Em resultado histórico para a esquerda, Gustavo Petro vence as eleições presidenciais na Colômbia

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Em um resultado que se pode dizer histórico, o ex-guerrilheiro do M-19 e ex-prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, foi eleito o próximo presidente da Colômbia,  Petro venceu neste domingo o direitista Rodolfo Hernandez. 

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Com esse giro à esquerda da Colômbia, um país que vive há décadas conflagrado e submetido à ação de grupos paramilitares de extrema-direita que foram impulsionados pelo estado colombiano para fazer a diferentes grupos de guerrilha de esquerda.

A eleição de Gustavo Petro tem uma dimensão gigantesca na medida em que a Colômbia também tem sido uma espécie de cabeça de ponte da chamada “guerra contra as drogas” comandada pelos EUA, processo esse que custou milhares de vidas de civis colombianos.

Supporters of Colombian left-wing presidential candidate Gustavo Petro paste banners before a rally at the Fontibon neighborhood in Bogota on June 12, 2022.

Um fato adicional é que a vice-presidente de Gustavo Petro é a advogada negra Francia Marquez que recebeu em 2018 o Prêmio Goldman —considerado o ‘Prêmio Nobel do meio ambiente-  por sua luta contra a mineração ilegal no sudoeste da Colômbia, que começou quando ele estava no Conselho Comunitário do distrito de La Toma, de seu município natal.

Derrota de Macron na França, greves contra Johnson na Inglaterra: os custos políticos e econômicos da guerra na Ucrânia começam a emergir

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Dois fatos são notáveis nesse final de semana na Europa: a derrota de Emmanuel Macron no segundo turno das eleições legislativas francesas e a crescente pressão dos trabalhadores contra Bóris Johnson na Inglaterra.  Esses dois fatos parecem sinalizar que a paciência dos trabalhadores europeus está se esgotando, colocando em xeque as políticas neoliberais por um lado, e o custoso apoio à Ucrânia no conflito armado em que este país serve como “proxy” no enfrentamento geopolítico com a Rússia.

Os próximos meses deverão aumentar a impaciência da classe trabalhadora europeia em outros países, a começar pela Alemanha, onde dezenas de bilhões de euros estão sendo alocados para a ajudar militar para os ucranianos, o que tem sido acompanhado por retaliações russas no fornecimento de gás, combustível essencial para tocar a vida na Europa.

 

Megacidades pré-colombianas são descobertas na Amazônia boliviana

Scanners a laser encontram assentamentos perdidos na Amazônia. O equívoco de que a selva é “intocada” foi refutado

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Imagem 3D dos restos de uma cidade pré-colombiana entre a vegetação da floresta amazônica
Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland

Apesar de uma série de achados arqueológicos, o mito de uma região amazônica “intocada”, escassamente povoada antes de Colombo persistiu por décadas, mesmo na ciência . Agora, pesquisadores da Alemanha e da Inglaterra mais uma vez refutaram esse equívoco científico. Eles agora encontraram as relíquias cobertas de vegetação de assentamentos espetacularmente grandes, com cerca de 1.500 anos de idade, nas planícies amazônicas bolivianas.

Há mais de 100 anos, o etnólogo sueco Erland Nordenskiöld descreveu assentamentos pré-colombianos abandonados na região amazônica da Bolívia. No entanto, em suas notas publicadas em 1913 não havia localização precisa.

Uma equipe de pesquisa do Instituto Arqueológico Alemão em Berlim, da Universidade de Bonn e da Universidade de Exeter agora encontrou vários desses assentamentos usando a tecnologia lidar na região de savana amazônica “Llanos de Moxos”, de aproximadamente 120.000 quilômetros quadrados, inundada sazonalmente. “Nossos resultados refutam os argumentos de que a Amazônia ocidental era escassamente povoada nos tempos pré-colombianos”, escreve a equipe de arqueólogos na revista Nature . Os pesquisadores estão ativos na região desde 2019. Eles usam a chamada tecnologia lidar de helicópteros. A superfície da Terra é escaneada em detalhes com um laser. Sob o denso dossel de folhas, os pesquisadores descobriram e mediram um total de 26 assentamentos da chamada cultura Casarabe, que surgiu nesta região por volta do ano 500 e desapareceu novamente por volta de 1400. Embora 15 desses locais históricos já fossem conhecidos, foi a tecnologia lidar que revelou suas verdadeiras dimensões e detalhes.

Dois dos assentamentos, Cotoca e Landívar, eram verdadeiras “mega-cidades” de 147 e 315 hectares, respectivamente, três a sete vezes o tamanho da atual Cidade do Vaticano. A complexidade desses assentamentos é “esmagadora”, de acordo com o diretor de pesquisa Heiko Prümers, do Instituto Arqueológico Alemão, que acompanha culturas passadas na região amazônica boliviana desde 1994. Cotoca, em particular, tem tudo o que você poderia chamar de cidade. “É uma vasta povoação rodeada por uma estrutura defensiva, com um núcleo central que alberga um centro cerimonial ou administrativo. Claro que é uma cidade.”

Especificamente, os dados do lidar em Cotoca e Landívar mostram grandes terraços artificiais de até seis metros de altura, sobre os quais se erguem enormes edifícios de plataforma parcialmente em forma de U feitos de argila e pirâmides cônicas de mais de 20 metros de altura. A orientação dos edifícios que formam os centros cerimoniais das duas grandes cidades é uniformemente norte-noroeste, o que o estudo sugere provavelmente reflete uma visão de mundo cosmológica que também é evidente na orientação de extensos cemitérios da cultura casarabe.

Tanto Cotoca quanto Landívar são cercados por três defesas concêntricas compostas por um fosso e muralhas. Em Cotoca, no entanto, as defesas internas estão apenas parcialmente preservadas, o que os arqueólogos acreditam poder indicar que as muralhas foram adaptadas de acordo com o crescimento da cidade.

