Salsicha, hambúrguer e nugget: pesquisa identifica agrotóxicos em alimentos

Campeão de veneno foi o empanado de frango, com resíduo acima do permitido; pesquisadores acharam agrotóxicos potencialmente cancerígenos nos alimentos

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Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Uma pesquisa inédita publicada nesta quarta-feira (27) revela que alimentos de origem animal consumidos todos os dias por milhares de brasileiros, como mortadela, requeijão industrializado e linguiças, contêm resíduos de agrotóxicos. 

O segundo volume do estudo ‘Tem veneno nesse pacote’, realizado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), analisou 24 alimentos ultraprocessados feitos à base de carne e lácteos e constatou a presença de agrotóxicos na composição de 58% dos produtos. Foram detectados pelo menos um pesticida em todas as marcas de salsicha, hambúrguer de carne bovina e empanados de frango analisados no estudo.

O campeão de venenos foi o empanado de frango Seara. Segundo a pesquisa, foram encontradas cinco substâncias nele, dentre elas glifosato e glufosinato. Já o requeijão Itambé e os nuggets de frango da Sadia e da Perdigão possuíam uma concentração de substâncias maior do que o permitido em seus alimentos base.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não estabelece limites máximos de resíduos de agrotóxicos em produtos ultraprocessados, mas indica bases comparativas a partir de alimentos base. No caso do empanado de frango, por exemplo, os pesquisadores puderam identificar a presença acima do permitido do agrotóxico pirimifós metílico, que possui limite máximo de resíduo para o frango ou subproduto que serve de base para a produção dos nuggets. Outros agrotóxicos, como a bifentrina, não possuem limites máximos definidos para o alimento usado como matéria-prima do ultraprocessado, o que impede a análise da presença de pesticidas acima do permitido. 

À reportagem, a Anvisa não respondeu se um produto que exceda o limite estabelecido para seu alimento base pode ser retirado do mercado. A Agência apenas informou que nos casos em que se detectam resíduos de agrotóxicos acima do permitido, é necessário realizar uma avaliação de riscos e identificar o potencial risco à saúde do consumidor. “Primeiramente é importante esclarecer que os resíduos acima do LMR [Limite Máximo de Resíduo] reportam um tipo de inconformidade que não necessariamente representa risco à saúde do consumidor. O LMR é um parâmetro agronômico, derivado de estudos de campo simulando o uso correto do agrotóxico pelo agricultor”, afirmou a Anvisa. (Leia a resposta completa do órgão aqui).

Para o Idec, a Anvisa precisa retirar esses produtos das prateleiras a fim de garantir a segurança dos consumidores.

Procurada pela reportagem, a Seara Alimentos afirmou que “todos os produtos avaliados respeitam os parâmetros para itens alimentares regulamentados pela Anvisa”. Já a BRF Foods, dona das marcas Sadia e Perdigão, ressaltou que “aplica internamente rigorosos padrões de qualidade que atendem à regulamentação da própria Anvisa e do MAPA [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] e são reconhecidos por diversos organismos de controle”. (Leia as respostas das empresas na íntegra aqui).


Empanado de frango da marca Seara, do grupo JBS, foi o alimento com o maior número de agrotóxicos identificados, entre eles glifosato e glufosinato. Tanajura Filmes/Divulgação JBS

Das lavouras de soja aos ultraprocessados

Há cerca de um ano, o Instituto já havia revelado que 59% dos alimentos consumidos principalmente por crianças, como cereais matinais, bolachas e bebidas lácteas, também tinham algum tipo de agrotóxico em sua composição. Desta vez, os pesquisadores decidiram testar produtos de origem animal para verificar se mesmo depois da metabolização pelo organismo desses animais e do processamento da carne e do leite ainda seria possível identificar resíduos desses venenos, o que foi comprovado.

Os agrotóxicos aparecem nos derivados de leite e de carne de duas maneiras. A primeira é de forma direta, por exemplo, a partir da aplicação de substâncias nos animais para evitar a infestação por parasitas. A segunda é por meio das rações produzidas a partir da soja, do milho e de outros grãos, culturas que utilizam agrotóxicos de forma intensiva. Pesquisas mostram que 63% dos venenos usados no Brasil vão para a cultura da soja e 77% da produção do grão viram ração para animais.

“Os dados são preocupantes porque tecem um panorama de que cada vez mais os alimentos que chegam na mesa da população brasileira, seja para crianças, adultos ou idosos, estão com resíduos de agrotóxicos”, afirma Rafael Rioja, coordenador de consumo sustentável do Idec.

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Análise não encontrou agrotóxicos em bebidas lácteas sabor chocolate e iogurte ultraprocessado, nem nas seguintes marcas: requeijão Nestlé (Nestlé), linguiça suína calabresa Sadia (BRF) e Perdigão (BRF), mortadela Sadia (BRF). Lucas Malfa/Repórter Brasil e Agência Pública

Agrotóxicos perigosos

A pesquisa também traz outro dado preocupante. Em 37% dos produtos foi possível detectar glifosato. O ingrediente ativo é classificado como provavelmente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) e é o mais utilizado no Brasil. Apesar de ser um dos agrotóxicos que mais matam brasileiros, a Anvisa optou por manter o seu registro após uma reavaliação que durou 12 anos.

O glifosato não é o único que levanta o alerta dos pesquisadores. Dos oito agrotóxicos detectados, seis estão relacionados ao aparecimento de doenças crônicas. O glufosinato, utilizado como alternativa ao glifosato, está relacionado à má formação embrionária e a problemas no sistema nervoso central, segundo testes realizados em ratos.

A bifentrina, fipronil e cipermetrina são classificados como possivelmente cancerígenos pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency, na sigla em inglês). Já o clorpirifós está associado a problemas de desenvolvimento neurológico, principalmente em crianças. No ano passado a agência americana baniu o uso deste agrotóxico no país. Já no Brasil ele segue na lista dos 10 agrotóxicos mais vendidos.

O coordenador do Idec ainda chama a atenção para as consequências para a saúde que a combinação de vários agrotóxicos podem trazer. “Foram cinco ingredientes diferentes encontrados no nuggets, nove encontrados na bisnaguinha em 2021. O estudo mostra que além de por si só os agrotóxicos serem isoladamente potencialmente carcinogênicos, tem o coquetel que deixa o risco mais elevado”, pontua Rioja.

De acordo com o pesquisador, faltam estudos para analisar a interação dessas substâncias nos organismos e regras que definam limites para essa mistura tanto nos alimentos quanto na água. A União Europeia, por exemplo, possui uma regulação específica que determina os valores máximos dos coquetéis em cada litro de água. Por aqui, a Anvisa define apenas limites individuais.

Sem previsão de novos limites
Apesar de a possibilidade de aparecimento de agrotóxicos nos produtos ultraprocessados já ser de conhecimento dos órgãos governamentais e das empresas, nada foi feito para criar regras que definam limites máximos de resíduos para esses alimentos.

De acordo com o Idec, os resultados da pesquisa foram “bem acolhidos e recebidos pela Anvisa”. A agência já analisa alguns produtos processados – derivados diretamente de alimentos in natura – em seu Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). É o caso da farinha de trigo e da bebida de soja. 

Em resposta à Repórter Brasil e Agência Pública no ano passado, o órgão disse querer incluir aos poucos novos produtos ao seu monitoramento. Contudo, além de não ampliar o número de alimentos analisados, desde 2019 a Anvisa não publica os novos resultados do PARA.

