Onde começa a selvageria? Onde acaba a civilização?

civilização

POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

Este texto não traz nenhuma grande novidade. Mas o escrevo pensando em todos os alunos que já formei desde 2001 em Porto Alegre, nas cidades do interior do Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro  e como professora , pesquisadora e extensionista na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. O valor deste texto não estará na novidade, mas na experiencia histórica. Era frequente em minhas aulas com policiais gaúchos, uma narrativa sobre as glórias do passado, o respeito à família e a autoridade. Nos idos dos anos 2000, o tema dos direitos humanos era coisa dos vermelhos (ou do Partido dos Trabalhadores já que Olívio Dutra era governador naquele momento). Nós, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acreditávamos que estávamos caminhando para superação destas representações sobre um passado, que ao final, era o saudosismo ditatorial. Era recusa a qualquer diálogo sobre a ordem democrática, sobre o suicídio e a saúde mental dos policiais, sobre a necessidade de mudança urgente nas ações de Secretaria de Segurança Pública.

Quando iniciei meus estudos no Rio de Janeiro, passei realmente os quatro anos de doutorado andando em favelas para entender a dinâmica daquele enfrentamento entre Estado e tráfico. Sim, como socióloga, eu precisava ver os acordos, precisava ouvir as formas de resolução de conflitos, precisava sentir como era a entrada de um caveirão na Favela da Maré. E tenho plena certeza de que toda injustiça sobre aqueles que não têm o poder de defesa, é um ato de covardia.

Em que momento esta covardia sofreu sua metamorfose ? Em que momento o uso do saquinho na cabeça passou a ser aplaudido e os homens de preto passaram a receber a idolatria da população?

Me espanta saber que chegamos a 2022 sem justiça por Marielle, por dezenas de crianças mortas nas favelas cariocas. Com índices altíssimos de encarceramento.  E tendo eleito um patrono de chacinas para governar o Rio de Janeiro.

Aí está  o ponto no qual minha experiência coletiva recupera um enredo complexo: temos recebido um ódio intenso. De homens e mulheres que defendem o aumento de armas. Não creio que seja uma patologia coletiva. Mas lendo Theodor Adorno penso sobre a profundidade de frustração de uma vida sem utopia, sem perspectiva revolucionária, dentro de um quadro decadente de capitalismo financeirizado.  Olhando as ações recentes do Estado, na ação truculenta de fiscais do TRE em Campos dos Goytacazes, na violência desmedida de policiais militares, na aceitação de mentiras e na confissão do presidente sobre desejos perversos e criminosos, me pergunto: como faremos oposição a intensa desumanização vivida desde 2016? Os bárbaros estão entre a população periférica? Quando o presidente conclui que meninas de 14 anos em uma comunidade, “bonitinhas” só podem estar “indo ganhar a vida” esta declaração explicita sua representação sobre o povo. O mesmo foi dito sobre os quilombolas na Hebraica. Monstruoso ele foi na Câmara ao defender a tortura diante de milhões de brasileiros.  Quando cresceu esta deformação odiosa e hipócrita entre nossos familiares? Que potência de morte os consome para que apoiem a tortura e esqueçam os parentes perdidos durante uma pandemia ?

Nossa ciência, que sempre pensou a cultura, a natureza, a civilização se depara com uma questão desagradável: a barbárie como conexão espiritual de um grupo cujo instrumento de ação é o ódio.

Bem vindos a luta de classes, bem vindos ás formas de racismo e xenofobia mais odiosos, bem vindos ao novo mundo velho.

Quanto a nós, em nosso desejo de vida, seguiremos nos salvando desta tragédia civilizatória. Brasil, quando chegam os bárbaros? Quem já os observa?

Oferto um poema de Kostantínos Kaváfis.