Ambos os locais são nós em uma rede de assentamentos menores e maiores, conectados por barragens em linha reta, que ainda são visíveis hoje e irradiam desses locais por muitos quilômetros através da paisagem inundada. Uma extensa infraestrutura de gestão da água, composta por canais e reservatórios, completa o sistema de assentamento.

Segundo os pesquisadores, Cotoca era o centro de uma área de assentamento de aproximadamente 500 quilômetros quadrados, metade coberta por floresta tropical e metade por savana. »O papel central de Cotoca é ressaltado pelo impressionante sistema de canais e barragens que irradiam em todas as direções.«

As cidades descobertas da cultura casarabe são comparáveis ​​aos edifícios monumentais dos Tiahuanaco, dos Incas, Maias ou Astecas, com a diferença fundamental de que nem uma única pedra foi construída aqui nos Llanos de Moxos. Na área, que é inundada vários meses do ano, simplesmente não há rochas para serem processadas, apenas argila e areia. Os taludes, muralhas e plataformas dos edifícios representativos eram todos feitos de terra. E de acordo com Prümers, apenas os buracos dos postes testemunhavam os edifícios de madeira erguidos nele.

Por que essas cidades foram abandonadas e deixadas por conta própria antes da chegada dos espanhóis permanece um mistério. No entanto, uma catástrofe ecológica devido à agricultura insustentável e uso florestal pela cultura casarabe pode ser amplamente descartada. Registros de pólen mostram que sua cultura básica, o milho, vem sendo cultivada continuamente na região há milhares de anos, indicando um uso sustentável do solo.

No entanto, as muralhas e trincheiras defensivas das metrópoles Casarabe descritas apontam para grandes ameaças externas e conflitos armados. “A presença de sistemas de defesa na verdade sugere que os tempos não eram tão pacíficos”, diz o arqueólogo ao “nd” a pedido. »Para poder dizer por que foram construídos, seria preciso conhecer toda uma série de parâmetros, quase todos ainda desconhecidos no presente caso. Durante os cerca de 900 anos de uso dos assentamentos culturais Casarabe, quando foram construídas as defesas? Se esta questão cronológica fosse esclarecida, as investigações arqueológicas teriam que ser realizadas nas regiões vizinhas.«

Ao mesmo tempo que a cultura Casarabe, a cultura muito expansiva de Tiahuanaco desenvolveu-se no oeste da Bolívia, no altiplano andino, durante um longo período de tempo. “No entanto, não há evidências até o momento de que os Tiahuanaco tenham avançado na área da cultura Casarabe”, diz Prümers. “E as regiões leste e sul da cultura Casarabe ainda são completamente inexploradas arqueologicamente.”

Nada se sabe sobre a origem deste povo ainda misterioso ou sua cultura, que recebeu o nome da vila boliviana de Casarabe, que hoje tem cerca de 1000 habitantes e está próxima do primeiro local de descoberta. ‘De onde eles vieram? Esta é uma das questões mais difíceis da arqueologia. A cultura casarabe provavelmente se desenvolveu a partir de grupos locais que ali viviam há algum tempo. Ainda estamos procurando por esses precursores. Prümmers afirmou ainda  que “estamos no início da pesquisa sobre as culturas pré-hispânicas da região amazônica. Espero que agora possamos demonstrar que houve urbanismo na parte boliviana da Amazônia, a par dos desenvolvimentos na região andina, levará a mais pesquisas arqueológicas na Amazônia e, eventualmente, permitirá que perguntas como as que você apresentou sejam respondidas.”

Em reportagem do jornal “Folha de São Paulo”, o arqueólogo brasileiro e especialista em Amazônia Eduardo Neves avalia a descoberta em Llanos de Mojosa como um marco arqueológico que dará origem a muitos estudos na região. Segundo o pesquisador da Universidade de São Paulo, cada imagem do artigo da Nature contém material para pesquisas arqueológicas para os próximos vinte ou trinta anos. Neves: “Heiko Prümers é o melhor arqueólogo de campo que temos na Amazônia.” Christopher T. Fisher, da Colorado State University, tem opinião semelhante. “O trabalho de Prümers e colegas é a salva de abertura de uma nova ortodoxia amazônica que desafia os entendimentos atuais da pré-história amazônica e enriquece profundamente nosso conhecimento das civilizações tropicais.”

Os pesquisadores ainda não sabem qual ameaça forçou os Casarabe a construir fortificações há cerca de 600 anos e quem ou o que poderia ter causado o desaparecimento de sua cultura. No entanto, conhecemos as principais ameaças hoje para os testemunhos frágeis e talvez outras culturas pré-colombianas não descobertas na Amazônia: é a destruição rápida e progressiva de savanas e florestas tropicais para pastagens de gado e plantações de soja e seu afundamento em reservatórios gigantes para mega usinas hidrelétricas como Jirau e Santo Antônio no Rio Madeira ou Belo Monte no Rio Xingu.

De acordo com Prümers, o desmatamento muitas vezes envolve a destruição de sítios arqueológicos anteriormente desconhecidos, que são simplesmente “atropelados” por tratores. “Eles serão destruídos para sempre.” O pesquisador Neves espera que um crescente interesse pela arqueologia amazônica leve à proteção de potenciais sítios ameaçados.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Países pobres desenvolvem países ricos, e não o contrário

O Norte Global extrai US$ 2,2 trilhões em matérias-primas do Sul a cada ano. Essa soma seria suficiente para acabar com a pobreza extrema quinze vezes, em todo o mundo

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Gráfico do artista cubano Falco (Alex Falco Chang). Fonte: CUBASI
Por DoJason Hickel, Dylan Sullivan, Huzaifa Zoomkawala para o Amerika21

Há muito sabemos que a ascensão industrial dos países ricos foi baseada na exploração do Sul Global durante a era colonial. A Revolução Industrial na Europa baseou-se em grande parte no algodão e no açúcar cultivados em terras roubadas dos nativos americanos – e com trabalho forçado de africanos escravizados.