Procurada pela reportagem novamente, a Anvisa informou que o programa de análise de alimentos está previsto para ser publicado ainda este ano e disse que a inclusão de produtos ultraprocessados” requer um estudo preliminar, a fim de verificar quais produtos melhor representam o consumo do alimento pela população brasileira e ainda a possibilidade de detecção de resíduos nesses produtos, observando fatores de processamento, que retratam a proporção do ingrediente ativo e metabólitos que permanecem no alimento processado”.

A Vigor disse à reportagem que não teve acesso  aos dados técnicos da pesquisa realizada pelo Idec para que pudesse analisar e rastrear o lote do produto. “A companhia reforça que realiza constantemente programas de controle interno em todas as suas unidades fabris e postos de captação de leite, bem como o monitoramento através de laboratórios credenciados na rede brasileira de qualidade do Leite-RBQL, não tendo verificado a presença de inseticidas, acaricidas e agrotóxicos em seus produtos”. O instituto responsável pela pesquisa afirma ter entrado em contato com todas as companhias citadas no estudo.

A Aurora Alimentos afirmou que não iria responder os questionamentos feitos pela Repórter Brasil e pela Agência Pública e que iria solicitar esclarecimentos sobre a metodologia dos testes realizados pelo Idec. (Leia as respostas das empresas na íntegra aqui).

Procurada, a produtora de laticínios Itambé não respondeu os questionamentos até o fechamento desta reportagem.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Conversão de florestas em pastagens devasta a Amazônia brasileira

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Visão impressionante da magnitude do desmatamento da Amazônia no estado brasileiro do Maranhão Crédito da imagem: Felipe Werneck (Ibama)/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)

“Não sabemos nem medir o impacto do corte de uma árvore na biodiversidade , e na Amazônia estamos falando de milhares de quilômetros quadrados de desmatamento”, disse Niro Higuchi, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus , disse SciDev.Net .

Higuchi, que não participou da pesquisa do PNAS, considera importante que a ciência se preocupe em explicar as causas do desmatamento, “porque sem essa informação não podemos prever os rumos desse fenômeno”.

Ele também destacou a necessidade de incorporar o estudo das trocas de água e carbono entre as florestas e a atmosfera e saudou a inclusão da biodiversidade no artigo.

O objetivo da pesquisa foi justamente medir os diferentes níveis de impacto sobre os componentes da ecologia amazônica, como biodiversidade, estoques de carbono e qualidade do solo. Os pesquisadores constataram que a biodiversidade é o componente ecológico mais afetado por todas as atividades humanas avaliadas.

Agricultura mecanizada , pastagens para alimentação de gado, corte e queima da Amazônia são outras atividades humanas que contribuem para o desmatamento e degradação florestal na Amazônia brasileira, embora cada uma tenha efeitos diferentes.

Assim, a transformação do solo amazônico em pastagens diminuiu a diversidade de espécies entre 18 e 100 por cento. Além disso, a magnitude das terras afetadas por essa transição chega a uma média de 24.000 quilômetros quadrados por ano. Dessa forma, torna-se a única atividade classificada como de alto impacto e com maior prevalência.

No entanto, eles também chamam a atenção para as transições da floresta tropical para a agricultura mecanizada. Nesses casos, o impacto ecológico na floresta amazônica foi o mais alto, com redução de 100% na diversidade de árvores e cipós, além de -77,9% de aves, entre outros componentes. No entanto, seu nível de ocorrência é menos frequente.

Através de suas pesquisas nas paisagens de selva de Santarém e Paragominas no estado do Pará, no norte do Brasil, eles também determinaram que as florestas secundárias (terras desmatadas em processo de regeneração) são áreas cuja proteção é de extrema importância nos esforços para regenerar a Amazônia Brasileira.

“Florestas secundárias com 20 anos podem ter níveis de biodiversidade e estoques de carbono quase semelhantes às florestas primárias [aquelas sem intervenção humana]. É importante deixá-los amadurecer e protegê-los.”

Cássio Alencar, Universidade Federal de Lavras, Brasil, e Lancaster University, Reino Unido

Dessa forma, os autores pretendem oferecer evidências robustas para subsidiar a tomada de decisões sobre conservação e regeneração de florestas tropicais no Brasil.

“Florestas secundárias com 20 anos podem ter níveis de biodiversidade e estoques de carbono quase semelhantes às florestas primárias [aquelas sem intervenção humana]. É importante deixá-los amadurecer e protegê-los”, destaca o líder da pesquisa, Cássio Alencar.

Nesses tipos de paisagens, a diversidade de árvores altas dobrou, enquanto o número de árvores pequenas aumentou 55%.

“Estamos tentando trazer esses resultados para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas para destacar a importância de levar em consideração a perda de biodiversidade, não apenas a perda de serviços de carbono”, continua o pesquisador da Universidade Federal de Lavras, no Brasil. Lancaster University do Reino Unido.

Desmatamento continua a aumentar na Amazônia

De acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento, publicado mensalmente pelo Instituto do Povo e Meio Ambiente da Amazônia, em maio deste ano a área de território desmatado no Brasil aumentou 31% em relação a maio de 2021. Os mais afetados são os estados do Brasil. Amazonas, Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Maranhão.

Por outro lado, as áreas florestais degradadas (que sofreram alguns danos enquanto permanecem floresta tropical) aumentaram 67% em relação a maio de 2021.

O desmatamento é um fenômeno que atinge todos os países por onde se estende a floresta amazônica. De acordo com o Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina, Brasil, Bolívia, Peru e Colômbia concentraram os maiores níveis de danos à floresta tropical em 2021.

Naquele ano, a Bolívia perdeu 161.000 hectares de floresta primária devido ao desmatamento. O Peru, por sua vez, viu a extensão de sua floresta diminuir em 132.400 hectares e a Colômbia em 98.000 hectares.

Cássio Alencar e sua equipe visitaram 310 parcelas para realizar o estudo. Ele descreve a experiência de entrar em uma área danificada pelo desmatamento como uma visão silenciosa: “Às vezes você encontra uma floresta vazia. Você não vê os animais, você não os ouve. É assim que se sente quando uma floresta foi danificada.”

Link para estudo completo no PNAS


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Após censura, cientista faz levantamento inédito de pesquisas brasileiras que expõem impacto dos agrotóxicos na saúde

Pesquisadora foi perseguida após experimento que contestou dose segura de agrotóxicos. Levantamento reúne 51 estudos brasileiros dos últimos seis anos que trazem evidências sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana

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Por Schirlei Alves, especial para O Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

Quando foi convidada, em 2019, a colaborar em uma pesquisa de um colega da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a imunologista e pesquisadora científica do Instituto Butantan Mônica Lopes Ferreira não fazia ideia das barreiras que seriam impostas à divulgação da descoberta feita em seu experimento: a de que não há dose segura de agrotóxicos

Conhecida pela sua expertise em trabalhar com zebrafish – espécie de peixe cujo DNA é 70% similar ao material genético do ser humano –, ela foi contatada por um pesquisador da Fiocruz para submeter embriões de peixes à exposição de 10 tipos de agrotóxicos. “Quando ele me procurou, encarei, naquele momento, como sendo mais uma amostra que eu ia testar”.

Porém, o resultado não foi exatamente o esperado pelo colega. Segundo Ferreira, ele não quis dar publicidade ao achado, e também não autorizou a submissão dos dados para publicação. O que aconteceu foi que a dose considerada “segura” pelos órgãos de controle, causou mortalidade nos embriões de peixes. Quando diluída até mil vezes em água, os embriões apresentaram anomalias.

As substâncias submetidas ao teste foram glifosato, malationa, abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox e piriproxifem. Por serem usadas em larga escala no país, o resultado do experimento causou alvoroço.