 “A espera dos bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Fórum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inação?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram”.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


*Luciane Soares da Silva é é docente  e pesquisadora da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce)

O método Bolsonarista em ação: transgredir a lei, mentir, e se fazer de vítima, quando na verdade se é réu

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Uma dos itens estabelecidos pela lei eleitora vigente que muita gente que não trabalha em órgãos públicos é que no interior de próprios do estado não é possível portar propaganda eleitoral sob  pena de detenção de até seis meses e multa no valor de dois a oito mil reais. Pois bem, o vídeo abaixo mostra um auto declarado eleitor do presidente Jair Bolsonaro que teve sua entrada vetada no campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) pelo fato do seu carro portar um adesivo de propaganda eleitoral do seu candidato (em outras palavras a entrada foi vetada até para protegê-lo de sua própria ignorância acerca da lei eleitoral).

Mas  ao invés de reconhecer o seu erro, o individuo em questão resolver partir para a aplicação do método bolsonarista de comportamento público que envolve deturpar os fatos, e ainda se fazer de vítima. Para isso, ele utilizou o mesmo corolário utilizado pelo “Padre Kelmon” que é o de atacar as universidades públicas por seu suposto cunho esquerdista, ainda que tendo que mentir copiosamente.

Algumas pessoas que já viram este vídeo chegaram a procurar uma forma de comunicar a essa pessoa do porquê da proibição de sua entrada no campus da Uenf. Eu pessoalmente acho que isso seria uma absoluta perda de tempo, pois quem está envolvido pelo método bolsonarista de agir, dificilmente ouve a voz da razão.

Pessoalmente eu seria favorável a apenas convocar os oficiais do Tribunal Regional Eleitoral para fazer a aplicação da lei eleitoral nesse difamador da Uenf. Simples sim.

Bolsonaro diz para que se vá ao Google, esperando que ninguém faça isso: o caso do desmatamento na Amazonia

bolsonaro amazonia

No primeiro debate do segundo turno da eleição para presidente do Brasil, Jair Bolsonaro resolveu jogar truco com os dados do desmatamento e indicou a que os que assistiam o evento a irem no Google para checarem os dados que, segundo ele, mostrariam que em seu governo o desmatamento estaria sendo menor do que o ocorrido no período do ex-presidente Lula. 

Essa tática equivaleu a um jogo de truco, na medida em que ele aumentou o valor da aposta na premissa de que ninguém iria realmente fazer o que ele estava indicando. O problema é que no caso do desmatamento na Amazônia não há jogada de truco que dê jeito.  Para começo de conversa observemos o gráfico abaixo:

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O que se vê é que o ex-presidente Lula herdou uma espécie de “desmatamento preventivo” que ocorreu no último ano do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas depois conseguiu uma diminuição significativa do desmatamento, com taxas baixas que foram mantidas até 2015, útlimo ano antes da saída forçada de Dilma Rousseff do poder.  De 2016 para cá, e especialmente durante os três primeiros anos do governo Bolsonaro, o que se viu foi a retomada explosiva do desmatamento.

Além disso, há que se destacar que destacar que o problema não se resume à taxa de desmatamento, que realmente foi superior em outros governos. Mas algo ainda mais grave que está acontecendo agora é o aumento do desmatamento dentro de  Unidades de Conservação e Terra Indígenas, como nunca ocorreu antes.  Esta é uma  situação nova e perigosa, e que reflete  a falta de governança (comando e controle) que foi criada pelo governo Bolsonaro.

Mas, convenhamos, Jair Bolsonaro sabe muito bem o que o seu governo, e especialmente o seu anti-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, andou fazendo para permitir a volta de taxas de desmatamento explosivas na Amazônia.  Assim, ao fazer o convite para que se checasse no Google a questão, ele apenas tentou “trucar”, especialmente com seus apoiadores que acreditam, entre outras coisas, que a Terra é plana.

Para quem estuda a situação da Amazônia, o que se sabe é que a continuidade do governo Bolsonaro em eventual reeleição terá efeitos desastrosos para o Brasil e para o mundo, pois o avanço do desmatamento tem consequências diretas para a regulação climática de outras regiões brasileiras e para o mundo. 

Nesse sentido, o jogo que Jair Bolsonaro está jogando não é truco, mas roleta russa. O problema é que se sua permanência no poder for permitida, a pistola estará apontada para a cabeça de todos nós.

A pergunta que ninguém fez: afinal, o que fazia Jair Bolsonaro em São Sebastião?

