio, mas podem se tornar biodisponíveis na água novamente devido a processos que suspendem os elementos..
Na areia do estuário do rio Doce com menos de dos mm, o estudo mostra que o arsênio , bario, cadmio,cromo , cobre e níquel estão acina das referências mundiais de concentrações em sedimentos estipulados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica de Estados Unidos (NOAA).
Na fração de sedimentos finos, menores de 63 micrômetros, as amostras são enriquecidas com os metais das partículas maiores e com outros, como alumínio, chumbo, ferro e zinco.
Segundo Échily Sartori, primeira autora do estudo e estudante de doutorado em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), os resultados são preocupantes:
“Há metais que causam efeitos adversos no organismo, como cromo, cádmio, arsênico, chumbo eníquel. Desde disfunções celulares básicas até alterações motoras e neurológicas. Deveríamos nos preocupar desde os níveis mais pequenos, especialmente no caso de alguns elementos que são extremamente tóxicos, como o cádmio”, observa.
A investigação aponta que é possível esperar uma maior dispersão de partículas extremamente finas, justamente porque são muito pequenas, capacidades de viajar acopladas à matéria orgânica e metais por grandes distâncias e são influenciadas pelos ventos da região.
Além disso, o estúdio esclarece que a região estuarina sofre eventos que ressuspendem os materiais sedimentados. Uma vez retornados à água, viajaram para as regiões costeiras a norte e a sul da foz.
“Dizem que o rio voltou à normalidade. Se observar a qualidade da água, poderá encontrar um nível de recuperação, mas o material sedimentado ou os elementos virão no oceano com o tempo. Não sabemos até quando isso acontecerá. O monitoramento deve ser feito a cada década”.
Carlos Eduardo de Rezende, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Brasil
Segundo o investigador da UENF Carlos Eduardo de Rezende, também autor do estudo e orientador de Sartori, a Samarco não especificou desde um inicio os contaminantes que foram arrastados pelo desastre, o que teria facilitado a pesquisa feita já que se saberia a quais metais se deveria procurar.
Para Rachel Hauser Davis, que não participou do estudo e faz parte do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental da Fundação Oswaldo Cruz, a pesquisa é importante justamente porque avalia o transporte de materiais. Há mais investigações que comparam o nível decontaminação no rio com os níveis anteriores à queda da represa, adicionou.
Davis é autora de um estudo que investigou, em 2017 , a presença de metais em sedimentos da região do estuário do Rio Doce e seu impacto nas peças, encontrando arsênico, cromo, manganês, mercúrio e selênio em algumas espécies. “Pde ser que não esteja na água ou no sedimento, mas sim nos animais. Não temos uma supervisão adequada e uma legislação atualizada”, avalia.
O crime em Mariana não é um caso isolado: há outros que têm repercussão no meio ambiente. Davis relembrou alguns, como o colapso de uma represa da Vale em Minas Gerais em 2019, que causou 270 mortes e liberou 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineraÇÃO, assim como a ruptura de outra represa de uma produtora de papel em 2003, também em Minas Gerais, que despejou 1,4 bilhões de litros de lixivia em riachos e rios.
SciDev.Net se comunicou com a Samarco em 13 de fevereiro para saber se realiza monitores nas regiões do estúdio, mas a empresa pediu que a comunicação fosse feita com a Fundação Renova, mantida pela Samarco, Vale e BHP Billiton e que gerenciasse as ações de reparação após a ruptura da presa. Renova disse por telefone que não podia emitir um comunicado dentro do prazo em que a matéria seria concluída
A Fiocruz Amazônia/Fiotec abriu as inscrições gratuitas para o curso de atualização “Agravos Imunopreveníveis de interesse em Saúde Pública na Amazônia”, que será realizado de forma virtual, por meio de plataforma de Educação à Distância (EAD). As inscrições podem ser feitas [Aqui!].
O curso será oferecido dentro do projeto “Amazônia: Ciência, Saúde e Solidariedade no Enfrentamento à Covid-19”, realizado pela Fiocruz com incentivos da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), por meio do NPI EXPAND e SITAWI (Finanças do Bem).
Os ensinamentos são destinados a profissionais de saúde da Atenção Básica das redes municipais, com foco nos agentes comunitários de saúde (ACSs), agentes de combate a endemias (ACEs) e agentes comunitários indígenas de saúde (ACIS), vinculados às secretarias de Saúde dos municípios amazônicos.
A finalidade é fortalecer o enfrentamento à COVID-19 e atuação desses profissionais em seus territórios, incentivando a melhoria da cobertura vacinal instituída pelo Programa Nacional de Imunização.
No EAD, o conteúdo de ensino é disponibilizado em ambiente virtual, ou seja, videoaulas, materiais de estudo, exercícios e atividades, que podem ser acessados pelos alunos em plataforma digital.
De acordo com o Pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Fernando Herkrath, coordenador da Frente 1 do Projeto USAID/NPI Expand, responsável pelo desenvolvimento da plataforma, a iniciativa visa aprimorar a qualificação dos agentes de saúde para auxiliar nas ações de combate e prevenção da COVID-19 e outras doenças imunopreveníveis, potencializando o exercício do pensamento reflexivo dos agentes de saúde para ampliar seu escopo de atuação no combate às doenças transmissíveis, junto às populações sob sua responsabilidade e aprimorando o controle e a prevenção de agravos.
“Por meio do projeto, pactuamos uma série de atividades junto aos Conselhos dos Secretários Municipais de Saúde (Cosems) do Amazonas e de Rondônia, que nos permitiu realizar, desde julho do ano passado, 31 turmas presenciais para um público de mais de 1.200 agentes de saúde de 16 municípios dos dois estados. Com o curso oferecido na plataforma EAD, a intenção é ampliar esse alcance, permitindo o acesso de forma universal desse público-alvo, em todos os municípios da Amazônia Legal, atendendo às diretrizes da Frente 1 do Projeto Fiocruz Amazônia: Ciência, Saúde e Solidariedade no enfrentamento da pandemia de Covid-19”, afirma Herkrath.
Sobre os parceiros
No Brasil, a USAID, a NPI EXPAND e a SITAWI Finanças do Bem se uniram para criar uma parceria para apoiar a Resposta à COVID-19 na Amazônia. Entre 2020 e 2021, a primeira fase do projeto do NPI EXPAND Resposta à COVID-19 na Amazônia distribuiu mais de 23 mil cestas básicas e kits de higiene, capacitou mais de 500 agentes comunitários de saúde, doou mais de 1,4 milhão de máscaras feitas por costureiras locais e divulgou mensagens educativas de prevenção para mais de 875 mil pessoas na região.
A Fase 2 está promovendo maior resiliência das comunidades amazônicas através do apoio amplo a vacinação contra a COVID-19, campanhas de informação e combate à fake News, e apoiando os sistemas locais de saúde na região com equipamentos e insumos para detectar, prevenir e controlar a transmissão da COVID-19, bem como realizar o acompanhamento de casos agudos de COVID-19 e tratar as sequelas de síndrome pós-COVID-19.