Essa história coincidiu com o momento em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estava fazendo alterações na classificação dos agrotóxicos, também em 2019. Muitos dos produtos antes considerados como “extremamente tóxicos” pela agência foram rebaixados para categorias menos rigorosas. O então diretor da Anvisa, Renato Porto, e a então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, chegaram a dar entrevistas contestando o experimento da imunologista.   

O herbicida glifosato foi um dos agrotóxicos que teve a classificação de toxicidade reduzida pela Anvisa, embora àquela altura fosse um dos produtos classificados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) como substância provavelmente carcinogênica para humanos; ou seja, capaz de provocar câncer. O Glifosato 480 Agripec, por exemplo, que até então era considerado pela Anvisa “extremamente tóxico” foi reclassificado para “produto improvável de causar dano”. Outra resolução, de 2020, reforçou a manutenção do uso de glifosato em agrotóxicos no país. 

De acordo com o painel de monografias de agrotóxicos da Anvisa – ferramenta que permite acesso a informações atualizadas sobre os ingredientes ativos de agrotóxicos em uso no Brasil –,  a aplicação de produtos à base de glifosato é permitida em 67 culturas, entre elas arroz, feijão, batata doce e mandioca. A mesma situação ocorre com o inseticida malationa e outros produtos.    

A própria Anvisa havia publicado, em 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff, uma nota alertando sobre a classificação carcinogênica de cinco substâncias, entre elas a malationa, a diaziona e o glifosato. Na época, a agência havia se comprometido a verificar os resultados dos estudos e a fazer novas avaliações sobre o uso desses ingredientes. 

A Bayer, gigante alemã responsável pela produção do Roundup, principal herbicida fabricado à base de glifosato, é alvo de uma ação movida por um casal em São Francisco, na Califórnia, que afirma ter desenvolvido câncer do sistema linfático depois de ter usado o produto por anos. A Monsanto, que criou a formulação do herbicida e o lançou mundialmente em 1974, foi condenada a pagar R$ 289 milhões ao zelador de uma escola, também na Califórnia. O homem desenvolveu câncer após entrar em contato com a substância. O veredito saiu em 2018 – ano em que a Monsanto foi comprada pela Bayer.   

Censura é respondida com ciência

Menos de um mês após divulgar o resultado do seu experimento, Mônica Lopes Ferreira recebeu um comunicado do Comitê de Ética Animal do Butantan dando conta de que ela estaria suspensa por seis meses sem direito de defesa – o que implicaria em não tocar mais os seus projetos. A justificativa foi a de que a cientista não teria submetido o experimento ao comitê, o que seria proibido. 

Segundo Ferreira, porém, não havia necessidade de submissão naquele caso porque o trabalho não havia envolvido animais, mas, sim, embriões com até 96 horas após a fertilização. “Só pode ser considerado animal a partir de 120 horas após a fertilização”, explica. 

A cientista conseguiu reverter a decisão do comitê por meio de uma liminar na Justiça. Mas outros fatos ocorreram na sequência, como o cancelamento de convites para determinados eventos, a perda do cargo de diretora do Laboratório Especial de Toxicologia Aplicada do Butantan e a abertura de um procedimento administrativo pelo instituto,  vinculado à secretaria estadual da Saúde de São Paulo.

Trecho da liminar.

A pesquisadora afirma que “a única forma que conhece de se manifestar é produzindo ciência”. Por isso, decidiu fazer, com a colaboração de oito colegas do Butantan, uma revisão sistemática de dezenas de estudos publicados por cientistas e produzidos a partir de 27 instituições públicas brasileiras que revelam os impactos dos agrotóxicos na saúde humana. O trabalho, intitulado “Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana nos últimos seis anos no Brasil” foi publicado em março deste ano no International Journal of Environmental Research and Public Health – uma revista científica de pesquisa ambiental e saúde pública, de acesso aberto e revisada por pares. O artigo se debruça sobre 51 estudos que foram publicados em revistas científicas.

“A revisão é para dizer que é possível trabalhar com agrotóxicos dentro das instituições brasileiras, não há problema nisso. Nós não podemos ser perseguidos, precisamos ter liberdade para trabalhar com temas tão importantes para o Brasil”, explica Ferreira.

A cientista e seus colegas identificaram inicialmente 4.141 artigos produzidos no Brasil. Mas alguns critérios de corte foram estabelecidos para reduzir o número de pesquisas que seriam revisadas. Um deles foi o tempo de publicação, de 2015 a 2021. “Escolhi publicações dos últimos seis anos, quando houve uma avalanche de agrotóxicos sendo liberados.” 

Os artigos foram coletados das bases de dados PubMed, Scopus, Scielo e Web of Science. As buscas foram feitas por meio de palavras-chave como “pesticidas”, “humanos” e “Brasil”. No primeiro filtro, 381 artigos duplicados foram excluídos. Na sequência, dois revisores fizeram um estudo duplo-cego (quando os autores não sabem quem são os revisores) e selecionaram, de forma independente, títulos, termos de indexação e resumos para identificar artigos relevantes para possível inclusão. As discrepâncias foram resolvidas por um terceiro revisor. 

Em uma segunda rodada de seleção, os artigos foram lidos de forma independente por dois revisores que usaram como critérios de inclusão pesquisas desenvolvidas no Brasil envolvendo agrotóxicos, artigos em inglês ou português e pesquisas envolvendo estudos diretos em humanos ou células humanas expostas a pesticidas, incluindo relatos de casos. Os artigos que não se enquadraram nesses critérios foram excluídos.

A partir daí, foram revisados estudos de caso e dados transversais e experimentais de relatos de intoxicação em humanos em decorrência de causas ocupacionais, ambientais e acidentais. Os estudos experimentais correspondem a 76,5% dos trabalhos revisados. Além de Ferreira, assinam a revisão Adolfo Luis Almeida Maleski, Leticia Balan Lima, Jefferson Thiago Gonçalves Bernardo, Lucas Marques Hipolito, Ana Carolina Seni-Silva, João Batista-Filho, Maria Alice Pimentel Falcão e Carla Lima.

A maior parte dos estudos selecionados pela revisão são de áreas que concentram a produção de commodities agrícolas, sendo quase metade deles do Sul (46%) e 28% do Sudeste. 

Um dos apontamentos feitos pela revisão é de que os agrotóxicos não são usados apenas em culturas como a soja, o milho e o tabaco, mas estão presentes em várias outras como laranja, café, flores, banana, uva, ameixa, tomate, caqui, maçã, pêssego, morango, kiwi e vegetais.

Os agrotóxicos mais citados nos estudos foram inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os artigos revelam mais de 20 efeitos decorrentes da exposição aos agroquímicos

Os agrotóxicos mais citados nos estudos foram inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os artigos revelam mais de 20 efeitos decorrentes da exposição aos agroquímicos, indo desde reações agudas na pele e no sistema respiratório até doenças crônicas, incluindo anormalidades hematológicas (fatores de coagulação), infertilidade, abortos espontâneos, malformações fetais, doenças neurológicas e câncer. Mecanismos subjacentes a esses efeitos, como ações genotóxicas (alteração do DNA), neurotóxicas (nas terminações nervosas) e desreguladoras do sistema endócrino também foram detectados pelos cientistas brasileiros.

Além de apontar que o uso de agrotóxicos na agricultura está diretamente ligado à saúde humana, Mônica Ferreira e seus colegas esperam que os resultados dos artigos possam ajudar a “direcionar políticas de redução do uso dos produtos químicos e de proteção à saúde da população”. 