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Jair Bolsonaro em sua peculiar visita ao interior de uma residência na comunidade de São Sebastião na periferia de Brasília

Desde que eclodiu a crise envolvendo a declaração questionável (para dizer o mínimo) do presidente Jair Bolsonaro sobre o encontro com duas adolescentes venezuelanas na comunidade periférica de São Sebastião, a mídia corporativa vem fazendo um tipo de cobertura que não vai a nenhum lugar. 

Como geógrafo, me pus a pensar sobre algumas questões nunca perguntadas (e por isso não respondidas) envolvendo essa peculiar visita de um presidente em exercício a uma comunidade que fica a 30 Km (ou cerca de 24 minutos de carro) do Palácio do Planalto (ver figura abaixo).

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A coisa começa esquisita por um fato básico: São Sebastião é uma comunidade cuja feição mais notória é a vizinhança com o Presídio da Papuda, além de ser fruto de um processo de expansão que fugiu do padrão idealizado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa no momento da criação do Distrito Federal.

Segundo um colega que trabalha na Universidade de Brasília (UnB), São Sebastião é mais um daqueles locais em que as camadas mais pobres vão ocupar quando outras áreas se tornam valorizadas demais, e empurram para regiões distantes os que não podem pagar nelas. Isso explica a distância entre São Sebastião e o chamado Plano Piloto, como é mostrado na figura acima.

Pois bem, o que teria levado a que o presidente da república decidisse “dar um passeio” matinal em uma área periférica de Brasília? Afora as excentricidades que são atribuídas a Jair Bolsonaro, não me parece acidental que ele tenha encontrado acidentalmente justamente crianças venezuelanas em São Sebastião. Toda essa situação aparenta ter algum nível de intencionalidade, sem que fica claro qual.

O que não me parece factível é que Jair Bolsonaro tenha acordado em um sábado de manhã, e incontinente, tenha convocado parte de sua segurança palaciana para dar um rolé despretensioso em comunidade periférica que fica a pelo menos 30 km das comodidades oferecidas pela residência oficial da presidência da república, onde então acabaria encontrando as adolescentes venezuelanas.

A mídia está agora noticiando que a ex-ministra e senadora eleita Damares Alves e a esposa de Jair Bolsonaro, Michelle, tiveram um encontro com as duas adolescentes com o qual o presidente da república disse “ter pintado um clima”.  Neste caso, a intenção parece óbvia, qual seja, livrar a cara de Jair Bolsonaro que está perdendo votos por causa de uma declaração que até os mais aguerridos dos bolsonaristas sabe que foi muito estranha.

Mas será que, finalmente, algum jornalista vai se ocupar de fazer a pergunta que realmente importa, qual seja, o que foi Jair Bolsonaro fazer em São Sebastião em um sábado de manhã?

Combustível do crescimento voo de galinha do governo Bolsonaro acabou antes da eleição

Se já não bastasse os problemas criados pela língua destrambelhada do presidente Jair Bolsonaro, dados que acabam de ser divulgados pelo Banco Central vão cair como uma bomba ao longo desta semana, visto que o Índice de Atividade Econômica (IBC-BR) do Banco Central, considerado a “prévia” do Produto Interno Bruto (PIB), registrou retração de 1,13% em agosto, na comparação com julho, informou a instituição nesta segunda-feira (17), o que vem a ser maior retração da economia brasileira desde março do ano passado (ver imagem abaixo).

O economista Eduardo Moreira já publicou um vídeo em sua página na rede Twitter onde ele afirma categoricamente que este é uma espécie de desastre anunciado, mas que está ocorrendo antes do tempo imaginado (ver vídeo abaixo).

Com essa má notícia na economia, é possível dizer que todo o discurso de Jair Bolsonaro de que a economia estava decolando se equivale a um voo de galinha e, pior, que nem conseguiu levantar na pista. Esse dado de retração do PIB deveria ser motivo de uma troca de perguntas e respostas entre Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula no próximo debate presidencial.  A dúvida é se será ou continuaremos com um debate inócuo como o que tivemos na noite de ontem.