A exploração da Ásia e da África tem sido usada para financiar infraestrutura, prédios públicos e estados de bem-estar na Europa – todas as marcas do desenvolvimento moderno. Os custos para o Sul, no entanto, foram catastróficos: genocídio, desapropriação, fome e empobrecimento em massa.

As potências imperiais eventualmente retiraram a maioria de suas bandeiras e exércitos do Sul em meados do século XX. Mas nas décadas que se seguiram, economistas e historiadores ligados à “teoria da dependência” argumentaram que os padrões subjacentes da apropriação colonial persistiram e continuaram a definir a economia mundial. O imperialismo nunca parou, eles declararam – apenas mudou sua forma

Você estava certo. Pesquisas recentes mostram que os países ricos ainda contam com uma grande apropriação líquida do Sul Global, incluindo dezenas de bilhões de toneladas de matérias-primas e centenas de bilhões de horas de trabalho humano por ano – investidos não apenas em bens primários, mas também em bens manufaturados de tecnologia, como smartphones, laptops, chips de computador e automóveis, que têm sido predominantemente fabricados no Sul nas últimas décadas.

Esse fluxo de apropriação líquida ocorre porque os preços são sistematicamente mais baixos no Sul do que no Norte. Por exemplo, os salários pagos aos trabalhadores no Sul representam em média apenas um quinto dos salários no Norte. Isso significa que para cada unidade de mão de obra e recursos investidos que o Sul importa do Norte, o Sul tem que exportar muito mais unidades para pagar por isso.

Os economistas Samir Amin e Arghiri Emmanuel descreveram isso como uma “transferência oculta de valor” do sul que mantém altos níveis de renda e consumo no norte. Esse “dreno” ocorre de maneira sutil e quase invisível, sem a violência ostensiva da ocupação colonial e, portanto, sem despertar protestos e indignação moral.

Em um artigo recente publicado na revista New Political Economy, nos baseamos no trabalho de Amin e outros para calcular a extensão das saídas cambiais desiguais na era pós-colonial. Descobrimos que eles aumentaram dramaticamente nas décadas de 1980 e 1990, à medida que programas neoliberais de ajuste estrutural foram impostos em todo o Sul Global.

Hoje, o Norte Global extrai US$ 2,2 trilhões em commodities do Sul a cada ano, a preços do Norte. Coloque em perspectiva: essa soma seria suficiente para acabar com a pobreza extrema em todo o mundo em quinze vezes.

Durante todo o período de 1960 até o presente, a saída é de US$ 62 trilhões em termos reais. Se esse valor tivesse sido retido pelo Sul e contribuído para o crescimento do Sul, valeria hoje US$ 152 trilhões, com base nas taxas de crescimento do Sul durante esse período.

São somas monstruosas. Para o Norte Global (e aqui nos referimos aos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Israel, Japão, Coréia e as economias ricas da Europa) os ganhos são tão grandes que superaram a taxa de crescimento econômico nas últimas décadas. Em outras palavras, o crescimento líquido no Norte se deve à apropriação do resto do mundo.

Para o sul, as perdas superam em muito a ajuda externa fornecida. Para cada dólar de ajuda que o Sul recebe, perde US$ 14 em fluxos de saída apenas por meio de trocas desiguais. E isso sem contar outros tipos de perdas, como saídas financeiras ilícitas e repatriação de lucros. É claro que esse número varia de país para país – alguns mais altos que outros – mas em todos os casos, o discurso de “ajuda” mascara uma realidade mais sombria de pilhagem. Os países pobres desenvolvem os países ricos, e não o contrário.

Os economistas neoclássicos tendem a ver os baixos salários no Sul como “naturais” – uma espécie de consequência neutra do mercado. Mas Amin e outros economistas do Sul Global argumentam que a desigualdade salarial é uma consequência do poder político.

Os países ricos têm o monopólio das decisões do Banco Mundial e do FMI, têm maior poder de barganha na Organização Mundial do Comércio, usam seu poder como credores para ditar a política econômica dos países devedores e controlam 97% das patentes do mundo. Os estados e corporações do Norte usam esse poder a seu favor para deprimir os preços do trabalho e dos recursos no Sul Global. Isso lhes permite alcançar a apropriação líquida por meio do comércio.

Nas décadas de 1980 e 1990, os programas de ajuste estrutural do FMI reduziram os salários e o emprego no setor público, ao mesmo tempo em que reduziram os direitos trabalhistas e outras proteções. Tudo isso tornou a mão de obra e os recursos mais baratos. Hoje, os países pobres são estruturalmente dependentes do investimento estrangeiro e não têm escolha a não ser competir entre si e oferecer mão de obra barata e recursos para agradar os mestres das finanças internacionais. Isso garante um fluxo constante de descartáveis ​​e moda rápida para consumidores abastados no Norte, mas com um tremendo custo para vidas e ecossistemas no Sul.

Existem várias maneiras de resolver este problema. Uma seria democratizar as instituições de controle econômico global para que os países pobres tenham uma palavra justa na determinação dos termos comerciais e financeiros. Outro passo seria garantir que os países pobres tenham o direito de usar tarifas, subsídios e outras políticas industriais para construir sua capacidade econômica soberana. Também poderíamos dar passos em direção a um sistema global de salários dignos e salários dignos e uma estrutura internacional para regulamentações ambientais que estabeleçam um piso para os preços do trabalho e das commodities.

Tudo isso permitiria ao Sul obter uma parte mais justa dos rendimentos do comércio internacional e liberar seus países para mobilizar seus recursos para erradicar a pobreza e atender às necessidades humanas.

Mas atingir esses objetivos não será fácil; requer uma frente organizada de movimentos sociais por um mundo mais justo contra aqueles que se beneficiam tão imensamente do status quo.