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Este texto foi originalmente publicado pelo “O Joio e o Trigo” [Aqui!].

Estudo inédito da Oceana revela aumento de 46% de plástico no delivery de comida

A maior parte do plástico entregue com as refeições não é recicladaPandemia desenfreou o consumo de embalagens e de outros itens descartáveis pelo setor

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A pandemia de COVID-19 trouxe mudanças significativas nos hábitos de consumo da população. Isolados em suas residências, os brasileiros passaram a consumir mais produtos comprados no e-commerce e aumentaram os pedidos de refeições via aplicativos de delivery. O distanciamento social também impôs essa mudança para os restaurantes, que encontraram no mercado de entrega de refeições uma forma de sobreviver. Mas qual foi o impacto desse fenômeno no consumo de plástico descartável?

O estudo inédito “O mercado de delivery de refeições e a poluição plástica”, desenvolvido pela consultoria econômica Ex Ante a pedido da Oceana, aponta que o consumo de itens de plástico descartáveis nesse segmento aumentou 46% entre 2019 e 2021, saindo de 17,16 mil para 25,13 mil toneladas. Juntos, os setores de alimentação para viagem e hotelaria demandaram um total de 154,1 mil toneladas de embalagens por ano entre 2018 e 2021, e seis mil toneladas por ano de canudos, copos, pratos e talheres de plástico para este mesmo período.

“A pandemia nos impôs mudanças de hábitos e comportamentos da noite para o dia. Vimos o mercado de delivery ganhar espaço no cotidiano de muita gente e, como uma organização que trabalha para reverter os impactos da poluição plástica, a pergunta que nos motivou foi: com todos esses pedidos usando tanto plástico descartável, como isso pode piorar uma situação já grave que enfrentamos com a poluição? E os resultados constatados são mesmo preocupantes. Só em 2021, o montante gerado foi de 68 toneladas por dia ou 2,8 toneladas por hora”, aponta o diretor-geral da Oceana no Brasil, o oceanólogo Ademilson Zamboni.

“Concebidos para consumo e descarte imediato, esses itens geram grande quantidade de resíduos não recicláveis e não biodegradáveis. Nesse sentido, o que hoje pode parecer barato para o consumidor deixa um legado negativo para o futuro, com custos ambientais e de gestão que serão pagos por toda a sociedade. Mesmo que a redução dos pedidos de refeições esteja ocorrendo, sabemos que as empresas estão investindo em outras entregas, que também envolvem muito plástico — precisam aprender com o que houve e oferecer ao consumidor alternativas ao plástico”, complementa Zamboni.

#DelivreDePlastico

A publicação “O mercado de delivery de refeições e a poluição plástica” nasce da campanha #DeLivreDePlástico, coliderada pela Oceana e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que mobilizou o público para exigir que empresas de aplicativos de entrega se comprometam com a redução do uso de plástico descartável em suas operações.

“Essas empresas ocupam papel central na cadeia que liga a produção da indústria de plástico tanto ao setor de alimentação quanto ao consumidor e, consequentemente, com o problema final da poluição. Estamos falando de talheres, sachês, embalagens de isopor e sacolas – produtos que são concebidos para serem utilizados apenas uma vez e se tornarem lixo. Sem interesse para o mercado de reciclagem, esses produtos se tornam rejeito, custo e poluição”, destaca a gerente de campanhas da Oceana no Brasil, a engenheira ambiental Lara Iwanicki.

A Campanha #DeLivreDePlástico segue ativa, com o desafio de que empresas do setor do delivery contribuam para reverter a grave situação da poluição plástica no país. O iFood se comprometeu com esse desafio ainda em agosto de 2021 e espera-se que essa empresa anuncie em breve metas públicas para a redução do uso de embalagens — a apresentação dessas metas foi adiada de março para o segundo semestre de 2022.

A tragédia do plástico no Brasil

A produção nacional de plástico de uso único no Brasil é de 2,95 milhões de toneladas por ano. A maioria esmagadora é de embalagens (87%) e o restante de itens descartáveis (13%), como copos e canudos. Por ano, o consumo desses itens de uso único bate o estratosférico número de 500 bilhões de unidades. Só em 2018, 10,1 milhões de toneladas de resíduos foram coletados. O Brasil polui o seu litoral com, no mínimo, 325 mil toneladas de resíduos de plástico. Em limpezas de praias, 70% dos resíduos coletados são de plásticos. Dados mundiais apontam que um em cada 10 animais marinhos morre ao ingerir plásticos. Cerca de 90% das espécies de aves e tartarugas marinhas já ingeriram plásticos. Esses detritos afetam 17% de animais listados como ameaçados ou quase ameaçados de extinção pela União Internacional para a Conservação para a Natureza (UICN). No Brasil, entre 2015 e 2019, foram realizadas 29 mil necropsias de animais marinhos encontrados mortos entre o litoral do Sul e Sudeste. Desses, 3,7 mil apresentaram algum tipo de detrito não natural no organismo.

Aproximadamente 13% tiveram mortes causadas pela ingestão desses resíduos. Infelizmente, 85% desses eram animais ameaçados de extinção.

Fonte: Um Oceano Livre de Plástico: Desafios para Reduzir a Poluição Marinha no Brasil”, Oceana, 2020.

Baixe as edições de “O mercado de delivery de refeições e a poluição plástica” e “Um Oceano Livre de Plástico. Desafios para Reduzir a Poluição Marinha no Brasil” no site da Oceana Brasil.

Rompimento da barragem em Brumadinho completa 3 anos e meio com homenagem de familiares e artista francês

No domingo, Saype entregou no campo de futebol do Córrego do Feijão uma pintura que simboliza a união. Para AVABRUM, a imagem gigante de mãos entrelaçadas colabora para que a tragédia não caia no esquecimento e seja conhecida em todo mundo

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272 balões foram soltos em homenagem às vítimas

“Mil duzentos e sessenta e sete dias de dor, luto e luta”. Desta forma Josiane Melo, da diretoria da AVABRUM (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão), descreveu a data de ontem (25/07), dia em que o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, completou 3 anos em meio.

Este mês, o ato organizado pela AVABRUM todo dia 25 para homenagear as vítimas da tragédia, contou com a participação do artista plástico francês Saype, que entregou à população de Brumadinho no domingo (24/07), uma pintura gigante no campo do Córrego do Feijão, local marcado pelas imagens de resgate de corpos pendurados em helicópteros pelo Bombeiros.

A pintura faz parte do projeto Beyond Walls (Além de muros), que mostra mãos entrelaçadas, um forte símbolo de união. Saype pretende levar seu projeto a 30 cidades ao redor do mundo e Brumadinho foi a 16ª. No Brasil, Saype também esteve no Rio de Janeiro.

“Eu estava preparando a etapa Rio quando me falaram de Brumadinho. Fiquei tão profundamente impressionado e impactado que decidi vir aqui, para, de alguma maneira, ser um canal, dar uma voz para a luta de vocês”, disse para o público presente ao ato. O artista explicou que pretende transmitir com a pintura das mãos entrelaçadas a mensagem da importância do viver juntos e da benevolência. “Só assim conseguiremos enfrentar os desafios que temos enquanto humanidade”, afirmou.

O artista ainda deixou palavras de apoio aos familiares das vítimas. “Espero que minha arte ajude um pouco os familiares daqui, para que vocês consigam seguir em frente, consigam voltar a ver o futuro feliz. Seguir em frente não é esquecer. Há a memória, e que esta fique no coração de vocês, para que consigam voltar a vislumbrar um futuro promissor e feliz”, disse.