Sérgio Moro voltou à cena do crime para mostrar o que sempre foi, um personagem obscuro da extrema-direita

Até o debate presidencial de ontem havia ainda gente que preferia se enganar com o real papel cumprido na cena política brasileira pelo ex-juiz federal Sérgio Moro e senador eleito pelo União Brasil pelo estado do Paraná.  Segundo a imagem construída pela mídia corporativa, Sérgio Moro era uma espécie de paladino contra a corrupção e os desvios da classe política brasileira.

moro bolsoA la Padre Kelmon, o ex-juiz Sérgio Moro cumpre o papel de papagaio de pirata de Jair Bolsonaro ao final do debate presidencial de ontem

Ao aparecer ao lado de Jair Bolsonaro após cumprir o papel de conselheiro na condução do debate, Sérgio Moro rasgou a fantasia de paladino contra a corrupção, e se deixou mostrar pelo que realmente é, um personagem sombrio da extrema-direita brasileira para quem corrupção é apenas uma bandeira de ocasião, pois esta ainda comove os segmentos mais reacionários da população brasileira, ou ainda aquelas pessoas desinformadas que caem numa conversa mole que já elegeu muito direitista corrupto ao longo da história da república brasileira.

A tirada de máscara foi tão óbvia que até um apoiador renhido da Lava Jato, Merval Pereira, teve de reconhecer que a ida de Sérgio Moro serviu para acabar com qualquer dúvida sobre sua parcialidade no tratamento das questões judiciais envolvendo o ex-presidente Lula. Como ouvi Merval reconhecendo isso ao vivo, pude ver como as palavras saiam de sua boca como se ele quisesse prendê-las na boca (ver vídeo abaixo). 

A verdade é que a ida de Sérgio Moro ao debate coloca por terra até a justificativa para sua saída do governo Bolsonaro que se deu sob a denúncia de que Jair Bolsonaro estava exercendo pressões para impedir o trabalho independente da Polícia Federal. Ainda que verdadeira a denúncia, o que se vê agora é que a saída de Moro provavelmente se deu por diferenças de interesses que nada tiveram com o alegado oficialmente (ver vídeo abaixo onde Moro não responde a uma questão direta sobre a questão da interferência de Bolsonaro na Polícia Federal).

Para quem ainda se enganava com Sérgio Moro de forma sincera, espero que essa “volta à cena do crime” sirva para que toda ilusão cesse. É que depois dessa, quem ainda cair na conversa fiada de Sérgio Moro não é vítima, mas cúmplice do crime.

A enrascada de Jair Bolsonaro: pedófilo ou mentiroso?

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Há um velho ditado/conselho ´popular que diz que “o peixe morre pela boca” e que repetidamente é desconsiderado pelo atual ocupante da cadeira de presidente do Brasil, o senhor Jair Bolsonaro. Provavelmente movido pela certeza de que pode sempre falar o que bem entende, Bolsonaro soltou uma daquelas declarações de efeito em um podcast realizado na última 6a. feira na qual ele narrou uma estranha história envolvendo o encontro com meninas de 14 ou 15 anos, supostamente venezuelanas, em uma comunidade pobre de Brasília, reconhecendo ainda que teria “pintado um clima” forte o suficiente para levá-lo para o interior da residência das meninas (ver vídeo abaixo).

O que o presidente do Brasil não contava é que suas palavras (emitidas de livre e espontânea vontade) seriam tomadas ao pé da letra, levando a uma onda de condenações pelo evidente tom descabido que a narrativa dele ensejou. Na prática, Bolsonaro armou uma tsunami midiática contra ele mesmo, e que veio em uma péssima hora para quem corre atrás do prejuízo.

Em um reconhecimento óbvio de que propiciou armamento contra si mesmo, Jair Bolsonaro realizou uma “live” na madrugada deste domingo para atacar o Partido dos Trabalhadores (PT) por supostamente usar contra ele, algo que lembremos foi dito por ele mesmo de forma pública.  A coisa tomou um tom bizarro, na medida em que um dos que saiu para prestar solidariedade a Bolsonaro foi o ex-vereador da cidade do Rio de Janeiro que teve seu mandato cassado por filmar e distribuir cenas de sexo, pasmem, com uma menor de idade (ver imagem abaixo).