Jason Hickel, Reino Unido, antropólogo econômico

Dylan Sullivan, estudante de doutorado no Departamento de Economia Política da Universidade de Sydney

Huzaifa Zoomkawala, Pesquisador Independente e Analista de Dados em Karachi


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Este texto foi publicado originalmente em alemão pelo Amerika21 [Aqui!].

Pesquisadora da UFPR descobre floresta de 290 milhões de anos “congelada no tempo”

Preservada em rochas, floresta de licófitas de Ortigueira (PR) mostra o ecossistema da era paleozoica de forma raramente encontrada na região tropical do planeta

Ortigueira-11A floresta fossilizada de Ortigueira está “em posição de vida”, o que, no mundo botânico, equivale à conservação da cidade de Pompeia, soterrada da maneira que estava após a erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C. A foto mostra como os caules de licófitas estão visivelmente em posição vertical. Fotos: Thammy Mottin/Arquivo pessoal

Por Jéssica Tokarski para o “Ciência UFPR”

Uma floresta com 164 árvores da linhagem das licófitas foi encontrada fossilizada no município de Ortigueira, no estado do Paraná — antigo paleocontinente Gondwana —, local em que viveu há cerca de 290 milhões de anos. A descoberta foi feita pela estudante do Programa de Pós-Graduação em Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Thammy Ellin Mottin, durante sua pesquisa de doutorado, e publicada no periódico Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.

Segundo a pesquisadora, o achado pode ser comparado a uma janela que permite ver o passado.

“As árvores estão preservadas dentro da rocha da exata maneira em que viviam, ou seja, elas ainda guardam as características daquele ecossistema de cerca de 290 milhões de anos atrás”.

Por terem raízes, as plantas podem ser preservadas na sua posição original, isto é, na forma vertical, diferente do que ocorre com organismos que se movem. Contudo, florestas fósseis preservadas em posição de vida são extremamente raras no mundo, especialmente no paleocontinente Gondwana, onde, até hoje, só há o relato de mais dois locais com plantas da linhagem preservadas desta forma: na Patagônia argentina e no estado do Rio Grande do Sul, regiões em que o número de licófitas é bem menor e cujos caules se encontram deformados verticalmente.

Pesquisadores registraram a estratificação da Formação do Rio Bonito que aponta a idade dos fósseis.

Pesquisadores registraram a estratificação da Formação do Rio Bonito que aponta a idade dos fósseis

As licófitas de Ortigueira não estão comprimidas como nesses outros dois lugares, permitindo uma reconstrução da planta com mais fidelidade. Isso fez com que informações de como as árvores eram distribuídas no terreno, quantidade por hectare, relação das árvores entre si, sua interação com o ambiente, entre outros aspectos, pudessem ser recuperadas.

Thammy conta que o sistema de raízes das árvores que encontrou nunca havia sido descrito em licófitas do Gondwana.

“O sistema de raízes forma lobos que partem da base dos caules, cuja função seria a ancoragem da planta no substrato”. A autora ainda revela que essa vegetação mostra vestígios de como se dava a interação das árvores com o substrato e de como era a interação entre as plantas. “Formavam grupos de três a quatro árvores espaçados entre si”.

Pangeia: um megacontinente que gerou os continentes atuais

Há milhões de anos, na época em que viviam as licófitas de Ortigueira, havia um único bloco continental, denominado Pangeia, que foi formado ao longo de dezenas de milhões de anos pela aproximação dos antigos megacontinentes chamados Euramérica (ou Laurásia), Sibéria, Gondwana, entre outros de menores dimensões.

Posteriormente, esse bloco de Terra se fragmentou, gerando a configuração continental atual.

Durante esse período, conhecido como Permiano, a Terra foi cenário de eventos biológicos importantes, como a diversificação das plantas terrestres, seguida pela diversificação de insetos, que estavam diretamente associados aos habitats ocupados pelas plantas.

Além disso, surgiram pela primeira vez importantes linhagens de répteis que mais tarde, na era mesozoica, dariam origem aos mamíferos.

A partir da separação das placas africana e sul-americana e da formação do Oceano Atlântico entre elas, Gondwana passou por um processo de fragmentação originando as regiões que hoje conhecemos como América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia, além de outras menores.

“Os continentes que compunham o Gondwana possuem rochas que contêm fósseis de flora e de fauna característicos, que permitem correlacionar os subcontinentes formadores do Gondwana e mostrar que eles estavam unidos no passado”, explica Thammy.

Licófitas faziam parte da vegetação do Devoniano

As licófitas são umas das primeiras plantas vasculares, que possuem vasos condutores de seiva, existentes na Terra.

Originárias no Devoniano, período geológico que compreende aproximadamente entre 416 a 359 milhões de anos atrás, são representadas por espécies arbustivas, ainda existentes, e arborescentes, já extintas.

Segundo a doutoranda, as licófitas podiam alcançar alturas de até 40 metros.

“Elas são importantes na história evolutiva das plantas e dos ecossistemas terrestres, pois apresentaram uma novidade, que são os tecidos condutores, o que permitiu a definitiva ocupação do ambiente terrestre e o crescimento em altura das plantas”.

A vegetação era uma das mais abundantes nas florestas tropicais do Período Carbonífero – que sucedeu o Devoniano e precedeu o Permiano – no paleocontinente Euramérica, quando a região estava em áreas equatoriais da época, sob climas quentes e úmidos.

De acordo com Thammy, as licófitas da Euramérica deram origem a importantes depósitos de carvão que são explorados hoje em dia.

“Com a abertura de minas e novas frentes de exploração de carvão naquela região, é relativamente comum a descoberta de licófitas preservadas in situ”. Ela explica que a preservação in situ ocorre quando um conjunto de plantas é fossilizado no local onde vivia.

Já o paleocontinente Gondwana, durante o Período Carbonífero, passava por um severo estágio glacial, o que impedia o desenvolvimento de florestas e vegetações abundantes e exuberantes.