Para Josiane, a ação de Saype em Brumadinho colabora para que o mundo todo conheça a história da tragédia. “Onde nós não estamos conseguindo chegar, que a arte dele nos ajude. Na Europa, as pessoas não sabem do crime aqui em Brumadinho. Que essa arte possa repercutir lá fora para que todo mundo saiba o que a Vale fez conosco”, disse.

Luta por justiça

A presidente da AVABRUM, Alexandra Andrade, fez a leitura do texto que a associação elaborou para o ato. “Às vezes dá vontade de ficar quieto, fechar o ciclo, mas não podemos. Temos uma batalha para lutar. Temos o encontro de 4 pessoas: Cristiane Antunes, Maria de Lourdes, Natalia Oliveira e Tiago Tadeu. Essas famílias precisam velar seus entes e, simbolicamente, descansar”.

O texto reforça que os familiares querem justiça. “É revoltante esperar 3 anos e meio e não ver na cadeia aqueles que deixaram morrer, de forma horrenda, afogadas na lama, enterradas vivas, 272 pessoas”, afirma a associação, acrescentando ainda que é revoltante a propaganda da empresa Vale sobre a reparação. “São propagandas estrondosas, em horário nobre. Mas onde ela está reparando? A morte não tem reparação, nunca mais vamos ter nossas famílias completas por causa de um crime que poderia ter sido evitado, conforme as investigações do Ministério Público de Minas Gerais. A Vale e a Tüv Süd deveriam assumir a culpa”, afirma o texto da AVABRUM.

A viagem de Saype à Brumadinho foi uma ação promovida pelo Legado de Brumadinho*, projeto idealizado pela AVABRUM que lança um amplo programa de ações, que inclui capacitação, comunicação, publicidade e divulgação de notícias, para que tragédias como essas não se percam no emaranhado da agenda global. Seu lema é: “Hoje, você pode salvar vidas. Amanhã, pode ser tarde.”

‘Como uma gigantesca estação de esgoto’: como o ‘cinturão de porcos’ da Alemanha ficou grande demais

Levará muito tempo para reparar os danos de uma indústria de suínos superdimensionada e seus resíduos, dizem autoridades do estado da Baixa Saxônia, no noroeste alemão

Porcos

Em algumas áreas da Baixa Saxônia – lar de mais de 7 milhões de suínos – a densidade de suínos é quatro vezes maior que a média nacional. Fotografia: Henner Rosenkranz

Por Holly Young para o “The Guardian”

Há um velho ditado, pouco amado pela população local, que diz que se você abrir a janela enquanto dirige pela Alemanha , você sempre saberá pelo cheiro quando estiver na Baixa Saxônia.

Este é o coração de uma indústria de suínos de € 6 bilhões (£ 5,1 bilhões) que envia milhares de toneladas de carne suína alemã em todo o mundo. Mas tem feito isso a um custo. Os mapas do Schweinegürtel (cinturão de porcos) brilham em vermelho tóxico se você mostrar emissões de amônia de animais de fazenda e nitratos nas águas subterrâneas.

Críticos dizem que as autoridades locais da região permitiram que a indústria prosperasse enquanto fechavam os olhos para seu impacto ambiental.

Embora o bem-estar animal tenha saltado para a agenda pública, dizem os ativistas, os focos de pecuária intensiva e a poluição dos cursos d’água não estão na mente de muitas pessoas.

Hotspots para porcos

A grande densidade de suínos na Baixa Saxônia está no centro do problema, explica Christine Chemnitz, diretora do thinktank agrícola alemão Agora Agriculture.

Embora o estrume animal seja uma fonte de fertilizante agrícola, o uso excessivo pode levar ao excesso de nitratos que se infiltram nas águas subterrâneas, onde podem danificar rios, lagos e oceanos.

Quase 60% dos porcos na Alemanha são encontrados na Baixa Saxônia e Renânia do Norte-Vestfália, seu estado vizinho ao sul. Em algumas áreas da Baixa Saxônia – lar de mais de 7 milhões de suínos – a densidade de suínos é quatro vezes maior que a média nacional


Leitões grandes em um prédio semelhante a um armazém com dispensadores de ração pendurados no teto

Leitões em currais de criação em uma fazenda na Baixa Saxônia, onde estão localizados 60% dos porcos da Alemanha. Fotografia: Henner Rosenkranz

Após a segunda guerra mundial, a criação de animais era uma das poucas indústrias disponíveis para gerar renda no estado conhecido como a “casa dos pobres” da Alemanha. Tinha amplas terras para espalhar o esterco de porco e fácil acesso aos portos do norte, como Hamburgo, para importação de ração e outros produtos.

Mas, mais recentemente, os nitratos do estrume espalhado nas terras agrícolas têm poluído os cursos de água locais, diz Uwe Behrens, ativista ambiental da Aliança para Pessoas, Meio Ambiente e Animais (Bündnis MUT).

Behrens culpa essa poluição pelo estado crítico dos tanques de peixes Ahlhorner da Baixa Saxônia, uma área de conservação de 465 hectares que abriga várias espécies raras de plantas. Uma das lagoas, alimentada por um rio que atravessa densas terras agrícolas, foi encontrada com um excesso de 133 toneladas de nitratos. “Há muito fertilizante na água”, diz ele.


Um pequeno lago cercado por árvores na folhagem de outono

Em Ahlhorner tanques de peixes, que foram usados para conter excesso de nitratos. Fotografia: Premium Stock Photography/Alamy

Funcionários do escritório florestal de Ahlhorner teriam descrito a lagoa protegida como uma “ gigante estação de tratamento de esgoto ” e disseram que a degradação ambiental concomitante viola as leis de conservação da UE.

Fazendas de porcos crescem

No sul de Oldenburg, onde estão localizadas muitas das fazendas de suínos da Baixa Saxônia, os níveis de amônia foram mais que o dobro do limite superior dos considerados ambientalmente seguros .

Mas é a questão do nitrato que é a maior controvérsia ambiental na Baixa Saxônia. O estado tem a maior proporção de “áreas vermelhas” da Alemanha – onde os nitratos estão acima do limite da diretiva de nitratos da UE de 50mg/l.

Os estados da Baixa Saxônia e Renânia do Norte-Vestfália estão sendo processados ​​por ativistas da Deutsche Umwelthilfe (Ação Ambiental da Alemanha) por não resolverem o problema. Eles dizem que dois terços das águas subterrâneas na região ao redor do rio Ems, na Baixa Saxônia, foram deixadas em um “estado desolador” .

Reinhild Benning, porta-voz da Deutsche Umwelthilfe e ex-criadora de porcos, diz que pontos críticos de produção e poluição de suínos, como a Baixa Saxônia – onde os níveis podem atingir três a quatro vezes o limite de nitrogênio da UE – surgiram em áreas onde os políticos estão dispostos a “ desviar o olhar” se as coisas não estivessem bem.

Ela diz que o governo está muito disposto a apoiar a expansão da suinocultura. O número de suínos na região e o tamanho das fazendas aumentaram rapidamente entre 2004 e 2012, com as exportações de carne suína da Alemanha também mais que dobrando .

Em 2018, o país violou a lei da UE pelo tribunal de justiça europeu por não lidar com o problema dos nitratos. Mais de um quarto dos locais de monitoramento em terras agrícolas na Baixa Saxônia ainda excedem os limites da UE.

“As leis ambientais foram atenuadas e novas barracas em áreas poluídas com nitrogênio foram autorizadas a serem construídas”, diz Benning, acrescentando que as fazendas não têm mais terra suficiente para espalhar adequadamente o esterco. “Na Baixa Saxônia, vimos, por exemplo, fazendas com 500 porcos crescerem para 5.000 e depois para 10.000 porcos.”