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A essas alturas do campeonato em que mais de 30 milhões de brasileiros passam fome é realmente difícil entender o que realmente Jair Bolsonaro pretendia com essa confissão bizarra. Acontece que a narrativa dele já se provou mentirosa em várias outras vezes, mas neste caso ganha ares grotescos. É que o site UOL publica uma reportagem neste domingo indicando que, na verdade, no local citado como possível prostíbulo de menores venezuelanas ocorria uma ação social promovida por uma estudante brasileira de estética que fora ali simplesmente para treinar suas habilidades com voluntárias. 

Disto resulta que o presidente Jair Bolsonaro se utilizou de uma situação para mais uma vez atacar o governo de Nicolas Maduro (as meninas segundo ele seriam todas venezuelanas, lembram?), mas acabou enveredando por um caminho muito estranho em que a ele pode ser sim atribuída a pecha de pedófilo ou de mentiroso (aliás, escolher um caminho que mistura as duas coisas não é impossível).

Como não tenho a expectativa de que Jair Bolsonaro vá reverter suas práticas, o mais provável é que venha emitir outras “pérolas” até o dia do segundo turno. A ver!

No Dia do Professor é dia de luta, pois Brasil paga salários de fome e impõe condições indignas de trabalho

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No dia em que o Brasil deveria estar celebrando o “Dia dos Professores” com pompa e circunstância dado o papel que estes profissionais cumprem no processo de desenvolvimento nacional, a realidade é muito dura para a maioria da categoria. Por um lado, o nosso país além de pagar alguns dos piores salários do planeta (ver figura abaixo que vem de um estudo da OCDE onde o Brasil aparece na última colocação entre os 40 países que tiveram seus dados analisados), ainda se assiste uma degradação exponencial das condições em que o trabalho ocorre em todos os níveis de formação.

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O resultado disso é que o Brasil não apenas assiste a um forte processo de evasão de professores, mas como já se antecipa que em até duas décadas, o país não terá mais pessoas interessadas a trabalhar nesta profissão.  Essa situação já se mostra grave em diversas disciplinas, incluindo Biologia, Química, Geografia, Letras e História, nas quais a falta de formação de professores já está evidente.

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Caso essa tendência não seja revertida, o que teremos diante de nós será devastador, na medida em queas próximas gerações estarão impedidas de ter acesso a um mínimo de qualidade em seu ensino, como se vê aqui mesmo em Campos dos Goytacazes continuam sendo para lá de insuficientes.

Por isso, mais do que nunca, o Dia do Professor tem que ser um dia de luta em defesa de uma educação pública, democrática, gratuíta e laica, e que todos os profissionais da Educação sejam tratados de forma digna e com salários que permitam que eles cumpram suas obrigações dentro dos padrões elevados que o Brasil necessita.

 

De Olho nos Ruralistas e Fase lançam relatório sobre o “discurso verde” do agronegócio

Publicação “O Agro não é verde” mapeia as associações que atuam no lobby do setor e desmente narrativas sobre o agro brasileiro ser o mais sustentável do mundo; relatório será lançado durante debates em Recife e no Rio de Janeiro

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Por Bruno Stankevicius Bassi o “De Olho nos Ruralistas”

Daqui a menos de um mês, a cidade portuária de Sharm El Sheikh, no Egito, sediará a 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-27). Ali, entre 06 a 18 de novembro, estarão reunidos líderes políticos e ambientais de todo o mundo, para debater as metas de combate às mudanças climáticas.

O evento marca a terceira participação do Brasil em COPs desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Nesse período, o país assistiu ao esfacelamento das políticas ambientais e registrou recordes nos índices de desmatamento e queimadas. Os últimos anos foram marcados também pela “boiada” promovida por Bolsonaro e pelo ex-ministro Ricardo Salles — eleito deputado federal no dia 02 —, que levou o país do status de líder no debate climático a pária internacional.