“Foi somente com o final da glaciação, no início do Permiano, que a melhora climática permitiu que as licófitas pudessem colonizar vastas áreas do Gondwana, a exemplo da região atual de Ortigueira”, descreve a pesquisadora.

As retratadas neste estudo estão preservadas exatamente no local onde viviam, ainda enraizadas no substrato pretérito. Portanto, são consideradas in situ. Além disso, elas estão preservadas verticalmente às camadas, em posição de vida.

O que a descoberta revela sobre aquela época

Após analisarem as rochas e as plantas encontradas e associarem os resultados a diversos trabalhos científicos, Thammy e seus colegas puderam reconstruir o ambiente em que a floresta viveu e a forma como morreu.

Na época em que a floresta estava viva, Ortigueira era banhada pelo antigo Oceano Panthalassa. A região costeira sofria influência da água doce dos rios e da água salgada do mar. “As plantas viviam nessa transição entre terra e mar, em algo semelhante ao que seria uma região de manguezal. Elas ocupavam um substrato frequentemente inundado.”, destaca a doutoranda.

As licófitas eram uma das poucas plantas da época que suportavam viver em áreas inundadas e em condições de água salgada, por isso ocorrem poucas plantas associadas a essa vegetação. Segundo estimativas dos estudiosos, os exemplares encontrados em Ortigueira alcançavam alturas entre quatro e 18 metros. Eles utilizaram o diâmetro dos caules para chegar a esse dado.

Soterramento causado por inundação levou floresta ao colapso

Fortes chuvas causaram uma inundação fluvial, isto é, o transbordamento da água dos rios. Esse tipo de evento contém, além de água doce, grande quantidade de sedimentos, como partículas de areia e argila.

“Presume-se que os sedimentos foram cobrindo as árvores progressivamente, levando à asfixia e à compressão das raízes. O soterramento continuou até o ponto em que a parte superior das licófitas colapsou, deixando exposta parte do caule. A parte interior do caule foi sendo removida pela ação da água e foi preenchida por sedimentos que ainda chegavam e que terminaram por soterrar completamente a floresta”.

Devido ao estado excepcional de conservação da floresta, os cientistas acreditam que todo esse processo ocorreu rapidamente no tempo geológico, em questão de dias ou poucos anos, enquanto um processo de fossilização em condições normais costuma demorar milhares ou milhões de anos.

“No tempo geológico, esse período de dias a poucos anos é comparável a um piscar de olhos. Nesses casos, o que vemos atualmente nessa floresta é muito fidedigno ao que era o ecossistema da época em que vivia”.

Vestígios da vida passada

Assim como os fósseis dos demais seres vivos, plantas fossilizadas preservam uma enorme quantidade de valiosas informações que revelam aspectos da evolução biológica, datação e reconstituição da história geológica da Terra, ecossistemas e climas do passado.

Muitas dessas informações são difíceis de recuperar pois, durante sua vida ou morte, as plantas colapsam e são levadas para longe de seu habitat, perdendo suas características originais. Por isso a vegetação descoberta no Paraná é ainda mais importante, devido à sua rara fossilização instantânea, que torna seus elementos extremamente fiéis.

“O registro da floresta de licófitas em Ortigueira é significativo para a história da evolução das plantas no Gondwana e também em escala global. Uma floresta tão completa e bem preservada como essa pode servir como comparação, que até então não havia sido feita, com o registro das florestas de licófitas de outras partes do mundo e ajudar a estabelecer semelhanças e diferenças na evolução destas plantas”, acredita Thammy.

Dessa forma, a história das licófitas, que é contada apenas com base em descobertas da Europa e dos Estados Unidos, pode passar a considerar a descoberta do Gondwana, em Ortigueira.

A floresta descrita ainda ajuda a traçar o clima existente na época, demonstrando que uma importante mudança climática ocorreu naquele período, com a passagem de uma forte glaciação para um período de clima mais quente, chamado pós-glacial.

Procura por rochas levou à revelação da floresta

A cientista conta que visitava afloramentos de rochas no norte do estado para coletar dados e amostras de rochas do período de transição entre a glaciação do neopaleozoico para um estágio pós-glacial, quando descobriu a floresta descrita no artigo.

Ela estava junto com seu orientador, Fernando Vesely, que é professor do Departamento de Geologia da UFPR e coordenador do Laboratório de Análise de Bacias (Labap) e de outros três pesquisadores norte-americanos que desenvolveram projetos com o grupo de pesquisa da universidade. Após o achado, a pesquisa também teve o suporte do paleobotânico Roberto Iannuzzi, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e co-orientador da tese.

Para estudar as plantas, os pesquisadores utilizaram métodos diretos e indiretos, incluindo a análise de todas as árvores em relação ao diâmetro do caule, altura, modo de preservação, morfologia, constituição e mapeamento das árvores utilizando um GPS de alta precisão.

“Pela primeira vez no mundo no estudo de árvores fósseis, empregamos um radar de penetração no solo (ground penetrating radar – GPR) para localizar árvores em subsuperfície. O método trouxe resultados bastante satisfatórios”.

Além dos avanços científicos proporcionados pela descoberta da floresta de licófitas, Thammy acredita que o achado pode ajudar a população a se aproximar de conceitos como noção do tempo geológico, noção de ambientes que existiram no passado e não existem mais atualmente, além de proporcionar uma visão do ecossistema dessa vegetação, que é diferente dos atuais.

“Experiências como essa ajudam a população a compreender processos e cenários da história da Terra que não são ensinados nas escolas”, finaliza.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Ciência UFPR” [Aqui!].

Associação indígena refuta PF e aponta ação de grupo organizado nas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips

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Em nota, a direção da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari questionou as informações dadas pela Polícia Federal  à imprensa no sentido de que os assassinos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips teriam agido sozinhos (ver imagem abaixo)

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A nota da Unijava afirma que os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips não “se trata apenas de dois executores, mas sim de um grupo organizado que planejou minimamente os detalhes desse crime”.