Animais em excesso

O Sindicato dos Agricultores Alemães (Deutscher Bauernverband) diz que os regulamentos nacionais foram significativamente mais rígidos e que o excesso de nitrogênio descarregado no meio ambiente na Baixa Saxônia foi interrompido este ano.

Funcionários do governo na Baixa Saxônia dizem que os problemas causados ​​pela rápida expansão da pecuária no início dos anos 2000 foram, tardiamente, resolvidos. “Estamos nos tornando uma loja de consertos para as decisões do passado”, disse Olaf Lies, ministro do Meio Ambiente da Baixa Saxônia. 


Alguém segura um monitor eletrônico enquanto testa os níveis de algas em um lago

Um funcionário do Greenpeace coleta amostras de água para realizar medições de nitrato e fosfato. Fotografia: Daniel Müller/Greenpeace

“Nos tempos de liberalização geral, contamos com o senso de responsabilidade das empresas e da agricultura, e em grande parte dispensamos controles regulatórios. Agora temos a responsabilidade de reverter desenvolvimentos excessivos para um nível aceitável”.

Peixe mortoPrivadas da Europa’: fazendas de porcos da Espanha são culpadas pela morte em massa de peixes

Em 2021, a Alemanha introduziu uma regulamentação mais rígida sobre o gerenciamento de esterco, que foi aprovada pela Comissão Europeia em junho. No entanto, nem todos estão convencidos de que isso é suficiente para corrigir o legado sujo do sucesso da carne suína da Alemanha. A Associação Alemã de Indústrias de Energia e Água (BDEW) diz que as novas regulamentações não alinharão os níveis com a legislação da UE e criticou o governo por propor modelos de medição que “reduziram artificialmente” as áreas vermelhas.

Mentiras admite que os reparos no solo e nas águas subterrâneas não serão imediatos. “Encontraremos os efeitos de decisões passadas e falhas no controle por um longo tempo, até que o efeito das [novas] medidas tenham impacto.”

Behrens diz que os alemães ainda não reconhecem totalmente o impacto ambiental da indústria quando compram sua carne suína: “A maioria dos consumidores não está ciente de que temos muitos animais em pouca terra.

“O bem-estar animal está agora na mente de muitas pessoas, mas não a fertilização excessiva, a qualidade da água potável ou a perda de espécies de plantas.”

Este artigo foi desenvolvido com o apoio do Journalismfund.eu


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Fábricas de Papel: a indústria da fabricação de artigos científicos fraudulentos para venda de autorias

No campo da pesquisa, uma Paper Mill é uma “organização não oficial, potencialmente ilegal, com fins lucrativos que produz e vende autoria de manuscritos de pesquisa”

paper mill

Por Universo Aberto

A fabricação de artigos é o processo de enviar manuscritos acabados a um periódico por uma taxa em nome de pesquisadores para facilitar a publicação ou oferecer autoria em troca de dinheiro.

Em alguns casos, as Paper Mills contêm operações sofisticadas que vendem posições de autoria em pesquisas legítimas, mas em muitos outros casos os papéis contêm dados fraudulentos e podem ser plagiados ou não profissionais. Também pode incluir a fabricação de dados, levando à ciência lixo e às vezes retratações na literatura científica.

Pesquisadores são pressionados a publicar para avançar em suas carreiras “Publicar ou perecer”, razão pela qual alguns recorrem a essas práticas inaceitáveis. É um problema de ética e integridade da pesquisa que afeta a publicação acadêmica, uma desonestidade acadêmica que implica engano e autoria por contrato, mais especificamente ghostwriting acadêmico , ou seja, ghost writing, termo usado para descrever a pesquisa acadêmica escrita por alguém cujo nome não é reconhecido.

Em abril de 2022, o departamento de notícias da revista Science publicou um post identificando centenas de artigos acadêmicos publicados em que as posições de autoria haviam sido vendidas por meio de um site russo que permitia que pesquisadores pagassem por prestígio acadêmico, sem exigir contribuições legítimas à pesquisa. Durante o período de três anos analisado, foram identificados 419 artigos que correspondiam a manuscritos publicados posteriormente em diversos periódicos acadêmicos, com um viés significativo para publicações em periódicos predatórios . Embora os artigos fabricados tenham aparecido em vários periódicos, apenas o International Journal of Emerging Technologies in Learning(Kassel University Press) foram publicados cerca de 100 artigos, aparentemente coordenados por meio do envolvimento de editores de periódicos que organizaram edições especiais com espaço para coautores leiloados entre US$ 180 e US$ 5.000. Em outra rede coordenada, editores convidados do MDPI e editores acadêmicos assalariados coordenaram as vendas de autoria em quatro diferentes periódicos do MDPI, totalizando mais de 20 artigos. Além do conluio entre os editores e a International Publisher Ltd., muitos trabalhos de pesquisa legítimos também venderam autoria desconhecida de editores de periódicos, eventualmente sendo aceitos em periódicos publicados pela Elsevier, Oxford University Press, Springer Nature, Taylor & Francis, Wolters Kluwer e Wiley-Blackwell . A partir de 6 de abril de 2022,

Em 2022, a COPE e a STM realizaram um estudo com a Maverick Publishing Services, usando dados de editores, para entender a magnitude do problema da fábrica de papel. O estudo também entrevistou interessados: pesquisadores, editores e membros do Retraction Watch .

Todos os envolvidos acreditam que o problema das fábricas de artigos é uma ameaça real à integridade dos registros acadêmicos, e que um esforço coletivo é necessário porque está claro para os editores que eles não podem resolver esse problema sozinhos. É necessário um esforço conjunto de editores, financiadores e instituições de pesquisa.

O documento recomenda uma série de ações nesse sentido:

  • Um grande exercício de educação é necessário para garantir que os editores estejam cientes do problema da fabricação de artigos e que os editores/equipe de redação sejam treinados para identificar documentos falsos.
  • Investimento contínuo em ferramentas e sistemas para detectar itens suspeitos à medida que eles surgem.
  • Compromisso com instituições e financiadores de revisar os incentivos para que pesquisadores publiquem artigos válidos e não usem serviços que ofereçam publicação rápida, mas falsa.
  • Investigue os protocolos que podem ser implementados para impedir que as Fábricas de Papel atinjam seus objetivos.
  • Revise o processo de retração para levar em consideração as características exclusivas dos itens fabricados.
  • Investigue como garantir que os avisos de retirada se apliquem a todas as cópias de um artigo, como servidores de pré-impressão e repositórios de artigos.

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Este texto escrito inicialmente em espanhol foi publicado pelo blog Universo Aberto [Aqui!].

Documentos mostram que ouro extraído ilegalmente na Amazônia está sendo comprado por grandes corporações de tecnologia

garimpeiroGarimpeiro usa uma bacia e mercúrio para encontrar ouro em uma área desmatada da floresta amazônica  no município de Itaituba, estado do Pará  

Por Jake Spring para a Reuters 

SÃO PAULO (Reuters) – A polícia brasileira alega que uma refinaria italiana comprou ouro de um comerciante que o compra ilegalmente na região da floresta amazônica, de acordo com documentos da polícia, e divulgações corporativas mostram que a refinaria forneceu o metal precioso para quatro das maiores empresas de tecnologia do mundo .

Registros públicos da Amazon.com (NASDAQ: AMZN ), Apple (NASDAQ: AAPL ), Microsoft (NASDAQ: MSFT ) e Alphabet (NASDAQ: GOOGL ) nomeiam a empresa privada italiana Chimet como fonte de algum ouro usado em seus produtos. As empresas de tecnologia costumam usar pequenas quantidades do metal em placas de circuito para eletrônicos de consumo.