No vácuo da diplomacia brasileira, quem ganhou espaço foi o agronegócio. Reagindo à crescente demanda dos mercados internacionais, as principais associações representativas do setor agropecuário passaram a interferir diretamente nas ações do Estado brasileiro, promovendo uma agenda legalista e ideológica que ignora o desmonte socioambiental vivido nos últimos quatro anos. Os mesmos atores que dizem “jogar dentro das regras” ou que “não podem sofrer embargos pelas irregularidades cometidas por malfeitores” são aqueles que mantêm pouco ou nenhum controle sobre as cadeias de fornecimento, enquanto defendem no Congresso a flexibilização do Código Florestal.

Essa história é contada em detalhes no relatório “O agro não é verde: como o agronegócio se articula para parecer sustentável“, fruto da parceria entre o observatório De Olho nos Ruralistas e a ONG Fase.

AGRO NÃO É VERDE

A publicação será lançada hoje (14), em Recife, em um debate promovido na sede do Movimento de Trabalhadores Cristãos (MTC-PE), a partir das 18h30. Um segundo encontro será realizado no dia 17, no Rio de Janeiro, no espaço Raízes do Brasil.

Estudo mapeou 49 organizações do agronegócio

O Brasil figura entre os dez maiores emissores de carbono do mundo. Essa posição é justificada, em grande parte, pela agropecuária brasileira, que representa, sozinha, 1,06% das emissões globais de carbono e representa cerca de metade das emissões do país. Apesar dessas “credenciais”, o relatório “O Agro não é verde” mostra que o setor vem se apresentando internacionalmente como um defensor do meio ambiente. 



Agropecuária compõem metade das emissões de carbono brasileiras. (Imagem: Reprodução/WRI)

Ao longo de seis meses, a equipe do De Olho nos Ruralistas mapeou páginas institucionais, notas de posicionamento, releases, publicações, campanhas publicitárias, redes sociais, arquivos de jornais, revistas e entrevistas de dirigentes de 49 associações do complexo agroindustrial, buscando a recorrência de termos relacionados ao discurso de ambientalização. Dessa filtragem inicial, foram identificadas as principais narrativas e estratégias do agronegócio relacionadas a políticas climáticas, à disputa por recursos, fundos e fontes de financiamento, a alianças com ONGs ambientalistas e inserções midiáticas. Assim, foram selecionadas treze organizações com atuação mais incisiva nas últimas seis edições da Conferência das Partes — da COP22 (Marrakesh, 2016) à COP26 (Glasgow, 2021) —, que serviram de base para a publicação.

Elas foram divididas em quatro grupos: o pragmático-reformista, formado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e Indústria Brasileira de Árvores (Ibá); o pragmático-ideológico, liderado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Sociedade Rural Brasileira (SRB), Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), entre outros; o negacionista-ideológico, composto por organizações alinhadas a Bolsonaro, como a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec); e o de organizações com foco temático, como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Em comum, as treze organizações participam ativamente no lobby ruralista em Brasília, por meio do Instituto Pensar Agro (IPA), principal braço logístico da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).


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Este texto foi incialmente publicado pelo site “De Olho nos Ruralistas” [Aqui!].

Pesquisadores e profissionais da área de Ciência e Tecnologia lançam manifesto em favor da candidatura de Lula

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Nós, cientistas, professores, pesquisadores, técnicos, empresários, trabalhadores, servidores, pós-graduandos e gestores, que atuam em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), nos manifestamos pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República Federativa do Brasil. Fazemos isto por termos certeza de que Lula fará um governo democrático, com avanços sociais e a recuperação econômica do País. Temos clareza que a eventual continuidade do péssimo governo do presidente Bolsonaro nos levará a um desastre maior do que o atual.