A direção da Unjivaja exigiu não apenas a continuidade e aprofundamento das investigações, mas também que a PF “considere as informações qualificadas” que a entidade teria repassado via ofício ao órgão policial.

Pesquisador italiano é condenado por causar danos corporais em paciente usando procedimento experimental com células-tronco

Tribunal sueco deu a Paolo Macchiarini, uma vez aclamado como pioneiro na medicina regenerativa, uma pena suspensa

STOCKHOLM 201300806Surgeon Paolo Macchiarini at the Karolinska Institute in Stockholm 2013
Foto Lina Alriksson / DN / TT / Kod 3000
***OUT SWEDEN OUT***

Paolo Macchiarini, em uma foto de 2013, implantou traqueias sintéticas em vários pacientes; todos, exceto um, morreram após complicações com os implantes. LINA ALRIKSSON/ALAMY

Por Gretchen Vogel para a “Science”

Um cirurgião que há apenas uma década era celebrado em todo o mundo como pioneiro em transplantes de células-tronco foi condenado por uma acusação de “causar danos corporais”, um crime, em um tribunal sueco. O tribunal distrital de Solna considerou hoje Paolo Macchiarini inocente de outras acusações, incluindo agressão agravada, relacionadas a três pacientes que ele tratou enquanto trabalhava para o famoso Instituto Karolinska (KI). O tribunal disse que a pena era “uma pena suspensa”, mas não especificou quanto tempo a pena seria se imposta. A pena máxima de prisão por causar danos corporais é de 4 anos.

O veredicto é o mais recente desdobramento da impressionante queda da graça de Macchiarini. Em 2010, o cirurgião italiano foi recrutado pelo KI – sede do comitê que concede o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Um ano depois, ele começou a implantar traqueias sintéticas semeadas com células-tronco isoladas da própria medula óssea dos pacientes, alegando que as células cresceriam e se integrariam ao tecido dos pacientes. As operações foram saudadas na época como um avanço na medicina regenerativa, embora alguns observadores permanecessem céticos Macchiarini foi demitido em 2016 em meio a alegações de fraude e má conduta científica depois que muitos de seus receptores de transplante morreram.

Macchiarini tem afirmado consistentemente que é inocente. Em depoimento no tribunal, ele se defendeu como apenas tentando ajudar pacientes desesperadamente doentes e disse que tinha o total apoio de KI e seus colegas.  O advogado de Machiarini não respondeu aos e-mails da Science hoje.

A sentença branda vem como uma decepção para os críticos de Macchiarini. O cirurgião cardiotorácico Matthias Corbascio, um dos ex-colegas de Macchiarini no KI que primeiro levantou questões sobre o trabalho, descreve-o como “terrível” e “insano”. “O tribunal basicamente lhe deu um tapa no pulso”, diz Corbascio, que agora está na Universidade de Copenhague. “Há pessoas que vão para a cadeia por 5 anos por não pagarem seus impostos. Esse cara mutilou pessoas.”

Complicações graves

Entre 2011 e 2014, Macchiarini implantou traqueias artificiais em pelo menos oito pacientes na Suécia, Estados Unidos e Rússia. Todos, exceto um, morreram após complicações graves com os implantes. (O paciente que sobreviveu teve o implante removido.)

Quatro dos colegas de Macchiarini no KI, incluindo Corbascio, apresentaram queixas oficiais em 2014, alegando que vários artigos descrevendo as cirurgias deliberadamente deixaram de fora complicações graves nos pacientes. Eles também questionaram se Macchiarini havia obtido a devida permissão ética para as cirurgias e contestaram um artigo descrevendo experimentos em animais com a técnica.

KI contratou o cirurgião Bengt Gerdin, professor emérito da Universidade de Uppsala, para investigar a questão. O relatório de Gerdin, divulgado em maio de 2015 , concluiu que Macchiarini era culpado de má conduta, mas os administradores da universidade rejeitaram essa conclusão 3 meses depois, argumentando que Macchinarini e seus co-autores “responderam satisfatoriamente” as questões levantadas por Gerdin. Eles permitiram que Macchiarini continuasse seu trabalho como professor visitante em um laboratório de pesquisa.

No entanto, os repórteres da TV sueca também decidiram dar uma olhada no trabalho de Macchiarini. Um documentário devastador , que foi ao ar em janeiro de 2016, levou os funcionários do KI a reabrir a investigação. Na mesma época, um artigo da Vanity Fair descreveu como Macchiarini enganou uma namorada – uma produtora de notícias da NBC trabalhando em um documentário lisonjeiro sobre suas cirurgias – a pensar que eles se casariam em uma cerimônia com a presença dos Clintons e Obamas e oficializada pelo papa. A história da Vanity Fair retratava Macchiarini, que já era casado na época, como um mentiroso contumaz que exagerava ou mentia sobre diplomas, compromissos acadêmicos e realizações pessoais.

KI demitiu Macchiarini em março de 2016, 2 meses após o lançamento do documentário sueco. Em 2018, KI finalmente divulgou as conclusões de sua segunda investigação, que confirmou que ele havia cometido má conduta .

Acusações de homicídio culposo

Em 2017, promotores na Suécia acusaram Macchiarini de homicídio culposo em conexão com os três pacientes que receberam transplantes no KI em 2011 e 2012, todos falecidos: Andemariam Teklesenbet Beyene, um estudante de pós-graduação da Eritreia com um câncer de crescimento lento obstruindo sua traqueia; Christopher Lyles, um americano de 30 anos com câncer traqueal; e Yesim Cetir, um adolescente da Turquia cuja traqueia foi acidentalmente danificada durante uma cirurgia anterior. Os promotores desistiram do caso alguns meses depois, no entanto, dizendo que não tinham provas suficientes para provar o homicídio culposo.

Eles reabriram o caso em 2020, desta vez acusando Macchiarini por acusações menores de agressão agravada e lesões corporais graves. O tribunal ouviu depoimentos no caso entre 27 de abril e 12 de maio.