De acordo com documentos policiais obtidos pela empresa de jornalismo investigativo Repórter Brasil e revisados ​​pela Reuters, a polícia federal brasileira acusou Chimet de comprar milhões de dólares em ouro do comerciante CHM do Brasil, que supostamente adquiriu o metal precioso ilegalmente de garimpeiros.

A CHM do Brasil, respondendo às perguntas por meio de um advogado, disse que todo o seu ouro foi adquirido legalmente com documentação adequada.

A mineração ilegal aumentou no Brasil desde que o presidente de direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, defendendo os invasores e buscando legalizar a mineração em terras indígenas.

As minas não regulamentadas destruíram as terras da floresta tropical na Amazônia enquanto poluíam rios com mercúrio mortal. Os mineiros entraram em confronto violento com as tribos indígenas que protegiam suas terras, deixando um rastro de morte, doenças e intimidações.

O think tank brasileiro de sustentabilidade Instituto Escolhas estimou que o país produziu 84 toneladas de ouro ilegal nos primeiros dois anos de Bolsonaro no cargo, um aumento de 23% em relação aos dois anos anteriores e equivalente a quase metade da produção total de ouro do Brasil.

 “Uma empresa que está comprando ouro do Brasil já sabe que há um risco enorme de comprar ouro ilegal – ouro de sangue da Amazônia”, disse Larissa Rodrigues, autora do relatório Escolhas.

Um representante da Chimet disse que a empresa cortou relações com a CHM ao saber das alegações em outubro de 2021, quando a polícia realizou batidas em nove estados brasileiros e no distrito federal visando a CHM e outros supostamente envolvidos no comércio ilegal de ouro.

Um documento policial resumindo a investigação datado de agosto de 2021 afirma que Chimet supostamente comprou 2,1 bilhões de reais (US$ 385 milhões) em ouro da CHM entre 2015 e 2020.

Um porta-voz da Polícia Federal no estado do Pará se recusou a comentar a investigação porque ela está em andamento e permanece sob sigilo. As acusações provavelmente serão anunciadas quando a investigação for concluída ainda este ano, disse ele.

Os promotores federais teriam então que decidir se apresentariam queixa, acrescentou.

As quatro empresas de tecnologia dos EUA listaram a Chimet entre mais de 100 refinarias de ouro em suas cadeias de suprimentos durante o período de cinco anos da investigação e nas divulgações mais recentes de 2021.

A Chimet não tem um relacionamento direto com as quatro grandes empresas de tecnologia, mas vende ouro para bancos que podem revendê-lo para diversos usos, disse o representante da empresa, Giovanni Prelazzi, em comunicado à Reuters. Ele não citou os bancos.

A Apple não abordou especificamente a Chimet, mas disse em comunicado que suas políticas proíbem o uso de minerais extraídos ilegalmente. As empresas que não podem cumprir são removidas de sua cadeia de suprimentos, disse a fabricante do iPhone.

Amazon, Alphabet e Microsoft se recusaram a comentar.

A Chimet disse que, após tomar conhecimento da investigação da CHM no Brasil, contratou a empresa de contabilidade Deloitte para realizar uma auditoria de seus outros fornecedores e em abril de 2022 foi novamente certificada pela associação de mercado de barras LBMA como atendendo aos padrões de fornecimento responsável de ouro.

Um representante da LBMA disse à Reuters que as ações da Chimet mostraram que problemas semelhantes não existiam com outros fornecedores e que os métodos de verificação estavam sendo fortalecidos.

Não registrado

Os documentos policiais alegam que a CHM não estava registrada no Banco Central do Brasil como uma entidade legalmente autorizada a comprar e vender ouro, conhecidas como DTVMs.

A CHM não aparece no diretório online do banco central de DTVMs registradas. É ilegal para qualquer pessoa, exceto mineradores e suas associações, comprar e vender ouro no Brasil sem tal registro.

A CHM disse que não comprou ouro como instrumento financeiro e que não é necessário registro para comprar ouro como commodity.

O banco central disse que não regulamenta “operações com ouro classificado como commodity”.

Uma análise de 2020 das leis relevantes por promotores federais descobriu que esse registro é necessário para qualquer pessoa que não seja mineradora para comprar e vender ouro, independentemente de seu uso.

Registros financeiros de transferências bancárias mostram que a CHM comprou ouro da cooperativa e diretamente de vários indivíduos no sul do estado do Pará, que faz parte da Amazônia brasileira.

 A cooperativa COOPEROURI tem permissão para minerar em uma área próxima à reserva indígena Kayapó protegida, mas a polícia encontrou tanto a CHM quanto a cooperativa comprada de garimpeiros independentes sem licença, de acordo com os documentos da investigação.

A direção COOPEROURI não foi encontrada para comentar. 

O relatório da polícia disse que os garimpeiros cooperativos e individuais estariam extraindo minério ilegalmente na reserva indígena, embora não tenha indicado a base para essa alegação.

No relatório policial, imagens de satélite da reserva Kayapó – uma região maior que a Bélgica – mostram vastas faixas de piscinas de mineração lamacentas e pistas de pouso clandestinas para acessá-las.

(US$ 1 = 5,45 reais)


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Jair Bolsonaro está lutando com todos os meios por sua sobrevivência

Extrema-Direita brasileira ameaça realizar violência política nas eleições presidenciais de outubro

Manifestação contra Jair Bolsonaro, que está tentando por todos os meios impedir que seu concorrente Lula ganhe as eleições.

Manifestação contra Jair Bolsonaro, que está tentando por todos os meios impedir que seu concorrente Lula ganhe as eleições.  Foto: imago/Fotoarena
Por Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Dezenas de embaixadores se reuniram na capital Brasília no dia 18 de junho. O motivo: Jair Bolsonaro havia convidado para uma reunião no palácio presidencial . Em seu discurso, o extremista de direita, conhecido por seu jeito colérico, não mediu suas palavras: semeou dúvidas sobre o sistema de votação eletrônica e atacou duramente os juízes individuais do Supremo. Para muitos, as declarações de Bolsonaro foram mais uma indicação de que tempos tempestuosos estavam por vir para o Brasil.

O primeiro turno das eleições presidenciais acontecerá no maior país da América Latina no dia 2 de outubro. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos, haverá um segundo turno em 30 de outubro. É provável que haja um grande confronto entre o titular Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva . Atualmente, o social-democrata Lula está muito à frente nas pesquisas. O maior ponto negativo para Bolsonaro é a crise econômica. A inflação e o desemprego estão atingindo novos máximos, os preços da energia estão disparando e milhões estão passando fome. O país até foi reintegrado no mapa mundial da fome da ONU. Vídeos nas redes sociais mostram pessoas procurando restos de comida no lixo.

Muitos ex-seguidores, portanto, se afastaram de Bolsonaro. No entanto, pesquisas mostram que cerca de um quarto da população apoia Bolsonaro. E seus seguidores são extremamente ativos – online e na rua. Além disso, Bolsonaro pode contar com o apoio das influentes igrejas evangélicas. Vários pastores chamaram abertamente dos púlpitos para votar em Bolsonaro. Especialmente nas favelas, as igrejas estão presentes e fazem um trabalho hábil de proselitismo. Segundo as previsões, os evangélicos poderão constituir a maioria da população brasileira em apenas 20 anos. Para as igrejas ultraconservadoras, o governo entregou em todos os sentidos: Bolsonaro nomeou a pastora Damares Alves ministra das famílias, implementou bilhões em alívio de dívidas, lutou contra o fechamento de igrejas durante o auge da pandemia. No início de junho, Bolsonaro esteve presente em um evento evangélico no Rio de Janeiro, onde subiu ao palco com pastores que oravam fervorosamente e protestou contra o aborto e uma suposta “ideologia de gênero” diante de milhares de fiéis.