Ao longo dos 4 anos de governo, Bolsonaro se destacou pelo negacionismo em relação à ciência, atuando contra as vacinas e a proteção individual, além de incentivar remédios ineficazes. Tais ações foram corresponsáveis por uma parcela significativa das centenas de milhares de mortes na pandemia. Bolsonaro promoveu um processo de desmonte da CT&I no Brasil, reduzindo drasticamente os recursos para esta área, bem como para a educação, e desviando fundos legalmente destinados a ela para interesses eleitoreiros e orçamentos secretos. Presenciamos nos últimos anos, a evasão de muitos de nossos jovens que abandonaram o país em busca de melhores condições de estudo e trabalho. Seu governo atuou contra a liberdade de pesquisa e a transparência da gestão pública ao promover demissões e perseguições a pesquisadores que divulgavam dados importantes sobre o meio-ambiente, a saúde e a economia do país. A sua política deliberada de destruição do meio ambiente levou a um crescimento enorme no desmatamento, a ameaças às terras indígenas e conduziu o país a um triste recorde internacional. Em consequência das ações do governo, a imagem do Brasil no exterior foi profundamente afetada, prejudicando o comércio e as cooperações internacionais. As ameaças constantes à democracia e aos direitos individuais, o grande aumento do desemprego, o crescimento da fome, que atinge agora 33 milhões de pessoas, e a deterioração acentuada das condições de vida da população brasileira são o legado trágico de uma política de governo que o país deve, agora, derrotar democraticamente.

Como Presidente da República, Lula agiu sempre de forma democrática e o bom desempenho de seu governo foi reconhecido pela população: no final do seu mandato, tinha 87% de aprovação. O Brasil atingiu a posição de sexta economia do mundo (hoje caiu para o 12o lugar) e o PIB por pessoa foi o maior da nossa história. A dívida externa foi toda paga e o país acumulou reservas de centenas de bilhões de dólares. Havia pleno emprego e o Brasil foi retirado do Mapa da Fome. A CT&I teve um grande impulso, assim como a educação, com aumento substancial de recursos e planejamento adequado, alcançando patamares bem mais altos que os atuais. Houve a criação e expansão de muitas universidades e institutos federais e ampliou-se o acesso de milhões de jovens ao emprego e às escolas e universidades. As ações de inclusão social beneficiaram milhões de pessoas.

As propostas de Lula para o próximo governo recuperam e ampliam em muito o que seu governo anterior realizou. Pontos essenciais serão a recuperação econômica do país, a melhoria do sistema educacional e da saúde pública, a extinção da fome e a preocupação com o meio ambiente e com uma agricultura sustentável. Em seu programa, Lula planeja o aumento e a continuidade de recursos para CT&I e educação – vistos não como gastos, mas como investimentos – e o estímulo à pesquisa básica e à inovação tecnológica e social. Será dado destaque à valorização das bolsas de estudo e à criação de oportunidades de trabalho para os jovens que querem se dedicar à CT&I no País, oferecendo futuro a eles e à Nação.  

Por essas razões apoiamos a eleição de Lula para a Presidência do Brasil. Votar nele significa também se juntar a uma ampla aliança de democratas para salvar o País do autoritarismo. Como profissionais da CT&I, setor crucial para a inserção do Brasil no mundo contemporâneo, declaramos a nossa firme disposição de colaborar para a recuperação econômica e para um desenvolvimento sustentável e socialmente mais justo do país. Por um Brasil mais rico e menos desigual, no qual a educação, a ciência e a saúde sejam instrumentos essenciais para o desenvolvimento econômico do país e para a melhoria das condições de vida de todos os brasileiros e brasileiras, votamos Lula!

Já assinaram este manifesto:

Sergio Machado Rezende – Departamento de Física – UFPE
Soraya Smaili – UNIFESP
Ildeu de Castro Moreira – Instituto de Física – UFRJ
Luiz Antonio Elias – Pesquisador INPI
Helena Nader – UNFESP
Luiz Davidovich – Instituto de Física – UFRJ
Marco Lucchesi – UFRJ
Rubens Belfort Jr. – UNIFESP
Paulo Artaxo – USP
João Ramos Torres de Mello Neto – IF/UFRJ
Marilene Corrêa da Silva Freitas – UFAM
Celso Pansera – ICTIM
Luis Manuel Rebelo Fernandes – IRI/PUC-Rio e UFRJ
Ennio Candotti – Museu da Amazônia – MUSA
Renato Cordeiro – FIOCRUZ
Denise de Carvalho – UFRJ
Fernando Peregrino – UFRJ
Anderson S. L. Gomes – Departamento de Física – UFPE
Sidarta Ribeiro – UFRN
Manuela Carneiro da Cunha – USP
Reinaldo Guimarães – UFRJ
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