No julgamento, Macchiarini e seu advogado argumentaram que os pacientes, sem outras opções, haviam sido tratados sob padrões de cuidados compassivos. Outras testemunhas contradisseram isso, argumentando que com o câncer de crescimento lento de Andemariam, pequenas cirurgias e outros tratamentos poderiam tê-lo mantido vivo. “Cada paciente tinha outra opção não letal”, disse Pierre Delaere, especialista em traqueia da KU Leuven e um dos primeiros críticos de Macchiarini, em um e-mail à Science .

Um painel de juízes decidiu por unanimidade que “as intervenções não estavam de acordo com a ciência e a experiência comprovada”, de acordo com um comunicado divulgado hoje. Mas os juízes decidiram que, como os prognósticos iniciais para Andemariam e Lyles eram tão sombrios sem cirurgia, Macchiarini não poderia ser responsabilizado criminalmente nesses casos. No caso do Cetir, ele deveria saber que o risco de complicações era maior do que o benefício esperado, decidiram os juízes. Mas eles descobriram que os promotores não provaram que Macchiarini era “indiferente” aos ferimentos ou sofrimento que as cirurgias poderiam causar, o padrão exigido para agressão agravada. Em vez disso, eles o consideraram culpado de negligência e da acusação menor de causar danos corporais.

Na Suécia, tanto a defesa quanto a promotoria podem recorrer das decisões, e a promotora sênior Karin Lundström-Kron diz que ela e seus colegas decidirão nas próximas semanas. Eles vão examinar especialmente a decisão dos juízes de que Macchiarini não poderia ser responsabilizado pelo que aconteceu com Andemariam e Lyles “porque ele agiu em perigo”, de acordo com a declaração do tribunal. “Isso é algo que era novo para nós, então precisamos analisar isso”, diz Lundström-Kron. Ela diz que isso pode significar que os juízes pensaram que ele e os pacientes acreditavam que o tempo era curto e as opções eram poucas. O advogado de Macchiarini se recusou a comentar hoje com a mídia sueca se seu cliente iria recorrer.

Delaere sente que a sentença é leve demais para o que considera um crime grave. Ele diz que os promotores deveriam ter pressionado por acusações de homicídio culposo porque Macchiarini não tinha evidências de que as traqueias que ele implantou se desenvolveriam em órgãos com funcionamento normal. “Quando você implanta uma traqueia sintética, você tem uma certeza, que é que o paciente morrerá como resultado disso”, diz Delaere no e-mail. “A absolvição é, portanto, difícil de defender.”

Mas Gerdin diz que o veredicto não é inesperado. O tribunal teve que aplicar o padrão de “indiferença intencional” para as acusações de agressão, diz ele, o que é difícil de provar. O argumento de Macchiarini de que KI apoiou e encorajou totalmente as cirurgias provavelmente influenciou os juízes também, diz ele. Oficiais da KI “deixem-no fazer isso. Isso aliviou um pouco do fardo dele.”

Gerdin diz que a condenação em uma acusação ainda mostra “que a saúde não está acima da lei. Se, como médico, você faz coisas estúpidas, pode ser acusado”. Mas os veredictos inocentes nos outros dois casos destacam como a lei pode deixar pessoas vulneráveis ​​desprotegidas, diz ele, por exemplo, quando estão enfrentando decisões de vida ou morte e detêm menos informações do que o médico.

A condenação criminal significa que Macchiarini teria dificuldade em encontrar emprego novamente na Suécia, diz Gerdin. Mas como Macchiarini aparentemente está morando na Espanha, é improvável que tenha muito efeito. “Na verdade, não faz sentido para ele”, diz Gerdin. “Mas ele perdeu sua reputação, e isso é mais importante.”


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela “Science” [Aqui!].

Mortes de Bruno e Dom são citadas na capa da edição diária do “The Washington Post”

Dom e Bruno foram mortos a tiros, confessa Pelado - Amazônia Real

Os assassinatos brutais do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips são um dos assuntos mais comentados fora do Brasil neste dia de Corpus Christi. O jornal “The Washington Post” dedicou uma matéria de capa ao assunto (ver imagens abaixo).

É importante notar que a matéria assinada pelos jornalistas Terrence McCoy e Gabriela Sá Pessoa não apenas expõe as condições nas quais Pereira e Phillips foram assassinados, mas também enfatiza a posição pró-  garimpeiros e desmatadores ilegais do presidente Jair Bolsonaro, indicando ainda que o mandatário brasileiro culpou Phillips por seu desaparecimento.  Neste caso os jornalistas se referem a um comunicado ocorrido na quarta-feira,  quando Jair Bolsonaro afirmou que o jornalista era “malvisto na região”, por ter feito ” muitas matérias contra a mineração de ouro e sobre questões ambientais”.

Com esse relato jornalístico é quase certo que a imagem de Jair Bolsonaro, e a do Brasil por associação, que já não era boa, certamente vai piorar. E eu acrescento, com toda a razão.

As cenas do Parque Saraiva como oráculo do que virá até as eleições de outubro. E adianto que nada será “normal”

Imagino que a maioria dos habitantes de Campos dos Goytacazes não tem muito conhecimento da localização do Parque Saraiva, um bairro que está localizado no II Distrito do município, Goitacazes. Assim, se nem os campistas sabem da existência desse pequeno bairro, composto por nove ruas perpendiculares à RJ-216, quiçá o resto dos brasileiros que se distribuem em país de dimensões continentais (ver mapa abaixo mostrando a localização do bairro).

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Mas apesar da desproporção escalar, o Parque Saraiva se transformou ontem (15/06) em uma espécie de antessala do que deverá acontecer nas eleições gerais que ocorrerão no Brasil (ou pelo menos se espera que ocorra) no mês de Outubro.  É que num ponto empoeirado daquele pequeno bairro, se aglomeraram apoiadores dos grupos políticos familiares que hoje se degladiam para dominar a política municipal, sob as vistas preocupadas do governador acidental do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.  Diante de uma plateia numerosa, o que se testemunhou foram as mais puras formas de agressão verbal que se pode manusear para tornar direitos emmeros objetos de pura barganha política (ver vídeo abaixo).