Jair Bolsonaro também pode contar com proprietários de terras influentes, principalmente brancos. Embora receba muitas críticas internacionalmente por sua política ambiental, ele recebe apoio dessas forças para seu curso antiambiental. No ano passado, um grupo desses empresários chegou a financiar protestos antidemocráticos de torcedores de Bolsonaro, como revelou a pesquisa. Não é à toa que Bolsonaro está à frente nos estados do agronegócio, enquanto está atrás de Lula no Nordeste pobre e na populosa São Paulo.

Bolsonaro parece ciente de sua posição e está preparando tudo para contestar os resultados das eleições. Não só no encontro com os diplomatas ele espalhou mentiras sobre o sistema de votação eletrônica. Segundo Bolsonaro, a eleição de 2018 foi falsificada. Ele não fornece nenhuma evidência para suas declarações. O sistema de votação passou por um teste de segurança em maio sem problemas. Segundo muitos especialistas, Bolsonaro está tentando criar problemas para possivelmente iniciar uma ruptura institucional. Mas apenas muito poucos esperam um golpe clássico, simplesmente não há suporte para isso.

A mídia agora está relatando de forma extremamente crítica, para muitos brasileiros, que Jair Bolsonaro é a figura máxima do ódio e os militares não estão sem reservas ao lado do presidente, que é um capitão da reserva. Alguns não podem perdoar suas travessuras como um jovem soldado, enquanto outros ficam incomodados com seu tom grosseiro. Mas Bolsonaro goza de muito apoio, especialmente nos escalões inferiores. E os militares receberam privilégios de longo alcance do governo de direita. Enquanto Bolsonaro empunhava o machado em quase todas as outras áreas, os militares receberam alocações orçamentárias recordes e foram poupados de cortes na reforma previdenciária. Mais de 3.000 militares trabalham para o governo, cerca de 340 em cargos bem remunerados, muitas vezes sem as qualificações adequadas. Mesmo no auge da ditadura, não havia tantos. Vários ministros tinham anteriormente carreiras militares, e os militares estão cada vez mais assumindo funções civis, administrando quase um terço dos negócios estatais. É duvidoso que eles estejam dispostos a abrir mão desses privilégios. Não está claro se eles estão mais comprometidos com o presidente ou com a Constituição.

É uma triste certeza para muitos que haverá violência no decorrer das eleições. Em 9 de junho, um apoiador de Bolsonaro assassinou um político local do PT em seu aniversário. Muitos culpam Bolsonaro, que repetidamente pediu o assassinato de esquerdistas. E há temores de que Bolsonaro possa incitar seus apoiadores em caso de derrota eleitoral. Edson Fachin, juiz da Suprema Corte e chefe da Comissão Eleitoral, também fez recentemente uma avaliação sombria: “Podemos ver um incidente ainda mais sério do que a invasão do Capitólio em Washington em 6 de janeiro de 2021”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deustachland” [Aqui!].

A guerra no Rio de Janeiro

Polícia volta a fazer estragos em uma favela. Crimes e situação agravada são denunciados

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Vida normal, mas difícil tornada impossível: protesto contra a operação policial no Alemão (Rio de Janeiro, 21 de julho de 2022)

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

É a quarta operação policial mais mortal da história do Rio de Janeiro contra traficantes nas favelas. Apoiados por dez blindados e quatro helicópteros, cerca de 400 policiais armados com fuzis automáticos invadiram o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, na última quinta-feira. A “operação” durou 12 horas, durante as quais a polícia estadual e civil do Rio causou estragos no bairro de 13 favelas de mais de 70.000 pessoas. Dezenas de pessoas ficaram feridas e pelo menos 17 pessoas morreram na chuva de balas do ataque policial, incluindo 16 suspeitos de crimes e uma mulher inocente em um carro, segundo a polícia. Um policial foi morto a tiros pelos criminosos que estavam montando as barricadas em chamas.

Na manhã seguinte, quando a polícia estava limpando uma das últimas barricadas do Alemão, houve outra vítima: Solange Mendes, de 49 anos, voltava das compras para casa quando, segundo testemunhas oculares, um policial atirou acidentalmente nela e a atingiu fatalmente na cabeça. Moradores do Complexo do Alemão também relataram inúmeros ataques de policiais que invadiram casas e apartamentos aleatoriamente durante a intensa troca de tiros e os revistaram.

Em seu comunicado, a Associação Nacional das Favelas do Rio de Janeiro criticou duramente a ação policial: “Foi mais uma manhã de terror. Na guerra na Ucrânia e em vários outros conflitos, usar helicópteros para disparar de áreas civis é ilegal é um crime internacional. Mas nas favelas acontece todo dia, como agora no Alemão.” Os helicópteros blindados Águia usados ​​aterrorizavam os moradores. Essa lógica de guerra da polícia carioca não resolve o problema de violência da cidade, ao contrário, o agrava.

Segundo o Coronel Ivan Blaz, porta-voz da Polícia Militar Organizada do Estado, a operação foi uma “operação de perigo iminente” para impedir a propagação do crime organizado. Os narcotraficantes Comando Vermelho, que controla o Alemão, estão mudando suas atividades criminosas, é são responsáveis por vários assaltos a bancos recentes e estão oferecendo abrigo a criminosos de outros estados. Blaz justificou o massacre à mídia dizendo que eles haviam sido atacados pelos criminosos.

Além das 16 pessoas baleadas, a polícia prendeu quatro suspeitos e confiscou uma metralhadora de grande calibre, quatro fuzis automáticos e duas pistolas, segundo o registro oficial da operação. Em maio 25 pessoas morreram em ações semelhantes na Vila Cruzeiro, em maio de 2021 no Jacarezinho 28 e em junho de 2007 também no Complexo do Alemão 19 pessoas. Mas estes são “apenas” os outliers. Há anos, a polícia do estado do Rio de Janeiro é considerada uma das mais violentas do mundo. Os anos mais sangrentos até agora foram 2018, com 1.534 pessoas mortas por serviços de emergência e 2019, com 1.814 mortos. No ano passado, a polícia carioca matou a tiros um total de 1.356 pessoas, segundo dados do Instituto de Segurança Pública.

Para comparação: de acordo com o banco de dados do Washington Post , policiais nos Estados Unidos mataram “apenas” 1.055 pessoas no ano passado, enquanto oito pessoas foram vítimas de violência policial na Alemanha em 2021.

No Brasil, porém, há estados em relação ao número de habitantes em que os policiais disparam ainda mais do que no Rio. Isso mostra as estatísticas do anuário brasileiro de segurança pública apresentadas em 2021. Em 2020, a polícia matou 13 pessoas por 100 mil habitantes no Amapá, 8,9 em Goiás, 8,5 em Sergipe e 7,6 na Bahia. No Rio houve 7,2 mortos a tiros por serviços de emergência por 100.000 habitantes.

O Alemão é muitas vezes referido como a »zona pobre«. Mas é mais um bairro da classe trabalhadora, onde a maioria das pessoas tem empregos mal remunerados, mas regulares, frequenta a escola ou estuda. No entanto, operações policiais como a de quinta-feira os impedem de fazê-lo, e alguns perdem seus empregos como resultado.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].