A despeito do que possa parecer, o que ocorreu no Parque Saraiva é um retrato fiel de como a dominação ideológica de setores que se valem do estado para se manter em posições privilegiadas, enquanto a maioria da população pobre se vê cotidianamente privada de direitos constitucionais básicos, como, por exemplo, o direito à moradia digna.

O mais interessante é que no frigir dos ovos, o palanque que se tornou palco de trocas de farpas pontiagudas reunia apenas aliados do governador acidental Cláudio Castro, essa é a verdade inescapável.  Assim, se as agressões verbais, que ameaçaram deflagrar uma batalha campal de fins imprevisíveis, foram tão evidentes entre aliados (ainda que de ocasião), imaginemos o que poderá acontecer quando os encontros se derem entre adversários de direita e esquerda.

Como alguém já disse, esqueçam a ilusão de que haverá algum nível de normalidade cívica nos eleições de outubro. A poeira levantada nas proximidades do palanque montado para celebrar (no melhor estilo de campanha antecipada) um projeto de mirrados R$ 32 milhões é apenas o prenúncio do que virá até que cheguemos (se chegarmos) nas salas eleitorais.

Nota do WWF-Brasil sobre assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira

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O que todos nós temíamos aconteceu: a Polícia Federal confirmou na noite desta quinta (15/6) que encontrou “remanescentes humanos” que provavelmente são do indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian. Eles foram mortos na região do Vale do Javari, na Amazônia, e dois suspeitos já estão presos: Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como Dos Santos, e Amarildo da Costa Oliveira, o ‘Pelado’.

O WWF-Brasil vem, em primeiro lugar, expressar sua solidariedade e seu apoio às famílias, aos amigos e aos colegas destes defensores da floresta.

O nível de violência aplicada a Bruno e Dom explicita como a Amazônia está à mercê da lei do mais forte, sob a qual a brutalidade é a moeda corrente. Isso eleva nossa indignação com a situação na qual os povos da floresta e seus defensores foram deixados pelo Estado brasileiro. Enquanto nos discursos oficiais “a Amazônia é nossa” e “não abrimos mão de nossa soberania”, na prática o que vemos são assassinatos brutais sem esclarecimento ou punição e o domínio territorial, baseado na coerção e na violência, por diversos criminosos: narcotraficantes, garimpeiros, grileiros, madeireiros ilegais, caçadores e pescadores ilegais. As declarações reiteradas do presidente da República de que é preciso escolta para transitar numa região onde há forte presença militar há muitos anos confirma que a tão proclamada soberania não existe: o Estado abandonou a Amazônia por conta de um projeto sem sentido de destruição da floresta e de extermínio de seus povos.

Temos visto uma série de assassinatos impunes, ou melhor, sem esforço ou empenho do Estado para esclarecer e punir. No caso de Dom e Bruno, houve inclusive relutância em iniciar as buscas. É o descaso do governo com a Amazônia e os defensores de seus povos e da floresta que permitiu o assassinato de Dom e Bruno e também de inúmeras pessoas que dedicaram suas vidas à proteção dos povos indígenas: Ari Uru Eu Wau Wau, Paulino Guajajara, Maxciel Pereira dos Santos, Zé do Lago e família. O Brasil é o quarto país do mundo que mais mata ativistas ambientais, segundo levantamento da ONG Global Witness.

É notório que nos últimos anos todas as instâncias de proteção aos povos da floresta e ao meio ambiente vêm sendo sistematicamente desestruturadas e desacreditadas. A violência contra eles aumentou exponencialmente nos últimos três anos e nada tem sido feito – muito pelo contrário, pois há no Governo Federal, conforme estudo divulgado esta semana, um projeto de destruição da Funai, órgão que deveria zelar pelos direitos indígenas, e no Congresso projetos de lei que fragilizam ainda mais a proteção a esses povos.

Não podemos deixar de destacar que a perda das vidas de Dom e Bruno está no contexto de morte da própria Amazônia. Só em maio deste ano os números de queimadas e desmatamento bateram recordes na Amazônia – as queimadas tiveram 184% de crescimento em relação à média do mês de maio dos últimos dez anos e perdeu 2.867 km de florestas entre janeiro e maio, batendo recorde de devastação pelo terceiro ano consecutivo. Nunca estivemos tão perto do ponto a partir do qual a floresta não consegue mais se sustentar. O Painel Científico da Amazônia já apontou que 17% da floresta foram desmatados e outros 17% encontram-se degradados. Apesar disso, volta e meia entram na pauta do Congresso Nacional projetos de lei que favorecem a destruição da maior floresta tropical do planeta, da qual depende o regime de chuvas que garante o abastecimento de água e energia elétrica do nosso país e do qual nossa agropecuária depende. Matar a Amazônia é matar o Brasil – um Brasil que morreu um pouco com o assassinato de Bruno e Dom.

A Amazônia morre cada dia de forma cruel e desumana, diante dos nossos olhos, assim como aqueles que a protegem, aqueles que cuidam e se esforçam em manter a floresta em pé. Diante desta nova tragédia, é necessária uma apuração rígida para identificar se há outros envolvidos, dado os indícios de relação entre este crime e o narcotráfico na região. É preciso também que este caso tenha uma punição exemplar, que se tornem referência no combate à impunidade na região, dominada pelo crime. Não menos importante: o governo precisa cumprir seu papel com ações concretas que previnam novos massacres, como a retirada dos invasores da TI Yanomami, Uru Eu Wau Wau e nas demais terras indígenas invadidas. Não é aceitável que a Amazônia continue como terra sem lei, sem controle e atuação do Estado, vitimando seus defensores.